<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855</id><updated>2011-04-22T05:02:58.342Z</updated><title type='text'>Textos dispersos de Miguel Sousa Tavares</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://textos-mst.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>89</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-114149885927413285</id><published>2006-03-04T18:59:00.000Z</published><updated>2006-03-04T19:00:59.276Z</updated><title type='text'>Assalto ao computador</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Não apetece nada ter de ser solidário com um jornal como o “24 Horas”, mas há alturas em que o mais importante é escolher contra quem se está e não com quem se está.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À qualquer coisa de novo no raide da justiça contra o jornal «24 Horas» que é suficientemente grave como sintoma para que, mesmo sem cair em alarmismos histéricos, possa passar em claro. Como se fosse um teste da magistratura contra a imprensa, para medir as reacções e ver se há terreno livre para avançar e criar jurisprudência. Pena que tenha sido lo&amp;shy;go escolhido um jornal que é tudo menos uma referenda ética e um modelo de bom jornalismo: vamos acreditar que a ofensiva judicial não teve precisamente isso em conta. O facto é que não apetece nada ter de ser solidário com um jornal como o «24 Horas», mas há alturas em que o mais importante é escolher contra quem se está e não com quem se está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recapitulemos o que está em causa, pois o seu simples enunciado é elucidativo. Ao abrigo das investigações do processo Casa Pia — que abriram um precedente nunca visto de meios e métodos de investigação — foi parar ao processo, o chamado «Envelope 9», o qual, aberto pelo «24 Horas», revelou conter uma extensa lista das chamadas telefónicas recebidas e efectuadas por umas dezenas de pessoas que tinham em comum estar ligadas à política e não terem qualquer ligação com o processo. Perante a estupefacção geral que esta revelação causou, o Presidente da Republica (um dos constantes do «Envelope»), chamou a Belém o procurador e falou à Nação para dizer que não toleraria métodos de investigação que incluíam a invasão indevida da privacidade das pessoas e, como tal, dera ao procurador um prazo curtíssimo para apurar como tal fora possível e daí extrair as necessárias consequências, disciplinares e penais. Claro e inequívoco: tratava-se apenas de esclarecer?? qual das duas hipóteses acontecera: se os investigadores tinham pedido esses elementos ao operador telefónico ou se fora este, sem ter sido solicitado para tal, que os fornecera. Nada mais do que isto e para apurar isto, mesmo ao mais incompetente serviço de investigação do mundo, bastariam três dias, para não dizer três horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sucedeu, uma vez mais, o impensável: passado mês e meio, o procurador nada apurou e, não contente com isso, deixou que os seus magistrados mudassem o sentido do mandado presidencial — em vez de apurarem como e por ordem de quem é que tais elementos tinham ido parar ao processo, resolveram apurar como é que tal noticia tinha ido parar ao jornal. Entretanto, o dr. Souto Moura espera que na&amp;shy;da suceda ate terça-feira próxima, último dia da presidência de Jorge Sampaio, e confia que o novo Presidente não irá mexer num assunto que não foi ele a levantar, criando logo à partida um conflito entre órgãos de soberania. Perfeito, exemplar: nenhuma biografia poderá jamais testemunhar melhor o que tem sido o entendimento das suas funções por parte do dr. Souto Moura — na esteira, aliás, do seu inesquecível antecessor, Cunha Rodrigues, a quem a justiça portuguesa deve muito do estado a que chegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, um juiz de instrução criminal acaba de determinar que os computadores apreendidos a dois jornalistas do «24 Ho&amp;shy;ras» podem ser abertos e livremente vasculhados pelos investigadores a mando do dr. Souto Moura. Para justificar aquilo que, an&amp;shy;tes de mais, é uma extrema violação da privacidade e do segredo profissional, o juiz considerou que «a possibilidade de devassa do sigilo profissional é inferior ao crime que está em discussão». Lê-se esta decisão e fica-se perplexo. Primeiro que tudo, não se percebe bem que crime poderão ter cometido os jornalistas, ao revelarem uma peça que consta de um processo que esta em julgamento. Em seguida, «o crime que está em discussão» é o que consiste no pedido ou no fornecimento indevido dos registos telefónicos do «Envelope 9» — foi isso que o Presidente mandou investigar e isso nunca poderia ter sido feito por jornalistas, mas só por quem tinha poderes para tal. Em terceiro lugar, tendo os jornalistas do «24 Horas» fornecido logo as disquetes referentes ao «Envelope 9», assim que foram visitados pelos investigadores, que mais quererão estes vasculhar nos seus computadores que tenha que ver com esta investigação? E, finalmente, atente-se no desprezo a que o magistrado vota o sigilo profissional dos jornalistas, sem o qual nunca teria existido jornalismo de investigação, a começar por Watergate e a acabar nas denuncias de todos os abusos processuais cometidos durante a instrução do processo Casa Pia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É impossível fugir à conclusão da leitura sobreposta e sucessiva dos factos. A instrução do processo Casa Pia foi revelando algumas práticas investigatórias e alguns métodos de actuação dos magistrados que não são aceitáveis num Estado de direito (felizmente não extensíveis ao julgamento, cuja condução tem sido inatacável). A certa altura, tornou-se mesmo evidente que havia um desvio político na investigação, visando particularmente o Partido Socialista e acabando por vir a ter uma influência determinante no curso da política nacional. Basta recordar o episódio em que às vítimas do caso foi exibido um catálogo de fotografias de potenciais suspeitos e onde se incluíam, entre muitos outros da área política escolhidos a dedo, Mário Soares, Almeida Santos ou Jaime Gama — um método de investigação inédito, aberrante e assustador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa fase da instrução, os investigadores contavam com o apoio geralmente acrítico da imprensa, cujo interesse legítimo em querer sempre saber mais do que se passava lá dentro foram alimentando com sucessivas e oportunas fugas de informação, invariavelmente mandadas investigar e logo deixadas em descanso pelo inabalável Souto Moura. Mas agora, ao que parece, os jornalistas já não estão bem vistos lá por casa. Porque, aos poucos, foram pondo crescentemente em causa coisas estranhas que se iam passando e porque, agora que o Presidente da República resolveu intervir e pedir satisfações pelo «Envelope 9», era preci&amp;shy;so sacudir a água do capote e arranjar bode expiatório mais à mão: os aliados de ontem. Fiquemos atentos, porque vêm aí mais episódios desta roda livre em que funciona a justiça. Para breve, prepara-se a criminalização dos jornalistas pela violação do segredo de justiça: prende-se o mensageiro, que está identificado e não faz parte da corporação, e manda-se investigar «rigorosamente», e sempre fracassadamente, quem Ihe passou a mensagem, a partir do processo que tem à sua guarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 04.03.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-114149885927413285?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114149885927413285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114149885927413285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/03/assalto-ao-computador.html' title='Assalto ao computador'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-114149876405248538</id><published>2006-02-28T18:57:00.000Z</published><updated>2006-03-04T18:59:24.076Z</updated><title type='text'>um perdedor e um ganhador</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;A falta de sorte, os efeitos caprichosos desta nova bola, o talento que Robert tem para cobrar livres e a falta de fé de Baía em corrigir o seu movimento a tempo ditaram uma derrota que foi muito pouco justificada pelo que o Benfica jogou. Este Benfica de anteontem seria tranquilamente digerido sem espinhas por um FC Porto normal, orientado por alguém com ideias normais —tais como ganhar de vez em quando.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1. As estatísticas não ajudam Co Adriaanse nem legitimam as suas ideias, decerto geniais. Anote-se: —em dez jogos contra o seu compatriota e rival Ronald Koeman, perdeu oito, empatou dois, ganhou nenhum; — em nove jogos de importância máxima feitos com o FC Porto esta época, perdeu cinco, empatou três, ganhou um; — nos cinco jogos feitos com os outros três clubes que têm dominado o topo deste Campeonato, perdeu dois, empatou três, ganhou nenhum; — nos sete últimos jogos do Campeonato, com o «revolucionário » sistema de quatro avançados (tão elogiado por tantos comentadores que certamente não são do FC Porto), perdeu dois, empatou dois e ganhou três, tendo marcado um total de seis golos — o que não chega sequer a dar média de um por jogo. Quando as pessoas têm ideias próprias e delas não abdicam diz-se que têm personalidade. Quando essas ideias estão erradas ou dão o resultado adverso do pretendido, e mesmo assim se insiste nelas, em vez de personalidade, diz-se que a pessoa tem manias. E, quando, de falhanço em falhanço, se continua a insistir nas mesmas ideias, com prejuízo dos outros, a mania passa a teimosia. Esse é o problema de Co Adriaanse. Ele ainda não percebeu que o FC Porto não é o Az Alkmaar ou qualquer outra equipa sem nome, sem orçamento e sem responsabilidades para poder servir de cobaia às experiências revolucionárias do seu treinador. Ainda não percebeu bem que a equipa que lhe caiu do céu vir treinar, ao contrário do seu treinador que nunca conquistou nada, está recheada de títulos e era, há menos de dois anos atrás, campeã da Europa e, há um ano, campeã do Mundo. Manifestamente, parece-me haver um erro de interpretação, ou de tradução, de Co Adriaanse relativamente ao contrato de trabalho assinado com o FC Porto: é ele que tem de provar que está ao nível do FC Porto e não este que tem de se adaptar ao génio infrutífero do seu treinador. Na breve antevisão do jogo que aqui publiquei no próprio domingo, escrevi que Co Adriaanse, se realmente queria começar a mostrar que é capaz de conquistar alguma coisa e vencer algum jogo importante, deveria jogar na Luz em 4x3x3 e pôr os melhores nos seus lugares, em vez de continuar a teimar que vai ficar para a história do futebol como o treinador que jogava em todo o lado de peito aberto... e em todo o lado fracassava. Ao escrevê-lo, porém, e ao contrário do que o próprio Ronald Koeman previu, eu já sabia que ele ia insistir no tal esquema de três defesas e quatro avançados, quanto mais não fosse para mostrar a tal personalidade que a tantos deslumbra e serve. E assim foi. O efeito mais imediato deste sistema super ofensivo foi uma repetição do já visto nos jogos anteriores: a incapacidade de marcar golos e de criar oportunidades em número suficiente para tal. A inflação de avançados conduziu a que faltassem os espaços e as ideias, ao ponto de dois deles, o Ivanildo e o Adriano, terem passado o jogo todo sem saber para onde ir e o que fazer ao certo. E, enquanto sobravam avançados na frente, atrapalhando-se uns aos outros, faltava um médio a meio-campo para segurar o jogo e os lançar, e a defesa só não soçobrou porque o Nuno Gomes e o Simão não deram uma prá caixa e mais uma vez ficou à vista que todo este sistema de jogo está dependente de um super-Pepe e um super-Paulo Assunção. A eles deve Co Adriaanse não ter saído da Luz vergado a uma derrota ainda maior, quando, num acesso de total descontrolo, resolveu tirar o Quaresma, que era o único a tentar abrir a defesa do Benfica pelos lados, e meter em campo nada menos do que quatro pontas-de-lança — o McCarthy, o Adriano, o Hugo Almeida e o Lisandro. Ao mesmo tempo que, inevitavelmente, mandava entrar também o fantasma do Jorginho, com tudo isso abrindo verdadeiras avenidas para o contra-ataque encarnado. Uma vez mais, como já me tinha ocorrido no jogo do Dragão da primeira volta, dei comigo a pensar que Adriaanse vai para estes jogos sem ter feito nenhuma das três coisas essenciais no trabalho de casa de um treinador: não estuda os adversários, não elabora um plano de jogo, muito menos adaptável em função dos acontecimentos que vão ocorrendo, e não prepara os lances de bola parada — que nas outras equipas, a começar pelo Benfica, contribuem largamente para a percentagem de golos e neste FC Porto raramente resultam em golo. Chegou a ser confrangedor ver a forma como eram cobrados os livres e os cantos a favor do FC Porto. Agora começo a perceber porquê os treinos no Olival são sempre à porta fechada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. A desculpa de Co Adriaanse para a derrota vai ser o Vítor Baía—até me admira como é que não o disse logo a seguir ao jogo, como é seu hábito. O fim injustíssimo da carreira de Baía foi cientificamente preparado por Adriaanse. Primeiro, tirando-o da baliza após um lance infeliz na Amadora, sem lhe dar hipótese de se redimir. Depois, deixando-o de fora em todos os jogos fáceis, para o relançar num teste de fogo como o da Luz, onde qualquer deslize dele teria consequências praticamente irreversíveis. É claro que Adriaanse não teve culpa que o Helton se tivesse lesionado logo na pior altura, mas teve responsabilidade directa na forma como abalou os índices de confiança de Baía, deixando-o psicologicamente impreparado para regressar neste jogo. Depois, a falta de sorte, os efeitos caprichosos desta nova bola, o talento, parece que único, que Robert tem para cobrar livres, e a falta de fé de Baía em corrigir o seu movimento a tempo, fizeram o resto. Ditaram uma derrota, que pode ter sido merecida pelo que o FC Porto não jogou, mas que foi muito pouco justificada pelo que o Benfica jogou. Este Benfica de anteontem seria tranquilamente digerido sem espinhas por um FC Porto normal, orientado por alguém com ideias normais—tais como ganhar de vez em quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Eis uma coisa que não se pode dizer de José Mourinho. Ele é o verdadeiro exemplo do ganhador, de alguém que, acima de tudo, está ali para ganhar — sempre, se possível. Ao contrário de Adriaanse, Mourinho estuda os adversários ao detalhe e para cada jogo tem uma estratégia montada, a qual tem o dom de antecipar quase sempre o que o adversário vai fazer em cada situação. É por isso que ele vence tantas vezes: porque é um perfeccionista, um profissional completo, um viciado na vitória. Mas há um reverso da medalha, como há sempre. Um, é que Mourinho tem dificuldade em saber perder. O outro é que, quando não há fantasistas na equipa, o futebol dele, se bem que continue vencedor, fica como o futebol do Chelsea: terrivelmente previsível e aborrecido, «industrializado », como alguém o definiu há dias. Já aqui escrevi há tempos que tenho a convicção de que o FC Porto de Mourinho venceria tranquilamente o Chelsea de Mourinho. Esta semana, o Barcelona de Ryjkaard e de Ronaldinho, Deco, Messi e Eto’o, destroçou por completo o futebol científico e sem alma do Chelsea. E só não o esmagou, porque na baliza dos londrinos está um dos três melhores guarda-redes do Mundo. Ainda bem para o futebol, porque o que o Barcelona foi dizer a Stamford Bridge é que o talento, o génio e o improviso ainda são armas determinantes neste jogo. Asangue-frio José Mourinho tinha obrigação de o ter reconhecido e ter cumprimentado o adversário. Desculpar-se coma expulsão de Del Horno e atacar o árbitro foi uma atitude de mau perdedor. Primeiro, porque o Del Horno foi muito bem expulso, pela simples razão de que, não conseguindo aguentar mais a tourada que o Messi lhe estava a dar, resolveu ver se o arrumava de vez. E, segundo, porque antes e depois da expulsão de Del Horno, a superioridade do Barcelona foi tão flagrante, a qualidade e beleza do seu jogo tão superiores, que qualquer outro desfecho seria uma tremenda injustiça. Resta a Mourinho provar em Camp Nou que o Chelsea é mais do que uma equipa quase vulgar, com um grande treinador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 28.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-114149876405248538?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114149876405248538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114149876405248538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/um-perdedor-e-um-ganhador.html' title='um perdedor e um ganhador'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-114070968444270703</id><published>2006-02-21T15:45:00.000Z</published><updated>2006-02-23T15:48:47.756Z</updated><title type='text'>A hora da verdade</title><content type='html'>1. Hoje à noite o Benfica tem um teste elucidativo sobre o seu verdadeiro valor. Teve-o também antes contra o Manchester United, onde passou com distinção, é facto, mas o Manchester desta época e, sobretudo, o de Dezembro passado, é uma pálida imitação dos «red devils» de um passado recente, que tudo atemorizavam. O Liverpool, para além de campeão europeu em título, é melhor equipa e mais calculista. Contra ele, o Benfica tem de jogar o seu máximo e então se verá se o seu máximo está ou não ao mais alto nível europeu. Ao iniciar com uma derrota inapelável este terrível ciclo de nove dias em que tudo se pode sonhar e tudo se pode perder, o Benfica de Ronald Koeman parece ter lançado a descrença entre os seus — adeptos e jornalistas. De repente, a tão louvada equipa de há três semanas atrás parece já não inspirar confiança a ninguém e o seu treinador virou um saco de pancada ao alcance de todas as frustrações. Acusa-se Koeman de mudar constantemente a equipa, como se ele fosse responsável pelas lesões e castigos ou pela chegada de uma mini-enxurrada de reforços em Dezembro, anunciados pela Direcção como o suplemento que faltava para a conquista da Liga dos Campeões e que ele, logicamente, tinha de experimentar e utilizar. E esquecendo-se até de que foi uma dessas inesperadas «revoluções» na formação da equipa que conduziu à também inesperada vitória contra o Manchester. Até se acusa Koeman de já ter experimentado quatro guarda-redes, como se fosse ele o culpado pelas lesões de Quim e de Moreira, pela manifesta impreparação de Nereu, ou pela «épica» contratação de Moretto, delirantemente saudada pela massa associativa e afins. Embora não me motive muito perceber o que se passa em casa alheia, a mim parece-me que, mais prosaicamente, a questão das esperanças traídas no Benfica tem sobretudo a ver com a ilusão criada sobre o valor real da equipa. Tudo começou na época passada, com um Campeonato e uma Taça ganhos de forma que foi tudo menos convincente mas que, por temor ou reverência, ninguém se atreveu a questionar. Por isso, quando Luís Filipe Vieira disse que esta era uma equipa de campeões, toda a gente fingiu que sim, e, quando, reforços acrescentados, ele passou a dizer que esta era uma equipa capaz de chegar à final e talvez ganhar a Champions, continuaram todos a fingir que acreditavam. Depois, houve a vitória sobre o Manchester e a série de sete triunfos consecutivos na Liga portuguesa e foi ver o José Veiga, de peito feito, a anunciar a inevitável revalidação do título e a Europa ao virar da esquina. Mas ninguém se deteve a pensar quantos, desses sete jogos, foram ganhos sem dúvidas de arbitragem e através de exibições convincentes, porque é um crime de lesa-majestade questionar o mérito dos triunfos benfiquistas. E assim se criou a verdade oficial de que estava aí um grande Benfica, que nada nem ninguém conseguiriam parar. Agora, três súbitas derrotas depois, cai-se no extremo oposto. E na pior altura, quando a equipa mais precisava da confiança dos seus. Mas, se entre hoje e domingo, tudo correr mal para os benfiquistas, é certo e sabido que quem semeou os ventos de ilusão não colherá as tempestades de desilusão. Isso está guardado para um bode expiatório mais conveniente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. O Benfica jogava em Guimarães sob o peso de ter três jogadores ameaçados de não poderem defrontar o FC Porto caso vissem um cartão amarelo. Lucílio Baptista foi a escolha adequada para a ocasião (mas digo desde já que nenhum daqueles três mereceu um amarelo). Mas, no resto, Lucílio não deixou os seus predicados por mãos alheias: num jogo sem dureza nem indisciplina, com faltas distribuídas por igual por ambas as equipas, Lucílio Batista conseguiu marcar o dobro de faltas ao Vitória, deixando inúmeras por assinalar contra o Benfica, e mostrar sete cartões amarelos a jogadores do Guimarães contra apenas um aos benfiquistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. E, a propósito do «Apito Dourado », essa mega investigação judicial, que parece ter o condão de vir a arrastar-se durante anos, tornando alguns eternamente suspeitos (ou até mesmo já condenados, a quem isso convém) e outros estranhamente imunes às suspeitas, aguardei com alguma curiosidade o despacho de pronúncia, no que se refere ao presidente do FC Porto. Mas, afinal e como aqui antecipei desde o início, a montanha pariu um rato, ou pior ainda, pariu a insustentável continuação das suspeitas por confirmar. Mais de um ano de investigações decorrido, depois daquele imenso aparato policial-mediático para ouvir o «suspeitíssimo» Pinto da Costa, depois de dezenas ou centenas de milhares de contos gastos aos contribuintes, depois de não sei quantas prorrogações de prazo a favor do Ministério Público, depois do reforço extraordinário dos meios de investigação, a «task force » judicial de Gondomar conclui apenas em extrair certidões do processo para que outros continuem a investigar Pinto da Costa. E, quanto a factos novos, indícios novos, provas recolhidas, nada. A suspeita «gravíssima» mantém-se rigorosamente a mesma de há um ano atrás: em 2004, o FC Porto de José Mourinho, já virtual campeão nacional, com alguns onze pontos de avanço sobre o segundo classificado, o Benfica, a semanas de se tornar campeão europeu, terá subornado, com recurso a «meninas» o árbitro do encontro no Dragão contra o E. Amadora, em vias de despromoção, como forma de garantir a vitória no jogo — parece que, de outra maneira, não conseguiriam ganhar. E é nisto que se gasta o tempo e o dinheiro dos contribuintes: não fazendo justiça, mas mantendo eternas as suspeitas que a tantos convém. Mas também a verdade é que, à luz do que está em causa—e é apenas isto— só acredita, ou finge acreditar, quem quer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. E, pé ante pé, o Sporting está a cinco pontos do FC Porto e poderá ficar a dois se, domingo na Luz, a equipa de Adriaanse falhar mais uma vez num jogo decisivo. Dou-me conta, já há um tempo, que muito pouco ou quase nada tenho escrito sobre o Sporting esta época. A razão é simples e vai parecer escandalosa aos olhos dos indefectíveis sportinguistas, mas acarreto as consequências de porventura vir a ter de engolir o que vou escrever: não vejo que o Sporting tenha futebol para ser campeão nacional, esta época. Estão em segundo lugar, já só a cinco pontos e ainda vão receber o FC Porto em Alvalade? Pois, é facto. Mas, mesmo assim, não me convencem. Ainda esta semana o que vi, contra o Paços de Ferreira e em Alvalade, foi uma equipa que chegou ao golo num penalty duvidoso e caído dos céus, que dele viveu toda a segunda parte, sem criar uma só oportunidade de golo e que, já próximo do final, marcou o segundo golo numa jogada precedida de falta e ainda um terceiro depois da hora. Um 3-0 absolutamente enganador, num jogo que não mereceu sequer ganhar. Como disse, é possível que ainda tenha de engolir esta opinião. Mas, se isso acontecer, é porque o FC Porto entregou o ouro ao bandido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 21.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-114070968444270703?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114070968444270703'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114070968444270703'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/hora-da-verdade.html' title='A hora da verdade'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-114031006792127246</id><published>2006-02-18T00:45:00.000Z</published><updated>2006-02-19T00:47:47.936Z</updated><title type='text'>Dez anos que não abalaram Portugal</title><content type='html'>Dois pontos de partida: um, a afirmação de que Jorge Sampaio é, obviamente, um homem serio, culto e bem intencionado, para quem a política, independentemente da apetência pessoal, é vista como devendo estar sempre ao serviço do bem comum; o outro, a constatação de facto de que Jorge Sampaio presidiu, a partir de Belém, a uma década em que Portugal regrediu em quase tudo — na educação, na economia, nas finanças públicas, na criação de emprego, na agricultura, na defesa do ambiente e na gestão do território, na qualidade da democracia e, até ao ponto de tocar no fundo, na justiça. Note-se que eu não digo que Jorge Sam&amp;shy;paio seja o responsável, ou sequer co-responsável, por este retrocesso do país. Digo simplesmente que presidiu a ele e que o fez à sua maneira, aliás semelhante a forma como dirigiu os destinos de Lisboa durante seis anos: sempre consciente e preocupado com os problemas, e sempre impotente para os ajudar a enfrentar. Houve uma única e notável excepção, que teve a ver com o desenlace da questão de Timor, onde Sampaio — juntamente com Guterres e contra a resistência de Durão Barroso — teve uma intervenção firme e decisiva para que se tenha podido por fim à ocupação de Timor pela Indonésia. Em tudo o resto, mesmo na área da justiça, que melhor dominava e que mais intervenções Ihe inspirou, os seus discursos viveram sempre dessa contradição insanável e desesperante entre o acerto do que dizia e a sensação de absoluta inutilidade do que dizia. Basta atentarmos no ultimo exemplo em data: o que sucedeu com o ultimato dirigido ao procurador-geral da República para que «num prazo curtíssimo», esclarecesse como é que, no âmbito do processo Casa Pia, o Ministério Público entrou na posse da lista dos telefonemas particulares efectuados por um vasto leque de políticos que nada liga ao processo, naquilo que o próprio Presidente classificou como «uma forma intolerável de intromissão na reserva privada dos Portugueses, que não pode passar em claro»? Sucedeu que, uma semana decorrida, Souto Moura foi a Belém segredar qualquer coisa ao Presidente, que aparentemente se deu por satisfeito, nunca mais tendo falado no assunto. E, entretanto, o «curtíssimo pra&amp;shy;zo» já ultrapassou um mês e, como é habitual, o procurador confundiu o que está em causa: em vez de investigar quem obteve e quem facultou essa lista, resolveu investigar o jornal que deu a notícia. E, com isso, o dr. Souto Moura conseguiu o que queria, que era fazer Sampaio esquecer a sua ameaça de extrair do caso «as adequadas consequências», transferindo o ónus de nos livrar de Souto Moura para o Presidente que se segue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim foi também em outras ocasiões e outras matérias igualmente importantes, que ninguém pode dizer que escapem à alçada dos poderes do Presidente. Como a situação de fantochada democrática que se vive na Região Autónoma da Madeira e que mais dez anos de passividade presidencial (incluindo nos discursos não ditos) tornaram já habitual, impune e fora de controlo. E se não é o Presi&amp;shy;dente da Republica a exigir que vigorem em todo o país as mesmas leis em que se funda o Estado democrático, quem será?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim foi igualmente na forma passiva e acrítica com que Sampaio aceitou a indecente deserção de Durão Barroso e o critério de sucessão dinástico-partidária que levou à chefia do Governo, sem que os portugueses o tenham escolhido, o inimaginável Santana Lo&amp;shy;pes. É verdade que, depois e ao primeiro pretexto, nos desembaraçou dele, mas entretanto o país perdeu um ano numa altura crítica e o prestigio das instituições políticas desceu ao seu mais baixo nível da era democrática.&lt;br /&gt;Há uma substancial, e não apenas subtil, diferença entre o que foi a «magistratura de influência» de Mário Soares e a de Jorge Sampaio. Talvez porque Soares tinha um pe&amp;shy;so político próprio, aqui e lá fora, que Sam&amp;shy;paio nunca teve. Talvez porque Soares, ao contrario de Sampaio, concentrou-se no essencial e não se dispersou em milhares de temas, desgastando-se em palavras e mais palavras, ao ponto de já quase ninguém as escutar. Mas, sobretudo, porque Soares não viu o cargo como um púlpito do politicamente correcto ou uma eterna fábrica de consensos, onde tantas vezes o que se exigia era rupturas e escolhas. A grande desilusão que me fica dos anos de Sampaio em Belém é a sensação que ele deixou instalar de que o cargo é perfeitamente inútil. É verdade que ha a «bomba atómica», mas, entre ela e tudo o resto não existe mais nada, nem sequer a possibilidade de usar uma pressão de ar para caçar pardais. O estilo acabou por contagiar o próprio Soares, que, na sua absurda tentativa de rebobinar o filme, nada de melhor encontrou para nos propor do que a promessa de que iria para Belém fazer rigorosamente nada, porque na&amp;shy;da poderia ser feito dentro do quadro dos poderes presidenciais (com toda a lógica, Manuel Alegre chegou a perguntar-lhe porque se candidatava, então). Desconfio que uma das razões da vitoria de Cavaco Silva foi justamente o inconformismo de uma parte do eleitorado, que não aceitou a tese da inutilidade presidencial e que viu nele, bem ou mal, alguém que não se dispunha apenas a passar dez tranquilos anos de vida no Palácio de Belém. A imagem que Soares quis fazer passar de um Cavaco Silva assustadoramente intervencionista teve o efeito exactamente contrário: nas urnas, os eleitores responderam que preferiam isso do que outros dez anos de desempenho presidencial inócuo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, este episódio final da Presidência de Sampaio, esta frenética enxurrada de condecorações — umas públicas, outras as escondidas — e uma espécie de resumo da filosofia que presidiu a estes dez anos. Ao condecorar tudo o que mexe, desde gente com valor até artistas sem qualquer valor, empresários sem mérito algum, gente que se limita a cumprir banalmente a sua profissão ou ex-estalinistas a quem deu a Ordem da Liberdade, Jorge Sampaio revela bem qual é o seu critério na política: não distinguir, não escolher, não susceptibilizar ninguém. É possível que, como ele disse, Eanes e Soares tenham condecorado ainda mais gente, mas, exactamente porque o fizeram ao Iongo de vinte anos, já não restava ao Presiden&amp;shy;te Sampaio gente em qualidade e quantidade suficiente para justificar a total banalização, para não dizer outra palavra, das condecorações presidenciais. Este frenesim condecorativo assenta como uma luva no perfil político de um Presidente que não foi capaz de dar uma lição pública a Durão Barroso, não foi capaz de dizer não a Santana Lopes, não foi capaz de meter na ordem democrática Alberto João Jardim e nem sequer foi ca&amp;shy;paz de despedir o procurador-geral da Repu&amp;shy;blica. Foram dez anos vividos a cultivar os seus tão queridos «consensos» — com o bom, com o mau e com o insustentável. E está à vista de todos o que o país regrediu nestes dez anos de consensos. Valha-nos que, ao menos, não faltam comendadores!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 18.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-114031006792127246?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114031006792127246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114031006792127246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/dez-anos-que-no-abalaram-portugal.html' title='Dez anos que não abalaram Portugal'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-114029213205394529</id><published>2006-02-14T19:44:00.000Z</published><updated>2006-02-18T19:48:52.080Z</updated><title type='text'>Regresso à normalidade</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Como diz António Oliveira, há mais honra em descer à Honra sem dever nada a ninguém que em ficar na Betandwin devendo dinheiro a todos.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1. A jornada 22 do campeonato veio repor a hierarquia habitual do nosso futebol, deixando os três grandes lá em cima, ordenados pela respectiva ordem de grandeza (isto é uma piada a benfiquistas e sportinguistas...). Jogando muito pouco e marcando em dois livres, o Sporting desembaraçou- se naturalmente de um Vitória de Setúbal que, depois do raide benfiquista às suas fileiras, consentido e promovido pelo inesquecível Chumbita Nunes, entrou em queda vertical. Jogando mais que o habitual e com menos azar e revoluções estratégicas que o costume, também o FC Porto cumpriu a sua obrigação de vencer um Belenenses que é uma equipa cuja permanência mais ou menos tranquila na primeira divisão só por si demonstra como é fraca a nossa Liga. E, jogando em casa contra o já condenado Penafiel, o Benfica ganhou também sem problemas de maior, muito embora o resultado seja francamente desproporcionado face ao que se passou e bem pudesse ter sido dispensado aquele terceiro golo, que deve ficar como exemplo extremo daquilo que o futebol não pode ser (tivesse sido o Penafiel, ou qualquer outro adversário, a marcar assim e o Estádio da Luz vinha abaixo). Cabe, entretanto, uma palavra de elogio ao presidente do Penafiel, o antigo e excepcional jogador António Oliveira, que assumiu tranquilamente a mais que provável inevitabilidade da descida, evitando a saída fácil de despedir o treinador, as loucuras de contratações que depois não poderiam ser sustentadas na Liga de Honra, e evitando também o recurso habitual de atirar para cima das arbitragens a responsabilidade pelo inêxito. Até porque, como ele diz, há mais honra em descer à Honra sem dever nada a ninguém que em ficar na Betandwin devendo dinheiro a todos. Recado entregue a muita gente com orelhas a arder. No grupo imediatamente abaixo os resultados da jornada foram diferentes. Enquanto o Boavista somou a quinta vitória consecutiva e já só está a um ponto da zona europeia, confirmando os créditos de Carlos Brito, já o Sp. Braga, mesmo jogando em casa e contra 10 durante meia hora, perdeu dois pontos, que não chegam para compensar o ponto que tão injusta e falsamente conquistara uma semana antes, no Dragão. Tendo vendido quase toda a defesa no defeso de Natal, parece inevitável que tenha iniciado uma curva des cendente, que, a consumar-se, será de difícil travagem e difícil digestão. Enfim, o Nacional sucumbiu com aparato, após uma terrível semana passada entre Alvalade e a Luz, com apenas um golo sofrido em 220 minutos de jogo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. A derrota do Nacional na Luz, nos penalties, e a derrota ao cair do pano do Paredes em Alvalade fazem-me lembrar a remodelação que há muito defendo no injustíssimo regulamento da Taça de Portugal. Defendo a introdução de um sistema duplo: primeiro com discriminação positiva a favor dos mais fracos; e depois, já no final, com igualitarização dos quatro semifinalistas. Assim: até às meias-finais as eliminatórias, a um só jogo, seriam sempre no terreno do clube de divisão inferior ou, sendo ambos da mesma divisão, no terreno daquele que, no momento do sorteio, estivesse mais mal classificado no respectivo campeonato. Quanto às meias-finais, seriam jogadas a duas mãos. Isto permitiria, por um lado, descentralizar e democratizar a Taça, levando-a, regularmente e não excepcionalmente, a lugares onde o grande futebol não chega, e, simultaneamente, dar mais interesse desportivo e mais emoção à competição e, eventualmente até, melhores receitas aos clubes. Por outro lado, o facto de as meias-finais serem a duas mãos daria mais verdade desportiva ao desfecho e mais mérito aos finalistas do Jamor, para além de reintroduzir, ao menos por uma eliminatória, o sistema de eliminação a duas mãos, que actualmente, e com grande saudade minha, não existe em competição alguma. Este sistema tornaria impossível, por exemplo, voltar a suce- der aquilo que sucedeu ao Benfica há dois anos, quando a sorte nos sucessivos sorteios o levou até à final sem nunca ter saído da Luz (e até a final foi jogada no seu campo de treinos habitual, o Estádio Nacional, e, visto o outro finalista ser o FC Porto, escolheu- se para árbitro Lucílio Baptista, que actuou conforme a expectativa). Seguramente que, de todos os troféus arrecadados no Estádio da Luz, este foi aquele cuja conquista menos mérito teve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Não tivesse eu visto na televisão o Inter-Juventus e teria acreditado nas patrióticas descrições dos correspondentes da nossa imprensa desportiva, que fizeram de Figo o «autor de meio golo» e senhor de uma notável exibição, a destoar de todos os outros da equipa. Não vi nada disso, vi que o Inter não jogou nada e Figo teve um ou outro fogacho inconsequente e marcou um canto banal a que o seu colega Walter Samuel correspondeu com um cabeceamento superior — o tal meio golo de Figo. Este patrioteirismo jornalístico, que leva a escrever coisas como «o treinador do Milan optou por fazer descansar Rui Costa», quando ele simplesmente optou por deixá-lo no banco de suplentes, não ajuda a termos verdadeira compreensão do que se passa e até talvez, em alguns casos, tenha contribuído para dar aos nossos candidatos a emigrantes futebolísticos uma falsa impressão de facilidades de triunfar lá fora, que depois se transforma em amargas ilusões. Veja-se o sucedido com a legião portuguesa do Dínamo de Moscovo—em que Costinha acaba de ser a última baixa — e cuja imagem deixada por terras da Rússia deve ter assegurado o fim definitivo daquela galinha dos ovos de oiro. E, por falar em emigrantes do futebol, há coisas que dão que pensar. Quantos italianos alinharam de início pelo Inter contra a Juventus? Um. Quantos ingleses alinharam pelo Chelsea contra o Liverpool? Um. Quantos portugueses alinharam de início pelo Benfica contra o Penafiel? Dois. O capital não tem pátria, o futebol também não. Nós, os espectadores, é que nos esforçamos por fingir que não vemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P. S. — Manuel Fernandes, Marcel e Simão estão em risco: se levarem mais um amarelo não jogam contra o FCPorto, na Luz. Vamos ficar muito atentos à arbitragem do V. Guimarães-Benfica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 14.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-114029213205394529?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114029213205394529'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114029213205394529'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/regresso-normalidade.html' title='Regresso à normalidade'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113979681930895673</id><published>2006-02-11T02:12:00.000Z</published><updated>2006-02-13T02:13:39.330Z</updated><title type='text'>A desforra de Granada</title><content type='html'>Granada não enfrentou os Reis Católicos por razões de fé ou de religião. Pelo contrário, na corte de Boabdil conviviam muçulmanos, cristãos e judeus, e dessa convivência se fez a que era então, talvez, a mais brilhante civilização do seu tempo, no domínio da arquitectura, da física, da medicina, da matemática, da astrologia. Mas Granada foi sitiada e conquistada por isso mesmo e também pelo território e pela beleza demasiadamente humana do Alhambra. Quando Granada caiu e a reconquista cristã se impôs então a toda a Península, os dois reinos católicos, Portu&amp;shy;gal e Espanha, partiram à conquista do mundo e tornaram-se Impérios marítimos; do Novo Mundo e África ao extremo da Ásia. Inversamente, quando os vencidos de Gra&amp;shy;nada se retiraram para lá do Estreito, de onde tinham vindo séculos antes, nunca mais a civilização árabe e muçulmana recuperou sombra sequer do seu antigo esplendor e liderança. Por isso é que o ano de 1492 (também o da descoberta da América, por Co&amp;shy;lombo) é um marco da história universal e um símbolo de derrota e descalabro que nunca mais foi esquecido e ultrapassado pelos crentes muçulmanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais inverosímil que nos possa parecer, mais de cinco séculos passados e quase quarenta anos depois do homem ter ido à lua, estamos perante uma nova guerra religiosa global, que é também uma guerra de civilizações. Quem disser que ela não existe, ou é ignorante ou diplomata — em qualquer dos casos, perigoso para os tempos que correm. Estamos perante uma espécie de Cruzadas ao contrário, que o Islão lançou contra os «não crentes» — sejam ju&amp;shy;deus, cristãos ou ateus. As Twin Towers, o metro de Londres, a estação de Atocha em Madrid ou a histeria lançada contra os cartonistas dinamarqueses e contra a Dinamarca, são formas modernas de cruzadas travadas em nome de Alá (o Misericordioso...) contra os valores em que nós, no Ocidente, acreditamos. Cinco séculos passados, o Islão tira a sua desforra de Granada, através das suas duas únicas e demolidoras armas: o petróleo e o terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu sei: não é — julga-se — todo o Islão. Mas é o que conta, o que lidera os crentes, o que se escuta na rua e nos jornais, o que doutrina os terroristas, o que prepara a arma nuclear. Em todo o mundo muçulmano houve apenas um jornal, na Jordânia, que ousou escrever que pior que as caricaturas «blasfemas» para o Islão eram os terroristas blasfemos. Mas no dia seguinte o jornal pediu desculpas pelo que escrevera e o direc&amp;shy;tor foi despedido. É verdade também que a rua é incendiada a mando da Síria, do Irão ou da Al-Qaeda, e que há sempre uns palestinianos desocupados para dispararem rajadas de metralhadora para o ar com cara feroz e multidões em estado de histeria induzida, para queimar Embaixadas e bandeiras e ameaçar de morte todos os ocidentais a vista. É possível até que o grosso dos muçulmanos não pense assim, que não acredite numa leitura literal e medieval do Corão e que não se reveja na intolerância nem no terror em nome de Deus que o clero radical ensina nas escolas corânicas e prega nas mesquitas. Mas, se assim é, não os escutamos porque eles têm medo: o terror começa dentro dos seus próprios países e sociedades.&lt;br /&gt;O medo é a outra face de uma moeda chamada liberdade. Onde não há liberdade, há medo; onde há medo, não há liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É justamente isso que hoje nos distingue do Islão: nós temos a liberdade, eles têm o medo como sistema endémico de vida e como arma de arremesso contra «os infiéis». Pelo medo, eles conservam as suas ditaduras, oligárquicas ou teocráticas, e os seus modelos de sociedade onde não existe igualdade de direitos, liberdade de pensamento e de criação, liberdade religiosa, protecção contra os abusos do poder. Hoje, ao contrario do que sucedia em 1492, não conhecemos, em todo o mundo árabe, o nome de um cientista, musico, arquitecto, cineasta, explorador, atleta, enfim, alguém que faca sonhar ou avançar a humanidade. O mais que conhecemos são nomes de xeques milionários e fúteis, ditadores, pregadores do ódio ou terroristas. Os herdeiros da outrora brilhante civilização de Granada nada mais parecem ter para oferecer hoje do que a pro&amp;shy;paganda do ódio, da intolerância e do ter&amp;shy;ror. E de novo o mesmo sinistro grito da Espanha católica fundamentalista e franquista: «viva la muerte!».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é pelo medo, também, que eles esperam ganhar esta batalha contra o Ocidente, destruindo o nosso amor à liberdade. Espe&amp;shy;ram que, aos poucos, sejamos obrigados a chegar ao ponto crucial em que a escolha terá de ser entre a vida ou o nosso modo de vida — a liberdade, a democracia, a tolerância. Sem que isso possa representar qualquer desculpa para os autores materiais, as escutas telefónicas indiscriminadas, as prisões preventivas sem advogado, os interrogatórios secretos em prisões clandestinas, as leis de excepção, a tortura e Guantanamo, tudo isso, tem a autoria moral dos radicais islâmicos e obedece a um plano concertado de implosão das democracias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso ser muito forte, e preciso perceber, co&amp;shy;mo em 1939, que a liberdade é o mais absoluto dos nossos bens e o maior valor da nossa cultura e modo de vida, para ser capaz de lhes resistir. Mas é essencial resistir, porque a alternativa é o regresso à Idade Media e a barbárie. É por isso que o gesto dos Comuns, rejeitando a legislação de segurança interna proposta por Tony Blair, porque ela violava direitos e princípios em que se funda a democracia inglesa, é, apesar das consequências daí resultantes, o sinal de uma grande nação que não se rende nem ajoelha.&lt;br /&gt;Infelizmente, não foi o nosso caso. Pela mão do ministro Freitas do Amaral, e sem necessidade alguma, Portugal foi enxovalhado, coberto de vergonha e de cobardia, por um dos mais tristes textos políticos que já alguém escreveu. Devo dizer que não me espanta por ai além: a nossa «diplomacia» não tem feito mais nada nos últimos 25 anos que não rastejar perante os poderosos, em cada cena e em cada tempo: Angola, Indonésia (com a notável excepção de Guterres e Sampaio), Estados Unidos e, agora, pe&amp;shy;rante os países islâmicos. Um pais tão pequeno e tão indiferente quanto o nosso, só pode ter dois tipos de diplomacia: ou a do «cocktail» e pastel de bacalhau, sem nenhuma pretensão de ter posições próprias; ou então, ter um mínimo de posições decentes, em ocasiões especiais e se alguém estiver a escutar. Mas de há muito que escolhemos uma terceira via: a de, de vez em quando, termos umas posições indecentes, que, valha-nos isso, ninguém leva em conta e a ninguém já espanta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À atenção dos dinamarqueses, convém, todavia, esclarecer que seguramente o ministro Freitas do Amaral se representou apenas a si próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 11.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113979681930895673?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113979681930895673'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113979681930895673'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/desforra-de-granada.html' title='A desforra de Granada'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113979543342519857</id><published>2006-02-07T01:47:00.000Z</published><updated>2006-02-13T01:51:01.586Z</updated><title type='text'>De tudo um pouco</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;É óbvio que os Super Dragões se transformaram num poder paralelo dentro do FC Porto e é óbvio que, se isso aconteceu, foi porque tal lhes foi permitido e estimulado ao mais alto nível: quem semeia ventos colhe tempestades.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Já vi este filme várias vezes: o FC Porto ataca, ataca, ataca, o adversário só defende e, no final, repartem os pontos. Se houvesse justiça no futebol, o FC Porto teria ontem esmagado o Braga por 5-0 ou 6-0. Três bolas nos postes, três defesas maravilhosas de Paulo Santos, três remates de golo ao lado, três jogadas duvidosas na área do Braga. Mas não chegou: mesmo um sistema de jogo maluco — que depende exclusivamente de um super-Pepe para aguentar uma defesa com três homens e um ataque com quatro — não chegou para a vitória. O Braga fez o primeiro remate à baliza do FC Porto exactamente ao minuto 60, permitindo que Helton fizesse enfim, ao fim de três jogos, uma defesa como titular. Depois, Adriaanse deu ordem para recuar, tal como tinha feito contra o Inter, em San Siro, tirando um ponta-de-lança e metendo um defesa- central. E que defesa!— nada menos do que Bruno Alves, um dos autores da vitória do Benfica no Dragão — e que, na sua única intervenção relevante, deu origem ao penalty do empate, provando que não é Pepe quem quer. Aceita-se o penalty, mas, pelo mesmo critério de Bruno Paixão, daí até final, ainda houve tempo para dois lances semelhantes na área do Braga, um sobre Ivanildo, outro sobre Raul Meireles, que, esses, digamos que passaram despercebidos ao senhor de Setúbal, o inesquecível Barão de Campo Maior. E (porque não?), aceitemos também que lhes passou despercebido o offside que esteve na origem do penalty decisivo. Resta o que resta: o «Campeonato está relançado», como se vai escrever hoje, aí por todo o lado. Viva o Campeonato!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. É óbvio que os Super-Dragões se transformaram num poder paralelo dentro do FC Porto e é óbvio que, se isso aconteceu, foi porque tal lhes foi permitido e estimulado ao mais alto nível: quem semeia ventos colhe tempestades. Mas é também evidente que, à parte as atitudes arruaceiras que são o sinal de marca e a razão de existir das claques organizadas, o que os Super Dragões hoje dizem sobre a vida interna do clube (e não apenas sobre o treinador) é aquilo que o grosso dos adeptos pensa, mas não está organizado para dizer. Daí que, obrigado a ponderar entre os serviços prestados no passado e os danos potenciais do presente, Pinto da Costa tenha optado por os abandonar. Até ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Uma das coisas que o futebol tem de desconcertante e atraente é a alternância constante das suas verdades. Numa semana é-se bestial, na outra é-se besta. Durante nove jogos consecutivos, o Benfica acumulou vitórias e foi enchendo o estádio, incendiando as esperanças dos seus adeptos e inchando os seus dirigentes: Vieira passou a falar abertamente no título europeu já este ano e Veiga estava de peito feito, ridicularizando os adversários e falando já como inevitável bicampeão nacional. E, de repente, em dois jogos apenas, tudo ruiu: a sequência de vitórias transformou-se em duas derrotas consecutivas, o intransponível Moretto e a defesa de aço encaixaram seis golos em 180 minutos, as fabulosas contratações de Inverno viraram decepção, o regresso tão desejado do capitão Simão Sabrosa acabou por se traduzir em mal disfarçada desconfiança sobre a sua dedicação ao emblema e a sua utilidade na equipa, o FC Porto continuou em primeiro e até aconteceu o impensável, que foi serem alcançados pelo Sporting. E, todavia, se olharmos com atenção, nem uma coisa foi o apogeu, nem a outra o caos. As nove vitórias consecutivas, tirando a do Manchester, nunca foram consequência de grandes exibições ou de flagrante superioridade, mas sim vitórias tangenciais, muitas vezes ditadas pelo acaso ou dúvidas de arbitragem. E se, contra o Sporting, a equipa estranhamente pareceu nem sequer chegar a entrar no jogo, já contra o Leiria, a meu ver, fez uma das suas melhores exibições, com períodos de grande futebol, acabando derrotado pela tremenda eficácia do adversário no contra-ataque. E a verdade é que os seis golos sofridos e tão comentados, quatro foram em contra-ataque, um de penalty e outro num remate de meia-distância: nenhum resultou de ataque organizado e envolvente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Três mil pessoas assistiram ao último treino do Vitória de Guimarães e 17.000 ao seu jogo contra o Belenenses. É simplesmente notável a dedicação dos adeptos vimaranenses a um clube que jamais foi campeão nacional nem esteve nunca à beira de o ser e que hoje é apoiado na esperança de alcançar o mínimo expectável: que a equipa não caia na II Divisão. Agora, a tarefa parece mais difícil do que nunca. Não apenas porque estão a sete pontos da linha-de-água, mas sobretudo porque a equipa não mostra argumentos para ultrapassar a situação. Escrevi-o aqui logo no início da época, e após ver apenas um jogo do Vitória, que me parecia que iam ter grandes dificuldades este ano para se aguentarem na Superliga. Dispensado Jaime Pacheco, renovada a equipa com uma abundância de contratações em Dezembro, parece-me que nada de assinalável mudou. E, ao contrário do que diz o seu actual treinador, Vítor Pontes, a mim parece-me que o problema principal é que o Vitória não mostrou nunca, ao longo deste Campeonato, ter futebol para ficar na Superliga. O jogo contra o Belenenses foi mais um para confirmar esta opinião: defesa em alvoroço permanente, meio-campo sistematicamente a transviar passes, ataque absolutamente sem ideias. Não é uma questão de ir à bruxa, porque não é sério pretender que o Vitória tem azar em todos os jogos. Por mais que a ideia possa custar a assimilar, a verdade é que um histórico do futebol português se prepara para descer aos infernos por exclusiva incompetência própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Depois de Hernâni e de Calado, mais um jogador do Benfica acusou doping. É claro que é mais um que está inocente — assim como o Kennedy, o Abel Xavier e todos os outros. É mais um caso em que o organismo de um atleta português revela características que a medicina desconhecia. E se todos são inocentes até prova em contrário, já era altura também de todos perceberem que as leis são iguais aqui e no mundo inteiro e que a prova de inocência cabe a quem acusa doping e não a quem controla, e que a forma de o fazer está estabelecida na lei, para vigorar para todos. A explicação da cabala já deu o que tinha a dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. José Mourinho prepara-se para ser campeão de Inglaterra pela segunda vez consecutiva, em dois anos de trabalho. Vence, arrasa e convence. Rebenta com as estatísticas, subverte os recordes, açambarca os prémios. Só há uma coisa que eu, para os meus botões, não consigo explicar: porque é que adormeço sistematicamente a ver o futebol do Chelsea e porque é que acho que o FC Porto de Mourinho (sobretudo o da Taça UEFA) esmagaria este Chelsea de Mourinho? Mas, se uma equipa vence sempre sem entusiasmar, de quem é o mérito das vitórias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 07.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113979543342519857?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113979543342519857'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113979543342519857'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/de-tudo-um-pouco.html' title='De tudo um pouco'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113918366199809529</id><published>2006-02-04T23:51:00.000Z</published><updated>2006-02-05T23:54:22.016Z</updated><title type='text'>O cerco</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Já faltou mais para que um dia destes tenha de passar à clandestinidade ou, no mínimo, tenha de me enfiar em casa a viver os meus vícios secretos.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Já faltou mais para que um dia destes tenha de passar a clandestinidade ou, no mínimo, tenha de me enfiar em casa a viver os meus vícios secretos. Tenho um catalogo deles e todos me parecem ameaçados: sou heterossexual «full time»; fumo, incluindo charutos; bebo; como coisas como pézinhos de coentrada, joaquinzinhos fritos e tordos em vinha d'alhos; vibro com o futebol; jogo cartas, quando arranjo três parceiros para o «bridge» ou quando, de dois em dois anos, passo à porta de um casino e me apetece jogar «black-jack»; não troco por quase nada uma caçada às perdizes entre amigos; acho a tourada um espectáculo deslumbrante, embora não perceba nada do assunto; gosto de ir a pesca «ao corrido» e daquela luta de morte com o peixe, em que ele não quer vir para bordo e eu não quero que ele se solte do anzol; acredito que as pessoas valem pelo seu mérito próprio e que quem tem valor acaba fatalmente por se impor, e por isso sou contra as quotas; deixei de acreditar que o Estado deva gastar os recursos dos contribuintes a tentar reintegrar as «minorias» instaladas na assistência publica, como os ciganos, os drogados, os artistas de varias especialidades ou os desempregados profissionais; sou agnóstico (ou ateu, conforme preferirem) e cada vez mais militantemente, na medida que vou constatando a actualidade crescente da velha sentença de Marx de que "a religião é o ópio dos povos»; formado em direito, tornei-me descrente da lei e da justiça, das suas minudencias e espertezas e da sua falta de objectividade social, e hoje acredito apenas em três fontes legítimas de lei: a natureza, a liberdade e o bom senso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trogloditas como eu vivem cada vez mais a coberto da sua trincheira, numa batalha de retaguarda contra um exercito heterogéneo de moralistas diversos: os profetas do politicamente correcto, os fanáticos religiosos de todos os credos e confissões, os fascistas da saúde, os vigilantes dos bons costumes ou os arautos das ditaduras «alternativas» ou «fracturantes». Se eu digo que nada tenho contra os casamentos homossexuais, mas que, quanto à adopção, sou contra porque ninguém tem o direito de presumir a vontade «alternativa» de uma criança, chamam-me homofónico (e o Parlamento Europeu acaba de votar uma resolução contra esse flagelo, que, como está à vista, varre a Europa inteira); se a uma senhora que anteontem se indignava no «Público" porque detectou um sorriso condescendente do dr. Souto Moura perante a intervenção de uma deputada, na inquirirão sobre escutas na Assembleia da Republica, eu disser que também escutei a intervenção da deputada com um sorriso condescendente, não por ela ser mulher mas por ser notoriamente incompetente para a função, ela responder-me-ia de certeza que eu sou "machista» e jamais aceitaria que lhe invertesse a tese: que o problema não é aquela deputada ser mulher, o problema é aquela mulher ser deputada; se eu tentar explicar por que razão a caça civilizada é um acto natural, chamam-me assassino dos pobres animaizinhos, sem sequer quererem perceber que os animaizinhos só existem porque há quem os crie, quem os cace e quem os coma; se eu chego a Lisboa, co&amp;shy;mo me aconteceu há dias, e, a vinte quilómetros de distancia num céu límpido, vejo uma impressionante nuvem de poluição so&amp;shy;bre a cidade, vão-me dizer que o que incomoda verdadeiramente é o fumo do meu cigarro, e ate já em Espanha e Itália, os meus países mais queridos, tenho de fumar envergonhadameme à porta dos bares e restaurantes, como um cão tinhoso; enfim, se eu escrever velho em vez de «idoso», drogado em vez de «toxicodependente», cego em vez de «invisual», preso em vez de «recluso» ou impotente em vez de «portador de disfunção eréctil", vou ser adoptado nas escolas do país como exemplo do vocabulário que não se deve usar. Vou confessar tudo, vou abrir o peito as balas: estou a ficar farto desta gente, deste cerco de vigilantes da opinião e da moral, deste exército de eunucos intelectuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora vêm-nos com esta historia dos "cartoons» sobre Maomé saídos num jornal dinamarquês. Ao princípio a coisa não teve qualquer importância: um «fait-divers» na vida da liberdade de imprensa num pais democrático. Mas assim que o incidente foi crescendo e que os grandes exportadores de petróleo, com a Arabia Saudita à cabeça, começaram a exigir desculpas de Estado e a ameaçar com represálias ao comercio e às relações económicas e diplomáticas, as opiniões publicas assustaram-se, os governantes europeus meteram a viola da liberdade de imprensa ao saco e a sr.ª comissária europeia para os Direitos Humanos (!) anunciou um inquérito para apurar eventuais sintomas de «racismo» ou de «intolerância religiosa» nos cartoons profanos. Eis aonde se chega na estrada do politicamente correcto: a intolerância religiosa não é de quem quer proibir os «cartoons», mas de quem os publica!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Dinamarca não tem petróleo, mas é um dos países mais civilizados do mundo: tem um verdadeiro Estado Social, uma sociedade aberta que pratica a igualdade de direitos a todos os níveis, respeita todas as crenças, protege todas as minorias, defende o cidadão contra os abusos do Estado e a liberdade contra os poderosos, socorre os doentes e os velhos, ajuda os desfavorecidos, acolhe os exilados, repudia as mordomias do poder, cobra impostos a todos os ricos, sem excepção, e distribui pelos pobres. A Arábia Saudita tem petróleo e pouco mais: é um país onde as mulheres estão excluídas dos direitos, onde a lei e o Estado se confundem com a religião, onde uma oligarquia corrupta e ostentatória divide entre si o grosso das receitas do petróleo, on&amp;shy;de uma policia de costumes varre as ruas em busca de sinais de "imoralidade privada», onde os condenados são enforcados em praça pública, os ladrões decepados e as «adulteras» apedrejadas em nome de um código moral escrito há quase seiscentos anos. E a Dinamarca tem de pedir desculpas à Arábia Saudita por ser como é e por acreditar nos valores em que acredita?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não teria escrito nem publicado «cartoons» a troçar com Maomé ou com a Nossa Senhora de Fátima. Porque respeito as crenças e a sensibilidade religiosa dos outros, por mais absurdas que elas me possam parecer. Mas no meu código de valores — que é o da liberdade — não proíbo que outros o façam, porque a falta de gosto ou de sensibilidade também tem a liberdade de existir. E depois as pessoas escolhem o que adoptar. É essa a grande diferença: seguramente que vai haver quem pegue neste meu texto e o deite ao lixo, indignado. É o seu direito. Mas censurá-lo previamente, como alguns seguramente gostariam, isso não.&lt;br /&gt;É por isso que eu, que todavia sou um apaixonado pelo mundo árabe e islâmico, quanto toca ao essencial, sou europeu — graças a Deus. Pelo menos, enquanto nos deixarem ser e tivermos orgulho e vontade em continuar a ser a sociedade da liberdade e da tolerância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 04.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113918366199809529?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113918366199809529'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113918366199809529'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/o-cerco.html' title='O cerco'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113888706565152918</id><published>2006-01-31T13:27:00.000Z</published><updated>2006-02-02T13:31:05.670Z</updated><title type='text'>À deriva</title><content type='html'>1. Infelizmente os vândalos de que fala a direcção do FC Porto existem. Existem em todas as áreas, existem no futebol e existem em todos os clubes. Podem atacar em Touriz ou em Vila do Conde, à facada ou à pedrada. O que os torna particularmente notados no futebol é que o futebol é um movimento de multidões e as multidões são cobardes e primárias. Cada vez são menos os que, por maior que seja a sua paixão clubista, até mesmo irracional, não cedem ao ódio, à bestialidade ou à ordinarice. Os que preferem o espectáculo ao resultado, o relvado aos bastidores, o seu clube honrado do que o seu clube vencedor. Os assaltantes do treinador portista Co Adriaanse, anteontem em Vila do Conde, fazem parte do número daqueles que deveriam ser para sempre banidos do futebol — ou do que eles imaginam que o futebol seja. Além do mais desonraram o FC Porto e criaram um incidente que vem retirar força ao sentimento com que hoje se identifica uma larga maioria de adeptos. Numa sociedade civilizada e democrática, de homens livres e não de cobardes, há outra maneira de discordar ou de emitir as suas opiniões: é dizê-las tranquilamente, sem ofensas nem insultos, e depois assinar por baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Co Adriaanse transformou-se no problema central do FC Porto, num factor de divisão entre direcção e adeptos e num motivo de irritação surda e crescente que acabará por afastar os portistas do Dragão. Por ele e pelo que aconteceu antes dele.&lt;br /&gt;Há pouco mais de ano e meio o FC Porto encerrava a época de 2003/04 talvez como a melhor época da sua vida: campeão europeu em título, admirado pelo mundo inteiro, com um estádio novo espectacular, uma situação financeira que lhe teria permitido o gesto impensável de pôr o passivo a zeros e recomeçar aos poucos a reconstruir uma grande equipa. Se tivesse saído na altura Pinto da Costa teria tido direito a uma estátua de fazer inveja ao defunto Kim Il-sung. Mas preferiu ficar e continuar, chamando a si, como é normal, a responsabilidade da sucessão de Mourinho e de provar que os êxitos não se deveram exclusivamente ao treinador. Um ano e meio depois o balanço é devastador: viu-se envolvido, mal ou bem, na provação do Apito Dourado, viu o clube incapaz, na época seguinte, de defender com brio o título europeu e de nem sequer ser capaz de conquistar o título nacional mais fácil das últimas décadas, tendo visto este ano a equipa nem ao menos garantir o terceiro lugar na fase de grupos da Liga dos Campeões. No novo estádio, onde Mourinho só consentira um empate com o Corunha, viu o FC Porto perder com o Benfica, o Sp. Braga, o Boavista, o Artmedia, etc., não esquecendo os 4-0 do Nacional. Já vai no quarto treinador experimentado e em cerca de 30 novos jogadores contratados em duas épocas e, logicamente, com tal política, e apesar dos larguíssimos milhões recolhidos em transferências irrepetíveis, viu as contas regressarem ao vermelho e tem hoje uma equipa mais cara que a que foi campeã da Europa. O que resta de positivo? Vai à frente do campeonato, com quatro pontos de avanço. Pois sim, mas...&lt;br /&gt;Para começar, não é grande proeza ir à frente do campeonato. O campeonato é o que resta, depois da indecente despedida prematura da Europa, pela primeira vez em 12 anos e com os consequentes prejuízos financeiros. Depois, é o mínimo exigível a quem tem um orçamento para o futebol que é 50% superior a um dos rivais e 100% superior ao do outro. Além de que é uma liderança que tem tudo para ser provisória. Empatou em casa com o Sporting e perdeu com o Benfica — o que terá consequências em caso de desempate. E, das quatro deslocações a Lisboa, já perdeu a primeira e faltam-lhe as mais difíceis. Enfim, e sobretudo, tem um problema chamado Co Adriaanse, em quem neste momento ninguém é capaz de apostar um chavo sobre a sua capacidade de levar a equipa ao título e de regresso à lista dos grandes da Europa.&lt;br /&gt;De início, como se recordarão os meus leitores habituais, fiquei entusiasmado com o futebol exibido pela equipa treinada por Adriaanse: o jogo era espectacular, era aberto, ofensivo, entusiasmante. A única dúvida que manifestei era a de saber se a equipa conseguiria manter aquele ritmo ao longo da época e se acumularia o espectáculo com os resultados, visto que a defesa me parecia bem vulnerável. O resto foram dúvidas pontuais: se o Postiga seria mesmo um número 10 e se não haveria melhor ocupação para o Quaresma que o banco de suplentes. Mas, no essencial, dei a Adriaanse bem mais que o benefício da dúvida. Comecei a oscilar na minha crença depois das derrotas na Liga dos Campeões— com o Rangers, com o Artmedia e com o Inter —, todas elas com uma flagrante dose de responsabilidade por parte do treinador. E mudei de campo de vez quando vi a forma quase científica como ele preparou a derrota com o Benfica. Depois disso, e tal como o grosso dos adeptos e a totalidade dos observadores, limitei-me a ir constatando o total desnorte para que caminhava Adriaanse. Desnorte na forma desastrada e desrespeitosa com que trata jogadores que são símbolos do clube e que lhe deveriam ser essenciais na gestão humana da equipa; desnorte na forma como insiste semanas a fio em jogadores sem capacidade para a primeira equipa, para depois, sem aviso algum, os votar ao total esquecimento; desnorte na forma como tira da equipa, sem justificação compreensível, jogadores que acabaram de fazer um grande jogo e, inversamente, insiste noutros que ninguém percebe porque lá estão; desnorte na preparação dos jogos mais complicados, em que parece nunca saber o que esperar do adversário; desnorte, enfim, no sistema de jogo, que já foi 4x3x3, 4x2x4, 3x4x3 ou 3x3x4. Se alguma palavra pode definir este percurso errático de Co Adriaanse nestes sete meses que leva à frente do FC Porto, é essa: desnorte. Ninguém sabe para onde vai, ninguém sabe se ele sabe para onde vai.&lt;br /&gt;Entretanto, desmantelou por completo a equipa campeã da Europa (não resta um único a titular!), transformou aquilo numa escola de samba com dois argentinos para disfarçar, não consegue mostrar nenhum estilo de jogo nem jogadas rotinadas no ataque ou nas bolas paradas (e só faz treinos à porta fechada!) e, por mais avançados com que jogue ou que experimente, vive miseravelmente dependente da inspiração de Ricardo Quaresma para conseguir chegar a uns golitos de vez em quando. Quanto ao futebol-espectáculo do início da época, bom, só resta mesmo a breve memória de uma coisa que se tornou confrangedora. Pelo que Pinto da Costa tem aqui um sério problema, agravado, ainda por cima, por aquela sua bravata de ter prorrogado o contrato de Adriaanse antes que ele tivesse dado provas de competência. Agora, despedi-lo e aos seus é coisa para custar uns dois ou três milhões de euros— além do reconhecimento público de que, pela quarta vez consecutiva, se voltou a enganar na principal das suas atribuições. Não o despedir é assistir conformado a episódios como o do Jorge Costa e o do Baía (e tentar desviar as atenções com ridículos episódios de desprestigiante guerrilha com José Veiga), é ver talentos em crescimento a serem desperdiçados, mais e mais jogadores a serem contratados, na esperança vã de fazer daquele agrupamento um arremedo de equipa ganhadora, e ter de assobiar para o ar para também ele fingir que não vê os lenços brancos que vão varrendo o coração dos adeptos... antes que, em lugar de lenços brancos, haja cada vez mais e mais lugares desertos nas bancadas do Dragão. No lugar de Pinto da Costa, tudo ponderado, eu sei o que fazia: despedia-o. Porque já deu para ver que não vale a pena esperar por um milagre. Co Adriaanse simplesmente não serve para o lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Também na Luz, este fim-de-semana, se escreveu um capítulo desta mesma história: a arrogância só é perdoável quando é sustentada no mérito por todos reconhecido. De outro modo é apenas a jactância dos que se imaginam grandes (e não me refiro a Ronald Koeman, um senhor, tanto nas vitórias como nas derrotas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 31.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113888706565152918?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113888706565152918'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113888706565152918'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/deriva.html' title='À deriva'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113850382426271598</id><published>2006-01-28T03:00:00.000Z</published><updated>2006-01-29T03:03:44.283Z</updated><title type='text'>Cruel é o tempo</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O “Soares é fixe” de 2006 tornou-se uma caricatura do original&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peço desculpa por começar par me citar, para mais ainda em escrito publicado noutro lado: no “Público”, em Agosto deste ano, no dia seguinte à apresentação publica da candidatura presidencial  de  Mário Soares. Mas às vezes é necessário relembrar o princípio para melhor se fundamentar o final. Escrevi então:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Nao sei que amplos sectores da sociedade terão convencido Mário Soares a esquecer o “bom senso” de que ele próprio falava meses atrás e a lançar-se numa aventura que, tudo o indica, terminará de forma inglória e porá termo, enfim e da forma mais injusta, a um percurso político como não há nenhum outro em Portugal... A candidatura de Soares não vem renovar nem regenerar nada. Pelo contrário, vem dizer às pessoas que não há saída nos anos mais próximos. Não havia necessidade de voltar para nos dizer isto”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contados os votos, domingo passado, devo confessar que, ao contrário de quase todos, o que me surpreendeu, apesar de tudo, foi as coisas não terem acabado ainda pior; momentos houve, durante a campanha, em que temi que Mário Soares ficasse algures na fasquia dos 10%. Mas não era preciso ser grande adivinho para ter percebido desde o início que, com mais ou menos percentagem, o resultado final seria sempre devastador. O que me espantou, sim, é que o célebre “instinto político” de Mário Soares tenha estado totalmente ausente, quando ele anunciou ao país que era o único capaz de evitar “o passeio triunfal de Cavaco Silva” e por isso se candidatava. E revolta-me até que, tal como disse Pacheco Pereira, na hora em que ele precisou de amigos, não tenha havido um único com coragem para lhe dizer que caminhava para o desastre. E que acabaria afinal, como acabou, a tornar certa a vitoria de Cavaco Silva à primeira volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais penoso que tudo foi o sentimento de comiseração que ele inspirou no final da campanha e que de todo não merecia nem vai bem com ele. Vê-lo, abandonado pelo partido que o empurrou para a frente, a percorrer em desespero aldeias, vilas e vilórias, na expectativa absurda de fazer ressuscitar a história e conseguir, por uma última vez, levantar de nenhures a mágica “vaga de fundo" que só existia na sua obstinada cegueira e na sua infanta precipitação de Agosto passado. Vê-lo naquela constrangente procura de quem se lembrasse ainda que “Soares é fixe!”, como um actor sem palco ou um rei sem súbditos, vê-lo naquele espadeirar à toa do debate com Cavaco, tu&amp;shy;do isso foi penoso, tudo isso foi tragicamente inútil. De facto, não havia necessidade alguma.&lt;br /&gt;Na noite das eleições, houve quem falasse da "injustiça” dos Portugueses para com Soares, quem se queixasse dos “atrasados mentais" dos eleitores. O Vasco Pulido, que começou por desancar Soares quando ele se candidatou, acabou a chorar de arrependimento. A Clara Ferreira Alves, no final de um texto de homenagem a Soares que toda agente séria poderia assinar por baixo, terminou a anunciar que “o tempo que vivemos é medíocre, os punhais brilham na sombra de César. É tudo lindo, mas não é disso que se trata e agora já é tarde para lágrimas e lamentos. Não houve punhais nem cizânias, nem traições ou injustiças. Houve simplesmente o tal bom senso, que, tendo desertado de Mário Soares e do seu séquito, foi tranquilamente relembrado pelos destinatários naturais da política, as pessoas, como diz Cavaco Silva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja conveniente lembrar que esta eleição presidencial não foi e não podia ser, nem acessoriamente, um referendo à pessoa de Mário Soares. Não se perguntava aos Portugueses se eles ainda gostavam de Mário Soares, se ainda lhe estavam reconhecidos pelo seu passado e serviços prestados ao país. Se a questão fosse essa, Soares tinha ganho e tinha esmagado. Mas o que se Ihes perguntava era se sentiam uma necessidade imperiosa no regresso de Soares ao poder, tal co&amp;shy;mo ele próprio dizia sentir, para salvação do país. E os Portugueses responderam que não. Obrigado pela disponibilidade, mas não há necessidade. Tão simples quanto isto.&lt;br /&gt;Este desnecessário epilogo na carreira de um grande homem não é virgem, tal como já foi lembrado. Churchill foi definitivamente dispensado pelos ingleses quando, pela terceira vez no pós-guerra, se candidatou a primeiro-ministro e quan&amp;shy;do todos j o imaginavam entretido para sempre a escrever as memórias e a pintar no Funchal ou em Marraquexe. E De Gaulle foi mandado descansar de vez pa&amp;shy;ra Colombey, quando decidiu promover mais um dos cíclicos referendos que gostava de fazer para, como escreveu Jean Daniel, “nos perguntar se ainda gosta&amp;shy;mos dele”. Nenhum perdeu o seu imenso lugar na história pelo facto de a terem encerrado com uma derrota. Mas escusavam de ter amargurado os seus finais de vida com o sentimento de terem sido vítimas de uma ingratidão que, afinal, nunca existiu. E escusavam de nos ter deixado pensar se o poder é mesmo uma adição sem cura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1987, o "Soares é fixe!" correspondia exactamente à ideia daquilo que a maioria dos Portugueses queria de um Presidente da República: que fosse um democrata tranquilo, um homem sem questões pendentes com a liberdade e com a vida, com o país e com o mundo. Alguém que pusesse fim ao longo ciclo das presidências militares e que devolvesse a civilidade, a simplicidade e a naturalidade democrática ao cargo. Soares fez tudo isso, de uma forma natural e exem&amp;shy;plar. Saiu com o aplauso geral e de contas definitivamente saldadas — ele com os Portugueses, os Portugueses com ele. Ou assim pareceu: dez anos depois, a patética tentativa de regresso à cena mostrou que ele, afinal, não tinha as contas salda&amp;shy;das e que, por mais desfiles mundanos de esquerda que tenha feito entretanto e por mais conferências em que tenha estado, não conseguiu ler lucidamente os sinais do tempo que vivemos. O “Soares é fixe!” de 2006 tornou-se uma caricatura do original.Agora, no seu silêncio de Nafarros, deve estar a pensar como é que 50% dos Portugueses preferiram a mensagem de Cavaco Silva e 20% preferiram a de Manuel Alegre — por mais vazia que tenha sido uma e mais confusa a outra. Mas bastaria ter perguntado a um verdadeiro amigo, sem pretensões a cortesão, e ele ter-lhe-ia dito que cruéis não são os eleitores, cruel é o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 28.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113850382426271598?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113850382426271598'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113850382426271598'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/cruel-o-tempo.html' title='Cruel é o tempo'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113847215503189835</id><published>2006-01-24T18:12:00.000Z</published><updated>2006-01-28T18:16:59.543Z</updated><title type='text'>25 Abril sempre!</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Sinto que anda no ar uma atmosfera do antigamente, um projecto subliminar de subversão das regras democráticas do jogo, para regressar aos pacíficos tempos em que o mais forte mandava e os outros obedeciam.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Anteontem, tal como milhões de outros portugueses, fui votar nas eleições presidenciais. Nos últimos 31 anos, desde que vivemos em democracia, nunca deixei de votar. Muitas vezes votei em branco (o mais político e significativo dos votos) mas nunca deixei que os outros decidissem por mim, sem que eu próprio fosse consultado. Esse é o meu direito e simultaneamente o meu dever. Na minha maneira de ver as coisas, quem foge aos impostos e abstém-se nas eleições não tem o direito de se queixar do que quer que seja. A cidadania democrática exige que se cumpram primeiro os deveres e só depois se reclamem os direitos.&lt;br /&gt;Além do mais, gosto dos dias de eleições. Gosto da alegria tranquila dos portugueses nas ruas, daquela sensação de que é um dia especial — o nosso dia, o dia em que somos ouvidos e tudo se decide às claras, em que a opinião de cada um conta exactamente o mesmo que a opinião dos outros. Gosto dessa festa da democracia que se sente no ar, das famílias caminhando para as assembleias de voto, dos fatos domingueiros, dos vizinhos que se encontram para votar e falam-se, como às vezes não se falam durante um ano inteiro. Vivi toda a minha infância e juventude à espera disto e nunca ninguém mais me tirará isto. O meu 25 de Abril.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meio a sério, meio a brincar, costumo dizer que o 25 de Abril só se cumpriu verdadeiramente quando a democracia chegou também ao futebol. Quando, em1978, o FC Porto pôde, enfim, ser campeão e pôr fim ao oligopólio lisboeta do Benfica- Sporting, instalado nos hábitos e cultura do Estado Novo e do País. Nesse dia o país futebolístico democratizou-se também, abriu-se a uma nova fronteira—o Porto e o Norte—a que, mais tarde, se juntou também o Boavista. Não aceitarei em silêncio que ninguém mais me volte a tirar isto. E se hoje o escrevo, tendo como ponto de partida de reflexão as eleições de domingo passado, é porque sinto que anda no ar uma atmosfera do antigamente, um projecto subliminar de subversão das regras democráticas do jogo, para regressar aos pacíficos tempos em que o mais forte mandava e os outros obedeciam. Há umnevoeiro de arrogância reencontrada e subserviência correspondente,um todo-poderoso que atropela as regras, reclama privilégios de autoridade e exige dos outros silêncio, medo e obediência. Sabem a que me refiro: os sinais estão todos aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Perguntava Maló que interesse poderá ter tido um clube como a Académica em emprestar um jogador ao Benfica. O contrário sempre se viu, agora um clube pequeno emprestar um jogador a um grande nunca se tinha visto. Tentemos perceber olhando mais de perto uma história contada com grandes cerimónias e dúvidas silenciadas.Marcel era o melhor jogador da Académica.Em15 jogos tinha marcado nove dos 14 golos da equipa. Depois dele julgo que a Académica não voltou a marcar. Custou caro aos estudantes, em Julho passado, e tinha uma cláusula de rescisão de 3,5 milhões de euros. Quinze dias antes do jogo como Benfica deixou de comparecer no clube, com quem tinha contrato válido e, que conste, salários em dia e nenhum motivo de conflito. No dia seguinte ao jogo com o Benfica, a que não compareceu, apresentou-se na Luz, como novo reforço benfiquista e declarando que tinha sido contactado «oficialmente» pelo Benfica... 15 dias antes — ou seja, exactamente quando desapareceu de Coimbra. Já José Fonte, do Vitória de Setúbal, tinha feito semelhante: rescindiu unilateralmente com o Vitória na véspera do jogo com o Benfica e apareceu na Luz, como novo reforço, no dia seguinte ao jogo. E ambos confessando-se benfiquistas desde a infância. Transparente.Mas o negócio de Marcel é, de facto, curioso. A Académica ficou sem ele, teve de ir ao mercado comprar um substituto e não viu um tostão do Benfica pelo negócio. Foi emprestado, com direito de opção em Julho próximo. Quer isto dizer que, mesmo que o Benfica pague a totalidade dos seus salários até Julho, a Académica só pode sair a perder do negócio: ou o Benfica o devolve em Julho, porque não gostou dele, ou exerce o direito de opção, mas de certeza que por menos que os 3,5milhões, porque nessa altura tanto o Benfica como o jogador estarão numa posição de força privilegiada (e que agora já demonstraram) para forçar o desconto que quiserem. Que ganhou a Académica? E, se cair na II Divisão (como caiu o Estoril no ano passado, depois de ter sido forçado ao negócio da troca de campo no jogo com o Benfica), quanto lhe terá custado o voo de rapina da águia?Veja-se o Vitória de Setúbal: já sofreu tantos golos em três jogos sem o Moretto como os que tinha sofrido em 15 com o Moretto. E foi forçado a vendê-lo tão barato que o próprio presidente do Benfica se comoveu e decidiu acrescentaruma gorjeta ao preço pago (?). E o patético Chumbita ainda se prestou a uma coisa inédita, que foi participar na cerimónia de apresentação do jogador aos sócios do Benfica. Agora a única esperança de viabilidade do Vitória é esperar que o Governo aprove um projecto de urbanização que é uma vergonha pública mas permitirá salvar um clube que está falido por actos de gestão como este.Este fim-de-semana, pelo menos, houve uma alteração de métodos. Na véspera de jogar com o Gil Vicente o Benfica não tratou de seduzir ou desviar nenhum jogador do adversário (não havia nenhum que o justificasse): desta vez limitou- se a prometer que, depois do jogo, lhe emprestaria dois jogadores. Uns cavalheiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Em Braga, quando se viu derrotado, Nuno Gomes sugeriu por gesto explícito que os adversários estavam drogados. O País inteiro viu na televisão e percebeu a mensagem. Na Figueira da Foz, contra a Naval, Co Adriaanse terá exclamado para dentro do campo «é falta!», a propósito de uma jogada qualquer. Ninguém viu nem ouviu, excepto o árbitro. Nuno Gomes levou de castigo 450 euros de multa; Co Adriaanse levou dois jogos de suspensão. Que falta que têm feito este ano as cotoveladas do McCarthy! Desde que ele recolheu os cotovelos, já repararam que nunca mais houve uma cotovelada no futebol português? Anda tudo tão santinho que até um tipo dizer «é falta!» é considerado uma ofensa grave...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Mas, à falta de cotovelos portistas, temos mãos. Uma abundância de mãos, de adversários benfiquistas. Encomendei uma sondagem à Euroteste: nos últimos 30 jogos da Liga (o que abrange também a parte final do campeonato do ano passado), 90 por cento das mãos ou supostas mãos sancionadas dentro das áreas resultaram em penalties a favor do Benfica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. O campeonato está na sua fase decisiva, em que quem se destacar agora tem todas as possibilidades de já não ser alcançado. Sábado joga-se o Benfica-Sporting, domingo o Rio Ave- FC Porto. Pois foi justamente nesta altura que a FPF engendrou um acontecimento chamado Torneio Vale do Tejo, em que a Selecção B de Portugal (uma coisa que nem sabíamos que existia) vai ter de defrontar, entre quarta e sexta-feira próximas, umas obscuras selecções do Leste. Convocados para este importantíssimo torneio estão quatro jogadores do Sporting, todos eles titulares habituais, e cinco do FC Porto, entre os quais o decisivo Ricardo Quaresma. Do Benfica... nenhum. Segundo explicou o seleccionador, o Manuel Fernandes, por exemplo, «está debilitado fisicamente e nos próximos tempos nem sei se posso contar com ele». Será o mesmo Manuel Fernandes que, no sábado passado, jogou a partida inteira contra o Gil Vicente?Que torneio irão inventar na semana do Benfica-FC Porto — o Torneio Segunda Circular ou o Torneio Benfica Campeão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 24.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113847215503189835?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113847215503189835'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113847215503189835'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/25-abril-sempre.html' title='25 Abril sempre!'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113806132058663708</id><published>2006-01-20T00:06:00.000Z</published><updated>2006-01-24T00:08:40.600Z</updated><title type='text'>Desta vez é a sério</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;As “nações indispensáveis” não se podem dar ao luxo de ser chefiadas por incompetentes.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há três anos, muitos quiseram acreditar que os Estados Unidos falavam verdade quando agitavam a ameaça das armas de destruição maciça de Saddam Hussein, para justificar uma guerra de invasão e ocupação do Iraque. Excepção feita ao derrube do regime — o mais fácil de consumar — os Estados Unidos perderam a Guerra do Iraque em todos e cada um dos seus objectivos: não conseguiram justificar a guerra encontrando armas ou vestígios de tal, não pacificaram o país, não o democratizaram nem desenvolveram, não fizeram baixar os preços do petróleo, não melhoraram as relações do Ocidente com o mundo árabe e muçulmano e, pior do que tudo, longe de domesticarem o terrorismo, ocuparam o Iraque — onde não existia, como se provou, qualquer ligação ao terrorismo islâmico — e transformaram-no no território por excelência do recrutamento, treino e aplicação diária do ter&amp;shy;ror pregado pelos “mullahs” e pelo estado-maior da Al-Qaeda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas num plano a Administração Bush conseguiu ganhar previamente a guerra: no plano da opinião publica americana e mundial. Fê-lo através da contribuição decisiva de uma plêiade de jornalistas, analistas e intelectuais, para quem o sim&amp;shy;ples facto de contestar ou por em duvida as verdades e as prioridades proclamadas pelo Império constitui crime de capitulação. Um Presidente, cuja pública e notável ignorância, acrescida da correspondente arrogância dos ignorantes, deveria ter constituído motivo suficiente para duvidar da sua competência à frente dos destinos daquela a que a ex-secretaria de Estado Madeleine Albright chamou um dia “a nação indispensável”, conseguiu conquistar afinal o concurso de uma quantidade determinante de gente pensante — tão mais conquistada para a no&amp;shy;va cruzada quão mais esquerdista e anti-americano tinha sido o seu passado; por todos, Durão Barroso.&lt;br /&gt;Eles desprezaram voluntariamente todas as dúvidas pertinentes, todas as informações contraditórias, todos os relatórios que não confirmavam, acerca do Ira&amp;shy;que de Saddam, as verdades americanas. A tudo responderam com o estafado argumento de Munich e Chamberlain. Ho&amp;shy;je respondem com o estafado argumento de que não sabiam. Não sabiam que Colin Powell aceitou mentir perante o Conselho de Segurança da ONU, que os servi&amp;shy;ços secretos americanos e ingleses receberam instruções para exagerarem as informações sobre a ameaça nuclear iraquiana e apagar dos relatórios tudo o que a contradissesse, que Bush era capaz de mentir “olhos nos olhos” e que Blair era capaz de Ihe cobrir o jogo para melhor torpedear a Europa. Mas a questão não era de saber ou não saber (houve mesmo quem aqui tivesse usado o argumento invertido de que não era possível saber se Saddam tinha ou não armas de destruição maciça sem invadir o Iraque para o apurar). A questão era a de aceitar que se desencadeasse uma guerra no Médio-Oriente, à revelia das Nações Unidas e do direito internacional, em nome de uma suposta ameaça não provada. E a de saber o que se faria depois de derrubado Saddam — em particular, o que se fa&amp;shy;ria se, afinal, como veio a suceder, conquistado o Iraque, não fossem descobertos silos nucleares enterrados no deserto nem ninhos de terroristas arregimentados pela Al-Qaeda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É pena que não tenham respondido previamente a essas interrogações e dúvidas mais do que legitimas, porque agora estariam em boa posição para serem escutados na resposta a pergunta que hoje se coloca: o que fazer com a ameaça, esta real e premente, do programa nuclear do Irão dos “ayahtollas”e do desvairado Mahmud Ahmadinejad? Se não tivessem estendido o tapete para que George W. Bush tivesse tido a sua guerrazinha, que o seu desonroso passado militar e a sua absoluta falta de ideias de política interna ou externa tanto necessitavam, hoje seria mais fácil explicar às Nações Unidas, a Rússia, a China, ao mundo árabe e a opinião publica ocidental que a ameaça do Irão é para ser levada a serio e para ser enfrentada — como foi, há quinze anos, a ameaça de Saddam sobre os países do Golfo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a verdade é que a perspectiva de um Irão nuclear e agressivo existe e representa o pior pesadelo de um “Esta-do-pária”, desligado da obediência à lei internacional e dotado das armas capazes de o transformar em factor de destabilização e terror permanentes. E, perante este “clear and present danger”, os Es&amp;shy;tados Unidos não têm capacidade militar de policiamento, os dirigentes ocidentais não têm armas de resposta, tirando as definitivas, e a opinião publica não é facilmente mobilizável para a necessidade de a resposta à ameaça poder chegar ao ponto de uma guerra preventiva de autodefesa. Tudo por causa da aventura trágica e estúpida do Iraque. Porque as “nações indispensáveis” não se podem dar ao luxo de ser chefiadas por incompetentes. E as “nações menos indispensáveis” não podem acriticamente tolerar uma liderança incompetente e depois esperar que tudo corra pelo melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há guerras legitimas e ilegítimas e a única coisa que distingue umas das outras é a sua necessidade e inevitabilidade. Era necessário correr com Saddam do Koweit, em 91, e por termo à sua fatal escalada subsequente, e essa necessidade tornou-se uma inevitabilidade militar, quando ficou evidente que nenhuma outra via funcionaria. Era inevitável e necessário perseguir a Al-Qaeda até ao Afeganistão, depois das Twin Towers. Não era necessário nem inevitável a guerra aérea “suja” sobre os céus de Belgrado a pretexto do Kosovo, nem era necessária ou inevitável a invasão do Iraque. Nem tudo o que Washington decide tem de ser aceite pelos seus aliados naturais. E, aliás, a historia ensina-nos que os Estados Unidos só respeitam os aliados com poder de decisão autónoma. Os outros, como nós, usam e desprezam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, eis onde estamos: não se pode ameaçar o Irão com sanções diplomáticas porque isso não Ihes diz nada; não se pode ameaça-los com sanções económicas porque eles respondem com o petróleo; não se pode ameaça-los com o uso da força porque ela teria de ser tamanha e, mesmo assim, de desfecho tão incerto, que não há coragem política nem clima na opinião pública para o fazer. Washington e a Europa estão nas mãos de aliados incertos: a China, que importa 20% do seu petróleo do Irão; a Rússia, que vê com bons olhos a existência de um pais que não faz parte do cerco que os Estados Unidos montaram à sua volta, com a ajuda da NATO e uma perigosa ligeireza. E, enfim, aquele que ninguém ousa nomear em público: o amigo israelita — que, com a conivência e cooperação das potências ocidentais, se transformou no único Estado nuclear do Médio- Oriente. Julga-se que exactamente para situações destas.Vem aí um ano de todos os perigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 20.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113806132058663708?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113806132058663708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113806132058663708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/desta-vez-srio.html' title='Desta vez é a sério'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113768474906433017</id><published>2006-01-17T15:14:00.000Z</published><updated>2006-01-19T15:32:29.080Z</updated><title type='text'>Coisas que acontecem</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;É falacioso dizer-se que uma equipa como a do FC Porto é favorita à partida num campo como o da Reboleira. Não é: se as suas principais armas, que caracterizam a tal superioridade teórica, estão anuladas ab inicio pelas condições físicas do terreno de jogo, não pode ser favorita.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1. Sempre me bati contra uma escola estabelecida na crítica futebolística portuguesa e que consiste em embandeirar em arco de cada vez que um pequeno bate o pé a um grande, independentemente da forma como o consegue. Ora, eu também sempre gostei de ver o David vencer o Golias, mas é preciso que a luta seja leal e não com aspectos de emboscada. Além do mais, e no que ao futebol diz respeito, já não vivemos no tempo em que uns eram profissionais e os outros só tinham direito a uma sanduíche e uma laranjada. Hoje são todos profissionais, os métodos de treino são conhecidos e copiados e em aspectos determinantes, como a condição física (que, acima de tudo, depende do trabalho e do sofrimento), nada justifica que um pequeno seja mais fraco que um grande — até porque normalmente têm muito menos jogos disputados e muito menos cansaço e stress acumulados. Se hoje ainda fosse assim uma coisa tão extraordinária ver um pequeno a vencer um grande não faria sentido algum termos um campeonato com 18 equipas.&lt;br /&gt;Mas a generalidade da nossa crítica não pensa assim: olha apenas para o resultado e delira de cada vez que o David empata ou vence o Golias — sobretudo se, no papel de Golias, estiver o FC Porto. O jogo de anteontem na Reboleira foi um bom exemplo disto. A forma como o Estrela derrotou o FC Porto e a forma entusiástica como a crítica saudou esse triunfo são o espelho fiel de uma certa crítica que, a meu ver, transforma em motivo de celebração coisas que caracterizam um futebol subdesenvolvido. Em países de futebol adulto, como a Inglaterra, seria impossível lerem-se críticas como aqui se leram a propósito deste jogo. E, desde logo, porque lá o fundamental é a qualidade do espectáculo e a igualdade de armas. Um campo como o da Reboleira — com dimensões mínimas, relva tipo chapa ondulada, sem espaço nas laterais sequer para marcar um canto em condições — só pode assegurar um mau espectáculo de futebol, porque necessariamente a técnica individual e o aproveitamento dos espaços, que são o bonito do futebol, ficam desde logo anulados. E, assim sendo, é falacioso dizer-se que uma equipa como a do FC Porto é favorita à partida num campo como o da Reboleira. Não é: se as suas principais armas, que caracterizam a tal superioridade teórica, estão anuladas ab inicio pelas condições físicas do terreno de jogo, não pode ser favorita. Pelo contrário, entra em desvantagem, porque vai ter de aprender do zero os truques que aquele terreno impõe e o adversário conhece bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não foi apenas isso que aconteceu na Reboleira. Aconteceu também que houve uma equipa cheia de sorte e outra sem sorte alguma. Não quero com isto tirar o mérito aos jogadores do Estrela, que viram o seu esforço compensado no final. Mas acho que a vitória já foi prémio mais que suficiente para esse esforço; quererem ainda vê-la reconhecida como justa é demasiado e não o justificaram. Vejamos. Desde logo, o Estrela beneficiou de uma coisa de que não teve culpa nem mérito, que foi o regresso de Adriaanse à sua obsessão com o Jorginho, preferindo jogar sem ponta-de-lança só para, uma vez mais, dar uma oportunidade a esse seu protegido, esse fantasma do Jorginho de Setúbal, que vagueia em campo, perdido, descrente, negligente, abúlico, totalmente inútil. Depois, como sucede frequentemente com o FC Porto, no primeiro remate que fez à baliza o Estrela marcou — de livre, que não foi nada evidente, e aproveitando um ressalto na barreira, que mudou por completo a trajectória da bola e apanhou Baía ainda a colocar a barreira. Como se não fosse suficiente, no segundo remate, zás, o Estrela faz o segundo golo — um remate inofensivo que, graças a um ligeiro desvio no lamaçal à frente da baliza, traiu outra vez Baía. Um golo na própria baliza, o outro marcado pelo relvado. A seguir foi um porradão cirúrgico no Quaresma, obrigando-o, como já sucedera em Guimarães, a ficar na cabina ao intervalo (será que temos de lançar a campanha "deixem jogar o Quaresma!"?). Na segunda parte nem sequer se pode falar em domínio do FC Porto e contra ataques do Estrela. O que se viu foi um massacre consumado em 20 metros de campo. O Estrela foi uma única vez à área do FC Porto e jogou largos períodos, não com 11 atrás da linha do meio-campo ou sequer atrás da linha da bola: jogou com 11 dentro da grande área. Escreveu José Manuel Freitas que o Estrela "soube defender muito bem a vantagem conquistada". Discordo completamente: a defesa do Estrela passou toda a segunda parte aos papéis, chutando a bola para onde estavam virados e, às vezes até, uns contra os outros, e o seu guarda-redes deu suficientes baldas para justificar quatro ou cinco golos sofridos. Mas há jogos assim: sucedem-se os milagres e a bola não entra. Veja-se a estatística de A BOLA: oito cantos para o FC Porto, três para o Estrela; dezassete remates para o FC Porto, sete para o Estrela; 21 faltas cometidas pelo FC Porto, 33 pelo Estrela. Imaginem que a estatística era ao contrário, que tinha sido o FC Porto a passar metade do jogo metido dentro da sua área e o Estrela a falhar golos, e que o resultado tinha sido o oposto: alguém teria escrito que a vitória do FC Porto era justa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Desigual, desigual, é a competição entre o Benfica e a Académica: aí é que se tornou bem visível o que pode um grande e o que tem de aceitar um pequeno. Com o seu melhor avançado previamente seduzido pelo Benfica, a Académica teve de aceitar passivamente a sua deserção dos treinos e do próprio jogo contra o futuro patrão. Sem Marcel, a Académica foi à Luz para, nas palavras do seu presidente, ser vítima de um árbitro que foi «um verdadeiro artista a construir o resultado». E, destroçado com o que todos tínhamos acabado de ver, desabafou ele que «não é fácil lutar contra tantas forças. Parece que, em vez de procurar avançados, vale mais procurar as pessoas certas para construir os resultados». Mas no fim do jogo, segundo antecipavam os jornais, o homem teve de se sentar à mesa a negociar o Marcel com aqueles mesmos de quem se queixava. Eis a lei do mais forte no seu esplendor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 17.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113768474906433017?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113768474906433017'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113768474906433017'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/coisas-que-acontecem.html' title='Coisas que acontecem'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113729396808587497</id><published>2006-01-14T02:55:00.000Z</published><updated>2006-01-15T02:59:28.103Z</updated><title type='text'>Só mais uma semana</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O desfecho do dia 22 vai ser o mesmo que já se adivinhava há três meses, há seis meses, há um ano, ou há dez anos: Cavaco Silva ganha. &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A primeira conclusão a extrair destas presidenciais é que a campanha é desnecessariamente longa. Parece impossível, mas ainda falta uma semana para acabar, quando já nada, rigorosamente nada, permanece por di&amp;shy;zer, explicar ou compreender. Estamos em campanha eleitoral praticamente desde o Verão, num desperdício de tempo, energias e dinheiro para os candidatos e saturação para os eleitores. Mas, enfim, eles lá sabem porque tem de ser assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda conclusão é que, a fazer fé nas sondagens, não obstante a extensão da campanha e os esforços conjugados de quatro candidatos de esquerda (peço desculpa, mas não levo a sério as crónicas candidaturas de Garcia Pereira a eleições de toda a espécie), o desfecho eleitoral do dia 22 vai ser o mesmo que já se adivinhava há três meses, há seis meses, há um ano ou há dez anos: Cavaco Silva ganha. E ganha à primeira volta — o que significa que vai ter, não só os votos do centro e da direita, mas também parte dos votos da esquerda: talvez um terço dos votos socialistas e outro tanto dos votos comunistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Independentemente do desfecho real, é justo dizer que Cavaco fez a melhor campanha, tendo em vista o resultado fi&amp;shy;nal pretendido. Enquanto que os outros, particularmente o Partido Socialista e Mário Soares, fizeram o que podiam pa&amp;shy;ra Ihe facilitar a vitória. Ao contrario do que se possa dizer, não penso que a cam&amp;shy;panha de Cavaco Silva fosse fácil de gerir. A vantagem com que ele partia — fruto de ser o único candidato natural e assumido de há muito, com ou sem o jogo do “tabu”, que Ihe é tão a peito — era uma vantagem que também, naturalmente, só poderia ir-se diluindo ao longo da campanha (por isso mesmo é que ele entrou em campanha tão tarde quanto pode). Porque não tem talento para os deba&amp;shy;tes nem vocação para o contraditório, porque não tem ideias claras ou conhecidas sobre Portugal, a Europa ou o mundo, porque não tem a-vontade nos contactos de rua nem nenhuma qualificação específica para essas funções de contornos constitucionais fluidos que são as de Presidente da Republica — tal como a elas nos habituaram Soares e Sampaio. O essencial da sua estratégia era, pois, um exercício diário de controlo de danos. E Cavaco saiu-se na perfeição. Depois de dois meses a ouvi-lo diariamente, sabemos o mesmo das suas intenções ou vocação presidencial que sabíamos antes, mas, em contrapartida, vimos um políti&amp;shy;co que, há dez anos, deixara uma imagem de autoritarismo e arrogância, revelar insuspeitos dotes de contenção e humildade. E isso foi particularmente evidente na forma como aceitou e enfrentou todos os debates, com todos os candidates e, sobretudo, o debate final, em que Soa&amp;shy;res perdeu as estribeiras e Cavaco arrostou com todas as provocações, em pose de estadista e de Presidente. Quando o fundo da discussão era a “estabilidade” que cada um poderia garantir ao pais, Ca&amp;shy;vaco Silva limitou-se a aproveitar serenamente o “hara-kiri” do adversário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã disputaram, obviamente um campeonato à parte. O primeiro explorou, uma vez mais, a sua simpatia. É, de facto, uma pessoa de uma simpatia desarmante, o tipo de pessoa com quem apetece ir almoçar e ficar horas à conversa. Não sei durante quanto tempo é que "o colectivo” vai achar graça a isto, mas, por enquanto, Jerónimo de Sousa representa toda a margem de progressão do PCP fora do seu eleitorado cativo. Francisco Louçã revelou-se, para mim, uma agradável surpresa. Foi, de longe, o melhor e o mais bem preparado candidato nos debates e, so&amp;shy;bretudo, abandonou a sua habitual e insuportável pose de pregador evangélico da esquerda e foi capaz de conduzir uma campanha sem as habituais ideias prontas-a-vestir, tão caras à "esquerda “Lux-Bairro Alto”. Merece, sem dúvida, ultrapassar a fatídica barreira político-financeira dos 5%.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manuel Alegre também foi um caso à parte: era muito melhor candidato do que a campanha que fez. As sondagens dão-no agora, e contra todas as expectativas, a recuperar o segundo lugar que parecia ter perdido definitivamente para Má&amp;shy;rio Soares, e, ele próprio, animado pela reversão das sondagens, parece ter ganho novo fôlego. Mas, ou muito me engano, ou já é tarde para recuperar dos erros cometidos e forçar o que seria uma impensável segunda volta. Começou muito bem, na forma como lançou a sua candidatura, na forma como soube ler os "sinais do tempo" — esse descontentamento dos eleitores com o sufoco partidário, esse desnorte do país perante coisas essenciais, como a forma de fazer política, o horizonte de viabilidade e a própria identidade nacional. Mas não soube traduzir esses sinais e essa leitura num discurso coerente e continuado, que mostrasse às pessoas que resultava de ponderação antiga e não de circunstâncias do momento. Percebeu que havia um “no man's land” por explorar, mas não soube atravessá-lo. Sentiu os eleitores, mas não conseguiu que eles o sentissem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, enfim, Mário Soares. A sua tarefa, à partida, era simultaneamente simples e tremenda: conseguir explicar porque estava de volta, quando ninguém conseguia entender a necessidade para tal. Falhou em toda a linha, e falhou logo desde o constrangedor discurso de apresentação da candidatura, em que, das marchas con&amp;shy;tra a Guerra do Iraque, passando pela sua preocupação com os homossexuais, não houve nada a que não recorresse pa&amp;shy;ra nos garantir que continuava “vivo, activo e moderno". A campanha, todavia, mostrou-nos   um   candidato obcecado com o passado — e particularmente com o passado de Cavaco Silva — e que, quanto ao futuro, apenas nos jurou que, em Belém, nada iria fazer porque nada podia fazer. E assim todos poderíamos dormir descansados.Claro que eu também admiro a vitalidade e a paciência de Mário Soares, pela enésima vez em campanha por todas as feiras e boticas deste país, escutando as queixas de sempre da mesma gente de  sempre.  Mas,  com  franqueza,  não acho que o esforço faça sentido nem que o espectáculo seja exultante. Seguramente que, tendo Mário Soares enterrado o seu "basta de política", haveria melhores oportunidades em que aproveitar o seu mérito e disponibilidade ao serviço do país. Estamos a falar de quem foi o melhor Presidente da Republica da democracia portuguesa, de quem contribuiu decisivamente para que tivéssemos a liberdade e a Europa, de quem é ainda o   português mais prestigiado no estrangeiro. Mário Soares merecia ter tido melho&amp;shy;res amigos, na hora em que precisou de conselheiros e só encontrou cortesãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 14.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113729396808587497?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113729396808587497'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113729396808587497'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/s-mais-uma-semana.html' title='Só mais uma semana'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113702611936223859</id><published>2006-01-10T00:30:00.000Z</published><updated>2006-01-12T00:35:19.386Z</updated><title type='text'>Ilusões, aparências e farsas</title><content type='html'>1. Tenho de voltar a este assunto sórdido. Doía-me a alma se o não fizesse. Seis profissionais de uma actividade a que chamam segurança, fardados como tal e presumivelmente a mando do Sr. José Veiga, director do futebol do SL Benfica, fizeram uma espera no aeroporto da Portela a um passageiro, acusado de ter incomodado ("empurrado") o presidente do Benfica no aeroporto de S. Paulo e, perante os jornalistas, televisões e agentes da PSP, provocaram-no e enfiaram- lhe uma estalada como aviso. Ele encaixou a estalada e, por isso, a coisa ficou por aí. Foi um episódio verdadeiramente siciliano, revelador de várias coisas incontornáveis, tais como uma atitude de impunidade, de sobranceria, de quero, posso e mando que, por si só chegou e bastou para revelar a uma outra luz a face de alguns cavalheiros regeneradores da selva do futebol português. Com honrosas excepções, seguiu- se, na nossa imprensa desportiva, a tentativa de branqueamento do episódio. E nada melhor para tal do que a batota de meter no mesmo saco um facto e um não facto. O facto era a agressão encomendada por alguém que manda no Benfica; o não facto, a imaginativa encenação de atribuir o suposto empurrão ao presidente do Benfica no aeroporto de S. Paulo a um emissário do FC Porto. Mas se o primeiro episódio foi visto, fotografado e filmado por todos, se os seguranças contratados acompanhavam um director do Benfica, já o segundo episódio tem como testemunha, intérprete e acusador apenas e só o próprio presidente do Benfica. Quando eu estudei jornalismo, aprendi que tal era manifestamente insuficiente para se transformar em facto. Mas, à conta desta mais do que forçada semelhança de factos, atitudes e responsabilidades, escreveram-se pungentes textos moralistas, em que o visto e o não visto, o real e o imaginário, se equivaliam até ao desejado ponto de poder legitimar os acontecimentos do aeroporto de Lisboa com os supostos acontecimentos do aeroporto de S. Paulo, fácil e expeditamente atribuídos à terrível gente do FC Porto. E assim, não se dispensando de extrair uma condenação de princípio sobre o assunto, preservou- se cuidadosamente a figura de intocável do presidente do Benfica e do seu Richelieu de serviço. Quando Luís Filipe Vieira surgiu à frente dos destinos do maior clube português, não fiz cerimónia em elogiar aqui, e mais do que uma vez, o que me parecia ser uma postura de humildade, trabalho e empenho em defesa dos interesses do seu clube e até do futebol, em geral. Mas, com o correr do tempo, e em especial desde que se associou intimamente a José Veiga, venho notando que, se o trabalho e esforço pelo Benfica se mantêm e só lhe ficam bem, já a sua contribuição para a melhoria do futebol português cedeu lugar a uma atitude de hegemonia extradesportiva e prepotência entre pares, que sepultou de vez a elogiada humildade. Embriagado por uma imprensa que lhe dedica um verdadeiro e ridículo culto de personalidade, Luís Filipe Vieira parece-me estar a resvalar para próximo da fronteira onde acabará por achar que tudo lhe é lícito, impune e elogiado, apenas porque é presidente do maior clube português. Oxalá, digo-o sinceramente, seja só uma impressão minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Realmente, e para terminar o rescaldo do palpitante episódio Moretto, Pinto da Costa tem razão na pergunta que fez e que permanece sem resposta: se o Moretto só queria ir para o Benfica, se Chumbita Nunes só queria que ele fosse para o Benfica e se mantinha contrato válido com o Setúbal, que necessidade havia de ir ao Brasil raptá-lo das garras do FC Porto? Porque não esperar tranquilamente que ele regressasse a Setúbal e assinar então contrato com ele? É verdade que não produzia o mesmo efeito espectacular para enganar parolos, mas era mais simples, mais lógico e, sobretudo, mais revelador das verdadeiras intenções negociais de Moretto - (hoje, tal como Marco Ferreira, benfiquista desde pequenino).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Abandonados à sua sorte, os futebolistas profissionais do Estoril-Praia lamentaram que o “accionista principal” (com 60% das acções) não tenha aparecido na hora da verdade, a dar a cara e a responsabilizar- se pelos vários meses de salários em atraso. E porque não apareceu o accionista principal? Porque ele supostamente não o é nem pode sê-lo. Trata-se do Sr. José Veiga, dirigente do Benfica e que, pelos estatutos da Liga, não pode acumular as duas funções e, por isso mesmo, foi dito e anunciado, há mais de um ano, que tinha deixado de as acumular. Afinal, parece que não. Mas, entretanto, já lá vai o célebre jogo deslocado da Amoreira para o Estádio do Algarve e que tanto jeito deu para o título do ano passado. O tal jogo que, a troco da batota desportiva, iria servir justamente para pagar os ordenados aos jogadores do Estoril. Francamente, também, já começam a ser coincidências a mais: onde há ordenados em atraso, aparece sempre o Benfica a tirar partido da situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. 53.000 espectadores na Luz, 42.000 no Dragão, é notável — em contraste com os 14.000 de Braga (a ganância dos bilhetes a 50 euros paga-se e é bem feito). Mesmo assim, juntando estes três números aos resíduos das restantes assistências da 17.ª jornada da Superliga, pode-se dizer que a média andou pelos 15.000 por jogo. Seria reconfortante se a estatística não fosse uma ciência morta. Neste caso, o que a estatística não explica mas confirma é que só temos três ou quatro clubes com sustentação popular para disputar uma primeira divisão. É triste, mas é um facto, que deveria servir de ponto de partida a qualquer reflexão séria sobre a inadiável reforma dos quadros competitivos do futebol profissional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Notável também que, em todos os jogos envolvendo os primeiros da classificação, não tenha havido um só caso de arbitragem. É verdade que Carlos Brito, lá de baixo do banco, viu um penalty que, posso-lhe garantir que, lá de cima da bancada ninguém viu — pelo menos na área do FC Porto. E a dualidade de critério disciplinar de que ele fala, existiu sim, mas a favor do Boavista e, particularmente de Tiago, um jogador que parece ter como principal prazer no futebol distribuir cacetada pelos adversários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 10.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113702611936223859?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113702611936223859'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113702611936223859'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/iluses-aparncias-e-farsas.html' title='Ilusões, aparências e farsas'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113668776704676307</id><published>2006-01-07T02:33:00.000Z</published><updated>2006-01-08T02:36:07.063Z</updated><title type='text'>Sobreviverá Portugal depois de 2013?</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Os nossos males estão sobejamente diagnosticados e todos os conhecemos: não produzimos, não valorizamos o mérito, não corremos riscos.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Em 1006, e pelo sexto ano consecutivo, vamos divergir da União Europeia — isto é, vamos crescer menos do que a Europa à qual pertencemos. Segundo as previsões do Banco de Portugal, vamos crescer 0,8%, ter uma taxa de inflação no mínimo de 2,5% e o desemprego vai aproximar-se dos 8%. Esqueçam todas as desculpas “exteriores”, relativas aos preços do petróleo ou aos custos da globalização: entre os 25 membros da no&amp;shy;va União, ninguém vai crescer menos do que nós. Somos os piores dos 25. A culpa é nossa e chegou a altura de o encararmos. Temos os piores trabalhadores, os piores empresários, o pior Estado. Nada funciona como devia e como seria minimamente exigível: na Saúde, na Educação, na Justiça, na Economia, na Administração Pública. De Chipre à Irlanda, do Mediterrâneo ao mar do Norte, não há ninguém tão mau como nós. Não se trata de pessimismo nem de derrotismo, e apenas uma constatação de facto. Falhamos tudo, somos o país mais falhado de todos os 25 que compõem a actual União Europeia, após vinte anos de ajudas dos contribuintes alemães, belgas, franceses, holandeses, etc. Recebemos o dinheiro deles e fizemos nada: uns quilómetros de auto-estradas, umas fraudes agrícolas e outras tantas na suposta formação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, e saudado como grande vitoria negocial, que é, vamos dispor, a partir de 2007 e ate 2013, de novo Quadro Comunitário de Apoio, que, em moeda antiga, nos garante cerca de 1,8 milhões de contos por dia. Não o merecemos, mas tivemo-lo. Bem vistas as coisas, talvez fosse melhor que Bruxelas nos tivesse fechado a torneira e nos deixasse entregues a nós próprios. Seria sangue, suor e lágrimas, mas, quem sabe, teríamos afinal encontrado uma restia de orgulho e combatividade para sobreviver. Assim, é de temer mais do mesmo: um Estado autofágico, empresários subsidiados pelos contribuintes, sindicatos do século XIX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os nossos males estão sobejamente diagnosticados e todos os conhecemos: não produzimos, não valorizamos o mérito, não corremos riscos. Os sindicatos defendem os que têm emprego seguro até à eternidade contra os que não têm empre&amp;shy;go; os patrões apostam no Estado clientelar contra o mercado livre; o Estado defende o carreirismo e a filiação partidária contra o mérito e a independência. Um país assim só pode ser um país falhado. Se nada mudar radicalmente, nos vamos ser um país falhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguemos em dois exemplos próximos. Domingo, 1 de Janeiro, arrostando com filas de trânsito e arriscando acidentes, tive de tratar do regresso do meu filho mais novo a Lisboa, porque no dia seguinte abriam as aulas no ensino público e no liceu central onde estuda e onde se imagina que todos os professores públicos gostariam de estar colocados. Das cinco aulas marcadas para segunda-feira, teve uma; das quatro marcadas para terça, teve outra: todos os restantes profes&amp;shy;sores estavam de “baixa”. Ou seja, prolongaram as férias que nós não tivemos por&amp;shy;que acreditamos que o seu compromisso com a reabertura das aulas era para levar a sério. E, todavia, o Sindicato dos Professores quer-nos fazer crer que a profissão é tão violenta que não aguentam trinta e cinco anos até à reforma, mesmo que, em alguns casos, um terço dos trinta e cinco anos tenha sido passado de “baixa”. Segundo exemplo: temos a energia cara demais para as empresas, o que, como é óbvio, constitui um factor altamente agravante nos índices de produtividade. Poupa-se nos salários o que se gasta em energia. Mas a energia é quase monopólio da EDP e a EDP era uma empresa pública até terem decidido privatizá-la, dizendo-nos que, como os privados são mais eficientes, iríamos ter melhor e mais barato fornecimento. Erraram ou mentiram: tal como já sucedera nos telefones fixos, passamos a ter pior serviço e electricidade mais cara (para o ano, os aumentos vão mesmo deixar de estar limitados a taxa de inflação). Antes da privatização, a EDP dava prejuízo, mas assegurava uma ener&amp;shy;gia barata para os consumidores. Agora, privatizada, dá lucro: 440 milhões de eu&amp;shy;ros em 2004, e ainda mais esperados em 2005. Não é talvez possível que as empre&amp;shy;sas públicas, actuando em sectores que asseguram serviços básicos, possam manter preços políticos e perder dinheiro sistematicamente. Mas também não é inevitável que devam ser privatizadas, passando a disparar os preços para os consumido&amp;shy;res e os lucros para os accionistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, surge este inexplicável episoódio do Cavalo de Tróia espanhol da Iberdrola, tentando entrar na EDP pela mão do ex-ministro socialista Pina Moura, vulgo “O Cardeal”, e vemos que o Estado, o maior accionista da EDP, com cerce a de 30%, encarrega o presidente do BCP, dr. Paulo Teixeira Pinto, da escolha do próximo presidente da empresa. E, como seria de esperar, eles preparam-se para escolher alguém com provas dadas de ser capaz de servir em qualquer governo "cen&amp;shy;tral", qualquer agenda oculta de patrões privados e a favor de quaisquer oportunidades de negocio. Uma “arma de aluguer”, ao serviço dos ditos accionistas pri&amp;shy;vados, e que se lixem os consumidores e o interesse público!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como a Ota e o TGV: ninguém ain&amp;shy;da conseguiu explicar direito a lógica de interesse público, de rentabilidade económica ou de factor de desenvolvimento. Mas todos vimos nas faustosas cerimonias de apresentação dos projectos, não apenas os directamente interessados — os empresários de obras públicas, os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos — mas também flutuantes figuras representativas dos principais escritórios da advocacia de negócios de Lisboa. Vai chegar pa&amp;shy;ra todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes Portugueses. Não há nada pior e mais perigoso do que a relação dos socialistas com o grande dinheiro: são saloios, deslumbrados e complexados. E o grande dinheiro agradece e aproveita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá dentro, no "inner circle” do poder — político, económico, financeiro —, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre. Jogando com o que resta do património público, com o dinheiro que receberemos ate 2013. Cá fora, na rua e frente a eles, estão os que acreditam que nada pode mudar, mude ou não mude o mundo. Sobreviveremos depois disso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 07.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113668776704676307?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113668776704676307'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113668776704676307'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/sobreviver-portugal-depois-de-2013.html' title='Sobreviverá Portugal depois de 2013?'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113651016523797389</id><published>2006-01-03T01:08:00.000Z</published><updated>2006-01-06T01:16:05.253Z</updated><title type='text'>Há Moretto na costa</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Como disse Luís Filipe Vieira, as cenas que o país teve ocasião de ver ontem pela televisão ficarão para a história do futebol português&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1. Saí de Lisboa ontem, manhã muito cedo, e confesso que não sei como terminou o affaire, mas, segundo a imprensa de ontem, o presidente do Benfica, depois de uma viagem relâmpago ao Brasil, preparava-se para desembarcar à mesma hora na Portela, trazendo nos braços o ansiado Moretto. Dado há várias semanas como certo no Benfica, o guarda-redes sensação do Vitória de Setúbal não estava afinal tão bem controlado que tenha dispensado o incómodo de obrigar o infatigável Luís Filipe Vieira a passar o réveillon a bordo de um avião para S. Paulo com regresso no mesmo dia. Conforme relatavam os três diários desportivos de ontem (que abordavam o assunto como se da conquista de um título se tratasse), ao fim da manhã, Vieira iria apresentar a sua conquista aos sócios. E isto, depois de uma história que me pareceu muito mal contada e que terá metido uns emissários brasileiros do FC Porto (?) que, em pleno aeroporto de Cangonhas terão empurrado o presidente do Benfica e tentado evitar o embarque do messias Moretto (quem quiser que acredite...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Benfica entra assim em 2006 com esta grande conquista que é o Moretto, sem dúvida um bom guarda-redes, embora haja, como ele irá descobrir, uma imensa diferença entre ser bom guardaredes num clube pequeno, onde nunca faltam as oportunidades para brilhar em defesas aparatosas, ou sê-lo num clube grande, onde se pode chegar a passar um jogo inteiro no frio e na solidão e de repente é preciso evitar o golo numa saída aos pés de um adversário que se isolou num contra- ataque.Mas, deixemo-nos de desconversas: a grande conquista de Filipe Vieira nem é ter arranjado um guarda-redes para ocupar o lugar do desamparado Rui Nereu: a grande conquista é tê-lo arrebatado após uma luta titânica, aos que nos dizem, contra Pinto da Costa. É verdade que não houve nunca, dos lados do Porto, o menor sinal de tal refrega, à parte o facto de o empresário de Moretto ser irmão de um dirigente da SAD portista, o que é apenas uma suspeita de intenções. De resto, nem uma palavra de Pinto da Costa, de dirigentes, treinador, empresário ou do próprio Moretto (pode ser que agora a memória lhe possa ser reavivada...). Nada, apenas as suspeitas jornalísticas, sem dúvida sopradas por um vento de sudoeste...No FC Porto, como se sabe, fazem falta, de facto, alguns jogadores, tal como um defesa-direito e dois centrais. Outros sectores poderiam eventualmente ser também reforçados, mas se há um que não precisa é a baliza. Na baliza, está lá Vítor Baía, que é somente o melhor guarda-redes português; está lá o Helton, que foi o melhor guarda-redes do campeonato anterior e que, face às notícias que já o davam à procura de clube, entalado entre a concorrência de Baía e a de Moretto, fez saber que não, que estava muito bem ali; e está lá, também, estagiando no Estrela da Amadora, o Bruno Vale, guarda-redes da Selecção de sub-21. Pelo que o Moretto, francamente, só mesmo para irritar o Benfica e deitar dinheiro à rua. É verdade que a gastar dinheiro com jogadores em rompantes de última hora, Pinto da Costa ganhou fama de ser um mãos largas. Mas é justamente por coisas dessas que hoje as finanças do clube voltaram ao vermelho e à campainha de alarme. Os tempos, espero eu, já não vão para exibicionismos desses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. O Manduca, sim, esse foi uma aquisição pacífica do Benfica, neste defeso natalício. É um grande jogador à vista, mas, tal como sucede com Moretto, também ele irá aprender que uma coisa é atacar contra equipas grandes, que jogam aberto, e outra é atacar contra equipas que jogam com dois defesas para cada avançado e tudo concentrado em trinta metros. José Fonte é uma aquisição curiosa: aparentemente, segundo rezam os jornais, foi adquirido para ser emprestado — uma prática que eu tanto critiquei no FC Porto dos últimos anos e de que o Benfica parecia arredado. Mas mais curioso ainda são as circunstâncias da aquisição: no último jogo do campeonato, o Benfica ganhou em Setúbal, graças a um golo de Nuno Gomes no último suspiro (e não, não houve mão na bola). Mas Nuno Gomes apareceu liberto em zona proibida, justamente a zona de... José Fonte. Que, por coincidência, não estava lá: tinha rescindido o contrato com o Vitória na véspera, para dias depois, assinar... pelo Benfica. Deve ser a tal transparência de que falam...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Há anos, largos anos já, o horrível Pinto da Costa definiu uma regra de comportamento: jamais iria comprar um jogador que estivesse em litígio com o seu clube ou que dele tivesse saído em litígio. A regra tem- se mantido firme até hoje e em benefício, sobretudo, dos clubes pequenos, mas também dos grandes, como o próprio Benfica. Mas tal regra nunca criou escola entre os dirigentes benfiquistas que se têm sucedido. Como alguém aqui escreveu há dias e como se tem visto ao longo dos anos, a grande ave de rapina destas situações é a águia— quem ainda não provou a bicada que se cuide. Deve ser a tal maneira diferente de estar no futebol...Fosse o horrível Pinto da Costa a fazer uma destas e estaríamos já enjoados de textos moralistas e indignados. Mas, tratando-se do Benfica, até o patético Chumbita Nunes agradece a esmola que Filipe Vieira prometeu dar-lhe pelo José Fonte (só não disseram quanto, quando e como...). Deve ser a tal «generosidade» que dizem que o Benfica tem manifestado para com o Vitória de Setúbal ao ponto de, vejam lá, se ter disposto a pagar-lhes meio milhão de euros contra o direito de escolha sobre cinco jogadores!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Afinal, ainda regressei a Lisboa a tempo de introduzir este post-scriptum sobre as inesquecíveis imagens do desembarque de Moretto na Portela e depois já na tão desejada Luz... Tal como acima previ, eis que o Moretto se revelou uma garganta funda a denunciar o que sofreu com o assédio infernal do FC Porto. Curioso é que só depois de ter chegado a acordo com o Benfica é que se deu mal com o assédio: até lá, e segundo o seu relato, reuniu, conversou, negociou e assinou com dirigentes portistas. Mas, afinal, desde pequenino que era benfiquista. Desejo-lhe as maiores felicidades.Também deu para perceber que a tal história dos emissários portistas molestando o presidente do Benfica no aeroporto de S. Paulo, estava realmente mal contada. Ali há gato e o gato é com o Moretto e aquele sujeito que até ontem era seu amigo e que teve direito a um comité benfiquista de boas-vindas digno de remeter as proezas do célebre guarda Abel para a categoria dos contos de fadas. Como disse Luís Filipe Vieira, as cenas que o país teve ocasião de ver ontem pela televisão ficarão para a história do futebol português. Creio que todos ficámos elucidados: só não deu para perceber a que lei e a quem obedecem os agentes da PSP que testemunharam uma agressão encomendada, de braços cruzados e a assobiar para o ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 03.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113651016523797389?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113651016523797389'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113651016523797389'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/h-moretto-na-costa.html' title='Há Moretto na costa'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113604785108498273</id><published>2005-12-31T16:46:00.000Z</published><updated>2005-12-31T16:50:51.116Z</updated><title type='text'>Scolari tem um problema</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;A excelência do Ricardo Quaresma deve manter-se assim um segredo de Polichinelo partilhado entre os seus admiradores, sussurrado como segredo de Estado, suficientemente baixo e ténue para que, no final, se ele for chamado, possa ficar a impressão que todo o mérito da escolha se deve a Luiz Felipe Scolari.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Scolari tem um problema e esse problema chama-se Ricardo Quaresma. Assim mesmo: foi assim que vi escrito algures e é assim que oiço comentar, entre amigos que gostam de futebol, o «problema que está a ser criado ao seleccionador nacional» pelas consecutivas exibições de luxo do n.º 7 do FC Porto, hoje claramente o melhor jogador em palco na Superliga. Mas afinal — perguntará alguém desembarcado de outro planeta — qual é o problema de Scolari? Desde quando é que o aparecimento de um grande jogador, em forma exuberante, fora da lista inicial dos conjecturáveis, constitui um problema? Que seleccionador no Mundo não gostaria de ter um problema destes para resolver a seis meses de um Mundial? Pois, dá-se o caso de o nosso seleccionador ter anunciado já há dois meses que, dos 23 que irão ao Mundial, 20 já estavam escolhidos, faltando apenas escolher três, entre os quais um guarda-redes. E, nos dois que sobram, não constaria Ricardo Quaresma, que o seleccionador generosamente se disporia a ceder à Selecção de Esperanças. Na lista fechada de Scolari não há lugar para revelações de última hora, nem sequer com seis meses de antecedência. Trata-se da sua lista, do seu grupo, dos seus rapazes de confiança, do seu célebre balneário — o tal que tem misteriosas regras que não consentem a inclusão de gente com personalidade e ideias próprias, como Vítor Baía. Enfim, é a Selecção de Scolari e, se ela se abrisse a importunos como Ricardo Quaresma, ou se se guiasse por estritos critérios de desempenho e de justiça consensuais, deixava de ser a Selecção de Scolari e passaria a ser a Selecção de Todos Nós, como gostam de dizer. Um perigo. Gente que, como eu, acha que Ricardo Quaresma faz parte daquela restrita lista de jogadores de futebol que justificam o preço dos bilhetes e o incómodo da deslocação ao estádio, aconselham a que se esteja calado nesse sentimento: quanto menos se falar do rapaz, mais hipóteses tem ele, dizem, de poder vir a ser chamado à Selecção. Porque o que, antes de mais, está em causa, não é a competência nem o mérito, mas a fina susceptibilidade do seleccionador. A excelência do Ricardo Quaresma deve manter-se assim um segredo de Polichinelo partilhado entre os seus admiradores, sussurrado como segredo de Estado, suficientemente baixo e ténue para que, no final, se ele for chamado, possa ficar a impressão que todo o mérito da escolha se deve a Luiz Felipe Scolari. Pois eu cá, não me consigo conter. Gosto suficientemente de futebol para não conseguir disfarçar o deslumbramento quando vejo um génio à solta em campo. São eles, sejam quem forem os seus clubes ou os seus países, que escrevem os momentos mágicos que nunca mais esquecemos quando falamos de futebol e que atraem para este jogo fabuloso sucessivas gerações de miúdos deslumbrados com as proezas dos seus ídolos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Talvez o público de Guimarães, que tem o mérito de seguir sempre o seu clube e não falhar no estádio, faça parte do rol dos que não se importam de ver Ricardo Quaresma fora do Mundial. Há sempre gente para quem o despeito é mais importante do que a justiça ou até a qualidade do espectáculo. No futebol, todos têm uma paixão pelo seu clube, mas há quem se limite a isso e quem tenha também uma paixão pelo futebol. Se o meu clube ganha jogando mal ou beneficiando de um erro do árbitro, eu não gosto: fico frustrado, irritado, zangado com a equipa. Mas há muitos para quem tanto lhes faz: querem é que o seu clube ganhe, mesmo que com um golo marcado com a mão e sem nada ter feito para o merecer. Em Guimarães, aos 21 minutos de jogo e devido ao mau estado da relva, Ricardo Quaresma escorregou quando ia pontapear um livre frontal e acabou por fazer um passe ao guarda-redes. Os adeptos do Vitória romperam num coro de assobios, difícil de psicanalisar: que assobiavam eles — o génio do Quaresma, a sua infelicidade? Nunca saberemos explicar. Só sabemos que, volvidos dois minutos, o mesmo Quaresma, de dedo na boca, os fazia calar, depois de, à vista das bancadas, ter-lhes mostrado o que é capaz de fazer um grande jogador de futebol que recebe uma bola sobre a esquerda, a trinta metros da baliza e com um adversário a tapar-lhe o caminho. Vinte e cinco minutos volvidos, esse mesmo adversário, entrando-lhe às pernas pela terceira ou quarta vez, conseguiu enviá-lo definitivamente para o balneário — que é o lugar reservado aos génios como ele, quando jogam perante um público que não gosta de os ver jogar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Maniche está no mercado. Para quem quiser um jogador que custou quatro mihões de contos a um clube e um mês depois se dava ao luxo de se dizer «inadaptado». Que, por ignorância ou avidez, se convenceu que Moscovo era a Paris do Leste, que deve pensar que se pode ao mesmo tempo querer emigrar para ganhar uma fortuna e ter o sol e as sardinhas assadas ao dispor, que se acha tamanha vedeta que nada — clube algum, adeptos alguns, equipa alguma — jamais serão suficientemente importantes para acolherem a sua importância. Espero bem que Pinto da Costa não caia numa das suas habituais tentações de ir recomprar o que vendeu e bem. Os resultados dessas operações de pseudo-recuperação têm sido, regra geral, desastrosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Di Canio, obscuro jogador da Lazio de Roma, deve a fama ao seu exibicionismo ideológico, que o leva a celebrar em campo com a saudação fascista dirigida aos adeptos. Os jogos de futebol não servem para os jogadores fazerem propaganda política das suas ideias, menos ainda quando as suas ideias são abjectas manifestações daquilo que a Europa civilizada rejeitou definitivamente. Espero bem que a FIFA remeta este fascistóide italiano para o lugar que lhe pertence, longe dos estádios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 27.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113604785108498273?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113604785108498273'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113604785108498273'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/scolari-tem-um-problema.html' title='Scolari tem um problema'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113539008188856838</id><published>2005-12-20T02:02:00.000Z</published><updated>2005-12-24T02:09:17.490Z</updated><title type='text'>Uma questão de "timing"</title><content type='html'>1. Há várias semanas que Luís Norton de Matos tinha previsto que a crise de desintegração iria ocorrer no Vitória de Setúbal. Há dois meses que a sua demissão estava por um fio. Aconteceu agora, após uma derrota que indicia, talvez, o fim de um ciclo lindo mas que não tinha sustentação. Depois de o primeiro jogador já ter abandonado o barco e quando se prefigura a debandada em série. E a três dias do Vitória-Benfica. Foi pena. Luís Norton de Matos, ex-jogador do Benfica, ex-treinador do terceiro classificado do campeonato, ex-garante da unidade do grupo contra a irresponsabilidade dos dirigentes, deveria ter esperado mais uns dias, ter segurado os jogadores ainda mais um pouco, ter-se despedido em beleza, mostrando contra o Benfica o mesmo espírito de luta e brio que o levou, por exemplo, a roubar dois pontos no Dragão, defendendo o 0-0 com tanto empenho e tenacidade que disso parecia depender o pagamento dos salários em atraso logo após o jogo. Ou então, se já não dava mesmo para segurar mais um dia que fosse o barco, deveria ter-se demitido 48 horas antes—e não depois da derrota no Funchal, de os jogadores terem começado a abandonar e de se chegar às vésperas do jogo com o Benfica. À parte a questão do timing da demissão do treinador; a crise do Vitória de Setúbal é exemplar de várias coisas, a saber: a mentira funcional em que vive o chamado futebol profissional em Portugal, mentira devidamente coberta e incentivada por uma Liga de clubes que se habituou a preferir a batota com o Fisco, a Segurança Social e os salários dos jogadores a uma reforma radical, cuja necessidade e contornos são hoje evidentes e consensuais para todos menos para aqueles que tinham obrigação de ser os primeiros a ver e a agir; exemplar da face oculta do futebol profissional português, muito mais comum do que se imagina e muito mais incontrolável do que se supõe (quando há jogos da Liga assistidos por 900 espectadores, podem crer que a tempestade apenas acabou de começar); e exemplar, finalmente, da natureza dos dirigentes do futebol português, regra geral chicos- espertos em busca de protagonismo e acreditação social, que acham que a gestão de um clube profissional se limita ao acto de comprar e vender jogadores no defeso e despedir treinadores quando os seus brilhantes negócios não dão os resultados esperados. No caso do Vitória, é evidente que se chegou ao extremo absoluto—este Chumbita vai ficar para a história dos malfeitores do futebol português — mas o que não falta por aí é Chumbitas de ocasião a alimentar a mentira em que vivemos. O exemplo contrário e louvável é o de João Nabeiro, presidente do Campomaiorense: sonhou em trazer o Alentejo de volta ao futebol de primeira e, do nada, ergueu um clube dotado de estruturas, de um belo campo e de regras de seriedade. Mas, quando percebeu que não havia público nem mercado que sustentasse o seu sonho, pagou as dívidas e fechou a porta, em lugar de continuar a tentar alimentar a mentira em negócios imobiliários com a autarquia ou em poupanças nos salários a pagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Em Agosto e Setembro, quando Co Adriaanse mostrou não contar com Quaresma para a sua equipa habitual e quando já se falava na inevitável venda do jogador em Janeiro, escrevi aqui por três vezes que o afastamento de Ricardo Quaresma seria um acto de uma extrema irresponsabilidade e ignorância, pois que ele era, de longe, o melhor património desportivo do actual FC Porto. A generalidade dos comentadores, porém, dava razão a Adriaanse, argumentando que Quaresma era um indisciplinado, um individualista e um mau jogador de equipa. Contra-argumentei que ele era um miúdo e um génio: aos miúdos podem-se corrigir os defeitos e a missão de um treinador é essa e não a de os afastar liminarmente; e aos génios deve-se permitir a dose suficiente de individualismo que eles usam para fazer a diferença e resolver tantas vezes os jogos—como aliás o Quaresma mostrou na época passada e na Selecção de esperanças. Em Outubro Adriaanse decidiu- se a meter o Quaresma no quarto de hora final de dois jogos consecutivos e ele resolveu-lhe os dois jogos: logo houve quem, esclarecidamente, viesse dizer que o Quaresma só servia para os últimos minutos. Mas o génio estava lá e mesmoAdriaansenãoteve comoevitar experimentá-lomais do que, por exemplo... o Hélder Postiga. Hoje o resultado é evidente por si: o Ricardo Quaresma transformou- se não só no melhor jogador do FC Porto, não só no melhor jogador português da actualidade, mas no mais promissor e entusiasmante jogador europeu do momento. Dizem os que ontem achavam que ele não tinha lugar na equipa que o mérito foi de Adriaanse, que, através de um notável (e fulgurante) trabalho psicológico, o transformou em jogador de equipa. Gostava de saber em que língua terá sido levado a cabo esse revolucionário trabalho psicológico: no inglês sem vocabulário de Adriaanse, que o Quaresma deve entender perfeitamente? Não. O mérito não se deve a Adriaanse, deve-se ao próprio Ricardo Quaresma, que gosta tanto de jogar que até fez o favor de passar a vir atrás defender, percebendo que esse era o preço do bilhete para a titularidade. E que teve o talento e a sorte de resolver aqueles dois jogos nos 10 minutos de cada um deles que lhe foram concedidos: de outro modo, estaria agora na equipa B. De resto, limitou-se a continuar a dar asas ao seu génio e ele impôs-se por si. Todavia, há um mérito que reconheço a Adriaanse e foi já salientado por José Manuel Ribeiro, nas páginas de OJogo: foi ter trocado o flanco a Quaresma, passando- o da direita para a esquerda, embora por vezes, e bem, com alternâncias. Não é a primeira vez queumdestro é colocado como ponta- esquerda, hoje uma moda corrente (Simão Sabrosa é um bom exemplo). Mas Ricardo Quaresma está a revolucionar a moda e a função, porque não se limita a executar bem o movimento de sair da esquerda para o centro, como se espera de todos os destros actuando sobre a ponta esquerda. Ele consegue também cruzar com os dois pés, consegue fintar para dentro e para fora,mas sobretudo consegue aquele cruzamento exterior executado com o pé direito, a que chamam de trivela, e que é qualquer coisa de absolutamente novo e inesperado que, como ainda este sábado se viu, é capaz de abrir por completo uma defesa. Espero bem que o prazer e a fome que ele tem de futebol sejam sempre suficientes para o manter longe do deslumbramento e dos tiques de vedeta que, por exemplo, já são hoje imagem de marca de Cristiano Ronaldo. O Barcelona há-de lamentar muito tê-lo deixado sair no negócio do Deco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Jorge Sousa teve uma arbitragem infeliz, que valeu dois pontos ao Benfica, no jogo contra o Nacional. Foi infeliz na falta que deu o golo, e que certamente não viu, mas foi mais infeliz ainda na duplicidade de critério disciplinar, essa sempremais difícil de perceber. Mas seguramente que não está em perigo de jarra: não deve fazer parte da lista negra do senador Veiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Subitamente, Maciel tornou- se o jogador indispensável do União de Leiria. Alguém me sabe dizer quantos golos leva marcados o Maciel e porquê ele é assim tão indispensável? A semana passada tive ocasião de explicar por que razão, ao arrepio do politicamente correcto, sou a favor dos acordos de cavalheiros sobre os jogadores emprestados. Mas a verdade é que estão proibidos pelo art.º 22 do Regulamento Disciplinar da Liga e punidos com uma multa pecuniária, que deve ser aplicada ao FCPorto e ao União de Leiria. Custou-me um bocado a perceber, todavia, porque estaria o Benfica tão interessado em que o FC Porto fosse multado, ao ponto de ir fazer queixa à Liga. Mas depois li um delirante artigo pseudo-jurídico onde se explicava que à situação descrita no art.º 22 se deveria aplicar, não a sanção aí prevista, mas sim a do art.º 54, salvo erro, que contempla o caso de resultados combinados entre as duas equipas, nomeadamente através da utilização por uma delas de um onze «notavelmente inferior» ao habitual. Essa sanção seria a de derrota ou três pontos perdidos— que os autores do parecer transformaram em três pontos a menos para o União de Leiria e seis para o FC Porto (os três da vitória, que eram perdidos, e mais três da pena). Justamente a diferença actual entre o FC Porto e o Benfica. Aí percebi tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 20.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113539008188856838?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113539008188856838'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113539008188856838'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/uma-questo-de-timing.html' title='Uma questão de &quot;timing&quot;'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113494498493024044</id><published>2005-12-16T22:26:00.000Z</published><updated>2005-12-18T22:29:44.933Z</updated><title type='text'>Catorze anos</title><content type='html'>Comecei a escrever no PÚBLICO em 1991. Estamos em 2005: foi há 14 anos, com uma interrupção de ano e meio, entre 2002 e 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comecei, apanhei logo de entrada com a iminência da guerra do Golfo, na sequência da anexação do Kuwait pelo Iraque, de Saddam Hussein. A questão suscitou nas páginas do PÚBLICO um intenso debate sobre a justificação moral e política para a guerra, o papel que nela deveriam ter ou não ter o Ocidente, a Europa e Portugal. Esse debate, e posteriormente a cobertura da própria guerra, constituíram, a meu ver, a carta de alforria do PÚBLICO - ninguém mais, na imprensa portuguesa, atribuiu a esse genuíno momento de escolha e de definição política a importância que o PÚBLICO lhe atribuiu - e que mereceu uma surpreendente adesão e compreensão por parte dos seus leitores. Desde o início, defendi e em minoria clara, a legitimidade da guerra e o dever de a Europa e Portugal serem solidários nela com os Estados Unidos. Tratava-se, a meu ver, de não deixar passar em claro uma anexação pela força, sem qualquer título de legitimidade, de não ficar de braços cruzados a ver um ditador louco iniciar a conquista do Médio Oriente e preparar-se para se sentar em cima de dois terços das reservas mundiais de petróleo para depois ditar ordens ao mundo. E tratava-se, para nós portugueses, de adquirir a legitimidade específica que mais tarde nos permitiria exigir dos americanos o seu apoio à libertação de Timor - cuja ocupação era em tudo semelhante à do Kuwait. A guerra fez-se, foi rápida, "limpa" e politicamente exemplar. Quanto a nós, ficámo-nos pelas meias-tintas: solidários, sim, mas desde que não comprometêssemos nem meios nem homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Governava então, no apogeu da maioria absoluta, Aníbal Cavaco Silva. Não consegui evitar nunca uma incurável embirração pelo cavaquismo, mais do que pelo seu mentor. De um ponto de vista prático, reconheci a importância das obras feitas, o crescimento económico possibilitado pelo muito dinheiro aplicado, que os fundos europeus e o petróleo barato proporcionaram. Mas fui constatando e escrevendo que nenhuma verdadeira reforma tinha sido ensaiada, apesar das excepcionais condições para tal. Hoje, continuo a pensar que a generalidade dos problemas que enfrentamos e a desesperança que se instalou têm origem directa nesses anos (depois acrescentados aos do guterrismo), em que nada de essencial se mudou na educação, na justiça, na saúde, na reconversão agrícola e industrial e, sobretudo, numa cultura política e cívica fundada no mérito, na coragem de correr riscos, na liberdade individual e na separação entre o Estado e os negócios privados. Pelo contrário, o cavaquismo instalou a promiscuidade entre os empresários e o poder político, a subsidiodependência, a mentalidade dos jobs for the boys, o enriquecimento sem causa e a obediência e subserviência como dever cívico. Cumulada de dinheiro, lugares e favores, a grande oportunidade europeia transformou-se na grande oportunidade para virem ao de cima e florescerem impunemente os piores defeitos dos portugueses. Em lugar de riqueza o país produziu apenas novos-ricos, em lugar de desenvolvimento obras de fachada, em lugar de qualificação negócios desonestos com os dinheiros do Fundo Social Europeu, em lugar de reconversão agrícola e ordenamento do território Porsches, subsídios para nada fazer e urbanizações nas falésias do Algarve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os primeiros anos de António Guterres foram um momento de esperança, pelo menos no ar que se respirava. O cavaquismo caiu no justo momento em que o culto da personalidade do chefe e a demissão cívica dos oportunistas se estavam a tornar numa doença feia. Mas, rapidamente afectado por problemas familiares graves, Guterres começou a "deixar andar", entregando a governação aos "cardeais", "bispos" e "sacerdotes" do novo socialismo. A ganância não tem cor ideológica e o resultado foi trágico. O "bloco central", governando à vez, desperdiçou os 20 anos mais propícios do país e temo que, de facto, o tenha tornado inviável para sempre. Com a deserção de Guterres, o país, sem grande convicção nem ilusões, teve de escolher a única coisa que lhe apresentaram: um governo PSD-PP, chefiado por um senhor muito simpático mas totalmente desprovido de uma simples ideia para Portugal: Durão Barroso. Governou o menos que pôde e, ao primeiro sinal de alarme, agarrou o primeiro comboio que passava e fugiu - literalmente -, deixando-nos entregues nas mãos do impensável Santana Lopes. Para grande espanto meu, ainda houve almas piedosas que reclamaram para isto o "benefício da dúvida". Eu cá não: estão aí os arquivos do PÚBLICO para provar que, ainda ele não tinha tomado posse, e já eu antevia um país transformado em anedota. Sampaio demorou nove meses até perder definitivamente a vontade de rir. Hoje, podemos especular se o Presidente foi o mais calmo e o mais avisado de todos, escolhendo queimar friamente Santana Lopes, em lugar de o recusar liminarmente. Talvez ele tenha tido razão, mas a verdade é que com isso se perdeu mais um ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, enfim, chegámos aonde estamos agora, cedo de mais ainda para fazer um juízo. Nestes 14 anos de escrita, agarrei dezenas de temas e algumas poucas causas que me pareceram determinantes. Acho que fui dos primeiros a alertar para o descalabro para que caminhava a justiça, confundindo-se independência das funções com impunidade funcional; dos primeiros a alertar para as consequências de toda a ordem que a falta de uma política de ordenamento territorial e de defesa da paisagem e do ambiente iriam causar, aliadas à irresponsabilidade ou venialidade daquilo a que chamei "o poder fatal" - as autarquias. Uma e outra coisa foram causas perdidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos e anos a fio, insurgi-me contra a cobardia diplomática de Portugal face à questão de Timor. Alguém que muito respeito respondeu-me uma vez que Timor era a "causa romântica" de alguns jornalistas, cuja "militância" impedia a resolução definitiva do problema através das inevitáveis "soluções pragmáticas". Felizmente, contra toda a esperança, por uma vez os "românticos" venceram os "pragmáticos".Também escrevi até me cansar contra a regionalização dos socialistas, que, confundindo descentralização com desorganização, iria dividir o país em oito coutadas para oito Albertos Joões Jardins regionais, tornando Portugal definitivamente ingovernável. A causa estava perdida à partida, mas, a partir do momento em que se conseguiu esclarecer as pessoas e forçar os políticos a consultar os portugueses, transformou-se numa vitória exemplar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevi a favor da intervenção na Somália e contra a segunda guerra do Iraque, a favor da Expo-98 e contra o Euro 2004, a favor dos toiros de morte em Barrancos e contra a política nacional de conivência com os governos corruptos dos PALOP, contra os submarinos da Armada e a favor da despenalização do aborto, etc, por aí fora. Não sei se no final sobra alguma coerência ou unidade de pensamento entre questões tão diversas, expostas num total de mais de 600 artigos de opinião. Mas três coisas me consolam: uma, saber e poder dizer que escrevi sempre com convicção e sinceridade e bastas vezes contra o que a prudência aconselharia; outra, que aqui encontrei sempre um espaço de absoluta liberdade e um jornal onde tive orgulho de escrever; e a terceira é que guardo numa gaveta de casa, a benefício de futuras nostalgias, o que tantos leitores me foram por sua vez escrevendo ao longo dos anos e que tantas vezes serviram de estímulo real para continuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este breve balanço, como já perceberam, é uma despedida. Catorze anos chegam hoje ao fim. Naturalmente. Sem rancores e já com inevitáveis saudades. A partir de agora, passo a ser só mais um leitor às sextas-feiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público” - 16.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113494498493024044?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113494498493024044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113494498493024044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/catorze-anos.html' title='Catorze anos'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113494473197670287</id><published>2005-12-13T22:22:00.000Z</published><updated>2005-12-18T22:25:31.996Z</updated><title type='text'>O horizonte está vermelho</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Tenho de reconhecer que me precipitei quando há semanas atrás, e depois de ter visto a triste exibição do Benfica contra o Lille, comparei Koeman a Adriaanse, unindo FC Porto e Benfica na mesma «desgraça holandesa»&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Semana de luxo para o Benfica, iniciada com a feliz e sofrida vitória no Funchal, continuada com a brilhante e justíssima vitória sobre o Manchester United e fechada com um triunfo merecido sobre um Boavista que pareceu mais cansado que o Benfica. Tenho de reconhecer que me precipitei quando há semanas atrás, e depois de ter visto a triste exibição do Benfica contra o Lille, comparei Koeman a Adriaanse, unindo FC Porto e Benfica na mesma «desgraça holandesa». A verdade é que, ao contrário do seu compatriota, Koeman mostrou nos últimos jogos que é capaz de definir uma estratégia coerente em função de cada jogo, de estudar bem os adversários e de tirar o melhor rendimento possível dos jogadores que tem ao dispor. E, tendo muito menos recursos humanos que Adriaanse, conseguiu que o Benfica ultrapassasse a fase de grupos da Liga dos Campeões, enquanto Adriaanse nem a Taça UEFA conseguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. São bem compreensíveis a alegria e o alívio que Co Adriaanse demonstrava no final do jogo de Leiria. Um novo resultado negativo seria dificilmente gerível, depois dos fiascos acumulados em todos os jogos importantes que até aqui teve de enfrentar: quatro da Liga dos Campeões, mais o Benfica e o Sporting no Dragão. A vitória em Leiria, categórica e determinada, foi um sopro de vida caído do céu. Mas nada, nada, nem o título, poderá fazer esquecer a hecatombe europeia, motivada exclusivamente por erros gritantes do treinador. Na semana em que o FC Porto disse adeus à Europa e adeus ao capitão Jorge Costa (chutado para canto por Adriaanse, como roupa velha) torna- se evidente que o treinador responsável por ambas as coisas está condenado a ficar eternamente sob suspeita. Não sei se por um, se por dois, se por três anos. E se o FC Porto não perdeu em Bratislava e ganhou em Leiria, apenas três dias após aquele inferno, deve-se aos jogadores e à tal mística de que fala Vítor Baía e Jorge Costa tão bem simbolizava. O homem pode até vir a ser campeão, o que nem sequer é difícil, com a equipa e o orçamento que tem. Mas duvido que recupere a confiança e a simpatia do balneário e das bancadas. Aliás, não sei se já repararam mas esta época é a primeira, em20 anos de presidência de Pinto da Costa, que não o vejo sentado ao lado do treinador nos jogos fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Como toda a gente já disse, não foi em Bratislava que o FC Porto se despediu da Liga dos Campeões mas apenas e também da Taça UEFA. Mas pergunto- me se por acaso fosse um dos tubarões europeus a jogar ali a continuidade na Liga a UEFA consentiria que o jogo se disputasse naquelas circunstâncias. Em mais de 40 anos a ver futebol nunca assisti a um jogo disputado num terreno assim — nem sequer na célebre final de Tóquio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Não consigo entender a lógica ou a legitimidade moral de o Estádio da Luz assobiar o Cristiano Ronaldo ou o João Pinto. É verdade que o clubismo por vezes é cego mas podia ao menos ter algum pudor. É também verdade que nada disso desculpa os gestos de Cristiano, ao despedir-se do público da Luz. Mas o que mais me espantou ainda foi o espanto de tantos: por acaso não tinham ainda reparado que, de há uns tempos para cá, quer na Selecção quer no Manchester, o Cristiano tem dado sobejas demonstrações de um vedetismo insuportável? E, descrevendo todos e cada um dos jogos dele em Inglaterra e na Selecção como autênticas e únicas peças de arte, faça ele o que fizer, a imprensa não terá também alguma responsabilidade neste estatuto de semideus com que ele se pavoneia, como se o talento para jogar futebol não fosse apenas isso — talento para jogar futebol?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Grande alarido porque o Maciel, emprestado pelo FC Porto ao União de Leiria, ficou sentado na bancada, por imposição do acordo de cavalheiros vigente entre ambos os clubes. De repente toda a gente pareceu esquecer- se de que o mesmo tipo de acordo já vigorou este ano e nos anteriores a favor do Benfica e do Sporting. Aliás, e se não estou em erro, até foi esta a primeira vez que o FC Porto o impôs durante este campeonato. Pois eu, ao arrepio do politicamente correcto, devo dizer que sou a favor destes acordos. Primeiro porque é um acordo privado, celebrado entre duas partes livremente e honrado pela pa- lavra de cavalheiros, que ninguém tem legitimidade para exigir que seja quebrada; segundo porque, sendo, como é norma, o ordenado dos jogadores emprestados pago entre os dois clubes, custa-me entender que alguém possa servir simultaneamente dois amos; terceiro porque é melhor que os jogadores, apesar desta limitação em dois jogos por ano, possam rodar noutros clubes que estarem encostados, sem proveito para ninguém, nos clubes de origem; e quarto porque a sua utilização contra o clube de origem daria fatalmente azo a todas as suspeitas, em caso de azar. Por exemplo: o Bruno Vale, emprestado pelo FC Porto ao Estrela da Amadora, até jogou no Dragão e fez uma excelente exibição. Mas se, por acaso, tem encaixado um frango, quem acreditaria que tinha sido involuntário? E se o Maciel tem jogado no sábado e tem falhado um penalty ou um golo de baliza aberta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. Depois da desastrada prestação no FC Porto-Sporting da última jornada, Lucílio Baptista reapareceu para o Benfica-Boavista e com uma irresistível tendência para só ver faltas para um dos lados. Constatei, curiosamente, que a sua nomeação não deu motivo a quaisquer críticas nem comentários. Nem sequer ouvi o sr. Veiga a falar na jarra ou nos árbitros envolvidos no Apito Dourado. Deve ter sido esquecimento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. Luiz Filipe Scolari é um homem de fé e um homem de sorte, como conheci raros na vida. Não sei se foi a fé na Senhora de Fátima ou a sorte que o persegue que mais uma vez o cumularam de benesses com o sorteio para o Mundial. Sei que melhor era impossível. Para que a sorte fosse completa só era preciso que Vítor Baía não continuasse, semana após semana, do tapete do Dragão ao lamaçal de Bratislava, a demonstrar que não há melhor guarda-redes que ele em Portugal. E que Ricardo Quaresma não continuasse também a insistir em mostrar que actualmente é talvez o jogador português em melhor forma e o mais útil a uma equipa. Para que alguns de nós (também portugueses, se não se importam...) não ficássemos a pensar que, com eles, a Selecção do Sul de Portugal e Comunidades Emigrantes se poderia tornar finalmente a Selecção de Todos Nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 13.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113494473197670287?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113494473197670287'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113494473197670287'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/o-horizonte-est-vermelho.html' title='O horizonte está vermelho'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113415081825750522</id><published>2005-12-09T17:46:00.000Z</published><updated>2005-12-09T17:53:38.276Z</updated><title type='text'>Delírios de ricos em terra de pobres</title><content type='html'>Depois da Ota, o TGV. A febre dos "grandes projectos" tomou definitivamente conta do país e traz numa roda-viva de entusiasmo sem limites o Governo, as construtoras e os bancos: o primeiro apresenta "obra" e os outros têm garantidos desde já negócios milionários para a próxima década - desde que, como foram adiantando os nossos empresários, o Governo não se esqueça de, sem violar a legislação concorrencial comunitária, apresentar "regras flexíveis" que permitam às nossas empresas ser parte determinante do negócio.Primeiro que tudo, o que impressiona nisto são os custos. A Ota vai custar, segundo as estimativas do Governo, 3,1 mil milhões de euros, e o TGV Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid 7,6 mil milhões. Se, porém, considerarmos as inevitáveis derrapagens que qualquer, qualquer empreitada pública sempre tem por definição, se considerarmos que o custo público da Ota vai ser sob a forma de venda da ANA ou de abdicação das receitas aeroportuárias por várias décadas, e se levarmos em conta os juros do financiamento bancário, estaremos mais perto da verdade provável se falarmos num custo conjunto nunca inferior a 12 mil milhões de euros. É simplesmente astronómico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, impressiona esta largueza de vistas, sobretudo quando comparada com outros países, bem mais ricos e desenvolvidos, onde não existem estes cíclicos impulsos faraónicos. Pergunto-me como é que um país que tem como dois hospitais centrais principais, nas duas maiores cidades, o S. João no Porto e o S. José em Lisboa - onde parece não haver sequer dinheiro para tampas de retrete nas casas de banho - já fez coisas como Sines, Cabora Bassa, Alqueva, Euro 2004. Tudo investimentos megalómanos, "desígnios nacionais" como lhes chamaram, e "elefantes brancos", como merecem ser chamados. Por que é que a Holanda e a Bélgica, bem mais prósperos que Portugal, organizaram em conjunto o Euro 2000 e apenas precisaram de sete estádios, dos quais dois novos, e nós, organizando sozinhos, precisámos de dez estádios, dos quais oito novos? Por que é que, em vez do grande Alqueva, gigante adormecido e majestático, não se fizeram antes uma série de médias e pequenas barragens que cobrissem todo o Alentejo e Algarve e retivessem toda a água que inutilmente escorre para o mar? Por que é que Málaga tem um aeroporto que actualmente movimenta o mesmo número de passageiros que a Portela mas que cresce o dobro desta anualmente, com apenas uma pista contra as duas da Portela e ocupando 320 hectares contra os 520 da Portela, e só espera rever as suas condições no ano 2020? Por que é que nenhum país do Norte da Europa, e países tão extensos e tão ricos como a Suécia, a Noruega, a Finlândia, sentiu até hoje a necessidade imperiosa de se dotar de um TGV?Cinquenta anos depois do mítico "Foguete", equipado com velhas locomotivas Fiat, os moderníssimos Alfa-Pendular demoram somente dez minutos a menos a fazer o Porto-Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, gastaram-se décadas a desmantelar linhas interiores transformando o transporte rodoviário num próspero negócio privado com tremendos custos públicos. Entretanto, gastaram-se 600 milhões de euros para fazer apenas 30 quilómetros de linha compatível com o comboio pomposamente baptizado de pendular, antes de desistir e abandonar o projecto. Entretanto, nada se fez para começar a substituir a linha de bitola ibérica pela de bitola europeia nos percursos internacionais, constituindo, esta sim, a verdadeira causa de marginalidade de Portugal no domínio dos transportes e, uma vez mais, uma excelente oportunidade de negócio para o transporte TIR. Entretanto, dezenas de administrações, raramente nomeadas pela sua competência e antes pela sua dedicação partidária, acumularam prejuízos autenticamente escabrosos na CP, sem que jamais alguém fosse responsabilizado. E agora dizem-nos que tudo se resolve com um TGV para o Porto e outro para Madrid.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dúvida que é urgente uma ligação ferroviária Lisboa-Porto em tempo compatível com os dias de hoje, quanto mais não seja para pôr fim à situação de oligopólio concertado que faz da ligação aérea entre estas duas cidades talvez a milha aérea mais cara do mundo. A questão está em saber se, em lugar da Alta Velocidade (AV), cuja construção tem custos assustadores, incluindo até a construção de duas novas pontes sobre o Tejo, não seria suficiente e mais à medida das nossas necessidades e possibilidades a construção de uma linha de Velocidade Elevada (EV), que tem custos incomparavelmente mais baixos e que, no final, gastaria apenas cerca de 25-35 minutos a mais do que os 75 minutos previstos na ligação em AV. Será mesmo imperioso passarmos directamente do oito para o oitenta?Já quanto ao TGV para Madrid, façam por esquecer toda a propaganda associada: trata-se simplesmente de uma imposição de Madrid, que assim, tal como já sucedeu com a A6, coloca cá, mais depressa e mais baratos, os produtos que esmagam a nossa insípida concorrência. É um TGV para servir Madrid e a única boa notícia, entre os planos divulgados pelo Governo, é que ao menos houve o bom senso de congelar, espera-se que definitivamente, os projectos liquidatários de levar a nossa submissão ao ponto de construir também as linhas Porto-Vigo, Aveiro-Salamanca e Faro-Huelva, que, num acesso de diplomacia "construtiva", Durão Barroso se tinha comprometido com Aznar a levar por diante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O esquema do Governo é este: a UE pagará entre 20 a 30 por cento dos custos de construção do TGV - os tais 7,6 mil milhões, com a nova ponte Chelas-Barreiro. O resto ficará por conta dos contribuintes portugueses e representa um custo não amortizável em vida das próximas gerações. Aliás, nem há, tecnicamente, forma de o amortizar, visto que os lucros da exploração das linhas ficarão para os privados, em troca da aquisição dos próprios comboios. O Lisboa-Porto é um negócio de lucro garantido à partida: com uma duração de 75 minutos entre as duas cidades, só um idiota é que se lembrará de ir de comboio ou de carro. Mais incerto é o negócio Lisboa-Madrid. Para atrair os privados, o Governo estima que haja anualmente cinco milhões de passageiros a circular no TGV de e para Madrid. O número parece, desde logo, absurdo: haverá mesmo 13.700 passageiros por dia a viajar entre Madrid e Lisboa de comboio? Se considerarmos que as estatísticas europeias revelam que o TGV entre duas cidades absorve em média metade de todo o tráfego de passageiros existente no total dos meios de transporte, isso implica a existência de mais de 27 mil pessoas a viajar diariamente entre as duas cidades. Alguém acredita?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, é interessante comparar aqui os números da propaganda do Governo ao TGV com as da propaganda à Ota. Porque a ideia que fica é que estamos perante o clássico dilema do cobertor que ou destapa a cabeça ou destapa os pés. Se, na propaganda do TGV, se sustenta que haverá anualmente cinco milhões de utentes da linha Lisboa-Madrid, é forçoso concluir que o Governo, e logicamente, está a prever que essa ligação "seque" por completo as alternativas aérea e rodoviária. Ou seja, a esmagadora maioria dos passageiros entre as duas cidades optará pelo TGV. Logo, esses cinco milhões devem ser abatidos ao "congestionamento" imaginado para a Portela. E aos cinco milhões devemos acrescentar os 555 mil que actualmente voam entre o Porto e Lisboa. Somando uns e outros, temos que metade do actual trânsito da Portela (dez milhões e meio por ano) desapareceria automaticamente assim que o TGV entrasse ao serviço nas duas ligações. Conclusão: ou o TGV para Madrid assenta em previsões delirantes, que o tornam inútil, ou a Portela não está em vias de ficar saturada e inútil é a Ota. Seria bom que fizessem essa continhas mais bem feitas antes de nos apresentarem a factura a pagamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público” - 09.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113415081825750522?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113415081825750522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113415081825750522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/delrios-de-ricos-em-terra-de-pobres.html' title='Delírios de ricos em terra de pobres'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113415120226811079</id><published>2005-12-06T17:56:00.000Z</published><updated>2005-12-09T18:00:02.273Z</updated><title type='text'>"Offside"</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Esta noite, em Bratislava, Adriaanse vai ter mais uma oportunidade para provar que não é um looser crónico, incapaz de ganhar um jogo decisivo, de não cometer erros indesculpáveis na formação da equipa, nas substituições feitas, na estratégia e na atitude durante o jogo.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Com erros de palmatória e golpes de sorte se escreveu a história desta 13.ª jornada da Liga. Um passe displicente e suicida de Pepe ofereceu o golo ao Sporting, no jogo do Dragão (pena que um jogador com tanto potencial reincida em deslizes fatais como este!). Um pontapé falhado do Jorginho, chutando no ar, proporcionou dois ressaltos consecutivos em jogadores do Sporting e o autogolo de Polga (e o Jorginho, à míngua de serviço para mostrar, ainda se permitiu festejar o golo como sendo seu...). No Funchal um falhanço de Mantorras a cabecear a bola, seguido de tremendo erro do defesa Valnei, proporcionou o único golo da sofrida vitória do Benfica sobre o Marítimo. No Restelo o primeiro golo consentido pelo Nacional em sete jogos fora resultou de um bambúrrio irrepetível e significou a vitória do Belenenses. Enfim, em Braga, onde se jogava o primeiro lugar, uma oferta do defesa local Nunes deu ao Vitória de Setúbal a possibilidade do seu único remate à baliza em todo o jogo e da conquista dos três pontos. Convenhamos que não há tácticas, nem estratégias, nem moral do jogo que resistam a factores aleatórios como estes. Quanto muito poderá dizer-se que as grandes equipas são aquelas que já contam com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.  FC Porto-Benfica: Lucílio Baptista. FC Porto-Sporting: Lucílio Baptista. Últimos seis jogos FC Porto- Sporting ou vice-versa: cinco vezes Lucílio Baptista. Sendo que ele é hoje, provavelmente, o pior dos árbitros de primeira categoria e criou uma lenda, alicerçada em factos reais, de prejudicar sempre o FC Porto, convenhamos que há coincidências de um raio! Apesar de tudo, sábado passado, no Dragão, Lucílio Baptista conteve-se — não nos erros cometidos mas na sua distribuição, mais ou menos equitativa. Perdoou um penalty a cada uma das equipas e anulou um golo a cada. Mas com subtis diferenças: o golo anulado ao Sporting é offside claro, embora por muito pouco e embora a jogada merecesse golo; o golo anulado ao FC Porto tem de merecer o benefício da dúvida, embora a pretensa falta só ele a tenha visto. O penalty perdoado ao Sporting é bem mais flagrante que o perdoado ao FC Porto e, sobretudo, aquele de que beneficiaria o FC Porto foi muito anterior, o que é sempre susceptível de ter mais influência no decurso do jogo. Tudo isto foi consensual: houve um penalty perdoado a cada um, um golo anulado a cada um — o do Sporting por offside incontestado, o do FC Porto por falta que se admite que possa ter existido mas a televisão não demonstrou. Nem Adriaanse nem Paulo Bento vieram reclamar do árbitro e nenhum dirigente portista se pronunciou sobre a arbitragem ou até sobre a nova coincidência da escolha do árbitro. Toda a gente coincidiu nesta análise aos lances polémicos, assim como coincidiu na leitura de que o resultado foi bem mais lisonjeiro para o Sporting que para o FC Porto ( a estatística de A BOLA registou 13 remates à baliza por parte do FC Porto contra um do Sporting). Mas há sempre gente que vê os jogos de outra maneira. O dirigente sportinguista Rui Meireles confessou-se «decepcionado », pois o Sporting «merecia mais que o empate». E isso só não aconteceu porque Lucílio Baptista «falhou num lance crucial: o golo de Deivid é mal anulado. Mas é o futebol que temos e já estamos habituados». Já o vice-presidente leonino, Meneses Rodrigues, resolveu puxar pela tradicional memória selectiva dos sportinguistas e concluiu que, «pela primeira vez, este senhor árbitro não prejudicou o Sporting». Se os dois me derem o prazer de vir a minha casa tomar um café, uma noite destas, eu passo-lhes uma prolongada sessão vídeo sobre as arbitragens deste árbitro nos últimos FC Porto-Sporting, arquivadas justamente para documentarem o futebol que temos e a que já estamos habituados. Seria um prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Cada vez mais me convenço de que o futebol é feito de acasos e de evidências. Nada a fazer contra os primeiros: nenhum treinador pode planear um jogo partindo do princípio, por exemplo, de que o Pepe vai fazer um passe de morte ao Carlos Martins. Mas, já quanto às evidências, constato que há treinadores cuja carta de alforria parece consistir apenas ou principalmente em tornarem obscuro o que é claro e verem só mais tarde o que já todos viram. À 13.ª jornada Co Adriaanse pôs em campo, finalmente, uma equipa praticamente consensual, porque escolhida segundo razões evidentes do mérito de cada um. Ah, mas tinha de haver uma excepção! A insistência em continuar a jogar com Jorginho, isto é, com 10 jogadores na prática, é coisa que já ninguém consegue entender nem ele próprio explicar. Fala na «velocidade» do Jorginho mas o Jorginho nem se mexe, não corre, não se desmarca, não luta, não fura, não faz pela vida. Fala na falta de extremos mas tem o Alan, o Ivanildo ou o Lisandro para jogar descaído sobre o flanco. Esta noite, em Bratislava, Adriaanse vai ter mais uma oportunidade para provar que não é um looser crónico, incapaz de ganhar um jogo decisivo, de não cometer erros indesculpáveis na formação da equipa, nas substituições feitas, na estratégia e na atitude durante o jogo. Pelo menos desta vez deu-se ao incómodo de ir pessoalmente espiar o adversário. Espero que não tenha voltado a concluir que o Jorginho é indispensável ou que a melhor maneira de vencer o jogo é alinhar sem ponta-de-lança de raiz. O mínimo que lhe é exigível, neste momento, é colocar o FC Porto na Taça UEFA, o que será um cometimento pior que medíocre face ao plantel de que dispõe e ao grupo que lhe saiu em sorte na Champions. Um milagre colocá-lo-á nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Uma derrota ou um empate selarão definitivamente o divórcio entre as bancadas do Dragão e mister Adriaanse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. O terceiro lugar do Vitória de Setúbal e os três golos sofridos, sobretudo nas circunstâncias de trabalho indignas que se conhecem, são, de facto, uma proeza notável. Mas também não é preciso mitificar as coisas para realçar um mérito que ninguém contesta: o Vitória tem um grande guarda-redes e uma defesa em grande forma e com uma imensa capacidade de sofrimento e concentração. Mas tem tido também uma grande dose de sorte. Honra lhe seja feita, Luís Norton de Matos não se furta a admitir essa sorte, ao contrário de muitos outros que, no lugar dele, estariam há muito em bicos de pés com medo que não lhes reconhecessem a devida estatura. Estreante na Liga, tem tido, na equipa e no jogo, a sorte que lhe faltou com os pobres dirigentes do Vitória. Só por isso, quanto mais não fosse, ele e a equipa bem merecem essa sorte. Mas de certeza que Luís Norton é o primeiro a saber as limitações que tem e que a sorte não dura para sempre. Os resultados têm sido o estimulante, o Prozac que mantém a equipa de pé e unida. Mas um dia o remate para golo vai bater na trave, o Moretto vai estar distraído ou o árbitro vai permitir o golo do adversário em offside. E tudo pode começar a desabar de repente. A grande proeza de Luís Norton é conseguir que esse momento só chegue quando o Vitória já estiver a salvo da despromoção. Mais que isso só podem prever e exigir-lhe aqueles que acham que é possível esperar resultados sem a contrapartida mínima, que é a de pagar o ordenado a quem trabalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 06.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113415120226811079?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113415120226811079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113415120226811079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/offside.html' title='&quot;Offside&quot;'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113365147201596266</id><published>2005-12-02T23:06:00.000Z</published><updated>2005-12-03T23:11:12.036Z</updated><title type='text'>Portugal sob escuta</title><content type='html'>Quando eu era pequeno, em casa dos meus pais, habituámo-nos a viver com o facto de ter o telefone sob escuta da PIDE. Esse conhecimento obrigava-nos a ter uma permanente atenção e contenção naquilo que se dizia ao telefone e, às vezes mesmo, a avisar os interlocutores de que o telefone estava sob escuta, não fossem eles descaírem-se com qualquer frase que permitisse à polícia política de então concluir que estava em marcha qualquer "actividade subversiva". Havia, aliás, um lado de bravata no facto de, volta e meia, dizermos de forma a ser bem entendidos pelo PIDE de escuta que sabíamos que ele estava ali. E, como os meios técnicos eram então bem mais primitivos e a própria PIDE era constituída por gente boçal e estúpida, não era raro que o ouvidor se denunciasse a si próprio, produzindo sons que o traíam: houve mesmo um que certa altura não se conteve e entrou a meio de uma conversa telefónica de uma irmã minha, com um comentário ordinário. Assim era o sentimento de impunidade daquela triste gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu cresci assim com um instinto de profundo nojo e repulsa pela actividade que consiste em ouvir as conversas alheias, devassar a respectiva intimidade, retirar a alguém o direito essencial a manter íntimo o que é seu e a manter secreta a sua correspondência. Anos mais tarde, trabalhando esporadicamente na Comissão de Extinção da PIDE-DGS, pude confirmar, ao consultar certos processos, que a PIDE mantinha um registo das escutas telefónicas que ultrapassava em muito os aspectos políticos, para se concentrar largamente na devassa total da vida privada dos "suspeitos". Estava ali uma abundante matéria de chantagem e tema de cartas anónimas, que a PIDE também não se coibia depois de enviar às mulheres, maridos, familiares, dos "inimigos da ordem pública". Estava ali também o retrato fiel de um regime moralmente podre e politicamente abjecto. Na ingenuidade dos meus verdes vinte anos, imaginei que nunca mais, num país finalmente livre e democrático, se poderiam voltar a viver coisas semelhantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas os anos foram passando, os tempos foram evoluindo, o crime internacional e organizado foi-se especializando e, aos poucos, o Código de Processo Penal foi abrindo brechas por onde foram deslizando lentamente as sagradas garantias que a Constituição de 1976 nos tinha dado. Foi primeiro a droga, depois o terrorismo, as associações de malfeitores, o grande crime económico. Foi primeiro as dificuldades da própria investigação de certos crimes, depois a sempre invocada insuficiência de meios, enfim o acumular de processos nas mãos dos juízes. Nunca faltaram os pretextos, as razões ponderosas e "compreensíveis", até que as excepções se transformassem na regra. As escutas telefónicas estão hoje para a investigação criminal em Portugal como antes estava a confissão do suspeito: é a prova absoluta, o método rotineiro de investigação, o meio de prova mágico que dispensa o trabalho e a imaginação de todos os restantes. Se o suspeito se descai numa escuta, há processo - sem necessidade de o complementar com quaisquer outras provas convincentes; se ele não se descai, não há processo - mesmo que abundem os indícios de crime, que não se procura investigar por outra forma. Não admira que a PGR e a PJ se queixem da insuficiência de meios humanos para poderem evitar a escandalosa diferença entre processos abertos e processos concluídos: estão todos ocupados a escutar as conversas telefónicas dos portugueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é apenas um dos problemas levantados pelas escutas. Mas há pior e bem mais grave. Eu, por exemplo, parto do princípio, hoje como no tempo da PIDE, de que o meu telefone está sob escuta. Não porque seja suspeito de qualquer crime ou tenha qualquer lição de ética a receber da polícia ou do Ministério Público. Mas apenas porque eu, pelo meu lado, suspeito que o que era fatal que acontecesse qualquer dia está a acontecer: as escutas tornaram-se também um instrumento político nas mãos das corporações judiciais. Escutam-se não apenas os suspeitos de crimes, mas também os políticos que podem contrariar as posições e interesses dos magistrados, os jornalistas que os podem comprometer, os fazedores de opinião que os possam contradizer. Se dúvidas houvesse, o recente episódio em que escutas telefónicas feitas a dirigentes do PS e do PP, e cujo tema era a demissão do procurador-geral da República, foram feitas, prosseguidas, transcritas, arquivadas em processo (como se de crime se tratasse!), e posteriormente enviadas para publicação num jornal, são a prova cabal do uso da devassa telefónica como arma de chantagem política.E esse é apenas o último episódio em data. Nos últimos anos, tem sido crescente o número de casos em que o teor de escutas telefónicas feitas ao abrigo de um processo de investigação e supostamente validadas por um juiz acabaram "sopradas" para os jornais - sempre e sempre, como não podia deixar de ser, por iniciativa dos que promoveram e realizaram as próprias escutas. Como também é fácil de verificar, na maioria desses casos, as escutas acabam por não dar origem a qualquer acusação judicial ou a não conseguirem sustentá-la, funcionando a sua divulgação pública como uma forma de julgamento popular promovido pela magistratura e destinado a compensar, aos olhos da opinião pública, a total incompetência dos investigadores. Noutros casos ainda, a leitura do sentido das fugas de informação nesta matéria indicia claramente uma tentativa de coacção ou chantagem sobre o poder político. Foi assim que, ao abrigo da investigação do processo Casa Pia, as escutas foram ao ponto de abranger dirigentes partidários sem nenhuma relação com o processo e o próprio Presidente da República. À impunidade, à violação grosseira da lei por parte de quem deveria vigiar o seu cumprimento, segue-se o desafio e a provocação, até se chegar ao limite pretendido: o sequestro do poder político por parte do judicial. Eis aqui uma matéria em que nenhum Presidente da República tem o direito de permanecer calado. Em que nenhum candidato presidencial tem o direito de fugir à resposta. Trata-se de saber, antes de mais, se nós continuamos ou não a ter direito ao sigilo da correspondência, salvo rigorosas excepções, a avaliar, antes e durante as escutas, por um juiz de instrução - e não, como sucede, com horas e horas de escutas a acumularem-se nas mãos dos investigadores, sem que o juiz encontre tempo, dentro do prazo "razoável" de que fala a lei, para as validar ou mandar destruir. E temos o direito de saber se as escutas servem unicamente como meio complementar de prova na investigação criminal, ou também como meio de devassa pública, de disfarçar a incompetência ou de assustar quem interessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito que entendo que o Ministério Público funciona em rédea livre, fazendo o que quer e não fazendo o que não quer, sem dar satisfações nem prestar contas. Por isso mesmo, liberto dos constrangimentos dos políticos e ponderando entre dois males efectivos, sou a favor do fim da autonomia total de que actualmente goza. Hoje, confrontado com a deriva antidemocrática a que conduziu a autonomia total do Ministério Público, prefiro o perigo de uma investigação criminal hierarquicamente subordinada a um poder legitimamente eleito do que entregue aos próprios, sem orientação nem controlo democrático externo. E acho que se poderia e deveria começar pelas escutas. Que houvesse um órgão independente, com membros designados pela Assembleia e pelo Presidente, a quem a Procuradoria-Geral da República submeteria regularmente um relatório completo das escutas efectuadas e em curso, quem e porquê as tinha ordenado e com que resultados. E que, ao fim de um prazo a definir por lei, mas nunca mais de seis meses, as operadoras telefónicas fossem obrigadas a informar directamente os clientes, sem passar pelo tribunal, de que o seu telefone estava sob escuta, desde tal data e à ordem de tal magistrado. Nada fazer é pactuar com a instalação paulatina de um Estado policial onde o direito à intimidade da vida privada deixou de contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público” - 02.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113365147201596266?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113365147201596266'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113365147201596266'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/portugal-sob-escuta.html' title='Portugal sob escuta'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113337468855698236</id><published>2005-11-30T18:10:00.000Z</published><updated>2005-11-30T18:18:08.600Z</updated><title type='text'>Unidos na desgraça</title><content type='html'>BENFICA e FC Porto estão finalmente unidos: unidos na desgraça holandesa. Para quem esperava que a contratação de dois treinadores holandeses por parte dos dois maiores clubes portugueses viesse revolucionar o respectivo jogo, trazer ao nosso campeonato a versão moderna do tal «futebol total» que imortalizou a escola holandesa e pôr um e repor o outro no trilho da Europa de luxo, estes primeiros três meses da experiência holandesa têm sido frustrantes. Ambos estão à beira de ser implacavelmente afastados da Liga dos Campeões e em risco até de o serem também da Taça UEFA, desperdiçando a sorte que os colocou em dois grupos classificativos perfeitamente acessíveis, e depois de públicas e reiteradas demonstrações de medo, falta de ambição, de estratégia e de clarividência. E se, internamente, o Benfica caminha vários passos atrás do FC Porto, num impensável 6.º lugar, também é verdade que já venceu no Porto, onde Koeman deu uma lição de estratégia a Adriaanse. Ontem, mercê de uma vitória feliz em Barcelos — uma vez mais devida ao talento de Ricardo Quaresma e após mais uma exibição miserável, em que Adriaanse voltou amostrar todas as suas qualidades estáticas no banco — o FC Porto ganhou oito pontos de avanço sobre o Benfica. Mas tudo pode ficar mais nivelado entre ambos (nivelado por baixo), se, na próxima sexta-feira, conforme é de temer, também Paulo Bento for ao Dragão ensinar a Co Adriaanse como é que se ganha um jogo importante. Olhando para este primeiro terço de campeonato e para o que treinadores portugueses têm feito à frente de equipas como Nacional, Sp.Braga e Vitória de Setúbal, só podemos concluir que se Koeman e Adriaanse fossem portugueses já estariam despedidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem vistas as coisas, Koeman tem mais desculpa do que Adriaanse. O Benfica dispõe de pouco mais de metade do orçamento do FC Porto, tem tido menos apoio do público no seu estádio e tem, sobretudo, pior equipa e pior banco. Com a lesão de Simão tornou-se evidente, para quem ainda pudesse ter dúvidas, que todo o futebol de ataque do Benfica depende dele, passa por ele e conclui-se quase sempre com ele. Com a lesão dos dois guarda-redes principais foi a vez de abanar de alto a baixo toda a estrutura defensiva, remetendo o Benfica para uma série de seis jogos sem vencer e para uma atitude competitiva própria das equipes que tudo temem e nada arriscam. Isso não justifica todos os erros de Ronald Koeman— como a ideia de jogar com quatro centrais, dois laterais e dois trincos, em Paris, praticamente em «casa», contra uma equipa menor da cena europeia e num jogo em que só lhe podia interessar ganhar. Mas a verdade é que a actual equipa do Benfica é o resultado de uma penosa reestruturação, iniciada há dois anos atrás e a partir praticamente do nada. E, a menos que apareça um Abramovitch caído do céu, nenhuma equipa é capaz de passar de banal a bestial em dois anos. Independentemente dos erros cometidos, Koeman tem ao seu dispor o que tem—e o que tem é manifestamente pouco para as ambições alimentadas pelos seus dirigentes. Não é por acaso que estes já puseram em marcha a campanha de sensibilização dos árbitros e da Comissão de Arbitragem, aliás fundada em pretensas razões de queixa ridículas: quando não se tem cão, caça-se com gato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já no FC Porto, as coisas são radicalmente diferentes. O que não tem faltado ali são milhões ao desbarato para comprar jogadores em série—doze a quinze em cada ano que passa — e pagar salários de luxo ao primeiro que aparece ao virar da esquina. E se Adriaanse pode dizer que a equipa não é dele, mas do presidente (o que é verdade), também é duvidoso que fosse melhor ao contrário, a avaliar pelas estapafúrdias equipas que escala para pôr a jogar, ou até pelo único jogador por si escolhido — o turco Sonkaya, que conseguiu a proeza de fazer as bancadas do Dragão destilar saudades do Secretário. Adriaanse tem e teve tudo para conseguir estar hoje numa posição intocável perante os adeptos, a começar por um fulgurante início de época, unanimemente elogiado por todos. E tudo a sua teimosia e a sua soberba levou...O futebol de ataque, que deslumbrou ao ponto de levantar críticas pela sua ousadia, foi caindo, caindo, ao ponto de entrar a jogar em casa, num jogo em que só a vitória interessava, contra o medíocre Glasgow Rangers, desfalcado e em crise profunda, sem nenhum ponta- de-lança e reduzido na prática e 10 jogadores, pela teimosia em voltar a insistir no inútil Jorginho. Em cinco jogos da Liga dos Campeões, Adriaanse perdeu três, empatou um, equivalente a derrota, e só ganhou um, graças a dois ressaltos felizes. E, revendo o filme de cada um dos seus quatro desaires, é justo reconhecer que todos eles foram perdidos por influência directa do treinador—tal como sucedeu contra o Benfica. Em todos eles tornou-se gritantemente evidente que Adriaanse não estudara os adversários, não tinha nenhuma estratégia para os jogos, escalou equipas sem lógica visível, fez substituições sem nexo, e não conseguiu segurar nenhuma das situações de vantagem de que dispôs em todos eles. Tranquilamente, podia ter agora 11 pontos e o primeiro lugar garantido: tem quatro e fortes hipóteses de terminar o grupo em último lugar. É certo que ainda pode conseguir o milagre, mas, não só não o merece, como nada poderá já apagar a imagem repetida dos sucessivos erros de pura incompetência acumulados. Pinto da Costa bem pode — num acto que no passado deu frutos mas que agora surge como uma deslocada provocação aos adeptos— prolongar-lhe o contrato de dois para três anos, sem que os resultados ou o mérito o justifiquem. Mas, a continuar assim, o problema do presidente do FC Porto, para a próxima época e a seguinte, vai ser o de convencer os sócios de lugar cativo a renovarem os seus lugares. E, sem eles, não há público no Dragão nem dinheiro para o festival de compras do Verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem à noite, contra o Gil Vicente, foram os gritos dos adeptos, por exemplo, que obrigaram Co Adriaanse a perceber, quase no fim, aquilo que qualquer adepto habitual de futebol já tinha percebido: que era preciso refrescar o ataque, tirar aquele estranho caso patológico em que se transformou o Jorginho e tirar o mais que desgastado Lisandro López. Se ficasse aqui a enumerar todas as situações gritantes, evidentes, em que o treinador do FC Porto foi a única pessoa no estádio a não perceber o que se estava a passar no jogo, nunca mais acabaria. Eu olho para ele e vejo-o sempre sem expressão, sem reacção, incapaz de comunicar com os jogadores, de transmitir ordens para dentro, de ver o jogo decorrer conforme uma estratégia planeada (como fazia Mourinho), ou, ao menos, de corrigir as coisas no decorrer do jogo (como fazia António Oliveira). Vejo-o sim dar asas aos jogadores e depois liquidá-los sem explicação; promover a indiscutíveis jogadores que nada provam e subitamente desprezar outros que toda a gente percebe que são mais-valias, como já sucedeu com Quaresma e agora sucede com McCarthy. Tudo sem nexo, sem critério, sem correspondência com o que se vê durante os jogos. Tudo aparentes caprichos de um vaidoso que não tem currículo para o ser. Adriaanse deveria ter aprendido a lição de Mourinho: não é vaidoso quem quer, mas quem pode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 29.11.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113337468855698236?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113337468855698236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113337468855698236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/11/unidos-na-desgraa.html' title='Unidos na desgraça'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113319477808821681</id><published>2005-11-25T16:16:00.000Z</published><updated>2005-11-28T16:19:38.103Z</updated><title type='text'>Foi você que pediu um aeroporto?</title><content type='html'>Aquilo parecia uma reunião de vendas da Tupperware, em ponto gigantesco. Setecentos convidados escolhidos a dedo passaram um dia a ouvir o Governo e os consultores por ele contratados (e todos eles parte interessada no negócio) a defenderem os méritos do futuro aeroporto da Ota. Dos setecentos convidados, alguns eram institucionais, ligados ao assunto pela própria natureza das suas actividades, mas a grande maioria era composta por candidatos à compra do negócio: consultores, bancos, construtores, advogados de negócios públicos, enfim, a nata do regime, as "forças vivas" da nação. Lá dentro, os setecentos magníficos estavam positivamente desvanecidos à vista de tantos e tantos milhões que o Governo socialista tinha para lhes dar. Havia dinheiro no ar, dinheiro nos gráficos apresentados, dinheiros nos "documentos de trabalho", dinheiro a rodos. O nosso dinheiro, os milhões dos nossos impostos. Mas ninguém nos convidou para entrar: é assim a democracia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira mentira que o Governo promove acerca da Ota é a de tentar convencer os tolos que o futuro Aeroporto Internacional Mais Perto de Lisboa não vai custar praticamente nada aos cofres públicos. Acredite quem quiser, o Governo jura que a "iniciativa privada" resolveu oferecer um novo aeroporto ao país. Assim mesmo, dado, sem que saia um tostão do Orçamento do Estado, fora os milhões já gastos nos estudos amigos. É falso e é bom que ninguém se deixe enganar logo à partida: parte do dinheiro virá da UE e podia ser gasto em qualquer coisa mais útil; parte virá do Estado directamente; parte poderá vir dos utilizadores da Portela, chamados a custear a Ota, a partir de 2007, através de uma taxa adicional cobrada em cada embarque; e a parte substancial virá ou da venda de património público (a ANA), ou da cedência de receitas do Estado a favor dos privados - as taxas aeroportuárias dos próximos 30 a 50 anos. É preciso imaginar que somos completamente estúpidos para não percebermos que abdicar de receitas ou vender património rentável é, a prazo, uma forma indirecta de realizar despesa, agravar o desequilíbrio das contas públicas e forçar o aumento de impostos para o compensar. E também uma forma de pagar bastante mais caro as obras públicas, para garantir o negócio à banca e aos investidores privados - como sucede com as Scut e com a Ponte Vasco da Gama. Se voltarem a ouvir dizer que a Ota vai sair de borla aos contribuintes, saibam que vos estão a tomar por estúpidos.Resolvida esta questão prévia, o Governo e os seus cúmplices tinham mais três outras questões essenciais a explicar: que Lisboa vai precisar de muito maior capacidade aeroportuária num futuro médio; que, existindo o problema, a solução passa pela construção de um novo aeroporto de raiz e não pelo acrescento do actual ou pelo seu aproveitamento complementar com os adjacentes - Alverca ou Montijo; que esse novo aeroporto é viável, cómodo para os utentes e economicamente sustentável, situado a 50 quilómetros da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada disso foi conseguido: o estudo apresentado pela Naer, mesmo para ignorantes na matéria como eu, é uma pífia peça de publicidade para tolinhos ou distraídos, capaz apenas de convencer os directamente interessados no negócio. É lastimável que se queira comprometer mais de 3000 milhões de euros de dinheiros públicos, que se planeie retirar a Lisboa um instrumento económico tão importante quanto o é o Aeroporto da Portela e tornar pior a vida de milhões de pessoas que o utilizam, com os argumentos constantes de um folheto que mais parece destinado a vender time-sharing no Algarve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por falta de espaço não posso agora analisar ponto por ponto esta lamentável peça propagandística, decerto paga a peso de ouro. Mas, para se ter uma ideia da leviandade com que ela foi apresentada, dou o exemplo dos 56.000 postos de trabalho que supostamente a Ota irá criar - 28.000 dos quais directos e mais 28.000 indirectos "na envolvente", sem que se explique minimamente de onde é que eles nascem e o que é isso da "envolvente". Ou o exemplo do tal shuttle, que, saído da Gare do Oriente todos os quinze minutos em cada sentido, ligará Lisboa à Ota em 20 a 25 minutos - sem que se explique onde é que existe a capacidade da Linha do Norte para absorver esse shuttle. Ou o exemplo do silêncio feito sobre o destino do Aeroporto Sá Carneiro, em cuja modernização se gastaram recentemente 300 milhões de euros, e que tem a morte anunciada com o aeroporto da Ota. Ou o facto de não se incluírem nos custos estimados nada que tenha a ver com as acessiblidades necessárias, quer ferroviárias (o shuttle mais o TGV), quer rodoviárias, incluindo a construção de uma nova auto-estrada e o prolongamento da A13. Ou ainda o facto de não haver qualquer estudo económico que se proponha quantificar os custos de utilização da Ota, no que respeita a horas de trabalho perdidas nas deslocações de e para o futuro aeroporto, o acréscimo brutal de consumo de combustível, o aumento da sinistralidade rodoviária, o aumento dos custos de exploração da TAP, das demais companhias aéreas, das empresas sediadas no aeroporto, das agências de viagem e turismo, das actividades hoteleiras, etc., etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo foi feito, não para convencer os portugueses e os contribuintes da necessidade imperiosa da Ota, mas sim para convencer o grande dinheiro das vantagens desta oportunidade única de negócio. Foi feito ao contrário: os que ficaram à porta deveriam ter sido os primeiros a ser convidados, e só depois se chamavam os setecentos. Eu não tenho, e julgo que ninguém poderá ter, a pretensão de ter certezas absolutas sobre isto: não sei se a Ota se virá a revelar uma decisão visionária ou antes um imenso e trágico desperdício. Mas o que sinto em todo este processo é que a decisão já estava tomada desde o início e, tal como sucedeu com a regionalização - outra das soluções mágicas dos socialistas - o Governo se acha competente para tomar decisões que comprometem drasticamente o nosso dinheiro e o nosso futuro, sem se preocupar em explicar e convencer os que têm dúvidas. Por isso é que toda esta questão da Ota cheira mal à distância: cheira a voluntarismo político ao "estilo João Cravinho", que tanto dinheiro custou e continua a custar ao país, e a troca de favores com a clientela empresarial partidária, a que costumam chamar "iniciativa privada".Para esse peditório já demos. Já demos demais, já demos tudo o que tínhamos para dar. O país está cheio de fortunas acumuladas com negócios feitos com o Estado e pagos com o dinheiro dos impostos de quem trabalha, em investimentos cuja utilidade pública foi nula ou pior ainda - desde os estádios do Euro até aos hospitais de exploração privada. Seria bom que quem manda compreendesse que já basta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público” - 25.11.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113319477808821681?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113319477808821681'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113319477808821681'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/11/foi-voc-que-pediu-um-aeroporto.html' title='Foi você que pediu um aeroporto?'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113319518589718177</id><published>2005-11-22T16:21:00.000Z</published><updated>2005-11-28T16:26:25.900Z</updated><title type='text'>Eles existem, os génios</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;E, depois, existem os génios, os predestinados, aqueles que não nasceram para mais nada que não rigorosamente para jogar futebol. Este sábado vi dois génios do futebol em acção, um ao vivo no estádio e outro pela televisão: Ricardo Quaresma, no Dragão, e Ronaldinho Gaúcho, em Chamartin.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Como em todas as outras áreas da actividade humana, também no futebol existem várias espécies de praticantes: os maus e os medíocres, que, por pudor ridículo, nunca são classificados como tal; os banais e os razoáveis, muitas vezes confundidos com grandes jogadores; e os bons e muito bons, que mal tocam na bola se distinguem dos demais. E, depois, existem os génios, os predestinados, aqueles que não nasceram para mais nada que não rigorosamente para jogar futebol. O maior génio que alguma vez vi pisar um campo de futebol chamava-se Johan Cruyff, era holandês e deslumbrou no Ajax e no Barcelona. Nos tempos em que ele jogava em Espanha eu ia ao fimde- semana de Lisboa a Monsaraz para o ver jogar na televisão espanhola, que se captava junta à fronteira. E valia a pena. Este sábado vi dois génios do futebol em acção, um ao vivo no estádio e outro pela televisão: Ricardo Quaresma, no Dragão, e Ronaldinho Gaúcho, em Chamartin. Mas vamos por partes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Sp. Braga-Benfica. Depois da paupérrima exibição contra o Marítimo, o Sp. Braga puxou dos galões de líder do campeonato e fez pela vida face a um Benfica que voltou a cometer o mesmo erro de Manchester: começar a defender o resultado ainda na infância do jogo. Pelo que se viu, apenas o Sp. Braga poderia e mereceu ter ganho; o Benfica, ao contrário do que havia feito no Dragão, limitou-se a esperar pela sorte grande. Dois minutos depois da hora pareceu repetir-se o fado do campeonato passado: João Ferreira resolveu ver um penalty que ninguém mais viu e nenhum jogador do Benfica se atreveu a reclamar. Foi uma machadada no benfiquismo das gentes de Braga e a demonstração do ditado que reza «amigos, amigos, negócios à parte». Mas, três minutos volvidos (dos oito de prolongamento dados pelo árbitro!), o Sp. Braga repôs a verdade, através de um golo obtido não em fora de jogo mas irregular, porque o seu marcador arrancou para a jogada em fora de jogo. Houve logo quem, pressurosamente, dissesse que um erro compensava o outro, uma interpretação muito bondosa: o offside foi daqueles que só se detectaram após visionamento em câmara lenta, um erro perfeitamente justificável do fiscal de linha; o penalty foi uma injustificável decisão do árbitro, aliás tardiamente assinalada. No mais, restou aquele gesto de Nuno Gomes, que as câmaras de televisão inadvertidamente captaram, após o golo da vitória do Sp. Braga, e em que ele insinuou que os adversários estariam dopados. Que fará do significado desse gesto a douta Comissão Disciplinar da Liga— vai investigar a veracidade da insinuação, vai obrigar o Nuno Gomes a fazer prova do que insinuou ou vai fingir que não viu? Aposto na última.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. FC Porto-Académica. Passaram a semana inteira a jurar-nos que não restaria um único bilhete por vender no Sp. Braga-Benfica. Ia ser a maior assistência de sempre no sumptuoso palco desenhado por Souto Moura — os de Braga, eufóricos com a carreira da equipa local, mais as multidões que o Benfica sempre arrasta: 30.100 espectadores no total. Afinal, promoção à parte, foram 21.449 espectadores em Braga e 30.108 no Dragão, para um jogo banal. Desta vez o ataque azul funcionou, foram cinco golos, deveriam ter sido quatro, poderiam ter sido seis ou sete. Houve um golo invalidado ao FC Porto e outro (o terceiro da série, a 19 minutos do fim) validado sem a bola ter entrado. Mas tudo se resumiu a uma questão de números, mais um menos um, nada que tenha que ver com o desfecho ou a justiça do triunfo azul. Lamentável, por isso mesmo, que à saída, na rádio, tenha tido de ouvir Nelo Vingada a declarar que perdeu graças às «ajudas da arbitragem» de que o FC Porto terá beneficiado. Não é a primeira vez que o vejo lamentar-se nestes termos, e com a mesma falta de razão e sentido das coisas, após perder com o FC Porto. Será uma questão pessoal, uma aversão ao azul? Teria sido mais bonito se Nelo Vingada, por exemplo, tem justificado a derrota com o tremendo desconcerto que as arrancadas, os toques de calcanhar, os cruzamentos, os golpes de génio de Ricardo Quaresma lançaram na retaguarda coimbrã. Não é para isso, também, que os treinadores de futebol deveriam servir — para elogiarem e chamarem a atenção para o que o futebol tem de luminoso, de entusiasmante? Se o tem feito, além do mais, poderia ter contribuído com a sua parte para tentar evitar nova injustiça que o seleccionador nacional prepara: deixar Quaresma de fora do Mundial da Alemanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.  A 750 quilómetros dali, em Madrid, Vanderlei Luxemburgo, vergado ao peso de uma humilhante derrota caseira contra o rival de sempre, teve, mesmo assim, a nobreza de atitude de prestar homenagem ao homem que acabara de destroçar o Real: Ronaldinho Gaúcho, o melhor jogador do Mundo na actualidade. Há uns anos atrás assisti em Chamartin a outra noite em que outro prestidigitador ao serviço do Barcelona, de seu nome Rivaldo, liquidou o orgulho merengue a golpes de puro génio. A diferença é que, nessa noite de então, incapazes de reprimir o ódio visceral pelos da Catalunha, os espectadores do RealMadrid respondiam a cada golo do fabuloso n.º 10 dos rivais com gritos de «Rivaldo, hijo de puta!». E agora foi diferente: os dois golos finais de Ronaldinho, verdadeiras obras de arte de todos os tempos, receberam a homenagem de um estádio inteiro em silêncio e alguns mesmo a aplaudirem-no.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. O futebol tem coisas verdadeiramente incompreensíveis. Entre nós talvez o maior motivo de espanto, ou pelo menos de admiração, é a notável carreira dos jogadores comandados por Norton de Matos e abandonados pela sua direcção: seis vitórias em onze jogos, quarto lugar ex æquo com o Sporting e com dois pontos a mais que o Benfica. Já no final do jogo do Dragão tinha-se visto o presidente que não paga salários a atender o telemóvel, em tom triunfante, como se o empate então obtido devesse, um átomo que fosse, à sua pessoa ou à sua linda gestão. Agora, após o triunfo por 3-0 na Figueira, o notável Chumbita Nunes afirmou que ele era «um prémio para o esforço que temos desenvolvido». Que «temos»? É preciso ter lata!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 22.11.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113319518589718177?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113319518589718177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113319518589718177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/11/eles-existem-os-gnios.html' title='Eles existem, os génios'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113231702629653743</id><published>2005-11-18T12:22:00.000Z</published><updated>2005-11-18T12:30:26.310Z</updated><title type='text'>Desencontros</title><content type='html'>1. Duas miúdas de 14 ou 15 anos foram chamadas e repreendidas pelo conselho directivo da respectiva escola pelo facto de andarem a exibir a sua mútua atracção, através de beijos e apalpões, perante a plateia da escola. O caso chegou às televisões e aos jornais e, como era fatal que acontecesse, provocou a habitual erecção escandalizada dos mentores do politicamente correcto. Parece que, argumentam eles, a "repressão" exercida sobre aquelas miúdas viola o sagrado direito constitucional à "liberdade de orientação sexual". Não lhes ocorreu que, antes de tudo, o que está em causa não é uma questão de orientação sexual, mas sim um comportamento infelizmente muito típico das comunidades gays e lésbicas, que é o exibicionismo sexual. O problema não é as miúdas amarem-se ou desejarem-se intensamente: é que os restantes colegas da escola não têm nada a ver com isso, nem têm de ser expostos às demonstrações públicas de tais "afectos" (como costumam dizer os politicamente correctos). E é também, obviamente, uma questão de bom gosto, que vale para heteros ou homos. Esta teoria do primado absoluto do "direito à orientação sexual" está-se a tornar uma espécie de ditadura bem-pensante, que funciona por um método "terrorista" de silenciamento dos discordantes: quem não reconhece este sagrado direito constitucional, com todas as suas consequências, só pode ser uma abecerragem, ao estilo do dr. João César das Neves. É assim que o Tribunal Constitucional está à beira de declarar inconstitucional, com força obrigatória geral, a disposiçâo do Código Penal que, a seu ver, "discrimina ilegitimamente" a pedofilia homossexual. Ou seja, os juízes entendem, por exemplo, que é exactamente igual um miúdo ser abusado ou violado por uma mulher ou por um homem. Sem curar de saber qual das situações poderá causar maior abalo e mais danos permanentes ou futuros à vítima, eles consideram que o essencial é preservar o direito à orientação sexual do abusador.&lt;br /&gt;Espanta-me que não ocorra a estes guardiões da Constituição nenhuma consideração relativa ao direito à orientação sexual da vítima: e se o miúdo abusado não tem, nem nunca vier a manifestar ao longo da vida, qualquer propensão homossexual? Mesmo assim deve curvar-se ao intocável direito de orientação sexual do abusador? Desculpem-me que o diga com toda a franqueza, mas a aplicação cega deste princípio parece-me tão repelente que a única conclusão lógica que eu consigo extrair é que as vítimas do caso Casa Pia, por exemplo, vão acabar por ter sido duplamente abusadas: pelos criminosos e pela Constituição.&lt;br /&gt;E lamento desiludir o Daniel Oliveira e demais vestais deste templo: nem sequer sou católico (aliás, constato que a Igreja Católica tem estado na linha da frente da protecção aos pedófilos homossexuais, especialmente se do seu clero); nunca descobri em mim, vários exames de consciência feitos, qualquer orientação sexual homofóbica, e fui seguramente dos primeiros a defender publicamente a total igualdade de direitos, incluindo o casamento, para os homossexuais. Só não defendo o direito à adopção, porque aí, mais uma vez, entendo que o direito deles não se pode impor ao direito das crianças adoptadas, cuja vontade não é lícito presumir. E eu não posso presumir que uma criança não se importe nem venha a sofrer pelo facto de ser criada por duas mães ou dois pais.&lt;br /&gt;Voltando à escola das miúdas "reprimidas", o que eu penso é que os restantes alunos têm a liberdade correspondente à delas, que é a de não quererem saber nem terem de assistir às demonstrações da sua inclinação sexual. E os pais das crianças que frequentam a escola, algumas apenas com seis ou sete anos de idade, têm o direito de educarem sexualmente os seus filhos conforme entendem e no momento que entendem, sem que esse processo, que é complicado e sensível, possa ser afectado pela atitude voluntariamente desafiadora de exibicionistas sexuais, que sempre existiram e existirão em qualquer escola. Além do mais, repito, trata-se de uma questão de boas maneiras e bom gosto - que são coisas que se devem ensinar e se devem aprender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. António Arnaut, o ex-ministro da Saúde socialista, costuma ser referido pela imprensa (e julgo que a gosto do próprio) como o "pai do Serviço Nacional de Saúde"- o qual, tendo nascido sob a filosofia constitucional de ser "tendencialmente universal e gratuito", acabou fatalmente arruinado, como está. A "medecina defensiva", o prolongamento constante da vida, os caríssimos meios de diagnóstico e de tratamento modernos e a noção instalada em todos de que tudo o Estado lhes deve conduziram à insustentabilidade financeira do sistema. Como explicou o professor Manuel Antunes, o ritmo de crescimento das despesas públicas com a saúde tem sido de 6 por cento ao ano nos últimos dez anos, representando já 17 por cento do Orçamento do Estado e 25 por cento dentro de dez anos. O que fazer? Para Arnaut é fácil: lançar um imposto de saúde sobre os rendimentos mais elevados. Ou seja, deixar os custos em roda livre e aumentar as receitas, através de uma tributação dupla, em IRS e num novo imposto a criar ad hoc. E quem diz a saúde podia dizer a Segurança Social, a educação, a justiça - até haver 10 por cento de portugueses a sustentar os gastos de 90 por cento.&lt;br /&gt;Já Manuel Antunes - que, no Serviço de Cirurgia Cardiotorácica da Universidade de Coimbra, tem sido um raro exemplo de eficiência - propõe uma solução diferente e tão ao arrepio destes tempos de generalizada onda de exigências sem contrapartidas, que mais parece uma provocação pública. Diz ele que a solução é "produzir melhor com o mesmo ou com menos dinheiro", parando de "desperdiçar" os recursos que existem. E dá um exemplo concreto: mais uma hora por dia nas salas de operações subiria a produtividade em 20 por cento.&lt;br /&gt;Mas quem é que aceita propostas destas? Para a generalidade dos que trabalham para o Estado, não há falta de produtividade, o que há é uma inexplicável avareza do Estado, que só pede às pessoas trabalho, em vez de distribuir a riqueza que tem, com défice ou sem défice. Veja-se o caso dos professores: têm um horário de trabalho de 35 horas semanais, das quais passam em média 14 nas escolas e 21 em casa ou na rua, a "prepararem as aulas". O Ministério da Educação propõe-lhes agora que dêem mais oito horas por semana à escola, nomeadamente para substituírem os colegas que faltam (note-se que, se não faltassem, não havia tal necessidade). Os sindicatos acham que tal é "degradar a função docente" - ou que já não o será se essas horas a mais, embora dentro do horário, forem pagas como trabalho extraordinário. E, por isso, estão hoje em greve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público” - 18.11.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113231702629653743?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113231702629653743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113231702629653743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/11/desencontros.html' title='Desencontros'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113214465644646562</id><published>2005-11-15T12:34:00.000Z</published><updated>2005-11-16T12:37:36.466Z</updated><title type='text'>"Lobbies" e outras coisas</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O «lobby contra o Ricardo», por mais que Scolari finja não perceber, não tem razões obscuras mas apenas aquilo que está à vista de todos. E já não se compõe só de amigos de Baía ou portistas mas agora também de benfiquistas, sportinguistas e todos quantos não tenham medo de ter opinião.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1- Fui dos primeiríssimos a criticar a escolha definitiva de Ricardo para titular da baliza da Selecção por parte de Scolari. Escrevi então que, muito embora o considerasse um grande guarda-redes entre os postes, achava que lhe faltava em absoluto uma qualidade hoje fundamental num guarda-redes: dominar o jogo aéreo. Houve quem ripostasse que eu escrevia assim porque era portista e amigo do Baía — ambas as coisas são verdadeiras, e muito me honram, mas não me determinam. Hoje quase toda a gente reconhece que o que Scolari fez e vai fazendo com Vítor Baía (sem lugar entre os três guarda-redes portugueses escalados para o Europeu, no ano em que os treinadores europeus o elegeram o melhor guarda-redes do ano) não encontra qualquer justificação do ponto de vista desportivo ou humano. Para não ter de qualificar a atitude, direi simplesmente que ela é inqualificável e, embora muitos, a começar pelos colegas de Baía na Selecção, se mostrem dispostos a fingir que a coisa passou, eu não só não a esqueço como extraí dela conclusões, essas sim, definitivas acerca da pessoa do seleccionador nacional. Quanto ao que tinha escrito sobre Ricardo, bastou a forma como perdemos a final do Europeu contra a Grécia para que a justeza da minha observação ficasse à vista de todos. Depois disso nunca mais voltei ao assunto e fiquei deliberadamente calado quando, há uns tempos atrás, os sucessivos falhanços de Ricardo o remeteram para o banco de suplentes no Sporting e, de repente, pareceram ter despertado uma súbita unanimidade de críticas até aí nunca vistas. Não gosto de malhar em quem já está em baixo e, além disso, entendo que o principal responsável nem era Ricardo mas sim Scolari. Ricardo era muito melhor guarda-redes antes de Scolari o ter transformado no caso exemplar do seu autoritarismo. Teria ido então muito a tempo de corrigir ou melhorar o que estava mal no seu jogo aéreo (onde Baía continua a ser o melhor guarda-redes português, talvez de todos os tempos), em vez de, atiçado pelo seleccionador, ter revelado sempre uma falta de humildade tamanha que chegou a explicar que um «frango» não era um «frango» mas sim uma «questão técnica» muito complexa, cujo entendimento escapava aos leigos. Dois anos depois Ricardo vê-se forçado a continuar a tentar explicar atabalhoadamente por palavras o que não consegue explicar através dos jogos. E Baía continua a explicar, nos jogos e fora deles, que, além do mais, há uma coisa que o caracteriza e não lhe vem nem das convocatórias para a Selecção nem sequer dos 28 títulos que fazem dele o jogador em actividade que mais coisas conquistou em todo o mundo: classe. E, por esse ponto de vista, não pode restar a menor dúvida de que quem ganhou esta guerra mesquinha foi sempre e só Vítor Baía. E assim chegámos às vésperas da convocatória para o Mundial, tendo já toda a gente percebido que, independentemente da forma em que cada um está ou estiver daqui a uns meses, o Ricardo será convocado e titular e o Vítor Baía voltará a ser ignorado. Independentemente da injustiça gritante desta espécie de critério do seleccionador, agora há um facto novo e evidente: o povo da Selecção percebeu e teme que tudo possa ser deitado por água abaixo no Mundial por uma saída em falso do Ricardo — como ainda este fim-de-semana vimos, contra a Croácia. Daí os assobios, que são injustos para Ricardo, não para Scolari. O «lobby contra o Ricardo», por mais que Scolari finja não perceber, não tem razões obscuras mas apenas aquilo que está à vista de todos. E já não se compõe só de amigos de Baía ou portistas mas agora também de benfiquistas, sportinguistas e todos quantos não tenham medo de ter opinião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2- Eis uma coisa que, pelos vistos, não é nada apreciada pela actual direcção do Benfica: não ter medo de ter opinião. O presidente, esse, fala todos os dias sem parar e sempre com um microfone atento a qualquer suspiro ou murmúrio seu, de Fornos de Algodres a Toronto, Canadá. Nunca lhe falta incentivo, nunca lhe falta pretexto, nunca lhe falta assunto, nem que seja para denunciar a oposição interna como «jagunços» que cometem os crimes de «dizer mal da direcção» e «pensarem que me podem tirar do clube», ou para apelar ao banimento de alguns «que escrevem nos jornais» e que são «um lixo» que ele não tem paciência para comprar «pagando uns almoços e uns charutos ». Mas para os jogadores a lei é outra: a direcção do Benfica não admite que eles tenham qualquer opinião, nem que seja para falarem da família ou da sua vida fora do futebol. E, por isso, quem abre a boca é multado: Moreira, Mantorras, Ricardo Rocha, Simão. No tempo em que o Benfica era governado pelos «senhores de colarinho branco», para usar a expressão do actual presidente do clube, Portugal vivia em ditadura, onde ninguém podia também abrir a boca, e eu habituei-me a ver o Benfica como o símbolo dos que não se calavam —em contraste com o Sporting, que sempre foi tido como o «clube do regime» e dos «aristocratas ». O Benfica era presidido por um marquês mas era o clube do povo, o clube onde estavam os democratas e o grande Eusébio. Esse Benfica não há ninguém que não tenha respeitado e admirado. Hoje o Benfica é presidido por um homem que se auto classifica como «humilde» e vê nos que o atacam «gente sem valores, sem família, sem animais para acarinhar, uns frustrados da vida». De facto, não estou a ver Duarte Borges Coutinho a dizer coisas destas ou a multar os jogadores por abrirem a boca. Outros tempos, outros estilos? Não, mais que isso: outra atitude, outro clube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3- No final da época passada o benfiquista António Figueiredo, presidente do Estoril, viu-se confrontado com um terrível dilema: o seu Estoril precisava de pontos para se manter na I Divisão e o seu Benfica precisava de pontos para ser campeão. Optou por vender o jogo ao Benfica, aceitando disputar o desafio decisivo marcado para a Amoreira no estádio do Algarve, suposto campo neutro, onde estavam 29.782 adeptos do Benfica e 24 do Estoril. No final despediu o treinador, porque ele ousou criticar uma arbitragem que o País inteiro viu ter sido determinante para a vitória do Benfica. O Benfica foi campeão e o Estoril caiu na II Divisão. Mas tudo se justificava, do ponto de vista do presidente do Estoril, pelo facto de o jogo em Faro proporcionar receitas tão extraordinárias que permitiriam ao Estoril liquidar os ordenados em atraso aos jogadores. Agora, ainda a época vai no início, e já os jogadores do Estoril ameaçam ir-se todos embora porque o clube continua a não lhes pagar. Moral da história: mais vale uma águia a voar que um só pássaro na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 15.11.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113214465644646562?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113214465644646562'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113214465644646562'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/11/lobbies-e-outras-coisas.html' title='&quot;Lobbies&quot; e outras coisas'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113171874598193290</id><published>2005-11-11T14:07:00.000Z</published><updated>2005-11-11T14:19:05.996Z</updated><title type='text'>Viva Campo de Ourique!</title><content type='html'>Tarde na manhã de sábado vou ao mercado de Campo de Ourique, um quadrado ocupando todo um quarteirão e com entradas por cada um dos lados dos pontos cardeais. Cheira a fruta e a legumes, ainda orvalhados da terra, cheira a cebolas, a coentros, a maçãs e a laranjas: nenhum supermercado cheira assim. Uma peça de fruta nunca é igual à outra, há que escolhê-las uma a uma, porque algumas têm bicho e outras não, algumas estão maduras de mais e outras ainda verdes. Saboreio este prazer de escolher peça a peça a fruta e os legumes, as saladas e os temperos, sem ter de levar, e sem poder escolher, embalagens já prontas de fruta asséptica e normalizada, legumes de sabor sempre igual trazidos de Espanha em camiões TIR pelas auto-estradas que construímos para lhes facilitar a vida. Aqui, até há pêras de Alcobaça, grandes e castanhas, em que se tem de pegar delicadamente para que o seu sumo não escorra pelas mãos, há tangerinas e laranjas que não vêm de Israel já com o selo colado na casca, mas dos pomares que ainda restam à volta de Lisboa, há uvas tardias, mas moscatel ou D. Maria genuínas, e não aquelas uvas monstruosas e que não sabem rigorosamente a nada, que vêm da África do Sul e que encontramos inevitavelmente, como sinal de boas-vindas, nos quartos de hotel em qualquer paragem do mundo. E há frutos secos a granel e a peso: figos, passas, castanhas, ameixas, amendoins, pinhões, nozes. E azeitonas verdadeiras e tremoços, meu Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois vou até às bancas de mármore das peixeiras, onde o peixe vindo de madrugada de Sesimbra ou de Peniche brilha com uma humidade prateada, misturada com uma quase imperceptível camada de gordura ainda à flor da pele, sinal iniludível da frescura do dia. O sol da manhã de Outono entra disfarçado pelas janelas altas do mercado e reflecte-se nos olhos dos peixes, que repousam nas bancas como se ainda estivessem vivos. E eis o peixe mais fantástico do mundo, esse verdadeiro luxo que ainda nos resta: pregados, linguados, imperadores, salmonetes, besugos, carapau francês, peixe-galo, garoupa, cherne, lulas e choquinhos com tinta: tenho pena do resto do mundo dito civilizado, onde nem sequer se conhecem os peixes pelo nome!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um bairro para viver tem de começar assim: com um mercado que é uma festa para os sentidos, um regresso aos sabores e aos cheiros que nos educaram. Campo de Ourique começa assim e continua depois, com tudo aquilo que faz deste bairro quase um milagre de espaço urbano perfeito: ruas largas, onde se passeiam casais, carrinhos de crianças e empregados no intervalo do almoço; comércio tradicional e personalizado, com algumas lojas ainda conhecidas pelo nome dos donos - a florista, o cabeleireiro, a loja de comida feita, o electricista, o oculista, a loja de ferragens, a papelaria-tabacaria, a casa das fechaduras, a loja de surf; e os cafés, com esplanadas conquistadas ao passeio e ao Millenium-BCP, com os seus quiosques de jornais cujos donos nos conhecem já tão bem que os dias nem sequer começariam sem o bom-dia deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Campo de Ourique tem tudo isso, mais o jardim central, os seus pequenos restaurantes de culto, os seus excêntricos ou loucos já familiares a todos. Outras coisas felizmente não tem e muito do prazer de andar nestas ruas deve-se a essas ausências: prédios em altura e de fachadas preconceituosas, porteiros e seguranças de prédios, polícias de trânsito a tentar tornar a vida impossível. Aqui funciona como que uma auto-regulação da via pública, com um sentido natural de comunidade, em que ninguém se mete com os outros e toda a autoridade se torna dispicienda graças ao respeito mútuo pela liberdade de cada um. O melhor exemplo deste espírito de liberdade e tolerância mútua que aqui presenciei é um exemplo muito politicamente incorrecto, ocorrido manhã cedo, no café onde sempre tomo o pequeno-almoço. Uma senhora, cliente habitual, pediu um café e acendeu um cigarro. Nessa altura, um sujeito que eu nunca ali tinha visto e nunca voltei a ver, empertigou-se todo e, rico de novos conhecimentos adquiridos, interpelou-a: "Minha senhora, o cheiro do seu cigarro está-me a incomodar!" E ela, sem sequer se voltar, soltou de lado, mas alto e bom som: "Olhe, também o seu cheiro me está a incomodar, mas eu não lhe ia dizer nada." E o intruso saiu, de rabo entre as pernas e perante os sorrisos cúmplices dos habituées (oh, eu sei, um bando de selvagens!).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensando na explosão de ódio e de revolta que agora se vive à roda das cidades francesas, naquelas comunidades inteiras de populações imigrantes que não se sentem ligadas cultural e afectivamente aos locais onde vivem, que vêem o bairro como uma prisão e a rua como um terreno de confronto, dou-me conta até que ponto Campo de Ourique (não sei se por gestação espontânea, se porque alguém planeou e previu bem as coisas) é um bairro modelar, em termos de integração social interclassista e intergeracional, de justo equilíbrio entre comércio, serviços e habitação, entre espaços públicos e privados. E, afinal, este tão raro exemplo de harmonia e qualidade de vida urbana não precisa de nenhuma grande construção de referência, nenhuma urbanização de encher o olho, nenhum centro comercial (antes pelo contrário, o segredo é não o ter), nenhuma piscina municipal nem pavilhão gimnodesportivo, nenhuma rotunda com canteiros e estátuas pseudomodernas, enfim, nada que encha o olho e que mostre dinheiros públicos ou fortunas privadas. Apenas bom senso, sentido de equilíbrio e proporção humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, as pessoas fazem o resto: andam na rua sem pressa nem atropelos, param para conversar à porta das lojas, saúdam-se nas esquinas, passeiam as crianças, os velhos ou os cães, namoram ou lêem o jornal nas esplanadas, almoçam a horas certas na sua mesa de sempre dos seus pequenos restaurantes, numa palavra, vivem a cidade, não se limitam a sofrê-la ou a passar por ela. Certamente que aqui também há gente triste, sozinha, com vidas terríveis. Mas, pelo menos, a rua não os agride: conforta-os, distrai-os e, acima de tudo, dá-lhes um sentido de pertença a uma comunidade - que hoje é coisa tão rara e tão preciosa numa cidade, como o são o peixe, a fruta e os legumes do mercado de Campo de Ourique.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que este texto pode parecer um bocado absurdo, no meio desta eterna agitação em que vivemos. Mas trata-se de uma dívida de gratidão para com o "meu" bairro, que eu precisava de saldar um dia. E também, já agora e aproveitando a oportunidade, trata-se igualmente de um apelo que faço a quem manda e a quem pode: por favor, não estraguem Campo de Ourique! Não é preciso muito: basta não fazerem nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público” - 11.11.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113171874598193290?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113171874598193290'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113171874598193290'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/11/viva-campo-de-ourique.html' title='Viva Campo de Ourique!'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113163527866844803</id><published>2005-11-08T15:03:00.000Z</published><updated>2005-11-10T15:08:51.630Z</updated><title type='text'>De cima para baixo</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Fica mal aos responsáveis do Benfica o recurso à eterna desculpa da arbitragem para justificar um resultado que, pelo futebol visto, acabou até por ser lisonjeiro.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1- Vi o Braga jogar logo no início do campeonato, em casa contra o FC Porto, e o que vi foi a equipa defender, defender, defender, até sair como nulo que unicamente ambicionou. Este fim-de-semana, voltei a ver o Braga, em novo teste difícil, contra o Marítimo. E a história repetiu-se: defendeu, defendeu, defendeu, com dois fogachos inconsequentes apenas na segunda parte. Mas, desta vez, encaixou a primeira derrota do campeonato e sem que tivesse a menor razão para as habituais queixas nestas circunstâncias de forças estranhas que não nos deixam ir mais longe — antes pelo contrário, deve à benevolência de Lucílio Baptista, o pior árbitro português em actividade, o facto de não ter tido de jogar 80 minutos com 10 jogadores. No final, ouvi Jesualdo Ferreira a queixar-se de ter perdido um jogo em que o adversário não fora superior e a jurar que o Braga tinha dominado toda a segunda parte e criado suficientes oportunidades para empatar ou ganhar. Concluí que vimos jogos diferentes, mas também que os restantes jogos do Braga, que eu não vi, não terão sido muito diferentes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2- Ex aequo com o Sensacional da Madeira, na segunda posição, está o FC Porto, graças à vitória obtida em Paços de Ferreira, à custa de um bom quarto de hora inicial, mais um rasgo de inspiração de Quaresma, e depois mais de uma hora de futebol soporífero (e em que, diga-se em abono da verdade, o adversário conseguiu fazer ainda pior, não tendo criado uma única oportunidade de golo em todo o jogo). Com essa desmaiada vitória, Co Adriaanse saiu vivo, depois da inacreditável barracada que fez em Milão, onde não houve asneira que não tenha ensaiado, arrastando a equipa uma vez mais para a derrota e desmentindo todas as suas teses sobre o futebol de ataque. A grande verdade é que hoje ninguém é capaz de prever o que vai fazer o FC Porto, jogo a jogo. Ninguém é capaz de prever, sequer, qual vai ser o sistema de jogo, a estratégia, a equipa. Manifestamente, Adriaanse está à toa, com tiques de ditador desnorteado e perdido — como aliás vai sendo bem visível na própria expressão da sua cara, durante os jogos. Jogadores que eram indiscutíveis desaparecem de repente, como se excomungados no acto: já calhou a vez a Postiga, Ricardo Meireles, Paulo Assunção, Ricardo Quaresma, César Peixoto, Ibson, Lizandro López, Ricardo Costa, Bruno Alves, e agora, McCarthy e Diego. Em contrapartida, outros que acumulam desastre sobre desastre, como Bosingwa e Jorginho, mantêm-se de pedra e cal... até que ele acorde um dia maldisposto ou com um ataque de lucidez e os varra de imediato para a equipa B ou arredores. Nesta completa roleta-russa em que se transformou a definição de um onze-base (?), ninguém consegue entender os critérios das entradas e saídas, se o homem prefere jogar com dois pontas-de-lança ou só um, com dois extremos, um ou nenhum, com dois, três, quatro ou cinco médios, com dois ou com três centrais. A única coisa segura é que joga só com um guarda-redes, porque isso não pode evitar. Aos poucos, Adriaanse está a tornar-se no factor de perturbação da equipa. E eu que tanta esperança tinha nele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3- Em quarto lugar, temos o Benfica, que escapou com danos graves de uma semana igualmente complicada. Depois do empate na Figueira e do balde de água gelada servido pelo Villarreal, teve o azar de apanhar um falso jogo fácil em casa, contra uma das equipas mais bem treinadas e que melhor futebol jogam. O Rio Ave dominou, de facto, o jogo da Luz, sem recorrer à táctica do autocarro, sem jogo faltoso, sem simulações de lesões nem perdas de tempo, antes ocupando o campo todo e nunca desistindo de atacar. Se o empate contra a Naval tinha sido injusto para o Benfica, o empate contra o Rio Ave foi feliz. Por isso, fica mal aos responsáveis do Benfica o recurso à eterna desculpa da arbitragem para justificar um resultado que, pelo futebol visto, acabou até por ser lisonjeiro. Mas o jogo da Luz suscitou-me, de facto, várias questões técnicas ao nível da arbitragem, de que desconheço a resposta e gostaria de ver esclarecidas. A primeira questão tem que ver com o segundo golo do Rio Ave, julgado offside pela generalidade da crítica, pois que, quando a bola é cruzada para a área do Benfica, Gaúcho, que estava deslocado, vai passá-la a Chidi, que faz o golo. Se o lance se tem passado assim, não há dúvida de que há offside. Mas, se bem vi e julgo que sim, há uma diferença, que faz toda a diferença: quando a bola é cruzada, Chidi está em jogo e Gaúcho está, de facto, adiantado. Mas a bola não vai para Gaúcho e sim para Chidi, que depois a passa àquele, que entretanto já estava em posição correcta. Gaúcho devolve a seguir a Chidi, que faz o golo. Ou seja: enquanto está deslocado, Gaúcho não tem interferência alguma na jogada, e quando a tem, já está em posição correcta. Deve ou não considerar-se que tirou vantagem da posição inicial? A segunda questão tem que ver com o primeiro golo do Benfica, resultante de um livre directo sobre o limite da área. Ficaram dúvidas na altura se a falta teria sido sobre a linha da área ou fora dela, e um dos comentadores da TVI afirmou que tinha sido sobre a linha e logo era penalty. A minha pergunta é simples: a linha limite da área faz parte da área ou é fora dela? A terceira dúvida tem que ver com o segundo golo do Benfica, igualmente resultante de um livre directo sobre o limite da área. Mas esse livre é ocasionado por uma emergência defensiva (ficou ainda a dúvida se com falta ou sem ela), motivada pela cobrança imediatamente anterior de um outro livre, quatro metros atrás, e que os jogadores do Benfica marcaram sem dar tempo à formação de barreira defensiva, sem apito do árbitro e até, pelo que me pareceu, sem a bola estar parada. Foi assim recordo, que há cinco anos, o Boavista venceu o FC Porto no Bessa e, com essa vitória, veio a ser campeão com um ponto de avanço sobre os portistas. Pergunto-me se nos livres frontais à baliza e próximos da área os árbitros devem ou não esperar que a barreira se forme e só consentir a cobrança após o seu apito? É que uns fazem uma coisa e outros fazem outra e até já vi, como nesse Boavista-Porto, o mesmo árbitro seguir critérios diferentes no mesmo jogo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4- E em quinto lugar está o periclitante Sporting, que lá ganhou ao Leiria, sem que desta vez se tenham ouvido queixas contra a arbitragem... Mas querer comparar aquele golo não assinalado ao Leiria e em que todas as imagens mostram que a bola é sacada pelo menos uns 70 centímetros de dentro da baliza, com aquele suposto golo consentido pelo Baía na Luz no ano passado e que nenhuma imagem até hoje conseguiu comprovar, é, no mínimo, querer confundir as coisas deliberadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5- As dúvidas levantadas por Alexandre Magalhães às contas divulgadas pela SAD do FC Porto são legítimas, pertinentes e demasiado sérias para serem tratadas nos termos displicentes em que o fez a comissão de vencimentos da SAD. Não defendo que os administradores das sociedades desportivas não devam ser remunerados, como os de quaisquer outras sociedades. Mas os números divulgados por Alexandre Magalhães são impressionantes e para mais acrescidos de participação nos lucros relativos ao exercício de 2003/04. Aqui cabe perguntar como é que um só exercício positivo, entre tantos negativos, confere direito a gratificação e como é que uma sociedade que jamais distribuiu ou distribuirá dividendos pelos seus accionistas e cujas acções valem metade do preço de subscrição, se permite distribuir gratificações pelos seus administradores— sobretudo quando tem um passivo acumulado de 122 milhões de euros. E também é legitimo perguntar como é que, após dois anos plenos de receitas extraordinárias, o passivo, em lugar de diminuir, aumentou. Esperam-se esclarecimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 08.11.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113163527866844803?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113163527866844803'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113163527866844803'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/11/de-cima-para-baixo.html' title='De cima para baixo'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113136723791222627</id><published>2005-11-04T12:33:00.000Z</published><updated>2005-11-07T12:40:37.933Z</updated><title type='text'>O mestre dos silêncios</title><content type='html'>Mário Soares - como ele próprio não se cansa de recordar, a título de prova de vida - passou estes dez últimos anos sem resguardo algum: fez uma fundação, foi deputado europeu, publicou dez livros (!), viajou, fez conferências, palestras, presidiu a comissões, desfilou contra a Guerra do Iraque."Puf!" - suspira Cavaco Silva, com desdém, ao relembrar as andanças do seu rival -, "um político profissional no seu pior!" Ele, Cavaco, fez o inverso: tratou de acabar a sua vida académica tranquilamente, publicou um livro, após sair do governo e onde inventariou as "reformas de uma década", que jura ter feito, mas que, curiosamente, são hoje universalmente reconhecidas como as mais urgentes ainda por fazer, e reservou-se para ocasionais aparições públicas, sempre devidamente publicitadas pelos inúmeros homens-de-mão que deixou semeados pela imprensa e sempre recebidas pela pátria como verdadeiros textos de referência, senão mesmo de culto.Soares falou tanto nestes dez anos que não nos lembramos de coisa alguma marcante que tenha dito. Cavaco falou tão pouco que, para a história, ficou apenas aquela frase dos tempos de governação de Santana Lopes de que "a boa moeda deve afastar a má". Foi um pensamento profundo e corajoso: antes dele, ninguém ainda tinha pensado numa coisa dessas e ninguém ainda se tinha atrevido a questionar os méritos governativos de Santana Lopes e do seu extraordinário séquito. Disse também outra coisa (hoje convenientemente apagada dos registos pelos seus fiéis), estava a sua amiga Manuela Ferreira Leite a tentar controlar o despesismo público e os défices suicidários do Estado: disse que o que era preciso eram políticas keynesianas, de "contraciclo" e acrescidas despesas públicas.Há dez anos que todos sabíamos que Cavaco voltaria a candidatar-se à Presidência da República, assim que Jorge Sampaio desimpedisse o caminho - porque, tirando o inevitável holocausto de 95, contra o mesmo Sampaio, e a que não tinha maneira de se furtar, ele sempre foi homem dos combates com vitória assegurada à partida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este seu novo e ridículo tabu com as presidenciais, este patético arrastamento da notícia formal da candidatura, quando já tudo estava pensado ao pormenor e ele ainda fingia estar em reflexão, só serviu para demonstrar duas coisas: uma, que Cavaco conhece e usa todos os truques da política, que afecta desdenhar; outro, que entre os seus truques preferidos está a gestão do silêncio, até ao limite do possível.Não há lugar mais político do que a Presidência da República. É um lugar destinado exclusivamente a fazer política, não a governar ou a fazer obra. É por isso que a candidatura de Cavaco Silva gera tanto desconforto, tanta desconfiança e tanta insegurança em tanta gente: porque quem se candidata ao cargo se afirma, pessoal e estruturalmente, contra a própria natureza dele e, por conseguinte, nos deixa a tentar adivinhar que agenda secreta será a sua, uma vez na Presidência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre foi assim, também, nos seus dez anos de governo. Cavaco Silva sempre desprezou as ideias políticas, o debate, a ideologia, a agenda, a definição de um horizonte ou de um projecto para Portugal. Quando questionado, respondia com os 1400 quilómetros de estradas novas, os 210.000 carros comprados, as 600.000 criancinhas nascidas durante os seus anos de esplendor. Nunca aceitou debates, nunca perdeu tempo com o Parlamento, nunca se submeteu a entrevistas difíceis. Quando precisava de cuidar da imagem ou da mensagem, reservava-se para entrevistas exclusivas na televisão pública com o seu conselheiro de imagem ou com a sua adida de imprensa. Assim criou o mito do homem infalível, demasiado ocupado a resolver os problemas do país para se desgastar em explicações avulsas ou na inútil encenação democrática.Para essas tarefas menores, Cavaco contou sempre com um fiel exército de "guardas da revolução", que hoje reemergem outra vez à superfície, tal como, diga-se em abono da verdade, reemergem os cortesãos de Soares. Uma das especialidades de Cavaco Silva foi sempre a de dar homens por si. Se Cavaco nunca teve uma ideologia nem sentiu necessidade de a ter, o cavaquismo teve-a.Para quem já esqueceu ou finge ter esquecido, convém relembrar o que era a substância intelectual e política do cavaquismo. O mesmo Cavaco Silva que hoje se afirma contra a partidarização do aparelho do Estado, foi o primeiro-ministro que inaugurou a moda recente de distribuir todos os cargos públicos (excepto os das "forças de bloqueio", que se lamentava de não conseguir controlar) pelos fiéis do partido e do chefe, enquanto ele, como escreveu o seu fiel António Pinto Leite, afectava dedicar-se unicamente ao "culto solitário e obsessivo do interesse nacional".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o próprio Cavaco Silva se vangloriava de ter "devolvido Portugal ao mundo" e se gabava de ter feito de Portugal um "oásis" de progresso no meio da decadência do mundo, os seus fiéis ocupavam, sem pudor nem temor, todos e cada um dos cargos do Estado, das empresas públicas, das sinecuras regionais. Na RTP, totalmente governamentalizada, Roberto Leal, vestido de minhoca branca, pulava e saltava, cantando o refrão "nós já temos Cavaco e maioria" - antes mesmo das eleições. E o ministro Fernando Nogueira, então "número dois" e delfim do cavaquismo, explicava candidamente que não havia ocupação alguma do aparelho de Estado, já que ele não conhecia "um génio, uma pessoa invulgarmente dotada, que não esteja ocupada". Ele, por exemplo, estava apenas "muito empenhado em dar a sua contribuição individual para um projecto colectivo protagonizado pelo Professor Cavaco Silva... numa unidade ideológica que causa inveja aos adversários". Porque tudo se resumia a essa tarefa patriótica da unidade ideológica e serviço ao chefe, como ensinava aos deputados do PSD o líder parlamentar da maioria de então, Montalvão Machado: "Uma das prioridades dos deputados sociais-democratas deve ser a promoção da imagem de Cavaco Silva." Eram os tempos, recordo, em que o primeiro-ministro, Cavaco Silva, abria o telejornal da RTP, então estação única e pública, para declarar: "Estou em condições de dizer aos portugueses que o preço da gasolina vai baixar quatro escudos por litro." E eram os tempos, também, em que o mesmo primeiro-ministro propunha uma Lei do Segredo de Estado, felizmente abandonada, em que os aumentos de preço dos combustíveis, dos impostos, das taxas de juro e "outros rendimentos do Estado", bem como a contracção de empréstimos por parte da República ou das Regiões Autónomas, passariam a constituir matéria abrangida pelo segredo de Estado. Assim ia a democracia, nos gloriosos tempos de então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é por isso que, lembrando-me de coisas de então, agora que, segundo as sondagens, Cavaco Silva se prepara para ser meu Presidente da República nos próximos dez anos, eu acho que chegou a altura de lhe exigir o fim do silêncio conveniente. Gostaria de saber o que pensa ele de Portugal: da justiça, da educação, da desordem territorial, da reforma da administração pública, da regionalização, do aborto, da Ota e do TGV. E o que pensa do mundo: do Iraque, do combate ao terrorismo, das relações com os regimes corruptos de África, da imigração, da adesão da Turquia à Europa, da deslocalização de empresas, da futura guerra contra o Irão. Numa palavra, gostaria de saber que ideias tem ele, o "não-político", sobre a política. Será pedir de mais a quem quer ser Presidente da República?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S. - Nos tempos do "Grande Ceausescu", andava em reportagem pela Roménia e pedi uma entrevista ao ministro dos Estrangeiros. Responderam-me que as perguntas só por escrito, previamente, e as respostas só por escrito, posteriormente. O mesmo sistema acaba agora de ser instaurado na Câmara do Porto pelo dr. Rui Rio. Gostavam muito da "maneira de fazer política" dele, não gostavam? Pois agora aprendam!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público” - 04.11.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113136723791222627?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113136723791222627'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113136723791222627'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/11/o-mestre-dos-silncios.html' title='O mestre dos silêncios'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113136773597043032</id><published>2005-11-01T12:41:00.000Z</published><updated>2005-11-07T12:48:55.976Z</updated><title type='text'>Elogio dos "Grandes"</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Quer o FC Porto-Vitória de Setúbal quer o Naval-Benfica mostraram à exuberância a pobreza em que o jogo pode cair quando uma das equipas luta apenas pelo «pontinho» e não pelos três pontos (e já nem digo pelo espectáculo...)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1. Dois jogos, vistos  televisivamente este fim-de-semana, serviram para reforçar a ideia que há muitos, muitos anos, defendo, antes de ter virado quase consensual: a necessidade e enorme vantagem competitiva que resultaria de reduzir a I Liga a 12 clubes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer o FC Porto-Vitória de Setúbal quer o Naval-Benfica mostraram à exuberância a pobreza em que o jogo pode cair, quando uma das equipas luta apenas pelo pontinho e não pelos três pontos (e já nem digo pelo espectáculo...). É claro que, do ponto de vista das equipas pequenas, a atitude é legítima e compreensível: quando não se tem armas para atacar, defende-se. Mas, apesar de tudo, há uma diferença entre uma equipa se ver, no decurso do jogo, forçada a recuar e apenas defender por pressão do adversário, ou entrar já em campo deliberadamente disposta a renunciar a qualquer veleidade de vitória e se limitar à táctica que José Mourinho baptizou de «autocarro estacionado em frente da baliza».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Dragão, embora Norton de Matos tenha dito que o que sucedeu é que o FC Porto empurrou o Vitória para trás durante o jogo inteiro, a mim o que me pareceu é que os seus jogadores não se importaram nada de ser empurrados para trás e não foi, seguramente, por força do vento ou do adversário que o Vitória disputou o jogo com nove, e às vezes, dez jogadores, sempre à espera da bola e do adversário na zona da sua grande área. E a prova que poderiam ter feito diferente é que, nos cinco minutos finais e como forma inteligente de aliviar uma pressão insuportável, escolheram finalmente abrir-se um pouco em todo o campo, tendo conseguido até o seu único remate à baliza... ao minuto 93!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É evidente que, mesmo assim, o FC Porto poderia ter ganho o encontro: bastaria que o árbitro tivesse visto um de dois penalties a favor não assinalados (ó contabilistas selectivos: anotem estes dois pontos...), ou que um dos 17 cantos ou dos 16 remates tivesse dado golo. Ou, melhor ainda: que o F C Porto não voltasse a mostrar quão distante anda daquele futebol feito de técnica em velocidade permanente, aquele carrossel ofensivo do princípio da época que tanto me empolgou. Nenhuma dúvida que esse futebol que gerou tanta admiração e tanta controvérsia, parece, pelo menos momentaneamente, perdido pelas sucessivas traições defensivas, que obrigaram a tudo rever e tudo acautelar. Mas também há que ser justo e reconhecer que é bastante mais difícil atacar um jogo inteiro contra o autocarro do que defender um jogo inteiro instalado dentro do autocarro. Para resultar em golos o futebol precisa de espaços e, paradoxalmente, com a táctica do autocarro a única equipa que dispõe sempre de espaço para atacar... é a dona da viatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Figueira da Foz, o enredo foi o mesmo, com a agravante de o Benfica ter de fazer as despesas todas do jogo num campo de dimensões reduzidas e transformado em qualquer coisa de intermédio entre um prado e um batatal. E, por aqui justamente, se começa a ver os malefícios de haver demasiadas equipas na I Liga e de o seu critério de selecção ser apenas o da classificação. A Naval não tem um campo com condições para a I Liga. Daí não vem mal ao mundo: ninguém deve ter vergonha por ser pobre. Só que também não é possível defender o futebol, o espectáculo e a presença de público nas bancadas quando se tem para oferecer um campo de dimensões reduzidas, com um relvado onde é impossível jogar bem e que, por vezes, chega a parecer que é maltratado de propósito para defender o mau futebol contra o bom (há dias, um treinador de uma equipa pequena que recebeu um grande dizia que nem sequer tinha estragado deliberadamente o relvado durante a semana: registe-se o seu desportivismo e a confissão de que há tácticas ocultas para além daquelas que se vêem em jogo...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto a Federação como a Liga sempre foram avessas à diminuição do número de clubes no escalão superior e dito profissional. Porque cada clube é um voto e, quanto mais clubes pequenos houver a votar, maior a possibilidade de aliciar o seu voto. Por isso é que há clubes a disputar a I Liga sem dinheiro para pagar salários, por isso é que há clubes que não cumprem sistematicamente as suas obrigações fiscais, com a íntima colaboração da Liga, por isso é que há campos sem condições para jogar futebol de primeira, por isso é que se permite escandalosamente que o preço de um bilhete para uma bancada coberta na Luz ou no Dragão custe o mesmo que para uma bancada onde chove, no campo da Naval. E por isso é que, mesmo um clube como a Naval, em ano de estreia na I Liga, e mesmo contra Benfica e F C Porto, não consegue encher nem metade das bancadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a história fica o sagrado pontinho sacado por Setúbal e Naval ao F C Porto e Benfica e dois empates injustos que estes tiveram de encaixar. Mas fica também a certeza de que, à vista de todos, quem deveria estar atento e colher as lições de casos como a da irresponsável gestão do Vitória de Setúbal, vai assistindo, tranquilamente, à programada liquidação do futebol profissional como espectáculo de massas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Ainda sobre a Naval-Benfica, há outro tema que dá que pensar: como se justifica que a Naval, que nem sequer tinha jogado para a Taça a meio da semana, tenha dado o estoiro a vinte minutos do fim, e o Benfica, que tem a Taça e a Liga dos Campeões, não? Quando Jaime Pacheco explica a derrota caseira do Guimarães às mãos do Paços de Ferreira como cansaço do jogo europeu de dez dias atrás, fica por explicar porquê o cansaço não é igual para todos. Porquê equipas como o Benfica e o FC Porto, que estão a jogar ao mais alto nível europeu, que têm sistematicamente os seus jogadores mais influentes a jogar nas Selecções, ainda aguentam fazer jogos inteiros a pressionar e a atacar, e os pequenos, que não têm essa sobrecarga e cujo tipo de jogo é muito mais descansativo, dão o berro quando jogam contra os grandes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manuel Cajuda, que tanto gosta de se ouvir falar, poderia falar sobre isto. É que, se todos compreendemos que, quem não tem grandes jogadores na equipa não se pode bater tecnicamente de igual para igual com os grandes, já não se percebe porquê também fisicamente não se conseguem bater. Que eu saiba, a preparação física não depende da qualidade futebolística dos atletas: depende sim da quantidade e aplicação no esforço dispendido durante a semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Já agora, gostava também que Manuel Cajuda, que, no final, quase pedia desculpa à «Instituição» por lhe ter roubado dois pontos — ele que se confessou benfiquista de coração, assim como toda a família e o próprio cão — explicasse como é que conseguiu não ver que o grande perigo do Benfica, na última meia hora, vinha da liberdade concedida a Nélson, que corria livremente pelo corredor direito fora, ali mesmo, junto ao banco do treinador da Naval? Que tal ter posto ali alguém , naquela auto-estrada desguarnecida, para travar o Nélson ou ameaçar o flanco aberto pelas suas subidas?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Carlos Freitas, novo director do futebol do Sporting, viu mãozinha do árbitro no empate conquistado no Bessa. Diz ele que poderiam ter chegado ao 0-3 se o árbitro tem assinalado um muito discutível penalty na área do Boavista. Mas esqueceu-se de dizer que nunca teriam chegado ao 0-2 se o árbitro não tem assinalado um canto que não existiu e não tivesse depois deixado de ver a falta atacante que precedeu o golo na cobrança do canto. Vira o disco e toca o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 01.11.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113136773597043032?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113136773597043032'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113136773597043032'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/11/elogio-dos-grandes.html' title='Elogio dos &quot;Grandes&quot;'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113051842006657983</id><published>2005-10-28T16:51:00.000Z</published><updated>2005-10-28T16:53:40.083Z</updated><title type='text'>Bastantes razões de vergonha</title><content type='html'>1. "Democraticamente" absolvida nas urnas, como era de esperar, a D.ª Fátima Felgueiras está agora em vias de se ver alijada dos seus problemas judiciais, como também era de esperar. A senhora merece que se lhe tire o chapéu: fez uma sábia gestão dos seus trunfos e dos seus timings e, entre a demissão cívica do seu povo e a demissão institucional da justiça, descobriu o caminho para a impunidade. "Dei uma lição ao país!", exclamou ela, triunfante, na noite de 9 de Outubro. E deu mesmo. A lição foi esta: o único crime que não se perdoa é o da falta de esperteza.O Tribunal da Relação de Guimarães liquidou, de facto, o processo de Fátima Felgueiras, mandando refazer o essencial da instrução e, com isso, remetendo o julgamento para as calendas do ano vindouro. Os desembargadores de Guimarães entenderam que o Ministério Público e o juiz de instrução não fizeram senão asneiras na construção da acusação: as escutas telefónicas são ilegais porque o juiz não as foi validando dentro de "um prazo razoável", e os principais testemunhos acusatórios são nulos porque os depoentes foram ouvidos como testemunhas e não como arguidos, como o deveriam ter sido (e embora, posteriormente, ouvidos como arguidos, tenham confirmado o que haviam dito antes). Pouco importa, todavia, o conteúdo de umas e outras provas: para a justiça portuguesa, a fórmula é tudo, a substância é um estorvo.Longe de mim - valha-me Deus! - contestar a lógica irrebatível dos argumentos dos senhores desembargadores de Guimarães. Limito-me a observar que uma magistratura passou aqui um atestado de incompetência à outra e que tudo se encaminha, uma vez mais, para que os formalismos processuais conduzam à denegação de justiça. Mas, juntas e unidas nas suas lamentações, ambas as magistraturas estão em greve contra o "desprestígio" que o Governo lança sobre elas. Parece que a redução das férias de Verão dos magistrados de dois para um mês e a supressão do regime especial de saúde de que beneficiavam, em troca do regime geral, afectam gravemente as "condições de independência" da classe e indiciam mesmo uma tentativa de controlo político sobre a justiça. Ouvido pela TSF, o presidente do Sindicato dos Juízes, Baptista Coelho, esclareceu que, enquanto órgão de soberania, os magistrados se batem pela sua independência; e, enquanto "carreira profissional", estão em greve por condições privilegiadas de dependência do Estado. Fiquei esclarecido - como, aliás, fico sempre que o dr. Baptista Coelho e o dr. Cluny, do Sindicato do Ministério Público, expõem as suas razões. Talvez alguém com mais senso lhes devesse explicar que o país já não é assim tão estúpido quanto eles imaginam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Preparada "durante um ano", ensaiada ao pormenor, de véspera e por mais de 60 pessoas envolvidas, a "mega-operação" de "flagra" sobre a banca cobriu-se de ridículo à nascença. Numa operação capaz de abalar todo o sistema bancário, onde tudo deveria ser tratado com pinças e total discrição, logo a abrir, as autoridades apresentaram-se no primeiro banco sem um mandado de busca em condições; depois, mandaram-no vir por fax para o próprio banco a rebuscar, esquecendo-se de apagar do cabeçalho o nome dos restantes alvos a surpreender e das suspeitas que sobre eles recaíam. Como é óbvio, meia hora depois, Lisboa inteira já sabia o que estava em curso, e, perante tão chocante incompetência dos seus serviços, o senhor procurador-geral da República não encontrou melhor maneira de disfarçar a vergonha do que mandar instaurar um processo por violação do segredo de justiça... aos jornalistas! Digamo-lo tranquilamente: num país a sério, o senhor procurador-geral e a senhora procuradora adjunta que dirigiu a operação teriam apresentado a sua demissão ou estariam demitidos no dia seguinte. Aqui, estão em greve, pelo seu "prestígio" e, sobretudo, para que ninguém ouse beliscar esta santa impunidade funcional de que gozam e a que gostam de chamar "independência".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Nomeados pelo governo PSD, alguns administradores da CP e outros da Refer descobriram a fórmula genial de se porem ao abrigo das flutuações políticas e garantirem um emprego de futuro, muito para além dos três anos normais dos mandatos dos gestores públicos: os da CP foram nomeados para o quadro da Refer, com o cargo de directores e o lugar reservado até saírem da CP, e os da Refer fizeram o mesmo na CP.Descoberta a esperteza, chamados a explicarem-se e instaurados os respectivos processos de averiguações, os senhores administradores mantiveram a bola baixa, a ver se a coisa passava. Mas, concluídas as averiguações e na iminência de um despedimento com mais do que justa causa, os da Refer convocaram uma conferência de imprensa para despejar o saco: o que fizeram tratava-se de "um processo normal", que, aliás, tinham tido o cuidado de validar previamente junto do Partido Socialista, então oposição, e da senhora que depois viria a ser a secretária de Estado da tutela, no governo PS. Em seu entender, estaríamos assim perante um "saneamento pessoal e político", inclusive confirmado por suspeitíssimas informações circulando entre a Refer, o governo PS e as suas autarquias - de que só agora lhes ocorrera suspeitar.À noite, e depois de grandes cerimónias, o ministro despediu-os de vez. Mas eu aposto, infelizmente, que, por irregularidades processuais ou qualquer outro pretexto espúrio, e devidamente escudados em "pareceres" dos mestres de Direito sempre disponíveis, as vítimas hão-de ver a razão ser-lhes reconhecida por algum tribunal e tudo isto há-de acabar na conta dos contribuintes. Salve-se, ao menos, o desabafo: que país sem vergonha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Está aberta a época sazonal de um desporto típico da cena portuguesa: a caça ao intelectual/artista/músico/jornalista/desportista, por ocasião das presidenciais.De cinco em cinco anos, aí temos a lista, actualizada diariamente, das novas adesões aos candidatos. É um espectáculo digno de lástima: nomes consagrados, nomes ainda na infância da arte e nomes de absolutos desconhecidos ou falhados sem remissão possível acotovelam-se para ganhar meia linha de destaque no jornal do dia. Nunca percebi por que é que esta gente - a que tem valor - não é capaz de ficar quieta em casa e sente uma tamanha compulsão de aderência, como se o facto de o seu nome não constar de lista alguma fosse sinal de morte prematura. Ó, senhores artistas, intelectuais, desportistas: guardem-se para o 10 de Junho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público”, - 28.10.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113051842006657983?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113051842006657983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113051842006657983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/10/bastantes-razes-de-vergonha.html' title='Bastantes razões de vergonha'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113051972638564279</id><published>2005-10-25T17:06:00.000Z</published><updated>2005-10-28T17:15:26.406Z</updated><title type='text'>Havia necessidade?</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Dou comigo a pensar se às vezes o ideal não seria pôr os adeptos a escolher, por votação, a equipa para cada jogo, ficando o treinador apenas com o encargo de a treinar durante a semana e com a responsabilidade de fazer as alterações que entendesse adequadas durante os jogos? &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Na semana passada falei aqui dos «três erros fatais de um teimoso», cometidos por Co Adriaanse no jogo contra o Benfica e responsáveis directos pela derrota inapelável encaixada. Uma semana depois, com dois jogos tremendos pelo meio, Adriaanse corrigiu dois desses três erros e safou-se com duas vitórias preciosas daquela que poderia ter sido uma catastrófica semana de ressaca. Começou por substituir a insustentável dupla de centrais Ricardo Costa/Bruno Alves—responsável por sete golos sofridos em três jogos —pela muito mais tranquila e «normal » dupla Pedro Emanuel/Pepe, a que acrescentou a estreia do checo Marek Ceh, em detrimento de César Peixoto. Com a sorte que tanto lhe faltara em jogos anteriores finalmente do seu lado no jogo contra o Inter, a defesa portista escapou incólume a Recoba, Figo, Adriano, Júlio Cruz e companhia. E, apesar de dois sustos sofridos no Funchal, escapou também virgem no complicado campo daquela equipa estrangeira que dá pelo curioso nome de Nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com essas alterações, oFC Porto não passou a ter uma defesa segura (até porque resta o problema de Bosingwa na posição de defesa-direito, para que lhe falta em absoluto o jeito). Mas passou a ter uma defesa capaz, pelo menos, de não comprometer irremediavelmente a equipa em todos os jogos. Pena que Adriaanse só o tenha compreendido depois de ver a equipa praticamente afastada da Liga dos Campeões e batida pelo Benfica no Porto, pela primeira vez em dezasseis anos. No ataque, o holandês pôs termo ao verdadeiro crime cometido contra o Benfica e que consistiu em deixar de fora esse talento furioso que é o Ricardo Quaresma. Quanto mais não seja, a persistência neste erro tratava-se uma atitude incompreensível para quem, como Adriaanse, tanto fala no seu amor ao futebol-espectáculo. E espectáculo, além de soluções de golo únicas, foi o que Quaresma forneceu, quer contra o Inter quer contra o Nacional. Já não foi nada mau, para quem se obstina emser sempre o último a ver o que já todos viram. Restalhe agora compreender o terceiro erro em que caiu no jogo contra o Benfica e ver aquilo que também salta à vista: que Lucho González precisa de descansar, quanto mais não seja, meias partes dos jogos, e que Jorginho, tal como está a jogar, não tem lugar na equipa e é bom que saia para meditar, antes que, como ia sucedendo contra o Inter, a sua displicência, quase deite tudo a perder.&lt;br /&gt;Mas havia necessidade de tanto sofrimento e tantos danos até que Co Adriaanse se rendesse ao óbvio? Pergunto-me muitas vezes se a teimosia dos treinadores em tomar os seus desejos por realidades, contra toda a evidência e senso-comum, será apenas uma forma de mostrarem autoridade e competência na matéria. E dou comigo a pensar se às vezes o ideal não seria pôr os adeptos a escolher, por votação, a equipa para cada jogo, ficando o treinador apenas com o encargo de a treinar durante a semana e com a responsabilidade de fazer as alterações que entendesse adequadas durante os jogos? Uma coisa eu era capaz de apostar: com Pedro Emanuel e Pepe nos lugares de Ricardo Costa e Bruno Alves, e Ricardo Quaresma de início, o Benfica não teria ganho no Porto com o à vontade que ganhou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. E, depois do Porto, também o Benfica teve uma semana bem proveitosa, com o empate fora com o Villarreal e a vitória caseira contra o Estrela. A equipa está a melhorar e a ganhar confiança e atitude a olhos vistos, com a revelação do lateral Nélson a empurrar tudo para a frente. Peço desculpa de insistir, mas parece-me que apenas o seu presidente não consegue entender que uma conjuntura favorável não pode ser imediatamente aproveitada para um triunfalismo deslumbrado e um espírito de révanche que corre o risco de, mais tarde, se virar contra o seu autor. A persistência nas declarações provocatórias após o jogo do Dragão, inventando incidentes que não existiram ou até intenções de provocação na ausência dela, faz lembrar exactamente aquilo de que se acusava Pinto da Costa há uns anos atrás. E aquela picardia final de declarar que foi mais fácil ganhar ao Porto do que ao Guimarães merecia que lhe recordassem que há mais marés do que marinheiros. O presidente do Benfica tem razão para andar satisfeito, depois de oito dias triunfais e depois de ter visto, ao cabo deles, 38.000 espectadores acorrerem à Luz, na que foi a maior assistência da época. Mas, apesar de tudo, o presidente do «maior clube do mundo», com 200.000 «sócios» declarados, deveria ficar curioso pelo facto de a maior assistência da época na Luz ser inferior à pior assistência da época no Dragão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Alguns benfiquistas, muito ingénuos ou muito pouco ingénuos, apressaram-se a manifestar o seu espanto pela brandura da pena aplicada pelo Comissão Disciplinar da Liga a Bruno Alves: dois jogos. Realmente, para quem não segue atentamente os meandros da subtil política disciplinar destes doutos conselheiros, é de espantar que Bruno Alves não tenha apanhado, como devia, cinco ou seis jogos. Mas estes juízes são tudo menos ingénuos: se Bruno Alves beneficiou agora da sua generosidade é porque eles sabem que, com castigo ou sem ele, Bruno Alves, depois do que mostrou em campo, não voltaria tão cedo à titularidade no FC Porto. E, assim sendo, a generosidade gratuita de agora permitirá aos senhores conselheiros fazerem a devida compensação, quando descobrirem um cotovelo de McCarthy ou um joelho do Quaresma fora do sítio. A  CD não perde argumentos a ser duro com quem não interessa. No FC Porto. Porque, já no caso do Benfica, como se viu agora com a anedótica sequência do processo a Petit, a política é toda outra e o objectivo final dela saltou à vista, sem subterfúgios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Dias da Cunha entrou no futebol de leão e saiu de sendeiro, nada mais deixando de memória do que um rasto de confusas boas intenções e trapalhada mental. Disse que vinha para combater o «sistema» e acabou de braço dado com Luís Filipe Viera, que representa o poder actual no «sistema», em associação com Valentim Loureiro— denunciado por Dias da Cunha como um dos dois chefes do mal. E, se finalmente acabou a reconhecer que «o Benfica é levado ao colo», foi ele quem o levou de braço dado até ao beijo da morte. Debalde procurou vilanias do lado de Pinto da Costa e, embora as visse vir do outro lado da Segunda Circular, não conseguiu estabelecer uma simples associação entre causa e efeito. De facto, para o final, já só conseguia meter os pés pelas mãos e fiel aos seus moinhos de vento e à sua inútil zaragata permanente, acabou a substituir o «sistema» pelos jornalistas, como origem de todos os males penados pelo Sporting. Mas havia uma luz ao fundo do túnel e, cambaleante, ele enfiou por lá: era a porta da saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 25.10.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113051972638564279?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113051972638564279'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113051972638564279'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/10/havia-necessidade.html' title='Havia necessidade?'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113020009820250399</id><published>2005-10-21T00:23:00.000Z</published><updated>2005-10-25T00:28:18.213Z</updated><title type='text'>Sem alternativa</title><content type='html'>O Orçamento saiu o que se esperava e temia. Mas acabámos a desejar e a saudar aquilo que mais temíamos: um orçamento com cortes no investimento público e subida de impostos. Para aqui chegarmos, foi preciso que sucessivos anos e sucessivos governos de desleixo tivessem conduzido as coisas até um ponto tal que aquilo que resta de realismo e responsabilidade em termos de opinião pública percebeu que o país não poderia continuar eternamente a endividar-se para sustentar um Estado que é grande de mais para as necessidades, ineficiente demais para o que gasta e gastador de mais para a riqueza do país.Praticamente, já só o PCP e os sindicatos conseguem ainda olhar para este Orçamento e dizer que ele não fomenta o crescimento económico, apostando numa taxa de crescimento do PIB para 2006 que não vai além de 1,1 por cento. Como se, nos tempos que correm, pudesse ser o Orçamento a determinar a taxa de crescimento e não o oposto. Desgraçadamente, nem a conjuntura internacional, nem os preços do petróleo, nem as disponibilidades financeiras do Estado permitem ressuscitar do seu eterno descanso a receita, outrora mágica para estados de depressão como este, de lorde Maynard Keynes. A última pessoa que ouvi manifestar essa fé nas políticas expansionistas baseadas nos gastos públicos, foi o professor Cavaco Silva, defendendo uma "política contraciclo" - estava Manuela Ferreira Leite a tentar começar a pôr ordem nas contas públicas e o Presidente Jorge Sampaio a sugerir-lhe que "havia mais vida para além do défice". Tais desabafos em contraciclo soaram como música aos ouvidos de Santana Lopes, que, por esta altura do ano passado, já insinuava que a crise estava no fim e que iria ser possível uma subida real de salários, sem aumento de impostos e do défice público. O preço estamos a pagá-lo agora e vamos pagá-lo ainda mais duro no ano que vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo menos, uma coisa justa neste orçamento é que todos vão sofrer e não apenas alguns: os trabalhadores por conta de outrem, os funcionários públicos, os pensionistas, os aforradores, os militares, as autarquias e as regiões. Todos, menos os empresários: para eles continua a vigorar a baixa do IRC determinada pelo governo de Durão Barroso e, apenas marginalmente, pela subida de preço dos combustíveis e electricidade, irão sentir que o Estado está em dificuldades. Seria bom que os empresários se mentalizassem do enorme esforço que está a ser exigido aos trabalhadores, aos reformados, aos pagadores de impostos. E que deixassem a sua eterna invocação da condição de criadores de riqueza em teoria, para passar a sê-lo na prática, sem que isso implique o direito de reclamar sem cessar privilégios, apoios, favores do Governo. Se, por uma vez, alguém se propõe pôr o Estado a gastar apenas o que tem, invertendo o caminho para a ruína das finanças públicas - e fazendo-o sobretudo pela via das receitas acrescidas, que, se calhar, é a única possível por enquanto -, manda a mais elementar decência que ninguém reclame para si um privilégio enquanto houver outros a sustentar um sacrifício desmedido para sanear as contas públicas. Dito por outras palavras, espero que este orçamento e as privatizações que aí vêm e que em parte o vão financiar, não convivam com os habituais negócios de favor ou de tráfico de influências entre o Estado e os privados. Isso e o esbanjamento de dinheiros públicos, gota a gota, em inúmeros sectores e serviços públicos, são agora, mais do que nunca, uma afronta insustentável. Há dois cancros no nosso modo habitual de viver que, definitivamente, têm de acabar: a economia paralela e a economia batoteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomemos o exemplo das recentes suspeitas levantadas pela PJ sobre a actuação de alguns bancos nas off-shores, designadamente o da Madeira. E deixemos de lado, por enquanto, as suspeitas, fundadas ou não, sobre branqueamento de capitais, que é coisa mais séria e não pode ser tratada levianamente. Mas, quanto às suspeitas da utilização dos off-shores para evasão fiscal, a coisa roça a hipocrisia. Toda a gente sabe para que serve uma off-shore e não é de certeza para fazer filantropia. Mas nós quisemos ter a nossa off-shore, tão do agrado do dr. Jardim. Lá estão sediadas três vezes mais empresas do que o número total de funcionários que empregam, o que dá para imaginar a riqueza que acrescentam ao país. Quando Guterres era primeiro-ministro, perguntei-lhe uma vez que interesse económico, que justificação política, tinha a off-shore da Madeira. E ele deu-me a resposta de sempre: não vale a pena proibi-la porque os capitais que fogem para lá passariam a fugir para outro qualquer paraíso fiscal, por esse mundo fora. Pois é, mas, apesar de tudo, há uma diferença, quanto mais não seja ao nível da consciência social, entre ter o dinheiro a coberto do fisco em território nacional e legalmente, ou tê-lo escondido do fisco no estrangeiro. E, sobretudo do ponto de vista do Governo, há um problema ético fundamental em taxar até 42 por cento os rendimentos de quem trabalha e não quer ou não pode escapar, e, simultaneamente, permitir que as grandes fortunas se escondam do fisco a coberto da licença do Estado no off-shore da Madeira. Seja qual for o ponto de vista ético ou político que se defenda, da Opus Dei à social-democracia, é revoltante que os governos mundiais desistam de taxar o grande dinheiro e se compensem exigindo tudo o que podem aos pequenos. Tanto mais que hoje não há maneira de fingir ignorar que as off-shores são um instrumento essencial para esconder e lavar o dinheiro mais sujo do mundo: o do tráfico de armas e de droga, de financiamento do terrorismo e de salvaguarda dos capitais roubados a países miseráveis pelos seus governantes corruptos. Ficaria bem a um governo socialista ter o acto de decência de pôr fim ao paraíso fiscal da Madeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, sem outra solução credível e não podendo nós continuar a adiar a caminhada para o abismo, só nos resta aceitar os sacrifícios que este orçamento nos exige. Mas nada dispensa as contrapartidas: que o controlo da execução orçamental se faça não apenas a nível contabilístico, mas também a nível ético e de justiça social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Circula na Internet, espalhando-se como fogo na pradaria, um texto intitulado Um crime na Ota, cuja autoria me é atribuída e onde, entre outras coisas, se afirma que o dr. Mário Soares seria um dos proprietários dos terrenos da Ota - razão pela qual se teria decidido candidatar à Presidência da República, para melhor forçar a execução do projecto. Quem, realmente, isto escreveu não conhece o dr. Mário Soares nem me conhece a mim. Eu, de facto, sou contra o projecto da Ota, a menos que me convençam dos méritos do projecto, que ainda não alcancei. E, de facto, escrevi sobre isso, aqui no PÚBLICO um texto com aquele título. Mas quem me conhece minimamente sabe que a calúnia não faz parte dos meus métodos de argumentação. Alguém, que não tem coragem para dar a cara pelas opiniões próprias e pelas difamações que produz, pegou no meu título e no meu nome e usou-os num texto onde não existe uma única palavra da minha autoria. Não é a primeira vez que, a coberto do anonimato e da cobardia mais abjecta que isso representa, encontrei textos na Net dedicados à difamação e calúnia de outrem - eu próprio incluído. Mas não esperava que houvesse gente capaz de usar o nome de outros para embrulhar a porcaria mental em que vive.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público”, - 21.10.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113020009820250399?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113020009820250399'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113020009820250399'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/10/sem-alternativa.html' title='Sem alternativa'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112942295818878008</id><published>2005-10-14T00:32:00.000Z</published><updated>2005-10-16T00:35:58.190Z</updated><title type='text'>A democracia perigosa</title><content type='html'>A tentativa de extrair uma leitura política nacional das autárquicas, a roçar inevitavelmente a forma de referendo à popularidade do Governo, é, a meu ver, uma tentativa, precipitada, demagógica e, como disse António Lobo Xavier, perigosa. Compreendo que, por mais avisos que todos façam à necessidade de não confundir autárquicas com legislativas, seja quase irresistível para os vencedores não ceder à confusão de mensagens, na hora de celebrar a vitória. O PCP, claro, vê em cada derrota intercalar de qualquer maioria a derrota do respectivo governo e a necessidade de "mudar de política": é assim há 30 anos e já ninguém espera outra conclusão dos comunistas, seja qual for a eleição, sejam quais forem os resultados. Suponho que, para o PCP, o facto de eu, por exemplo, poder ter votado em Ruben de Carvalho em Lisboa não implicaria qualquer mérito próprio do respectivo candidato, mas apenas que estaria contra as políticas do actual Governo. Acontece que, naquilo que sobretudo o PCP combate, eu não estou contra as políticas do actual Governo: antes pelo contrário. Quero que os magistrados deixem de mandar na justiça, que os professores deixem de mandar na educação, que os farmacêuticos deixem de mandar no orçamento da saúde, que terminem os privilégios e mordomias dos "corpos especiais" da administração pública, quero que, tirando casos verdadeiramente excepcionais e de senso comum, todos tenham de trabalhar o mesmo número de anos para ganhar a reforma e que se salve o que se conseguir salvar de um sistema de protecção social ameaçado por causas naturais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que diz Pacheco Pereira, estas reformas, longamente reclamadas por pessoas como ele, não são populares. É verdade que cada sector, por si próprio, é capaz de discordar da greve do vizinho e da sua contestação a medidas que a maioria reconhece como justas; mas, quando toca a si mesmo, já acha justa a greve e a contestação. Porém, o critério de justiça que as reformas devem ter exige que elas toquem a todos por igual e, simultaneamente, que a todos incomodem, que a todos causem prejuízo efectivo e ponham fim a sagrados "direitos adquiridos". Por isso mesmo é que nenhum governo até hoje - incluindo os tão injustamente afamados "governos reformistas" de Cavaco Silva - se tenha atrevido a tentar mexer no "pântano". Porque o preço a pagar é justamente este: eleições perdidas, autarcas e caciques locais revoltados, aparelhos partidários desmotivados. O bem comum há-de ser sempre o prejuízo dos interesses instalados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade que há outros factores atendíveis de descontentamento para com o Governo de Sócrates, o principal dos quais é o saque da turba socialista sobre o aparelho do Estado, tratado como despojos de vitória depois de Março. Mas eu duvido de que o comum dos eleitores se tenha servido dessa percepção para castigar o PS. Assim como duvido de que a maioria se escandalize com as sumptuárias "obras de regime", como a Ota e o TGV, que os ministros que representam a clientela de interesses socialistas defendem como salvação para a crise económica - e que os portugueses, tradicionalmente, aceitam como boa solução, assim como aceitam qualquer medida supostamente milagrosa que os dispense do caminho mais difícil: o aumento da produtividade, da competitividade, da inovação, da iniciativa individual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuo a pensar que o essencial da derrota do PS nestas autárquicas se ficou a dever à dificuldade de apear presidentes camarários em funções e à escolha localizada de maus candidatos. Mas nem sequer vejo uma derrota assim tão demolidora, muito longe do que foi a dimensão e o significado político, aí sim, da derrota de 2001. Bastaria que o PS não tivesse perdido para o PSD 11 câmaras por menos de cem votos, que Francisco Assis tivesse vindo de Bruxelas para fazer campanha no Porto um mês mais cedo ou que tivesse sido escolhido qualquer outro candidato em Lisboa, e toda a leitura política destas eleições teria de ser revista à luz de outros resultados. Mas os 20 ou 30 desfechos locais que permitem ver no desfecho global uma derrota clara dos socialistas não consentem, nem podem consentir, uma extrapolação política para a relação de confiança entre o eleitorado e o actual Governo. Essa leitura é ilegítima por natureza e perigosa para o futuro imediato. Se fosse para ser levada a sério, convidaria Sócrates a desistir de quaisquer veleidades reformadoras, a governar simplesmente para as próximas eleições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivemos tempos muito complicados e muito difíceis, em que é dramaticamente necessário que quem tem responsabilidades ao nível da formação da opinião não desista da lucidez e da coragem. Não é preciso ter assistido ao discurso miserável de Fátima Felgueiras ou àqueles urros quase desumanos de Valentim Loureiro para perceber que a governabilidade do país e a própria democracia estão ameaçadas pelo mais terrível dos vírus, que é o da demagogia populista. Vai ser preciso fazer sangue, suor e lágrimas, e não é aceitável que, à primeira sondagem, às primeiras greves e manifestações, ou ao primeiro voto intercalar, se desate a concluir que o "Governo tem de arrepiar caminho" ou "explicar melhor as suas medidas". Mas explicar melhor o quê? Há alguém de boa-fé que não tenha ainda percebido que a segurança social caminha para a falência rápida se nada for feito, que não é possível manter os actuais gastos com a saúde pública, dos maiores da Europa per capita, que não é possível continuar a tolerar uma justiça que só se serve a si própria e que é um factor de paralisação da vida económica e pública, que não é possível continuar a falhar sucessivamente a batalha da educação para não mexer nos interesses corporativos instalados, que não é possível que os grandes negócios do país se continuem a fazer tendo o Estado como cliente subserviente, e que não é possível continuar a confundir descentralização com o grande regabofe das despesas autárquicas que sustentam os caciques que depois decidem os congressos partidários? Há alguém que ainda não tenha percebido que chegou a hora de todos serem responsabilizados pelos resultados alcançados e não pelo estatuto adquirido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais irónico desta leitura "nacional" das autárquicas é que ela implica atribuir ao PS um mérito que ele não teve: o de ter perdido as eleições porque não desistiu, no Governo, de tomar as medidas impopulares mas necessárias. O PS perdeu por outras razões e o absurdo é os seus adversários atribuírem-lhe o que seria uma louvável derrota. Infelizmente, nem sequer foi o caso. Antes fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público”, - 14.10.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112942295818878008?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112942295818878008'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112942295818878008'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/10/democracia-perigosa.html' title='A democracia perigosa'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112942263677978485</id><published>2005-10-11T00:24:00.000Z</published><updated>2005-10-16T00:30:36.790Z</updated><title type='text'>Desmancha-prazeres</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;É apenas uma sugestão ou uma opinião contracorrente: mas talvez não nos ficasse mal, na perspectiva do Alemanha-2006, um pouco mais de humildade entre os já eleitos e um pouco mais de exigência entre os arautos.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Parece que Luiz Felipe Scolari não terá gostado muito de uns comentários de Gilberto Madail, criticando a prestação da Selecção contra o Liechtenstein, e deixou no ar a ameaça (ou a promessa...) velada de se poder ir embora, antes ainda do Mundial. Pode ser que não tenha passado de um arrufo de quem não está habituado a que ponham em causa os seus méritos, ou pode ter-se tratado demais qualquer coisa, que ainda não sabemos: a verdade é que, há tempos atrás, vi uma entrevista do seleccionador a uma televisão brasileira onde ele afirmava que tinha convites de outras selecções ou clubes do Sul da Europa e era coisa que o poderia vir a interessar. Nessa entrevista Scolari só descartava a possibilidade de regressar ao Brasil, explicando que aqui recebianodia1decadamês e lá recebia quando calhava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esse ordenado pontualmente pago vem dos cofres da Federação e estes, por sua vez, são alimentados em parte pelo público que, como o de Aveiro sábado passado, enche os estádios para ver jogar a Selecção. Só abona a favor de Gilberto Madail que o presidente da Federação dê eco à frustração de 30 mil espectadores que tinham acabado de assistir aumjogo que roçou o limite do suportável — e já não era o primeiro nem o segundo.Verdade se diga que o próprio Scolari não estava muito contente com aquela exibição, embora só no final o tenhamos percebido — ele que foi o primeiro a afirmar queum empate ou uma vitória por «meio a zero» já chegava: teve o que pediu. Há várias coisas em que Scolari só se pode queixar de si próprio, a primeira das quais é a sensação que ele transmitiu, desde que chegou, que a Selecção é praticamente imutável: são os mesmos de sempre, por pior que estejam ou por melhor que estejam os seus concorrentes. Recordo que, contra a opinião de toda a gente de bom senso, ele passou seis meses a treinar para o Europeu uma equipa onde não havia ninguém do FC Porto no meio-campo, apesar de esse meio campo ser campeão europeu. E foi só após a derrota inaugural contra a Grécia, e na iminência de ver a equipa escandalosamente afastada da qualificação para os quartosde- final, que ele se rendeu, enfim, à evidência. Nos tempos mais recentes, com sucessivas exibições medíocres dos intocáveis, só o seleccionador é que parece não ver a desinspiração continuada de algumas vedetas encartadas ou outras de recente extracção. E já nem falo do caso do Ricardo, porque, tendo sido o primeiro a falar disso, já me saturei do assunto e é tão evidente a razão que então tinha, e hoje salta à vista de todos, que a única coisa que posso dizer sobre isto, agora, é que a teimosia do seleccionador, que ele confunde com autoridade, é a pior ajuda que podia prestar ao guarda-redes do Sporting. Está a ser friamente lançado às feras para servir de instrumento ingénuo dos tiques de autoridade do seleccionador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais notável e eloquente desta postura foi o facto de o seleccionador, após reconhecer a paupérrima exibição contra o Liechtenstein, afirmar tranquilamente que, dos 23 jogadores a levar ao Mundial, 20 já estavam escolhidos e, entre esses, dois dos três guarda-redes. A nove meses de distância, o que isto significa é que em nada adianta que os que estão de fora façam uma grande época ou que os que estão dentro se afundem na Selecção ou nos seus clubes: os lugares cativos mantêm-se intocáveis. Imagine-se a motivação que daqui deve resultar, para uns e para outros.Não sei se o Presidente da República faz tenções de voltar a condecorar os heróis que agora asseguraram a qualificação portuguesa para o Mundial da Alemanha—depois de ter achado mais pertinente condecorar a Selecção que perdeu o Europeu para a Grécia, jogando em casa, que o FC Porto, campeão europeu e mundial de clubes. Mas eu, sinceramente, não vejo grande proeza em ter obtido a qualificação num grupo tão fácil como o que nos calhou em sorte, onde a única selecção com algum historial, a russa, atravessa o pior momento das últimas décadas. Já sei que é a primeira vez que nos qualificamos para dois Mundiais consecutivos e, entre Mundiais e Europeus, vamos em não sei quantas qualificações sucessivas. Convém porém não esquecer que anteriormente se qualificavam 16 selecções (e, depois, 24) para o Mundial e agora 32, e 8 para o Europeu e agora 16 (e, para o último, quem nos qualificou foram os portugueses que pagam impostos e pagaram o Euro-2004). Não sei, é apenas uma sugestão ou uma opinião contracorrente: mas talvez não nos ficasse mal, na perspectiva do Alemanha-2006, um pouco mais de humildade entre os já eleitos e um pouco mais de exigência entre os arautos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. É suposto igualmente sentirmos uma profunda e lusófona alegria pela qualificação de Angola. É estranho: não consigo senti-la. Quando penso em Angola penso nos milhares de crianças estropiadas de guerra para quem não há dinheiro para as próteses, nos outros milhares que vagueiam pelas cidades em busca de comida nos contentores de lixo, e penso num país imensamente rico onde uns vivem no luxo e nas mordomias do poder e a grande maioria vive na miséria. E lembro-me do texto que Pepetela aqui escreveu no sábado, desejando, enquanto angolano, que Angola se não qualificasse, para que isso não servisse de pretexto amais umas quantas despesas sumptuárias de uns tantos privilegiados e a desviar as atenções daquilo que verdadeiramente interessa. Infelizmente, há alturas em que o futebol serve a quem não deve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. É seguro que não vão faltar os comentadores lisboetas a verem na vitória eleitoral de Rui Rio a derrota do FC Porto e de Pinto da Costa. Se Rio, que governou de costas voltadas para o FC Porto, teve 46% de votos, é porque o Porto-cidade lhe deu razão nessa atitude. Mas como se explica então que, do outro lado do rio, o grande apoiante do FC Porto — Luís Filipe Meneses—tenha tido 58%?É inútil tentar explicar que uma e outra coisa não estão ligadas e a vitória de Rui Rio teve que ver com outras coisas e não foi conquistada contra o FC Porto mas apesar disso. E, se é verdade que ele tem o mérito de ter ganho sem precisar do FC Porto, também este ganhou—no País, na Europa e no Mundo — sem precisar do presidente da câmara do Porto. E uma coisa eu vos posso garantir: é que, se no Mundo inteiro não há quem saiba quem é o presidente da câmara do Porto, também não há quem hoje não saiba que fica em Portugal uma cidade chamada Porto, onde joga o FC Porto.Quanto mais não fosse, bastaria esse simples facto para que devesse ser tido como uma anormalidade o desprezo a que o presidente da câmara do Porto vota a instituição que até hoje mais fez pelo nome e pelo prestígio da cidade—mais até que o vinho do Porto. Em Lisboa tal facto é tido como motivo de louvor e exemplo da saudável separação entre o futebol e a política. Curioso é que não tenham nunca uma palavra a dizer sobre os apoios constantes que as sucessivas vereações camarárias de Lisboa dão ao Benfica, ao Sporting ou ao Belenenses. Não há nada mais confortável que pregar moralidade no quintal do vizinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P. S. — Não sei se repararam numa notícia saída nos jornais que dizia que o arquitecto Manuel Salgado, autor do célebre Plano de Pormenor das Antas, iria processar a vereação de Rui Rio por violação de direito de autor. Em causa estará, segundo ele, a alteração feita pela câmara no seu projecto, permitindo maior volume de construção no centro comercial e nos edifícios anexos ao Estádio do Dragão. Lembram-se quais eram as críticas que, uma vez eleito há quatro anos, Rui Rio fez ao Plano de Pormenor das Antas? O excesso de volumetria dos edifícios e a dimensão do centro comercial, que iria liquidar os comerciantes da Baixa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 11.10.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112942263677978485?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112942263677978485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112942263677978485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/10/desmancha-prazeres.html' title='Desmancha-prazeres'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112868634131016872</id><published>2005-10-07T11:53:00.000Z</published><updated>2005-10-07T11:59:01.316Z</updated><title type='text'>Anos e anos perdidos</title><content type='html'>Já perdi a conta aos anos que levo de escrita no PÚBLICO, mas tenho a noção de que por eles passaram mais de uma dezena de eleições nacionais - autárquicas, europeias, legislativas, presidenciais. E em nenhuma delas usei este espaço para dar indicações de voto, explícitas ou implícitas. Mais uma vez o vou evitar nestas autárquicas, embora quem me segue habitualmente possa adivinhar, pelo menos, em quem é que eu não voto em Lisboa e em quem não votaria, se aí estivesse recenseado, no Porto, Gondomar, Amarante, Felgueiras, Oeiras ou no Algarve (aqui é fácil: em ninguém, em lado algum).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este exercício de autocontenção obriga-me, nas sextas-feiras de antevéspera eleitoral, a lançar mão de assuntos que nada tenham que ver com o depois de amanhã. Ontem, arrumando papéis e livros, deparei-me com um texto que escrevi, faz agora exactamente quatro anos, e que serviu de introdução ao livro chamado Anos Perdidos, onde reuni uma escolha das crónicas publicadas aqui entre 1995 e 2001 - os anos socialistas de António Guterres. O governo de Guterres estava então no seu estertor final, que ocorreria logo a seguir e na noite das últimas autárquicas. Sucedeu-lhe Durão Barroso, que governaria dois anos e fugiria, e Santana Lopes, que governou nove desastrados meses e foi sumariamente despedido pelo Presidente. E, desde Março, Sócrates e os socialistas de regresso ao poder. O que me chamou a atenção, ao reler um texto que já não via desde então, foi a constatação de que aos anos perdidos entre 96 e 2001 vieram somar-se depois mais quatro anos desperdiçados, e que o retrato sombrio que eu então fazia do país apenas se acentuou, nada de essencial tendo mudado, desde então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis parte do que escrevi em Outubro de 2001: "Em 1 de Outubro de 1995, António Guterres tornava-se primeiro-ministro de Portugal, sem maioria absoluta, mas em condições de governabilidade mais do que razoáveis. Uma nova geração de socialistas, despida dos preconceitos ideológicos do passado e de dívidas clientelares que uma década de oposição tinham feito prescrever, chegava ao poder, de mãos limpas e cara lavada, perante um país que suspirava por uma corrente de ar fresco. Para trás ficavam esses dez anos de jactância cavaquista, que produzira auto-estradas e fortunas rápidas, mas nenhuma das reformas essenciais de que o país precisava para aceder à modernidade. Ao rápido crescimento dos indicadores económicos do país não se sucedera nenhuma mudança qualitativa, naquilo que caracteriza um país moderno e civilizado: havia uma saúde para ricos e outra para pobres, um sistema fiscal para ricos e outro para pobres, um país desequilibrado entre um litoral cheio de oportunidades, negócios e empregos, e um interior morto ou moribundo - política, económica e culturalmente. Em tudo o que o Estado intervinha, as coisas funcionavam pior e eram mais caras: na saúde mandavam os médicos, no ensino mandava o Sindicato dos Professores, na justiça mandavam os juízes e os magistrados do Ministério Público, no fisco mandavam os diversos lobbies organizados - a banca, a construção civil, os advogados (...)"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se esperava de um governo de António Guterres era um mínimo de sentimento social, um mínimo de moralização das funções do Estado, um mínimo de coragem para enfrentar o pântano das vontades adormecidas e dos interesses estabelecidos. Tinha tudo a seu favor para tal: os dinheiros europeus e das privatizações, as taxas de juro baixas, a paz social e política, a cooperação do Presidente, a vontade da nação, expressa nas urnas. Depois, teve ainda a sua visibilidade e prestígio externos, a festa da Expo-98, a euforia bolsista. "E o que fez ele com tudo isso? Seis anos depois, a resposta, a penosa resposta, é: nada. Preferiu a "solidariedade" (isto é, a caridade cristã) à justiça social. Não ousou enfrentar um único lobby, um único interesse estabelecido, uma única corporação profissional. Demitindo-se, deu a gestão dos hospitais aos médicos, deu a gestão do ensino aos professores, aos alunos e à JS, deu a gestão da justiça aos magistrados, os quais aproveitaram para a desprestigiar até um ponto inimaginável, cumulou de benesses fiscais os lucros da banca e, tendo dado a esmola do Rendimento Mínimo Garantido aos pobres, achou-se legitimado para financiar com dez vezes mais dinheiros públicos negócios privados. Tendo anunciado de início que não haveria "jobs for the boys", nomeou em seis anos mais boys para jobs públicos do que o PSD havia feito em dez anos, perante a sua própria indignação. E assistiu, indiferente, à notável incompetência dos seus boys, acumulando prejuízos astronómicos em empresas públicas essenciais ao funcionamento do país (...)"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daí, e excepção feita ao raro momento em que se impôs como estadista, no desenlace da questão de Timor, Guterres e os seus governos mergulharam numa espécie de letargia depressiva. É como se tivessem decidido, de uma vez por todas, que nada havia a fazer por Portugal e que é aliás provável que os portugueses, no fundo, desejem que nada seja feito. Sentaram-se, pois, sobre a cadeira inútil do poder, ficando a ver o tempo passar... até à próxima eleição (...). Abandonada qualquer vontade reformista, qualquer veleidade de luta ou de mudança, qualquer exigência moral no uso do poder, qualquer esperança, qualquer horizonte. Ao serem reeleitos para mais quatro anos, tinham apenas duas coisas concretas para nos propor: acabar com as filas de espera para intervenções cirúrgicas nos hospitais públicos até 2003 e dar à sua clientela da construção civil o maná de dinheiros públicos que vai ser o Euro de futebol de 2004. Tudo o resto jaz sepultado, sem glória alguma, na fatalidade da real politik (...)."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como tantas vezes sucede quando olhamos para trás, o que me apetecia era poder rebobinar o filme e contar a história de outra maneira, não como ela aconteceu, mas como poderia ter acontecido. Regressar a esse distante 1 de Outubro de 1995, em que tudo parecia poder começar de novo. Mas, o que está feito, está feito: os anos perdidos são irrecuperáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sobre esta crónica de seis anos perdidos, escrita em 2001, passaram já mais quatro anos: ao todo, uma década inteira de nenhuma mudança. Em certas coisas, o Governo de Sócrates tem-se limitado a repetir as tropelias habituais, como na colocação dos boys ou nos projectos de empreitadas públicas para satisfação clientelar. Noutras, é justo reconhecer que tem tentado mexer nas águas estagnadas dos interesses instalados. Mas, dos militares aos juízes, dos autarcas aos professores, todas as corporações do país estão em pé de guerra pelos "direitos adquiridos". Quem viu o debate da RTP1 sobre a justiça e assistiu à prestação dos representantes sindicais dos juízes e dos magistrados do Ministério Público percebeu até que ponto desceu a noção de serviço público e a força tremenda que será necessária para levar as reformas avante. No outro dia, ouvi um represente sindical dos professores anunciar a sua última razão de contestação: querem que as "aulas de substituição" sejam pagas como trabalho extraordinário. Julgo ter percebido bem: um professor falta e o colega chamado em sua substituição - que está na escola, dentro do seu horário de trabalho, mas sem nada que fazer naquela hora - só aceita substituí-lo se for pago a dobrar. Conhecem alguma empresa privada, no mundo inteiro, onde um trabalhador ouse colocar isto como "direito adquirido"?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sócrates tem fatalmente de escolher entre romper a direito ou desistir como Guterres ou fugir como Barroso. E o próximo Presidente da República terá fatalmente de meditar nas lições da década de Jorge Sampaio. Mais dez anos assim e só nos resta o "salve-se quem puder".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público”, - 07.10.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112868634131016872?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112868634131016872'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112868634131016872'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/10/anos-e-anos-perdidos.html' title='Anos e anos perdidos'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112868596314000466</id><published>2005-10-04T11:49:00.000Z</published><updated>2005-10-07T11:52:43.156Z</updated><title type='text'>As razões à vista de Adriaanse</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Não vejo que vantagem possa haver em pedir a Co Adriaanse que ponha a equipa a jogar com base num sistema que depende do sector em que ela é mais fraca. Se não sabe defender, a única coisa que o FC Porto pode fazeré atacar.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Nas semanas em que há jogos europeus a desvantagem de escrever no início da semana, como eu, é que os jogos europeus já estão desactualizados face aos jogos do campeonato que, entretanto, tiveram lugar ao fim-de-semana. É o caso, agora: para um portista o grande tema de meditação, esta semana, não pode deixar de ser a incrível derrota europeia frente àquela equipa com nome de agência de publicidade, e as subsequentes declarações que, sobre ela, fez o treinador Co Adriaanse, bem como as inúmeras reflexões que essa derrota e os comentários do treinador portista inspiraram. Só que, entretanto, houve o jogo da Madeira, susceptível ou não de mudar as conclusões que já teriam sido tiradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora bem. Sucede que, por acaso, eu acho que nem é assim. A derrota contra o Artmedia, o empate contra o Marítimo e as declarações de Adriaanse de que não iria mudar a sua filosofia e o seu estilo de jogo, apesar das sucessivas desilusões motivadas pelos descalabros defensivos dos portistas, permitem um julgamento comum sobre as razões do treinador do FC Porto. Os factos (os resultados) dão-lhe ou não razão, na sua crença de que o futebol de ataque é a solução adequada — em geral e, em particular, para o caso desta equipa do FC Porto? Há ou não razão para lenços brancos? A minha opinião é que Co Adriaanse tem razão—e julgo que comigo está a generalidade dos adeptos portistas. No geral porque é mil vezes preferível, como espectadores, um futebol de ataque, que traz espectáculo, emoção e beleza ao jogo, que aquele futebol completamente estéril e passivo que a equipa jogava no ano passado. No particular porque, olhando para a actual equipa do FC Porto, é fácil perceber que, face àquela defesa de gelatina, a melhor defesa possível... é o ataque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muita gente criticou Adriaanse por ele não saber defender os resultados, ter uma estratégia suicida de ataque, nunca parar em busca do maior número de golos possível. Para esses espíritos desassossegados por tanta coisa nova e diferente Adriaanse deveria ter posto o FC Porto à defesa assim que chegou ao 2-2 em Glasgow e deveria ter parado de atacar assim que chegou ao 2-0 contra o Artmedia, em lugar de continuar à procura do 3-0. Pois, mas os factos podem ser vistos de outra perspectiva, onde os críticos perdem a razão: mesmo a jogar com 10 o FC Porto teve duas oportunidades de chegar ao 3-2 em Glasgow e, se o tem conseguido, pelo menos não acabaria a perder o jogo; teve uma oportunidade inacreditavelmente desaproveitada de chegar ao 3-0 contra o Artmedia e, se o tem conseguido, pelo menos não perdia o jogo; e, da única vez que recuou e defendeu o resultado— no Funchal a jogar contra 10, a um quarto de hora do fim —, acabou por consentir o empate. Moral da história, do meu ponto de vista: com uma defesa que, seja contra quem for, sofre habitualmente dois ou três golos, a única salvação possível é que o ataque e o meio-campo ofensivo consigam pelo menos marcar três e, de preferência, quatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixemos de parte o recente e estranho jogo contra o Marítimo, em que, a par da pior exibição da época, o FC Porto foi surpreendido (como todos fomos) por um Marítimo que, em quatro dias de treinador novo, ressuscitou da nulidade e apareceu pujante de futebol e de energia, correndo sem parar, ao ponto de, a jogar com 10, ter conseguido encostar o FC Porto lá atrás a 15 minutos do fim. Vamos ver se esta extraordinária e instantânea ressurreição se confirma e em que termos nos jogos seguintes. (Só dois apartes, para contrariar as verdades feitas: o golo anulado ao Marítimo foi, tal como o golo anulado ao FC Porto, bem anulado, porque entre o jogador do Marítimo e a linha de golo só havia um portista no momento do passe—o Bruno Alves; o invocado penalty que terá sido sofrido por um sujeito do Marítimo que se viria a distinguir por cuspir na cara dos adversários e entrar a matar sobre eles depende da vontade de cada um — para mim trata-se de uma penalty à João Pinto, um estafado número que consiste em adiantar a bola para onde já não se pode ir buscá-la e depois arrastar a perna deliberadamente para encontrar a perna do defesa que tenta cortar a bola.) Mas, à parte esse atípico jogo com o Marítimo, o que o marcante jogo contra o Artmedia mostrou foi apenas aquilo que já se sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que falta a este FC Porto, em minha opinião, é aquilo que aqui escrevi a seguir ao jogo contra o Glasgow Rangers: o fim do azar e uma defesa minimamente capaz. Compare-se com o Sporting, contra o Halmstads. Perdeu também por 2-3 mas o adversário ainda poderia ter marcado outros três. Já o Artmedia e o Rangers chutaram, cada um deles, quatro vezes à baliza do FC Porto, acertaram três vezes e das três foi golo. Em contraste, o FC Porto chutou 28 vezes à baliza do Artmedia, 25 à do Rangers, perdeu quatro ou cinco oportunidades flagrantes em cada um dos jogos, teve 62% de posse de bola no primeiro jogo e 68% no segundo, teve seis vezes mais ataques e seis vezes mais cantos que ambos os adversários... e perdeu os dois jogos. Independentemente dos erros defensivos, é forçoso reconhecer que apenas um pouco menos de azar e as histórias teriam sido outras. Agora sobeja a outra verdade incontornável. O FC Porto tem o terceiro ataque entre as 32 equipas da Liga dos Campeões, é a equipa que mais ataques fez, mais remates fez, mais posse de bola teve. E a piordefesa. Nenhuma equipa com aspirações europeias se pode dar ao luxo de marcar quatro golos em dois jogos e perder ambos. Ou de sofrer oito remates à baliza e encaixar seis golos. É simplesmente impensável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo das últimas décadas o FC Porto habituou os seus adeptos a ter sempre um ou dois grandes defesas-centrais em acção. De trás para a frente, foram os ciclos de Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Aloísio (10 anos!), Geraldão, Celso, etc. Nunca, que me lembre, o FC Porto iniciou uma época sem ter um grande central, pelo menos. Aconteceu este ano, em que o melhor deles, Jorge Costa, está, ainda por cima, encostado ou lesionado. A dupla dos últimos jogos— Ricardo Costa e Bruno Alves—é a pior de todas, com a agravante de ter nos flancos dois laterais adaptados. E, quando assim é, não há milagres. Ricardo Costa bem se pode justificar dizendo que a responsabilidade de defender é de todos e não apenas dos defesas: é tão verdade como dizer que a responsabilidade demarcar golos é de todos. O que sabemos é que a frieza dos números demonstra que o ataque tem cumprido a sua obrigação, a defesa é que não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema só tem solução de fundo e esta só pode chegar em Dezembro e cara. Daqui até lá, porém, decide-se o destino do FC Porto na Liga dos Campeões. Para que ele seja feliz é preciso que a sorte mude e a defesa portista seja capaz, ao menos, de não encaixar dois ou três golos todos os jogos. Entretanto, não vejo que vantagem possa haver em pedir a Co Adriaanse que ponha a equipa a jogar com base num sistema que depende do sector em que ela é mais fraca. Se não sabe defender, a única coisa que o FC Porto pode fazer é atacar. E quanto mais melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 04.10.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112868596314000466?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112868596314000466'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112868596314000466'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/10/as-razes-vista-de-adriaanse.html' title='As razões à vista de Adriaanse'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112834163473872453</id><published>2005-09-30T12:10:00.000Z</published><updated>2005-10-03T12:13:54.740Z</updated><title type='text'>Direitos, privilégios e desperdícios</title><content type='html'>1. O pior que pode acontecer a uma classe sócio-profissional que decide fazer greve é essa greve não incomodar ninguém nem impressionar ninguém. Porque uma greve é uma forma de pressão e não há pressão alguma quando a greve não incomoda ninguém. Uma greve de transportes, uma greve da TAP, uma greve dos trabalhadores da EDP, incomodam milhares ou milhões. Uma greve na justiça não incomoda ninguém: para aqueles que esperam um ano por um simples despacho e dez anos por uma sentença, uma semana de greve de juízes, magistrados do Ministério Público e funcionários judiciais não incomoda rigorosamente nada.Mas os tribunais são também órgãos de soberania e os magistrados eram, há dez anos atrás, a classe sócio-profissional mais considerada nas sondagens de opinião. Uma greve deles, não incomodando em nada, poderia, todavia, impressionar a opinião pública. Mas não é o caso. A única pessoa que, por dever de ofício, parece impressionada é o sr. Presidente da República. O comum dos cidadãos tanto se lhe dá, como se lhe deu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para aqui chegarmos, foi preciso que ambas as magistraturas judiciais tivessem tratado diligentemente de desbaratar em dez anos o prestígio de que, até então, justamente gozavam. Hoje, os juízes e o Ministério Público podem gritar aos quatro ventos que estão a ser maltratados e desconsiderados que ninguém mexerá uma palha para os defender. Para quê defender quem não nos defende? Quem está sempre pronto a reclamar por isto, por aquilo e por aqueloutro, pelas férias, pelos subsídios, pelas regalias, e jamais pelos direitos dos desgraçados que esperam em vão por uma justiça que é quase sempre má ou tardia? Nunca pela cabeça dos senhores magistrados passou a ideia de se imaginarem na pele de um cidadão que é vigarizado por terceiro e que contrata um advogado a quem paga, sustenta despesas prévias para meter a acção em tribunal e que confia que, tendo tudo feito conforme é recomendável num Estado de direito, a justiça lhe há-de reconhecer a sua razão, em tempo útil para salvaguardar a sua actividade profissional e recompensá-lo dos prejuízos sofridos. E que, afinal, espera em vão, anos a fim, até realizar ou que a justiça chega tão tarde que já não lhe serve de nada e apenas gastou mais dinheiro, ou então que lhe é negada a razão, a pretexto de formalismos processuais e bizantinices jurídicas que ninguém de boa-fé consegue reconhecer como justiça. Mas nada disso incomodou jamais os senhores magistrados. Nunca os incomodou o facto de o objectivo essencial da sua actividade - que é o serviço público - servir para tudo menos para cumprir a sua função. Como se a justiça, primeiro que tudo, devesse servir os que a servem e não os que a ela recorrem e a pagam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um cidadão comum olha para o estatuto profissional de um juiz, o que vê é que eles, assim que saem da escola, têm emprego garantido, começam por ganhar 2330 euros, mais 700 de subsídio de renda de casa (que manterão ao longo de toda a carreira, mesmo depois de reformados...), têm um regime especial e privilegiado de segurança social (o qual é pago em mais de 50 por cento pelos utentes da justiça), têm mais de dois meses de férias por ano, são independentes, isto é, não respondem perante ninguém, são irresponsáveis nas suas decisões, por mais incríveis que estas possam ser, são inamovíveis para sempre, por piores que sejam, e só respondem disciplinarmente perante os seus próprios pares, com toda a escandalosa benevolência que daí tradicionalmente resulta. Que outro emprego existe assim no mundo normal onde as pessoas vivem sem ser à sombra do Estado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se formos ainda mais longe, constataremos que, em comparação com países desenvolvidos e próximos, como a Espanha, a Alemanha, ou a França, temos mais tribunais per capita, mais juízes e funcionários por tribunal, mais dinheiro do Estado aplicado no sector, custas mais caras a pagar pelos que recorrem aos tribunais, e mais tempo de espera por uma decisão. O que resta, então, para nos comovermos com as dores dos juízes e magistrados do Ministério Público? O muito que o país lhes deve por, simplesmente, existirem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Li no jornal que vou perder a presença de uma amiga que nos últimos anos me habituei a ver sempre que vou almoçar a um restaurantezinho junto ao rio: a fragata D. Fernando e Glória. A recuperação do que foi o último navio à vela da mítica "carreira das Índias" foi uma das coisas boas que a Expo-98 nos trouxe. Recuperado apenas para o olhar, e não para a navegação, mesmo assim ela deslumbrou e fez sonhar todos quantos a visitaram em 98 e logo a seguir, quando foi transladada do cais da Expo para a zona da Rocha Conde de Óbidos. E por ali se tem quedado estes últimos anos, quieta, inútil e a apodrecer aos poucos, sob a superior guarda da nossa Marinha de Guerra.&lt;br /&gt;Chega agora a notícia que a D. Fernando e Glória vai mudar novamente de poiso, para a doca de Cacilhas, sob a égide da Câmara de Almada, e depois de recuperado o cais e novamente recuperado o navio, que, entretanto, a Armada foi deixando degradar, com o seu abandono e desinteresse. Aparentemente, a Marinha pôs a D. Fernando em saldos, a quem lhe oferecer acostagem e destino - coisa demasiado complicada para eles se ocuparem do assunto. Podia recomendar aos almirantes uma visita de estudo a Newport, no Massachusetts, ou, mais perto ainda, a Noimoutier, perto de Nantes, onde uma simples fragata do Tejo (curiosamente chamada O Abandonado), levada daqui para lá por um pequeno empresário com iniciativa, é um ex-líbris da ilha e um próspero negócio. Podia também perguntar a quem actualmente exercerá funções de presidente da câmara de Lisboa, se é que alguém, se não tem nada a dizer perante o "roubo" daquilo que, para mim pelo menos, era património da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, afinal, tenho uma ideia melhor: entreguem-me a minha amiga D. Fernando e Glória e eu prometo que não desbarato por desleixo o dinheiro gasto na sua recuperação, que faço dela um motivo de orgulho, um instrumento de cultura e um caso de sucesso, sem pedir um tostão ao Estado, sem reclamar privilégios ou mordomias e sem fazer greve. Usando simplesmente a imaginação, a vontade e a consciência de ter de estar à altura da responsabilidade da sua guarda. E aliviemos de vez a nossa Marinha de Guerra deste pesado fardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público”, - 30.09.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112834163473872453?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112834163473872453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112834163473872453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/09/direitos-privilgios-e-desperdcios.html' title='Direitos, privilégios e desperdícios'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112834135602659596</id><published>2005-09-27T12:05:00.000Z</published><updated>2005-10-03T12:09:16.036Z</updated><title type='text'>Do que o povo gosta</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O exemplo prático do FC Porto de Co Adriaanse, a coragem do seu futebol de risco, a beleza dos espectáculos que proporciona e o público que enche o Dragão para o ver vão ser, não tenham dúvidas, o grande motivo de reflexão deste campeonato.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Em Montreal, no Canadá, Luís Filipe Vieira anunciou que o Benfica já é o maior clube do Mundo, com 170.000 sócios e 70.000 kits vendidos. Transportado pelo próprio entusiasmo, o presidente benfiquista atreveu-se até a mais um salto qualitativo: este ano o objectivo e a previsão já não são só chegar à final da Liga dos Campeões mas sim vencê-la e fazer do «maior clube do Mundo» o campeão da Europa. Não mais de 30 mil benfiquistas— os que foram ver a estreia do seu clube na Champions— parecem comungar de igual entusiasmo. Mas pode ser que, aproveitando o momento insolitamente negativo que atravessa o Manchester United e as 10 baixas do seu plantel, o Benfica consiga esta noite em Manchester dar mais asas ao sonho presidencial e provar, no próximo jogo caseiro, que «certos estádios fizeram- se para estar cheios». Sem nada prometer de semelhante, seja pela boca do seu presidente, treinador ou jogadores, e sem andar por aí a lembrar que o campeão do Mundo em título é ele, o FC Porto lá vai continuando a confundir esperanças com realidades. Quarenta e cinco mil espectadores estiveram no primeiro jogo do campeonato no Dragão; 37.000 no segundo; 41.000 no terceiro. Certos estádios fizeram-se para estar cheios: aqueles onde se joga bom futebol. A receita de sucesso de Co Adriaanse é simples: futebol de ataque garante o espectáculo e o espectáculo garante o público. Dêem ao povo o que o povo gosta e a lua-de-mel será eterna. Houve quem se melindrasse pelo enunciado tão simples da sua receita; houve quem, num assomo de chauvinismo pacóvio, se melindrasse pelo facto de o holandês, tão verde entre nós, já se permitir considerações sobre os males do futebol luso; houve até quem visse nas suas declarações uma forma de desviar as atenções da sua brandura disciplinar contra McCarthy (que, por razões à vista, eles tanto desejavam que fosse levada aos limites...). Mas a vantagem de Adriaanse é esta: jogo após jogo ele mostra que as suas teorias não são apenas teorias mas sim uma filosofia de jogo, uma ideia do que deve ser o futebol e um projecto para salvar o «maior espectáculo do Mundo», que é levada a cena de cada vez que a sua equipa entra em campo. Contra um excelente Belenenses viu-se um FC Porto de ataque continuado, incontrolável, insaciável. As jogadas para o golo sucedem-se, umas a seguir às outras, a imaginação anda à solta como uma febre sem controlo, os 90 minutos sabem a pouco. Dá gosto ver futebol assim! E os leitores que me permitam duas satisfações pessoais acrescidas: primeira, o triunfo do futebol de ataque, de que sou e sempre me confessei adepto incorrigível, contra os «meios campos superpovoados» e o «jogo de contenção» que fazem a doutrina dos nossos treinadores; segunda, a satisfação de ver o que vale um FC Porto com o onze que aqui venho defendendo há dois meses, ou seja, com McCarthy e Quaresma a titulares. Por mais voltas que o futebol dê, hei-de morrer sem que alguém me consiga convencer de que os grandes jogadores devem ceder lugar aos jogadores seguros ou disciplinados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. O exemplo prático do FC Porto de Co Adriaanse, a coragem do seu futebol de risco, a beleza dos espectáculos que proporciona e o público que enche o Dragão para o ver vão ser, não tenham dúvidas, o grande motivo de reflexão deste campeonato. Foi porque já o perceberam que os sportinguistas despediram a sua equipa com uma assobiadela, após a magra e frustrante vitória caseira contra o V. Setúbal e depois de terem visto Peseiro a defender o 1-0, em casa e em superioridade numérica, tirando o Liedson para colocar o Beto. Depois de uma época em que dispôs da melhor equipa nacional e jogou o melhor futebol, mas perdeu sempre nos momentos decisivos, José Peseiro acha que a solução é sacrificar o espectáculo e privilegiar os resultados. Depois do desastre contra o Nacional, a ordem parece ser clara: se a equipa está a ganhar por 1-0, defende-se o 1-0, com assobios ou sem assobios. Adriaanse pensa exactamente o contrário: se a equipa está a ganhar por 1-0, é preciso fazer o 2-0, continuando a atacar. Os resultados de ambos esta época já lhes deram razão, a ume outro, alternadamente. Mas não há dúvidas para que lado balança o coração dos adeptos, com qual das filosofias de jogo se defende melhor o futebol e com qual dos dois tipos de espectáculo se traz público aos estádios. Eu estou com as ideias de Co Adriaanse e ainda bem que elas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Ao minuto 19 do jogo de Alvalade o árbitro Paulo Baptista resolveu o jogo a favor do Sporting, assinalando penalty contra o Vitória e expulsão do guarda-redes setubalense. Resolveu-o, diga-se, de acordo com as regras e, portanto, nada há a dizer contra a decisão dele: considerou que Deivid foi tocado pelo guarda-redes, quando estava em posição de marcar golo, e, sendo assim, as regras mandam que assinale penalty e mostre o vermelho ao infractor. Não é a decisão do árbitro que está em causa mas a própria regra. Esta regra é equívoca, injusta e contra o espectáculo. Equívoca porque exige do árbitro um juízo de valor totalmente subjectivo, as mais das vezes fundado num palpite: o jogador derrubado estaria ou não em posição flagrante de poder marcar golo? Cada cabeça sua sentença — o que, numa decisão de tal forma gravosa, não é recomendável... Injusta porque, na prática, equivale a duas penalidades máximas na mesma jogada: a expulsão directa e o penalty. Faz muito mais sentido que o vermelho directo seja mostrado fora da área, a quem derruba um jogador que se vai isolar, que dentro da área. Porque, dentro da área, o penalty dá quase sempre como resultado um golo, enquanto o livre fora da área só raramente tem essa consequência. Um critério de adequação da justiça estabeleceria como regra que este tipo de jogada, se cometido fora da área, devia dar lugar a livre directo e expulsão e, se cometido dentro da área, a penalty e cartão amarelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, a regra em vigor contribui claramente para estragar o espectáculo, já que oferece uma clara oportunidade de golo a uma equipa e, simultaneamente, uma superioridade numérica que, se adquirida logo de início, como sucedeu em Alvalade, desequilibra o jogo e condena a equipa do infractor a remeter-se à defesa até final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esta regra tem também um mal acrescido: é que, ponderando todas as suas consequências para o próprio jogo, há muitos árbitros, incluindo alguns dos mais conceituados do Mundo, que se recusam a aplicá-la em todo o seu rigor: ficam-se pelo penalty e pelo amarelo. Mas como, apesar de muitos, não são todos, e há sempre os outros, como Paulo Baptista, que seguem a lei à letra, está estabelecido um critério aleatório, variando de árbitro para árbitro, com toda a incerteza e toda a injustiça a que isso se presta. Anteontem o Sporting beneficiou, e sem contestação possível, de um critério estrito do árbitro nesta matéria. Mas se amanhã o critério for outro, ou for o mesmo contra o Sporting, lá virá o inevitável dr. Dias da Cunha bramar contra a arbitragem e o sistema. Esperem para ver...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Só um grande profissional, um grande jogador e um grande atleta, como o é Marco Aurélio, poderia atingir a marca impensável de 200 jogos consecutivos na I Liga, Super liga ou BetandWin qualquer coisa. Duzentos jogos são seis anos e meio a defender as balizas, sem falhar um jogo, por lesão ou por castigo. E, 200 jogos depois, aos 35 anos de idade, ele ainda prova que pode ser o melhor da equipa, como o foi sábado passado, na visita ao Dragão. Eis alguém que certamente merece cada euro que ganha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 27.09.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112834135602659596?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112834135602659596'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112834135602659596'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/09/do-que-o-povo-gosta.html' title='Do que o povo gosta'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112773525451192990</id><published>2005-09-23T23:41:00.000Z</published><updated>2005-09-26T11:47:34.516Z</updated><title type='text'>O país de Fátima</title><content type='html'>Os três telejornais da noite abrem com extensas coberturas do "caso do dia": o regresso triunfal de Fátima Felgueiras ao país e à sua coutada eleitoral. A alegria, o entusiasmo, a emoção são visíveis na voz dos repórteres, nas manifestações de histeria dos populares, no próprio rosto de alguns polícias que conduzem a "arguida" perante a juíza da comarca, que, em tempo absolutamente recorde, chamou a si a foragida, subtraindo-a à alçada da PJ e à prisão, e, antes mesmo da hora de abertura dos telejornais, já tinha decidido um recurso interposto horas atrás contra a sua prisão preventiva, mandando-a em liberdade. Ela própria, a "heroína" do dia, estava resplandescente, parecia um general romano regressando vitorioso de uma campanha no Oriente. E que grandes feitos de campanha cometera ela para ser assim levada em triunfo? Andara dois anos e meio fugida da justiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fátima Felgueiras é acusada em justiça pelos crimes de corrupção passiva, peculato e abuso de poder, cometidos no exercício das suas funções de presidente da câmara. O povo não quer saber desses detalhes: a senhora fez obras na terra, ajudou os velhinhos e ia a pé para a câmara todos os dias, "cumprimentando toda a gente pelo caminho". Por isso, o povo adora-a, e os que o povo adora nunca podem ser culpados dos crimes que o povo atribui normalmente aos políticos: apenas são vítimas de "cabalas" e "perseguições". Os próprios jornalistas parecem ter por ela uma estima particular: em tom condescendente de quem acha que o mundo nunca poderá ser perfeito, explicam-me que ela não é mais do que o bode expiatório de um esquema largamente em uso nas autarquias e destinado a financiar o partido por debaixo da mesa. Estão a ver, coisas de somenos: uma licençazinha de construção em zona protegida a troco de uma contribuição para a campanha do partido, um contrato de fornecimento com a câmara a troco de uma subfacturação que a todos serve e permite guardar o remanescente para financiar a candidatura do camarada tal, excelente filho da terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, Fátima parece gozar da indulgência de todos. Quando finalmente é emitido um mandado de captura contra ela, consegue saber antes de toda a gente e, no próprio dia, foge para o Brasil, onde, durante dois anos e meio, continua a ser notícia venerada, lançando veladas ameaças à justiça e ao partido, e continuando, lá em Niterói, a receber o ordenado de autarca, porque, sendo as interpretações da lei necessariamente confusas (de outro modo, de que viveriam os autores dos "pareceres" jurídicos, que são, muitas vezes também, os autores das leis?), a lei não é clara sobre a questão de saber se alguém que vive no Brasil e que o tribunal suspendeu de funções e mandou prender pode continuar, mesmo assim, a poder ser considerado presidente de câmara em funções. Mas isso são pormenores, apenas uma gota de água no oceano dos nossos impostos. O essencial é que o povo e os seus defensores concordam com a tese dela de que, se alguém se declara inocente, tem o direito de não ir para a prisão, independentemente de a justiça pensar o contrário e insistir em julgá-la. É claro que podemos sempre apresentar as coisas de outra maneira: se alguém que exerce funções públicas é acusado por crimes patrimoniais no exercício das suas funções, deve interromper essas funções e explicar-se em tribunal, ou deve fugir e proclamar-se mártir da justiça? O povo, claro, acha que os políticos devem ser responsabilizados, sobretudo os "corruptos". Mas também acha, devido ao tal mecanismo de "proximidade democrática", de que o poder local é o exemplo máximo de méritos, que deve haver excepções. O "seu" político não é igual aos "outros" políticos. Se assim não fosse, não haveria prisão preventiva para ninguém, o que também não está certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, pois, excepções. Excepções ao bota-abaixo com que o povo classifica todos os políticos em geral. Fátima é a excepção de Felgueiras, Valentim a de Gondomar e do futebol, Isaltino a de Oeiras, o incrível Torres a de Amarante. Todos eles têm em comum o facto de a justiça, por uma razão ou outra, desconfiar que eles não são cidadãos recomendáveis para funções públicas. Todos têm em comum a circunstância de os respectivos processos (especialmente os de Ferreira Torres) se arrastarem de tal forma que nunca a decisão chega a tempo de evitar a sua reeleição. E todos têm em comum o facto de, a 9 de Outubro próximo, virem, muito provavelmente, a ser eleitos presidentes de câmara, graças ao mecanismo da absolvição democrática, que é mais rápido e mais eficiente do que a absolvição judicial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 9 de Outubro próximo, o país vai-se confrontar com o sintoma mais deprimente da degradação da nossa democracia. E não adianta fingir que Felgueiras, Gondomar, Amarante e Oeiras são maus exemplos que não representam o todo. Simplesmente, não é verdade. Basta olhar para muitas das caras de candidatos que enxameiam o país, de norte a sul: nem é preciso chamar o Ministério Público, está lá tudo escrito, nas caras deles. Portugal inteiro está cheio de casos semelhantes e, pior do que isso, todos sentimos que o sentimento geral do país é a complacência, quando não a veneração perante eles. Se por acaso vos aconteceu tropeçar numa coisa chamada Gala dos Dez Anos da Caras, sábado passado na SIC, talvez vos tenha acontecido perder de vez as ilusões. Nem nos mais obscuros tempos do Estado Novo se chegou ao extremo impudico de ver o povo à porta do Condes para aplaudir uma fauna indescritível de gente que de relevante tem apenas a extrema saloiice a que chamam glamour e uma comum e absoluta inutilidade social, profissional e cívica. Houve tempos em que o país se dividia - e dividia ferozmente - por ideias políticas, projectos pessoais, rivalidades empresariais, querelas culturais. Mas os simplesmente bandidos, medíocres ou nulidades patentes ficavam à porta. Dir-me-ão que em todos os países existe uma sociedade rasca, e em última análise digna de dó, que só sobrevive porque alimenta as ambições e ilusões do menu peuple, e isso, por sua vez, alimenta uma comunicação social de género que, hoje em dia, é, aliás, próspera. Isso é verdade. Mas também é verdade que, apesar de tudo, subsiste ainda um critério de selecção, quanto mais não seja o do pudor e o do ridículo. Que outra grande estação de televisão de um país a sério guardaria o prime time de um sábado à noite para um espectáculo tão degradante e tão deprimente como aquele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É esta profunda degenerescência de valores, de referências e de símbolos, que pode parecer inofensiva, mas que vai corroendo aos poucos a nossa democracia. Acabamos a ver, a aplaudir e a eleger gente que não convidaríamos para jantar em nossa casa. Está tudo ligado. E depois admiramo-nos por ver outros com outras responsabilidades comportarem-se como se já nada fosse verdadeiramente importante e não fosse susceptível de ser apagado pela tal absolvição democrática. Como Carrilho e Carmona Rodrigues, naquele tristíssimo debate, ou como o "impoluto" Rui Rio, achando que a arrogância, a chantagem e o silêncio conveniente perante questões de gravidade extrema chegam e sobram para ganhar eleições. E o pior é que chegam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público”, - 23.09.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112773525451192990?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112773525451192990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112773525451192990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/09/o-pas-de-ftima.html' title='O país de Fátima'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112773475611255074</id><published>2005-09-20T23:33:00.000Z</published><updated>2005-09-26T11:52:05.256Z</updated><title type='text'>Quando a sorte não ajuda os audazes</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Adriaanse tem razão quando defende a sua filosofia de que quanto mais se atacar mais possibilidades se tem de ganhar. É verdade que, ao contrário do que reza o ditado, nem sempre a sorte sorri aos audazes. Mas, indiscutivelmente, são eles que dignificam o espectáculo e levam público às bancadas.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No espaço de cinco dias vi o FC Porto fazer duas corajosas e convincentes exibições em jogos de risco elevado e terminar ambos com resultado negativo. Das duas vezes, o FC Porto foi a única equipa em campo que, do princípio até ao fim, lutou pela vitória, dominou, rematou, correu riscos, enquanto os adversários viveram entrincheirados lá atrás, esperando escassas oportunidades de contra-ataque e confiando na sorte, que acabou sempre por lhes sorrir. Mesmo eu, que me reconheço um espírito talvez demasiado crítico e exigente para com as prestações do meu clube, não tenho— fora críticas de pormenor — nada a apontar-lhes. No futebol também é preciso sorte e eles nunca a tiveram na frustrante semana passada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Glasgow, a soma de factores de fortuna adversos foi quase impossível de repetir: a lesão de Pedro Emanuel, que teria justificado um cartão vermelho a quem lhe partiu o nariz; a lesão de Sokota, deixando a equipa reduzida a dez quando faltavam quinze minutos, o jogo estava empatado e só o Porto é que tentava ganhá-lo, como, aliás, continuou a tentar mesmo depois disso; o episódio das cabeleireiras de McCarthy, que deixou a frente de ataque confiada ao inofensivo Sokota; a quantidade incrível de situações de golo desperdiçadas frente à baliza do Rangers, em contraste com o aproveitamento do adversário que em duas oportunidades... marcou dois golos, ambos em remates tão felizes que os marcadores nem sequer olharam para a baliza antes de rematarem; enfim, o incrível segundo golo do Rangers, de tal maneira faltoso que não se entende como é que um árbitro da Liga dos Campeões consegue validá-lo. Raras vezes me lembro de assistir a uma derrota tão injusta quanto esta e a sensação de frustração só não foi ainda maior porque a imensa superioridade demonstrada em campo pelo FC Porto (21 remates contra seis, por exemplo!), deixa antever o restabelecimento relativamente tranquilo da hierarquia desportiva no GrupoHda Champions.Mas não deixa de ser impressionante o facto de o FC Porto, que entrou no inferno de Glasgow com uma autoridade e uma personalidade de que apenas ele é capaz em todo o panorama das equipas portuguesas, tenha sido a única que terminou derrotada neste primeiro round europeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Braga, o FC Porto entrou igual a Glasgow, e acabaria por assinar a exibição mais dominante e pressionante feita por aquelas paragens desde há largos anos. Bem pode Jesualdo Ferreira declarar que ambas as equipas poderiam ter ganho. Não é verdade: apenas poderia ter ganho a única equipa que fez por isso, que criou oportunidades várias, contra absolutamente nenhuma do Sporting de Braga, e que acabou até a jogar com três defesas, dois médios e cinco avançados. Bem pode ele vir com o estafado argumento dos penalties por marcar (num deles teve a concordância do comentador da Sport TV, sempre diligente a ver erros de arbitragem a favor do FC Porto; no outro, só mesmo ele é que o inventou). E bem pode ainda queixar-se do cansaço do jogo europeu de 5.ª- feira, gasta desculpa de outros tempos e de equipas que não sabem o que é jogar na Europa de Setembro a Maio. Aquilo que ficou à vista de todos, e sem desprimor para o Sporting de Braga, foi a equipa da casa a defender sempre com dez jogadores atrás da linha da bola e sem sequer ser capaz de, de quando em vez, organizar contra-ataques dignos desse nome. O Braga ganhou um ponto, o Porto perdeu dois. Por mais que Jesualdo Ferreira disfarce, só pode estar feliz com o que lhe aconteceu no domingo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o FC Porto, episódios de cabeleireiras e excessos disciplinares à parte, vive uma situação paradoxal: joga claramente um futebol muito acima daquilo que por aqui, e mesmo lá fora, se vai vendo. Ataca desde o apito inicial de qualquer jogo, seja contra a Naval ou o Arsenal, domina territorialmente em todos os aspectos, cria oportunidades em série, remata sem descanso em cada jogo, deixa os adversários de gatas e, no fim, ou ganha sofridamente ou nem isso. O que fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma parte da resposta a esta pergunta que não tem solução imediata, só o tempo a pode resolver: a falta de sorte. A sorte não se ensaia nem se treina. Pode aparecer ao minuto 91 do jogo do Benfica contra o Lille ou logo ao minuto 3 do Benfica-Leiria. E pode não aparecer nunca, a não ser ao adversário, como aconteceu aos portistas em Braga e em Glasgow. Mas estou de acordo com Adriaanse: a solução não está em mudar de filosofia de jogo e começar a jogar como os outros, com cautelas e caldos de galinha, renunciando ao futebol de ataque e ficando lá atrás, à espera do golpe de sorte. Quando se ostenta na camisola o símbolo de campeão do Mundo em título há responsabilidades acrescidas perante o espectáculo e o nome do clube. Adriaanse tem razão, quando defende a filosofia oposta: quanto mais se atacar mais possibilidades se tem de ganhar. É verdade que, ao contrário do que reza o ditado, nem sempre a sorte sorri aos audazes. Mas, indiscutivelmente, são eles que dignificam o espectáculo e levam público às bancadas. Por isso é que o Dragão enche e a Luz fica sempre a meio. Agora, não desfazendo na ideia de que este futebol do FC Porto, versão 2005/06 não tem nada que ver com o da época passada e está no bom caminho para satisfazer os adeptos e renovar títulos, a verdade é que há outros males, para além da falta de sorte, que justificam os dissabores. Em primeiro lugar, a gritante inépcia de avançados e médios na hora de chutar à baliza. Em Glasgow, a jogar já com dez e com 2-2 no marcador, Lucho González falhou dois remates frontais em que bastaria ter acertado com a baliza para ganhar o jogo; e em Braga, Diego fez o mesmo, ainda a primeira parte decorria. E estes são apenas dois exemplos entre muitos. Não é aceitável que jogadores de topo, que se supõe passarem a semana a treinar remates à baliza, cheguem aos jogos e pareçam principiantes, borrados de medo de marcar golo, e com deficiências técnicas do próprio remate que não se entendem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda fraqueza está atrás, na defesa. Primeiro no lado direito, onde está à vista que Sonkaya não irá melhorar aquilo que mostra, e aquilo que mostra é pouco. Depois, no centro da defesa, onde também não existe um único grande central, como o eram Ricardo Carvalho ou Jorge Andrade. E, se um só já é pouco quando se tem ambições europeias, nenhum é quase uma garantia de não se conseguir ir longe. Manifestamente, o FC Porto tem de ir às compras emDezembro, para o centro da defesa. E nem precisa de ir muito longe: o grande central dos próximos anos do futebol português joga a cem quilómetros de distância, na Académica de Coimbra, e chama-se José Castro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se conseguir começar a acertar na baliza e começar a inverter a falta de sorte que o parece perseguir, não tenho dúvida alguma de que este FC Porto, mesmo com dez baixas ocasionais ou dispensáveis conflitos disciplinares, chega e sobra para um ano de vitórias a nível interno. Não se trata de sobranceria, mas da mesma análise, necessariamente pessoal, que, no ano passado me levou a reconhecer ao longo de toda a época que o melhor futebol era o do Sporting. Este ano, parece-me que é o do Porto, mas com uma vantagem sobre o Sporting do ano passado e deste: é mais consistente, mais contínuo e mais forte. Mas se o FC Porto quiser passar ainda além da Taprobana, vai precisar de mais qualquer coisa, aquilo que a sua natural vocação de ataque contínuo faz disfarçar, internamente: uma defesa que dê confiança e permita que jogos da Liga dos Campeões em que o ataque consegue marcar dois golos fora terminem obrigatoriamente com uma vitória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 20.09.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112773475611255074?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112773475611255074'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112773475611255074'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/09/quando-sorte-no-ajuda-os-audazes.html' title='Quando a sorte não ajuda os audazes'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112687172948199657</id><published>2005-09-16T12:46:00.000Z</published><updated>2005-09-16T11:55:29.493Z</updated><title type='text'>Partido e Estado</title><content type='html'>O que está mal na nomeação de Guilherme d"Oliveira Martins para presidente do Tribunal de Contas não é, como toda a gente já sublinhou, a figura do próprio. Excelente seria se, emergindo da sociedade civil, onde sempre se destacou pela sua competência, seriedade, cultura e civismo, este ou qualquer outro governo o tivesse ido buscar para o Tribunal de Contas. Porém, onde o Governo o foi buscar foi à bancada parlamentar do seu partido, de que é vice-presidente, depois de ter sido ministro da Educação e das Finanças do anterior governo PS. Esta funcional diferença faz toda a diferença política: um homem do PS foi nomeado presidente de um órgão cuja principal função nos próximos anos vai ser a de vigiar a legalidade das contas públicas do Governo PS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À luz deste simples enunciado dos factos, só podemos ficar tranquilos porque ao Governo não assiste a faculdade de poder nomear os presidentes do Supremo Tribunal Administrativo, do Supremo Tribunal de Justiça ou do Tribunal Constitucional. Felizmente, não vivemos ainda na América de Bush, mas roça quase os limites da desonestidade intelectual pretender ver nesta nomeação de Oliveira Martins um acto corrente de gestão e uma garantia de acrescida independência do Tribunal de Contas. Não que ele não venha a ser, como se espera e deseja, um presidente independente de um órgão que deve ser ferozmente independente. Mas a questão não é de subjectividade, mas de objectividade: quebrou-se mais uma barreira na fronteira que devia separar o que é do Estado do que é do partido. Para já, e a apalpar terreno, quebrou-se a fronteira escolhendo alguém que, por si, não merece críticas; mas, uma vez aberta a porta e quebrado o principio da separação de águas, ninguém sabe o que se poderá seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Simultaneamente, ficámos a saber que também António Vitorino foi escolhido para representar interesses do Estado na Galp e o escritório de advogados de que faz parte escolhido para ser consultor permanente da Galp. De novo, não é a competência do escolhido que está em causa, mas sim a compatibilidade dessas funções com as de deputado da nação e, acima de tudo, os efeitos de mais um exemplo da nefasta promiscuidade de interesses cruzados dos advogados-políticos. Seria altamente esclarecedor para a opinião pública termos acesso à lista dos escritórios de advogados que, neste e nos mais recentes governos, beneficiaram de contratos de consultadoria, avenças, ou patrocínio de causas, de ministérios, empresas públicas e governos regionais. Lá encontraríamos desde o maoísta Garcia Pereira ao serviço do Governo de Alberto João Jardim, até aos mais prestigiados escritórios de advocacia de Lisboa - em alguns casos, cuidadosamente organizados de forma a abrangerem todo o leque partidário do poder, de modo a estarem sempre em condições de oferecerem os seus serviços a qualquer governo, qualquer empresa pública ou qualquer autarquia. Eles representam uma despesa pública anual que alguém já estimou num mínimo de 25 milhões de euros. Mas representam muito mais e muito mais caro do que isso: tráfico de influências nos grandes contratos de fornecimento ou obras públicas, seja para construir uma auto-estrada, comprar material militar ou adquirir novos aviões para a TAP; doutos "pareceres" que legitimam, a favor das autarquias e dos interesses imobiliários, aberrações urbanísticas em tudo contrárias à lei; consultadoria em negócios celebrados por empresas públicas, bastas vezes ruinosos e muitas vezes sem que se chegue a entender o interesse da consultadoria. Depois, os senhores políticos-advogados, saem do governo ou dos centros de poder onde estavam e vão parar aos escritórios de advogados com quem negociaram em nome do Estado, e outros senhores advogados saem do escritório e vão parar ao governo ou às administrações das empresas públicas, e assim o circuito nunca se interrompe, a benefício de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É facto que não são muitos os casos, nem as pessoas envolvidas. São uns happy few, cujo número e importância será apenas uma rubrica despicienda nos males de que o país sofre. Portugal não se torna ingovernável porque o Governo Sócrates descobriu em Fernando Gomes um especialista em petróleos africanos ou porque reconverteu Armando Vara de director da segurança da Caixa Geral de Depósitos em administrador responsável pelo crédito às empresas. Mas é o que essas nomeações significam, o sinal que elas enviam de partidarização completa dos interesses do Estado, que são claramente entendidas por todos como o estabelecimento das regras do jogo. E o jogo é sujo e as regras são inaceitáveis numa democracia limpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha maneira de ver as coisas, é justamente nestas "pequenas" questões que a influência do Presidente da República deveria ser determinante, estabelecendo logo à partida, regras de jogo aceitáveis com o primeiro-ministro em funções. Mas - e a seu tempo voltarei a este assunto - foi aqui, exactamente, na capacidade de estabelecer um clima saudável na vida pública e política do país, que Jorge Sampaio falhou rotundamente, assistindo e, de facto, presidindo a dez anos de degradação sistemática da vida democrática em Portugal. E é por isso também que, num momento em que todos os portugueses compreenderam já que o sequestro da democracia levado a cabo pelos partidos - no governo, nas autarquias, nos organismos públicos - é, talvez, o mal principal do país, se torna desmoralizante que estejamos a avançar para umas eleições presidenciais totalmente abafadas pelos directórios partidários. Foi isso, por exemplo, que Mário Soares não compreendeu e daí que, em lugar de suscitar um sobressalto de esperança, a sua candidatura e as circunstâncias em que foi lançada, tenham, sim, dado origem a um agravar do descrédito e da esperança. Pena que tenha confundido cortesões com conselheiros e que agora se veja na pior das situações: a caminho de um combate sem sentido nem grandeza e de uma derrota sem remissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público”, - 16.09.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112687172948199657?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112687172948199657'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112687172948199657'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/09/partido-e-estado.html' title='Partido e Estado'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112680144407810403</id><published>2005-09-13T23:06:00.000Z</published><updated>2005-09-15T16:27:20.660Z</updated><title type='text'>Os que fazem a diferença</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Ricardo Quaresma, com dois rasgos só ao alcance dos bem-aventurados, ofereceu quatro pontos em bandeja de prata ao seu treinador, tão relutante em render-se à eficácia do seu génio.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1- Depois de assistir àquele fabuloso golo com que Ricardo Quaresma salvou o FC Porto de perder dois pontos em casa contra o Rio Ave, o comentador da TVI saiu-se com a extraordinária sentença de que Quaresma ainda não tinha qualidade para ser titular de início, mas que era bom para jogar os últimos dez ou quinze minutos de cada jogo. E não sei que mais me espantou: se aquela obra de arte arrancada pelo moço cigano, se o comentador que acha que o perfume de um génio não se pode prolongar durante mais do que um quarto de hora num jogo de futebol, devendo, no resto do tempo, ceder o lugar a alguém que dê menos nas vistas, para o bem e para o mal. É, infelizmente para o espectáculo, uma maneira de pensar muito enraizada em certos espíritos, particularmente o dos treinadores: perdoa-se muito menos coisas a quem é capaz de um golpe de génio do que a quem apenas é capaz de passar pelo jogo esforçadamente. Para muitos parece que o génio é inimigo da eficácia. Porém, desmentindo essas teorias e jogando não mais do que os dez minutos finais de cada um dos jogos, Ricardo Quaresma, com dois rasgos só ao alcance dos bem-aventurados, ofereceu quatro pontos em bandeja de prata ao seu treinador, tão relutante em render-se à eficácia do seu génio. Na Figueira da Foz, com um toque de calcanhar, acompanhado de uma fabulosa rotação de corpo, isolou-se sobre a esquerda e daí arrancou um centro mortífero que terminaria no golo decisivo da vitória do FC Porto; contra o Rio Ave e um aparentemente inultrapassável guarda-redes, entrou na área pela direita e, com um defesa pela frente, aplicou o seu célebre remate em arco, de «trivela», que deixou o defesa e o guarda-redes pregados ao chão que pisavam e, com isso, abriu o caminho de outra vitória, mesmo ao cair do pano. Quem me segue, sabe que aqui defendi, por duas vezes, em semanas recentes e, antes disso, na época passada, a tese de que deixar de fora jogadores como o Ricardo Quaresma não é apenas empobrecer o espectáculo, mas também diminuir as hipóteses de vitória. Mas, aí está: se o Quaresma está em dia não, se os números de prestidigitação não lhe saem como ele queria, cai-lhe tudo em cima, porque parece que se a normalidade tem sempre desculpa e nunca choca, já o génio é exigível todos os dias. Pois eu tenho a tese contrária: há grandes jogadores que valem pela sua regularidade e há grandes jogadores, que vivem da inspiração repentina e que, necessariamente, são irregulares. Quem quer que viva da inspiração sabe que esta é um dom com regras próprias e alturas imprevisíveis. Agora, o que de todo me parece insustentável é que se exija de um génio que faça em dez minutos o que dos outros não se espera nem se exige em noventa. Foi exactamente por perceber isso e teimar em manter Liedson na equipe, apesar da sua aparente «ausência» dos jogos, que José Peseiro colheu os frutos de duas vitórias decisivas, contra Marítimo e Benfica, ambas pela fórmula «Liedson resolve». Porque só um predestinado para o golo, como aquele franzino brasileiro, poderia ter ganho nas alturas a Luisão, adivinhando o ponto exacto onde a bola iria cair, saltando nas costas do gigante, rodando a cabeça para atacar a bola de testa num golpe perfeito, e enfiá-la, sem defesa, no canto superior direito de Moreira. E é por isso que há jogadores como Liedson e Quaresma, ou o saudoso Jardel, que marcam golos e resolvem jogos, e outros, como Nuno Gomes, Hélder Postiga ou Sokota, que é só estilo e promessas por cumprir. Eu prefiro os que marcam e resolvem jogos, mas há quem tenha opinião contrária...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2- Benni McCarthy é também um dos que fazem a diferença. É verdade que, como diz Co Adriaanse e reza a estatística, o FC Porto ganhou os três primeiros jogos do campeonato e marcou seis golos sem oMcCarthy. Só que três dos seis golos foram marcados por defesas e os restantes por suplentes. Adriaanse pode continuar a tentar marcar golos com Postiga e Sokota (e preterir estranhamente Hugo Almeida): não o conseguirá. Não discuto o código de disciplina interna do treinador portista, nem a necessidade, que era palpável, de introduzir disciplina naquele grupo profissional (é fantástica a transformação que ele conseguiu em campo: a equipe praticamente não comete faltas, não discute com o árbitro, não vê cartões). Mas sempre achei que castigar os jogadores faltosos ou indisciplinados retirando-os da equipe é um castigo maior para a equipe do que para o jogador. No sábado passado, contra o Rio Ave, a falta que McCarthy fez à equipe foi sentida até ao minuto 87 e só não foi irremediável, porque o também subaproveitado Quaresma fez questão de lembrar a Adriaanse que os grandes jogadores são normalmente decisivos. E hoje à noite, em Glasgow, vai ser necessário que outros tenham a inspiração suficiente para disfarçar a falta que um verdadeiro «matador» faz no centro do ataque portista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3- Ronald Koeman já está a ferver em lume brando: se quarta-feira, começar mal a caminhada na Champions, contra o Lille, os lenços brancos e os «papagaios a voar» desabarão fatalmente sobre a sua cabeça. Todavia, aquilo que lhe criticam não faz grande sentido. Dizem que tem a mesma ou melhor equipe que no ano passado e os resultados são piores. Mas, não só ainda a procissão vai no adro, como também a equipe recebida de Trapattoni nunca, ao que conste, passou por boa, e só a sorte, o haraquiri dos adversários e a associação com Valentim Loureiro na Liga permitiram arrastar – é o termo – até ao sofrido título de campeão. A equipa é, de facto, tão fraca, que, apesar de ter recebido os tão anunciados reforços na véspera do derby com o Sporting, Koeman nem hesitou em lançá-los na batalha: e, se o não tivesse feito, teria sido crucificado – em especial por uma imprensa que relata os treinos do Benfica como se fossem jogos da Champions e desde logo apresentou Micolli como um avançado-maravilha que iria pôr Alvalade a tremer de medo. Também criticam a Koeman ter mudado o esquema com que Camacho e Trapattoni enfrentaram a triste realidade que tinham disponível por um mais ousado e ofensivo 3x4x3. Mas esquecem-se que o sistema de jogo anterior não produziu mais do que duas ou três exibições em cheio em duas épocas e gerou inúmeras sessões de lenços brancos e espectáculos para bancadas semi-vazias, ao contrário do que anunciava a publicidade benfiquista. É verdade que Koeman também cometeu o erro de ter apostado para Alvalade no mais que sabidamente ineficaz Carlitos, mas não é ele o culpado de ter apostado na contratação de Carlitos como jogador-sensação. O que falta ao Benfica, gritantemente, é aquilo que abunda no Sporting e no FC Porto: bons jogadores. Extraordinário não é que o Benfica tenha perdido em Alvalade: extraordinário é que não tivesse perdido. Mas dêem a Koeman um João Moutinho, um Liedson, um Douala, ou um Quaresma, um Jorginho ou um McCarthy, e, então sim, exijam-lhe resultados e espectáculo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 13.09.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112680144407810403?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112680144407810403'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112680144407810403'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/09/os-que-fazem-diferena.html' title='Os que fazem a diferença'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112626401194596794</id><published>2005-09-09T10:58:00.000Z</published><updated>2005-09-09T11:07:49.593Z</updated><title type='text'>Nunca, como agora</title><content type='html'>Os autarcas algarvios reuniram-se e decidiram exigir ao Governo que lhes resolva, "em termos definitivos", o problema da falta de água. Querem a água do Alqueva, a de Santa Clara ou de Odeceixe, a água do mar dessalinizada, qualquer coisa. Ou então virão lá de baixo para se manifestarem à porta de S. Bento. Pelas mesmas razões, o país inteiro poderia fazer o mesmo: os agricultores que restam sem se terem ainda vendido às celuloses e que têm o gado a morrer à fome e à sede e as culturas de Outono condenadas, as populações do interior que, mesmo sem o "desenvolvimento" do Algarve, já não têm água nas torneiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que, ao mesmo tempo que se queixam da seca, os autarcas algarvios preparam-se para licenciar a construção de mais uns 30 campos de golfe, cada um dos quais consome água por 8000 pessoas, e projectam a aprovação de mais uns 200.000 fogos para o turismo. Está bem de ver que nunca haverá água que lhes chegue para tamanhas ambições de "desenvolvimento". Nem água, nem estradas, nem hospitais, nem infra-estruturas funcionais, nem sequer praias onde possa caber todo o "turismo de qualidade" que prometem aqueles senhores de bigode que enxameiam os cartazes de propaganda para as autárquicas dos milhares de rotundas algarvias. Hoje, exigem dos governos água e socorro para segurar as arribas em vias de desabar pelo excesso de construção, amanhã vão exigir mais areia e mais mar. Já esgotei com eles o meu vocabulário de adjectivos, a minha capacidade de indignação, o que me restava de memórias de um Algarve outrora deslumbrante, onde tudo poderia ter sido feito com dimensão, gosto e dignidade, erguendo ali uma indústria turística que teria sido muito mais rentável e com muito maior horizonte do que esta, cujo único futuro é a fuga em frente. Só espero que, de entre as suas várias promessas eleitorais, e deixando passar a época de todos os terrores que é a das eleições autárquicas, José Sócrates se lembre de que prometeu pôr termo ao regime predador que faz depender o volume de receitas autárquicas da quantidade de construção autorizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolhi o exemplo do Algarve para iniciar este texto apenas porque ele é recente e é também recorrente. Se fosse preciso fazer um manual de como desenvolver erradamente uma região, cometendo sistematicamente todos e cada um dos disparates possíveis e ignorando sempre e sempre todos os avisos feitos, o Algarve seria um modelo de manual inultrapassável. Não porque os responsáveis pelo desastre algarvio sejam piores do que os outros, apenas porque tiveram mais possibilidades naturais para a asneira e, entusiasmadamente, não as desaproveitaram. Mas, soltem-se as poucas e frágeis amarras legais que ainda defendem o Alentejo, e o Alentejo todo - litoral e interior - seguirá o mesmo caminho, de Tróia a Sagres, do Alqueva à serra de S. Mamede. Porque é essa a nossa vocação natural e o nosso cluster económico: destruir o que temos de bom, sacrificar a sustentabilidade a longo prazo pelo lucro especulativo imediato. Por isso abandonámos a floresta endémica e a pastorícia e substituímo-la pelos eucaliptos e pinheiros, que servem para alimentar as celuloses e pegar fogo ao país; por isso, deixámos que Bruxelas comprasse com um só cheque a nossa agricultura para que possa continuar a subsidiar os agricultores franceses ou espanhóis, enquanto nós abandonamos o interior e construímos barragens para regar greens de golfe assistidos por cadies ucranianos; por isso, sacrificamos o património natural do litoral e das reservas, como a ria Formosa ou a ria de Alvor, para que uns quantos espertalhões, assistidos por advogados especializados em tráfico de influências políticas e mancomunados com autarcas incompetentes ou corruptos, façam grandes negócios imobiliários que o povo confunde alegremente com a chegada do "progresso".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este Verão passei uns dias no Norte, entre o horror dos incêndios e o espanto por constatar que, enquanto o fogo ameaçava uma aldeia, a aldeia vizinha continuava despreocupadamente a atirar foguetes para o ar, para celebrar sabe-se lá o quê. Estive suficientemente perto dos incêndios para me dar conta do estado de espírito reinante entre aqueles que viam as matas de eucaliptos e pinheiros pegarem fogo umas às outras, sucessivamente. Vi os bombeiros, aparentemente imunes à exaustão e ao medo, fazerem o seu trabalho, com determinação e calma; vi os autarcas locais, na primeira linha de combate aos fogos e, esses sim, admirei-os e respeitei-os; mas vi também o sentimento dominante das pessoas, que se traduzia em comentários do tipo "não há nada a fazer, vai arder tudo, o país inteiro". Tal como no Algarve, onde os comentários dos banhistas nas praias, olhando os prédios e as torres que avançam como incêndio incontrolável, também comentavam que "não há nada a fazer, vai tudo a eito!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa sensação de que já não há nada a fazer por este país, eu sei situá-la exactamente no tempo recente: começou num dia de Julho, quando o ministro das Finanças, Campos e Cunha, foi obrigado a demitir-se e a fazer-se substituir por um yes man do PS por ter ousado manifestar publicamente as suas dúvidas sobre a utilidade para o país da Ota e do TGV, esquecendo a necessidade institucional de dar acolhimento à vontade das clientelas partidárias do mundo dos grandes negócios. E continuou, quando o novo ministro das Finanças inaugurou a sua entrada em funções, gastando quase meio milhão de contos de indemnizações para substituir parte da administração da Caixa-Geral de Depósitos por gente tão acreditada quanto o aparatchick Armando Vara. Aí, o que restava ainda de ilusões rendeu-se à evidência da fatalidade de um Estado dominado pelos interesses partidários e pelo rasteiro desígnio de acorrer aos seus e satisfazer os que financiam campanhas eleitorais. O descrédito final e a desesperança instalaram-se de vez, quando o país começou a arder e se tornou cruamente evidente que nada e ninguém estava preparado para tal, apesar dos milhões gastos, da experiência acumulada e dos estudos feitos e comissões nomeadas. E assim chegámos, num ápice, ao estado de desânimo e descrença actual. Nunca, em mais de vinte e cinco anos que ando a observar de perto a política nacional, vi um governo desbaratar tão rapidamente o seu capital de esperança; nunca vi uma tamanha sensação de impotência e inutilidade instalada nas expectativas de todos; mas faltava ainda realizar que o que nos propõem de esperança se resume no regresso ao passado simbolizado ou em Cavaco Silva ou em Mário Soares, para que, de forma atabalhoada e confusa, se comece a instalar a ideia de que não há saída sem mudança de regime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca estivemos tão em baixo, nunca estivemos tão descrentes. Olhamos de cima a baixo, do Presidente da República ao mais obscuro funcionário do Estado, e a sensação é de que estamos próximos do "salve-se quem puder". E, no meio de tanto motivo de tristeza, acho que é justo fazer uma homenagem a quem tem tentado remar contra a maré do "deixa andar": a Marques Mendes, cuja luta pela moralização da vida interna do PSD tem sido a única luz de lucidez, coragem e higiene democrática à vista. Infelizmente, em termos de resultados palpáveis e imediatos, ele vai perder e os trafulhas vão ganhar. Chamado a decidir, o povo vai querer Valentim, Fátima Felgueiras, Isaltino e Ferreira Torres. E se é isso que o povo quer e é isso que os políticos lhe dão, o problema não é a democracia. O problema são os portugueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público”, - 09.09.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112626401194596794?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112626401194596794'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112626401194596794'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/09/nunca-como-agora.html' title='Nunca, como agora'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112626497538249915</id><published>2005-09-06T23:09:00.000Z</published><updated>2005-09-09T11:22:55.393Z</updated><title type='text'>O "espírito Maniche"</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Sem nenhuma vantagem desportiva colhida dos imensos investimentos financeiros realizados em Portugal e com o espírito Maniche a ditar leis, durante muitos e muitos anos a simples ideia de voltar a contratar jogadores portugueses vai fazer arrepiar os dirigentes, os adeptos e a imprensa russa.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Tenho pena de o não ter escrito na altura, porque hoje teria acertado à vista de todos na previsão que, afinal, acabei por fazer apenas em círculo restrito: que o Maniche não tardaria muito a dizer que se queria ir embora do Dínamo de Moscovo. Bastou-me olhar para uma fotografia aqui publicada, do Maniche acabado de chegar a Moscovo, posando no meio da rua, com uns óculos escuros indescritíveis e uma atitude de vedeta acabada de chegar, sei lá, ao Festival de Cannes, para perceber tudo: ele não sabia ao que ia, não fazia a mais pequena ideia de onde tinha desembarcado, e estava ali numa atitude de «venha a mim o vosso reino, porque eu não vou de certeza incomodar-me a ir a ele». Só não tinha previsto, apesar de tudo, que bastasse um simples mês, o mês de Agosto em Moscovo, para Maniche concluir que não gosta do país, não gosta da cidade, não gosta do clube, não gosta do campeonato, não gosta do povo, não gosta da imprensa local, não gosta da vida e não gosta do clima (e ainda ele está longe de ter experimentado o célebre Inverno russo, que derrubou ilusões e importâncias bem maiores do que a sua...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Aquilo não é o que eu esperava», diz Maniche, como se a culpa fosse da Rússia ou de Moscovo por não serem aquilo que a sua santa ignorância desconhecia. O caso de Maniche, a leviandade das suas declarações e desabafos, é eloquente de um certo espírito de irresponsabilidade e vedetismo provinciano que é uma imagem de marca de tantos e tantos futebolistas portugueses que desesperam por um contrato milionário no estrangeiro, mas que não estão à altura do que a aventura implica. Gostam muito dos euros, dos dólares e dos rublos, que, escritos preto no branco num contrato, os deixam de cabeça à roda, mas depois realizam com espanto e desconforto que não lhes basta saber jogar futebol para se sentirem felizes no estrangeiro: falta-lhes os amigos, a língua que não entendem, a cultura e o estilo de vida que ignoram, a imprensa que não os bajula como estavam habituados, o Paulo China e o bacalhau com todos. Diz Maniche que «a família não gostou de Moscovo», que os russos acham que os futebolistas estrangeiros «só estão ali em busca de dinheiro» e que «o campeonato russo não condiz com o valor dos jogadores portugueses». Extraordinárias declarações! A família não gosta de Moscovo, mas de certeza que gosta do contrato que ele fez. Os estrangeiros são mal acusados de só estarem ali pelo dinheiro, mas, ouvindo o Maniche dizer que não gosta de nada, que outra razão terá ele para estar ali, que não o dinheiro? E os jogadores portugueses são bons de mais para o campeonato russo, mas, com onze jogadores do campeonato português colocados por Jorge Mendes no Dínamo de Moscovo, a verdade é que a equipa progride de derrota em derrota e vegeta algures pelo 10.º lugar da classificação!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maniche custou 3,6 milhões de contos ao Dínamo de Moscovo (mais do que o Robinho custou ao Real Madrid), passou um mês de verão em Moscovo, nada tendo até agora acrescentado à equipa, segundo rezam as crónicas, e já se acha com o direito de dizer que é tudo horrível, o campeonato não é digno do seu valor e, embora tenha cinco anos de contrato, quer ir já embora e espera que, entre o clube e o seu empresário, alguém lhe resolva este equívoco de preferência, claro, sem que o seu sumptuoso vencimento seja beliscado. Pergunto: o que sentirão os jogadores e os adeptos do clube que acabou de contratar um jogador com este espírito profissional?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A venda de Maniche ao Dínamo foi talvez o melhor negócio que a Direcção de Pinto da Costa fez. Três anos antes, o FC Porto tinha-o ido buscar ao anonimato do Benfica B, onde ele vegetava de castigo, e, em dois anos, o clube fez dele bicampeão nacional, vencedor da Taça UEFA, campeão europeu e campeão do mundo, titular indiscutível da Selecção Nacional. Passados esses dois anos e tendo visto sair da equipa campeã europeia Deco, Ricardo Carvalho e Paulo Ferreira, Maniche achou que também ele tinha o direito natural de sair, bastando que o quisesse. O seu contrato era por cinco anos mas aparentemente ele achava que lhe bastavam dois anos de trabalho para conquistar o direito de sair quando quisesse. É o mesmo princípio advogado pelo empresário de McCarthy e tantos outros empresários e jogadores: se eles «deram muito ao clube», isto é, se jogaram o que sabiam para justificar o ordenado de luxo que nunca lhes faltou, têm o direito de mudar de ares, se e quando lhes apetecer, independentemente do contrato que, em hora de maior humildade, assinaram. Pinto da Costa recusou a saída e Maniche não se coibiu de dizer que ficava contrariado e contrariado ficou mais um ano. E, quando essa contrariedade ostensiva do jogador que acha que «pode jogar em qualquer campeonato» ameaçou tornar-se ingerível, Pinto da Costa despachou o problema para o Dínamo de Moscovo, a troco de 16 milhões de euros, assim como recentemente Luís Filipe Vieira despachou o problema de arrogância do Miguel a troco de oito milhões, para o Valência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está bom de ver que nem o Dínamo nem o Valência fizeram bom negócio: jogadores que não demonstram nenhuma gratidão, nenhum amor ao clube que lhes paga e que os fez crescer, nenhum respeito pelos contratos que assinam, são jogadores que, mais tarde ou mais cedo, vão criar problemas. Ao Maniche bastou-lhe um mês, ao Miguel é só esperar para ver. Infelizmente, este espírito tornou-se quase banal e, quando se trata de jogadores portugueses no estrangeiro, goza até da infinita compreensão da nossa imprensa. O melhor exemplo é o emblema nacional chamado Luís Figo, que começou a sua carreira internacional assinando dois contratos por dois clubes diferentes e que, depois, capitão de equipa do Barcelona, apareceu no mesmo dia, de manhã no Sport a beijar a camisola do Barça e à noite, na Marca, de camisola do Real ao peito. Mas ainda hoje, a nossa imprensa desportiva, continua a passar a mensagem de que foi o Barcelona e a Catalunha que se portaram mal para com Figo. Está fácil de ver que a invasão portuguesa no futebol russo vai acabar mal e vai deixar as portas de lá definitivamente encerradas para qualquer jogador português. Sem nenhuma vantagem desportiva colhida dos imensos investimentos financeiros realizados em Portugal e com o espírito Maniche a ditar leis, durante muitos e muitos anos a simples ideia de voltar a contratar jogadores portugueses vai fazer arrepiar os dirigentes, os adeptos e a imprensa russa. Em benefício próprio, os nossos empresários deveriam deixar de pensar apenas nos lucros a curto prazo e ter mais cuidado com os jogadores que colocam lá fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 06.09.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112626497538249915?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112626497538249915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112626497538249915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/09/o-esprito-maniche.html' title='O &quot;espírito Maniche&quot;'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112592017276568548</id><published>2005-09-02T23:32:00.000Z</published><updated>2005-09-05T11:36:12.766Z</updated><title type='text'>Não havia necessidade</title><content type='html'>Não sei que "amplos sectores da sociedade" terão convencido Mário Soares a esquecer o "bom senso" de que ele próprio falava há meses e a lançar-se numa aventura que, tudo o indica, terminará de forma inglória e porá termo, enfim e da forma mais injusta, a um percurso político como não há nenhum outro em Portugal. Que eu tivesse dado por isso, apenas José Sócrates, os caciques das federações socialistas e alguns cortesãos nostálgicos dos dez anos de presidência de Mário Soares se mostraram entusiasmados com tão absurdo come back. Os restantes, incluindo muitos e muitos que estiveram com ele no passado, ficaram-se, siderados por aquilo que Manuel Alegre insinuou ser apenas um capricho monárquico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apresentada como um acto de optimismo contra o pessimismo e a descrença reinantes, a candidatura de Soares - a acrescentar à de Cavaco Silva - surge antes, aos olhos de muitos, como um factor mais de desesperança. Vinte anos passados, com o país submerso numa crise do Estado, das instituições e da própria nação, temos como candidatos únicos a chefiar o Estado o homem que teve dez anos e todos os meios possíveis para reformar o país e, como hoje salta gritantemente à vista, não reformou coisa alguma, e um ex-Presidente que confunde o seu maior prazer com os desejos e necessidades da nação e que acha que ter desfilado contra a guerra do Iraque na Avenida da Liberdade e ter sido recebido com gritos de "Soares é fixe" num acampamento juvenil na Figueira da Foz são suficientes garantias de sucesso para os males de que o país padece.Vi muitas vezes discursar Mário Soares - em Portugal ou no estrangeiro, em discursos de fundo ou de ocasião, em palcos de comícios ou em sessões de Estado. Por vezes, viu-o mesmo forçar os acontecimentos, mudar o rumo da história, mobilizar multidões pela força da palavra e das convicções que deles transpareciam. Nunca, nunca, lhe escutei um discurso tão pobre de ideias, tão vazio de convicção e de razão, tão inútil, tão aborrecido como o de anteontem no Altis. Para uma plateia de pré-convencidos, cuja "juventude" média deveria rondar os 60 anos, Soares produziu um longo e fastidioso relambório de lugares-comuns digno de um director regional do Governo, a que acrescentou uma penosa descrição das coisas que andou a fazer nos últimos anos, destinada a fazer prova de vida. Se se esperava que, mais uma vez, ele fosse capaz de surpreender, de entusiasmar, de mobilizar, o resultado não poderia ser mais oposto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queríamos saber porquê e para quê, se a pátria estava em perigo, se só ele, com o seu lendário instinto político, tinha visto o que mais ninguém enxergara, enfim, que razão profundamente generosa, que chamamento irrecusável, o tinham trazido ali. Mas, por mim, confesso que não descortinei nada, apenas uma indizível tristeza de quem assiste à reposição de uma peça de êxito com os actores 20 anos mais velhos. Mas também já não havia entendido o episódio da ida de Soares para o Parlamento Europeu, talvez porque nunca tenha conseguido entender deveras este apego ao poder dos homens políticos e a que, em tempos, acreditei que Soares fosse genuinamente imune.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este funesto mês de Agosto, agora terminado e que deitou por terra, uma a uma, todas as ilusões e esperanças que os primeiros tempos do Governo de Sócrates tinham proporcionado, revelou, de forma exuberante, que o principal problema do país hoje é o problema dos partidos políticos. Da sua falta de credibilidade, de seriedade, de sentido de Estado e de serviço público. Como a democracia é um sistema que assenta no papel decisivo dos partidos políticos, estamos a um passo de confundir a crise do Estado e das instituições com uma crise de regime. Se fosse há 30 anos, tínhamos a estrada escancarada para uma ditadura, que grande parte do país receberia de braços abertos. Felizmente, os tempos e as circunstâncias são outros, mas que ninguém julgue que este contínuo deslizar para a podridão democrática poderá ser mantido indefinidamente como situação normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, as presidenciais, justamente, podem ser um momento único de reflexão, de regeneração da política, através da emergência de candidatos que representem a parte saudável e não contaminada da nação: a alternativa democrática a uma ditadura pessoal iluminada.Mas não: o jogo já está feito e o PS e o PSD vão escolher entre si, de facto, quem será o próximo Presidente. Podem-lhe chamar sufrágio universal, mas, quando a escolha se resume a dois candidatos apresentados pelo núcleo duro proprietário da democracia, só resta a alternativa da abstenção ou do voto em branco. Portugal precisava e desejava outras e diferentes alternativas. Não as terá. Não poderá jamais tê-las - na Presidência da República, no Parlamento, nas autarquias - enquanto o sistema estiver assim montado. A democracia confundiu-se com o Estado e este com os partidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se algum serviço verdadeiramente relevante Mário Soares poderia ainda prestar a Portugal, era justamente o de denunciar este abafamento da vida democrática, liderar o combate pela reflexão e regeneração do sistema, ajudar a emergir uma nova geração política, com novos valores e novos métodos. Mas pelo contrário: aceitando ser candidato apenas porque teve o apoio do estado-maior do PS (e só depois de o garantir), Soares fica automaticamente refém do apoio e emblema do sistema. Por mais que agora e depois trate de repetir que não é candidato do Partido Socialista, é exactamente isso que ele é. É porque Sócrates resolveu apoiá-lo a ele e não a Alegre que ele é candidato e Alegre deixou de ser. Porque não há vida nem há via para Belém sem ser à boleia de um dos dois partidos donos do regime.Por isso, a candidatura de Soares não vem regenerar nem renovar nada. Pelo contrário, vem continuar o que está e vem dizer às pessoas que não há saída nos anos mais próximos. Não havia necessidade de voltar para nos dizer isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público”,  - 02.09.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112592017276568548?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112592017276568548'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112592017276568548'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/09/no-havia-necessidade.html' title='Não havia necessidade'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112591989312725753</id><published>2005-08-30T23:21:00.000Z</published><updated>2005-09-05T11:36:56.993Z</updated><title type='text'>Clubes e selecção</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;strong&gt;O departamento médico do FC Porto — com ou sem razão — entendeu que Nuno Valente, por causa da lesão contraída o ano passado ao serviço da Selecção, não estava em condições de aguentar uma época inteira de sobrecarga de esforço, entre o clube e a Selecção. Ou seja, o clube poderia ver-se confrontado com nova situação igual à anterior e por cujos prejuízos o clube responderia na totalidade e a Federação com nada. Sendo assim, o que deveria fazer a SAD do clube?&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VEJA-SE o caso de Benni McCarthy, por cujos serviços o FC Porto tanto lutou no passado e continua a lutar no presente, tendo de arrostar todos os meses com manobras destinadas a desviá-lo do clube, a preço de ocasião: dia 15 de Agosto parte ao serviço da Selecção da África do Sul, pela qual disputa um jogo particular a 17, regressando ao Porto a 18, mas lesionado; em tratamento médico, falha a primeira jornada do campeonato a 21 e a segunda a 26; é dado como recuperado a 28 e volta a partir para o serviço da Selecção sul-africana, pela qual disputará dois jogos, regressando, em princípio ao Porto a 7 de Setembro. Ou seja, e caso não volte outra vez lesionado, McCarthy terá estado três semanas indisponível para o FC Porto — ou ao serviço da sua selecção ou lesionado ao serviço dela. Durante quase um mês o FC Porto pagou-lhe o ordenado, recuperou-o das lesões e treinou-o para o serviço de outrem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O exemplo de McCarthy vem a propósito do caso recente de Nuno Valente, a propósito do qual tantos comentadores bateram forte e feio na Direcção portista — sem que, contudo, alguém tenha antes curado de ouvir as razões desta. Pois, eu vou também dizer o que penso, agora que o caso está encerrado com a partida de Nuno Valente para o Everton. E aviso desde já que aquilo que vou dizer é muito politicamente incorrecto.Antes de mais, quero explicar que não sofro dos afrontamentos patrioteiros desencadeados pela Selecção Nacional. Não faço parte do número dos inúmeros portugueses que, a toque de caixa do seleccionador, andaram semanas a exibir patriotismo, com bandeirinhas às janelas, nos carros ou na roupa. O exibicionismo patrioteiro, seja português, francês ou americano, sempre me irritou, acredito que o orgulho e a devoção à Pátria se devem exprimir de outras formas e com outros pretextos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em segundo lugar, devo igualmente confessar que, desde que comecei a perceber a natureza, os métodos e a personalidade do seleccionador, a sua jamais perdoável atitude de déspota para com Vítor Baía (até hoje, não teve sequer a coragem de se explicar), o destino da Selecção Nacional de Scolari deixou de me interessar por aí além. Entendo que ela é muito mais a Selecção de Scolari do que a Selecção de Portugal — e basta esta última convocatória para o confirmar (dois guarda-redes, ambos suplentes nas respectivas equipas; jogadores em clara baixa de forma, como Petit, Simão, Figo, Postiga; jogadores que ele não faz ideia como é que estejam, casos de Costinha ou Nuno Valente). Enfim, a tradicional escolha pela lei do menor esforço e pelos «direitos adquiridos».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em terceiro lugar, esta Selecção de Scolari joga um futebol, a meu ver, mau e soporífero: na Superliga não ficaria nos lugares europeus. Reconheço, contudo, que o seleccionador é das pessoas com mais sorte que eu já vi, um excelente relações públicas quando lhe convém, e um comendador de mérito da República, que o fez Jorge Sampaio, porque cometeu a proeza de ter ficado em segundo lugar no Europeu, depois de duas vitórias, um empate e duas derrotas— o que a mim me pareceu fraca prestação para tanto investimento nacional e tão propícias condições, mas já se sabe que Jorge Sampaio se comove com pouco e condecora a torto e a direito tudo o que lhe cheira a artista popular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este intróito para dizer, portanto, que também do ponto de vista da Direcção do FC Porto, ou do sentimento de um portista, esta Selecção Nacional de um seleccionador que tudo tem feito para enfrentar, desafiar e menosprezar o FC Porto, é uma selecção que, a nós, nos inspira muito pouco instinto patriótico.Escrevendo aqui, na sexta-feira passada, sobre o caso Nuno Valente, António de Sousa concluía que «o FC Porto perde em toda a linha: desperdiça um jogador de qualidade, vê a sua posição criticada violentamente e confronta-se com nova provocação do seleccionador nacional». Ora, salvo o devido respeito, eu discordo em toda a linha: o «jogador de qualidade» está em fim de carreira, vem de uma grave lesão e, segundo o departamento médico portista, não aguentaria a acumulação de jogos entre o clube e a Selecção. É duvidoso que conquistasse o lugar a Leandro e é certo que, neste momento, não o conquistaria a César Peixoto. Enfim, não foi propriamente desperdiçado, mas sim vendido por dois milhões de euros a um clube onde ele poderá mostrar o seu valor e reservar lugar cativo na equipa de Scolari. As «violentas críticas» são coisa que, de tão repetidas, com um pretexto ou outro, já não aquecem nem arrefecem qualquer portista». E, quanto a ter-se posto a jeito para «nova provocação» do seleccionador, acho extraordinário que se critique, não o provocador, mas sim o provocado. Ou seja, reconhecendo que Scolari tem como divertimento habitual «provocar» o FC Porto, o articulista acha que o que o FC Porto deve fazer é não dar pretexto algum para «novas provocações». O homem bate e a gente devia-se encolher. Talvez por patriotismo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caso Nuno Valente, se visto com equidistância das duas posições que estiveram em confronto, é um caso difícil de resolver porque ambas as partes têm razão. E é isso que o torna um caso digno de meditação séria e não de fáceis tiradas demagógicas. No lugar do Nuno Valente, eu teria provavelmente a mesma posição que ele, porque a qualquer atleta é legítimo e só lhe fica bem querer representar o seu país. Mas, no lugar da Direcção do FC Porto eu teria provavelmente também a mesma posição que eles tiveram.Num tempo em que todos vivem a apelar para o espírito profissional e empresarial das SAD do futebol, é impossível não reconhecer as razões atendíveis da Direcção portista, neste caso. Para aqueles que, como eu, defendem que os clubes devem ser auto-suficientes e auto-sustentáveis, sem viverem eternamente do favor político, do negócio com a autarquia ou do perdão dos impostos, é obrigatório exigir, por igual, que os clubes interiorizem o dever de prestar contas aos sócios, aos titulares de lugares cativos, aos patrocinadores, a quem os sustenta, da forma como geram o seu património. Um clube que não viva de favores públicos também não se pode portar como benemérito público. E é isso que alguns clubes são hoje em relação às Selecções Nacionais, em tais termos que eu acho que os clubes portugueses deviam ponderar seriamente se, por exemplo, compensa ter ao seu serviço jogadores que são convocados habituais para selecções estrangeiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nuno Valente lesionou-se o ano passado ao serviço da Selecção portuguesa. Esteve sete meses afastado dos relvados, regressou a meio-gás e quando já a época estava resolvida. Durante todo esse tempo foi o FC Porto que lhe pagou o ordenado e a Segurança Social, tendo ainda tido necessidade de contratar para a sua vaga um outro jogador —Leandro — pelo qual pagou «passe» e ao qual teve e tem de pagar ordenado. Contas feitas, é provável que a sua lesão ao serviço da Selecção tenha custado ao clube mais do que aquilo por que ele foi agora vendido ao Everton. Pergunto qual é o outro ramo de actividade ou negócio em que uma empresa privada tenha de disponibilizar os seus efectivos ao serviço do Estado, continuando a suportar todos os encargos, como se o trabalhador estivesse ao seu serviço?Ora, fazendo fé naquilo que constou, parece que o departamento médico do FC Porto — com ou sem razão — entendeu que Nuno Valente, por causa da lesão contraída o ano passado ao serviço da Selecção, não estava em condições de aguentar uma época inteira de sobrecarga de esforço, entre o clube e a Selecção. Ou seja, o clube poderia ver-se confrontado com nova situação igual à anterior e por cujos prejuízos o clube responderia na totalidade e a Federação com nada. Sendo assim, o que deveria fazer a SAD do clube? Negociar com a Federação, disseram alguns. Talvez, mas negociar como e com quem, se, indiferente a tudo, Scolari se limitou a aproveitar para «nova provocação», convocando o jogador, sem falar com a Direcção, o departamento médico ou o treinador do FC Porto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É fácil falar de «deveres patrióticos». Sobretudo, dos deveres dos outros. Mais difícil é reconhecer que as relações entre clubes e Selecções, aqui e lá fora, têm de ser objecto de reflexão e de revisão. Sob pena de os grandes clubes não poderem sustentar mais os grandes jogadores, face à sobrecarga de jogos oficiais das Selecções (agora até inventaram mais a Taça das Confederações) e dos inúmeros jogos particulares que se arranjam, em muitos casos apenas para financiar o nível de vida luxuoso de dirigentes federativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 30.08.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112591989312725753?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112591989312725753'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112591989312725753'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/08/clubes-e-seleco.html' title='Clubes e selecção'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112263775525370815</id><published>2005-07-29T11:43:00.000Z</published><updated>2005-07-29T11:49:15.266Z</updated><title type='text'>Um aeroporto para Coimbra</title><content type='html'>Quando pensa em Lisboa, Vital Moreira vê vermelho. E a tal ponto fica cego, que - ele que passa a vida a criticar o que considera ser o esbanjamento de dinheiros públicos em Lisboa - é capaz de defender a construção de um novo, desnecessário e extravagantemente caro aeroporto para Lisboa apenas porque descobriu que a grande maioria dos lisboetas não quer um novo aeroporto, mas sim o actual. E se os lisboetas são contra uma coisa, é certo que ela se transforma imediatamente, aos olhos de Vital Moreira, num imperativo nacional - seja o aeroporto da Ota, a regionalização ou os estádios desertos do interior construídos para o Euro-2004. O raciocínio é simples: o que é bom para Lisboa é mau para o país e vice-versa. Tamanho e tão provinciano conceito, como é óbvio, só pode conduzir a erros de julgamento primários.&lt;br /&gt;Em relação à Ota, o primeiro erro de Vital Moreira é julgar que o futuro aeroporto internacional de Lisboa é um aeroporto nacional, apenas porque fica 40 quilómetros mais perto de Coimbra do que o actual. Por mais que a peculiar concepção descentralizadora de Vital Moreira se consiga expandir, não há maneira de situar o futuro aeroporto de Lisboa equidistante entre Lisboa, Coimbra, Leiria, Vilar de Perdizes e S. Brás de Alportel. Pela simples razão de que, tirando alguns países do Terceiro Mundo, os aeroportos servem cidades e não países e são localizados em função da procura comercial, turística e profissional e não dos interesses da política de ordenamento do território de determinado país. Outras coisas sim, um aeroporto não. Onde a argumentação de Vital Moreira se torna verdadeiramente pungente é quando ele se dá ao trabalho de enumerar os que considera serem os pérfidos integrantes do "Sindicato de Lisboa", os defensores da Portela contra a Ota: "companhias de aviação e agentes turísticos, hoteleiros e taxistas, jet-set nacional e funcionários da UE no vaivém de Bruxelas, colunistas de imprensa e médicos de partida para o próximo congresso turístico nas Caraíbas". Excepção feita aos hoteleiros, que aqui aparecem metidos sem que se perceba porquê, e aos taxistas (um autêntico erro de "casting", visto que, para os taxistas, quanto mais longe for o aeroporto de Lisboa, melhor será o negócio), todas as outras categorias que ele arrola são parte da grande massa daqueles que têm todas as razões para não quererem o aeroporto fora da cidade: os residentes na zona da Grande Lisboa ou os que a ela se dirigem, que são 90 por cento dos utentes do actual ou futuro aeroporto.&lt;br /&gt;Apenas essa constatação deveria dar-lhe que pensar: se a grande maioria dos utilizadores do aeroporto de Lisboa estão satisfeitos com o actual e não querem outro, para quê fazer outro? Mas, não: perante a óbvia contradição, Vital Moreira esforça-se por defender a sua velha tese de que, contra os interesses do país, está sempre a minoria de privilegiados de Lisboa. Mas, pelo menos em relação a esta suspeitíssima história do aeroporto da Ota, está enganado. O interesse do país é que os contribuintes não sejam chamados a pagar um novo aeroporto para Lisboa, que Lisboa não quer e de que não precisa. E se alguma vez Vital Moreira frequentar o aeroporto da Portela a horas nocturnas ou madrugadoras, verá que não é o "jet-set nacional" que lá está, mas sim os que só têm capacidade financeira para viajar em voos charter ou os imigrantes africanos a despacharem ou receberem toneladas de família e de bagagens e que certamente não desejam pagar táxis da Ota até Lisboa ou arredores. O "jet-set" ou tem o motorista à espera ou tanto lhe faz pagar 5 como 50 euros de táxi.&lt;br /&gt;O mais da argumentação de Vital Moreira resulta apenas de ignorância ou de preconceito. O argumento de que a Portela estará saturada dentro de dez anos é um argumento falso e ofensivo. Ofensivo, porque equivale a dizer que os milhões que têm sido injectados na Portela e os que ainda vão ser é dinheiro deitado à rua. Falso, porque se funda em estudos que nunca ninguém viu e contraria tudo aquilo que todos vimos - que não há memória, nem durante o Euro-2004, de algum avião ter tido de esperar meia hora na pista para poder descolar ou ter de andar às voltas sobre Lisboa à espera de vez para aterrar, ao contrário do que sucede em todos os grandes aeroportos europeus, americanos ou asiáticos. Trata-se apenas de inventar uma necessidade para justificar uma oportunidade de negócio. E é estranho que Vital Moreira, que tanto se ofende com os investimentos do Estado em Lisboa (ao ponto de os quantificar, não per capita, mas demagogicamente em termos absolutos), fique tão contente perante tamanho exemplo de desperdício de dinheiros públicos ao serviço de interesses privados.&lt;br /&gt;Porque também o argumento de que a Ota será construída essencialmente com dinheiros privados é um argumento falacioso. Primeiro, porque, mesmo que isso seja verdade, restam todos os outros encargos a pagar pelo Estado: as expropriações de terrenos, as infra-estruturas, os acessos rodoviários e ferroviários e a inevitável derrapagem de custos de tudo o que for empreitada pública. Segundo, porque, sendo a exploração do aeroporto privada e não havendo alternativa nem concorrência, seguramente que todos os utilizadores sairão a perder, conforme tem sido norma em tudo o que era serviço público em regime de monopólio e que se tornou privado. É por isso - além dos custos acrescidos derivados da própria deslocação do aeroporto - que, como bem observa Vital Moreira, as companhias aéreas e os operadores turísticos são contra a Ota (e acaso deveriam ser a favor de uma coisa que só lhes vem dificultar a vida e de que eles, que são os principais envolvidos, não vêem qualquer necessidade ou interesse? Gostaria o professor Vital Moreira que a Universidade de Coimbra fosse mudada para Oliveira do Hospital?).&lt;br /&gt;Por mais argumentos que se inventem contra a manutenção da Portela, há um que ninguém consegue contrariar: Lisboa e os seus habitantes têm um interesse óbvio e evidente em continuar a ter um aeroporto na saída da cidade. Um interesse para as pessoas, para o turismo, para os negócios, para o trabalho. Parece ser isso o que verdadeiramente incomoda Vital Moreira. Ele acha que os de Lisboa têm de penar pelos "benefícios da capitalidade". E não basta as horas perdidas diariamente no trânsito e todos os outros inconvenientes de uma cidade grande e desordenada. É preciso também que o "jet-set nacional", os "colunistas de imprensa" (que não ele), os "funcionários da UE" (mas apenas os de Lisboa) e os "médicos de partida para congressos nas Caraíbas" (mas não os de Coimbra), se tiverem de apanhar um avião na Ota às 9 da manhã, tenham de sair de casa às 6, porque não sabem se não vão encontrar a saída de Lisboa engarrafada, a auto-estrada em obras ou um acidente no caminho que os deixe parados na estrada. Assim se fará justiça, descentralização e boa aplicação de dinheiros públicos. E, além do mais, é seguramente um investimento público rentável: basta que Lisboa saia a perder, que as companhias de aviação e os agentes turísticos vejam os seus custos acrescidos e que o "jet-set nacional" (aqui deveria ter escrito lisboeta, em vez de nacional...) seja incomodado, para concluir que, forçosamente, o país só pode sair a ganhar. Pelo menos os de Coimbra têm menos 40 quilómetros a percorrer até ao aeroporto, se, sei lá eu, forem funcionários da UE ou lhes apetecer ir de congresso até às Caraíbas. Eis a descentralização, tal como a visiona Vital Moreira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares, Jornal “O Público”, 29.07.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112263775525370815?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112263775525370815'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112263775525370815'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/07/um-aeroporto-para-coimbra.html' title='Um aeroporto para Coimbra'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112204430026396177</id><published>2005-07-22T14:53:00.000Z</published><updated>2005-07-22T14:58:20.276Z</updated><title type='text'>Um crime na Ota</title><content type='html'>Luís Campos e Cunha foi a primeira vítima a tombar em virtude desses crimes em preparação que se chamam aeroporto da Ota e TGV. Não se pode pedir a alguém que vem do mundo civil, sem nenhum passado político e com um currículo profissional e académico prestigiado que arrisque o seu nome e a sua credibilidade em defesa das políticas financeiras impopulares do Governo e que, depois, fique calado a ver os outros a anunciarem a festa e a deitarem os foguetes. Não se pode esperar que um ministro das Finanças dê a cara pela subida do IVA e do IRS, pelo aumento contínuo dos combustíveis e pelo congelamento de salários e reformas, que defenda em Bruxelas a seriedade da política de combate ao défice do Estado, e que, a seguir, assista em silêncio ao anúncio de uma desbragada política de despesas públicas à medida dos interesses dos caciques eleitorais do PS, da sua clientela e dos seus financiadores.&lt;br /&gt;O afastamento do ministro das Finanças e a sua substituição por um homem do aparelho socialista é mais do que um momento de descredibilização deste Governo, de qualquer Governo. É pior e mais fundo: é um momento de descrença, quase definitiva, na simples viabilidade deste país. É o momento em que nos foi dito, para quem ainda alimentasse ilusões, que não há políticas nacionais nem patrióticas, não há respeito do Estado pelos contribuintes e pelos portugueses que querem trabalhar, criar riqueza e viver fora da mama dos dinheiros públicos; há, simplesmente, um conúbio indecoroso entre os dependentes do partido e os dependentes do Estado. Quando oiço o actual ministro das Obras Públicas - um dos vencedores deste sujo episódio - abrir a boca e anunciar em tom displicente os milhões que se prepara para gastar, como se o dinheiro fosse dele, dá-me vontade de me transformar em "off-shore", de desaparecer no cadastro fiscal que eles querem agora tornar devassado, de mudar de país, de regras e de gente.&lt;br /&gt;Há anos que vimos assistindo, num crescendo de expectativas e de perplexidade, ao anunciar desses projectos megalómanos que são o TGV e o aeroporto da Ota. O mesmo país que, paulatinamente e desprezando os avisos avulsos de quem se informou, foi desmantelando as linhas férreas e o futuro do transporte ferroviário, os mesmos socialistas que, anos atrás, gastaram 120 milhões de contos no projecto falhado dos comboios pendulares, dão-nos agora como solução mágica um mapa de Portugal rasgado de TGV de norte a sul. Mas a prova de que ninguém estudou seriamente o assunto, de que ninguém sabe ao certo que necessidades serão respondidas pelo TGV, é o facto de que, a cada Governo, a cada ministro que muda, muda igualmente o mapa, o número de linhas e as explicações fornecidas. E, enquanto o único percurso que é economicamente incontestável - Lisboa-Porto - continua pendente de uma solução global, propõe-nos que concordemos com a urgência de ligar Aveiro a Salamanca ou Faro a Huelva por TGV (quantos passageiros diários haverá em média para irem de Faro a Huelva - três, cinco, sete mais o maquinista?).&lt;br /&gt;Quanto ao aeroporto da Ota, eufemisticamente baptizado de Novo Aeroporto Internacional de Lisboa, trata-se de um autêntico crime de delapidação de património público, um assalto e um insulto aos pagadores de impostos. Conforme já foi suficientemente explicado e suficientemente entendido por quem esteja de boa-fé, a Ota é inútil, desnecessário e prejudicial aos utentes do aeroporto de Lisboa. E, como o embuste já estava a ficar demasiadamente exposto e desmascarado, o Governo Sócrates tratou de o anunciar rapidamente e em definitivo, da forma lapidar explicada pelo ministro das Obras Públicas: está tomada a decisão política, agora vamos realizar os estudos.&lt;br /&gt;Mas tudo aquilo que importa saber já se sabe e resulta de simples senso comum:&lt;br /&gt;- basta olhar para o céu e comparar com outros aeroportos para perceber que a Portela não está saturada, nem se vê quando o venha a estar, tanto mais que o futuro passa não por mais aviões, mas por maiores aviões;&lt;br /&gt;- em complemento à Portela, existe o Montijo e, ao lado dela, existe uma outra pista, já construída, perfeitamente operacional e que é uma extensão natural das pistas da Portela, que é o aeroporto militar de Alverca - para onde podem ser desviadas todas as "low cost", que não querem pagar as taxas da Portela e menos ainda quererão pagar as da Ota;&lt;br /&gt;- porque a Portela não está saturada, aí têm sido gastos rios de dinheiro nos últimos anos e, mesmo agora, anuncia-se, com o maior dos desplantes, que serão investidos mais meio bilião de euros, a título de "assistência a um doente terminal", enquanto a Ota não é feita;&lt;br /&gt;- os "prejuízos ambientais", decorrentes do ruído que, segundo o ministro Mário Lino, afectam a Portela são uma completa demagogia, já que pressupõem não prejuízos actuais, mas sim futuros e resultantes de se permitir a urbanização na zona de protecção do aeroporto;&lt;br /&gt;- a deslocação do aeroporto de Lisboa para cerca de 40 quilómetros de distância retirará à cidade uma vantagem comercial decisiva e acrescentará despesas, consumo de combustíveis, problemas de trânsito na A1 e perda de tempo à esmagadora maioria dos utentes do aeroporto, com o correspondente enriquecimento dos especuladores de terrenos na zona da Ota, empreiteiros de obras públicas e a muito especial confraria dos taxistas do aeroporto.&lt;br /&gt;O negócio do aeroporto é tão obviamente escandaloso que não se percebe que os candidatos à Câmara de Lisboa não façam disso a sua bandeira de combate eleitoral e que, à excepção de Carmona Rodrigues, ainda nem sequer se tenham manifestado contra. Carrilho já se sabe que não pode, sob pena de enfrentar o aparelho socialista e os interesses a ele associados, mas os outros têm obrigação de se manifestarem forte e feio contra esta coisa impensável de uma capital se ver roubada do seu aeroporto para facilitar negócios particulares outorgados pelo Estado.&lt;br /&gt;A Ota e o TGV, que fizeram cair o ministro Campos e Cunha, são um exemplo eloquente daquilo que ele denunciou como os investimentos públicos sem os quais o país fica melhor. Como o Alqueva, à beira de se transformar, como eu sempre previ, num lago para regadio de campos de golfe e urbanizações turísticas, ou os pendulares do ex-ministro João Cravinho, ou os estádios do Euro, esse "desígnio nacional", como lhe chamou Jorge Sampaio, e tão entusiasticamente defendido pelo então ministro José Sócrates. Os piedosos ou os muito bem intencionados dirão que é lamentável que não se aprenda com os erros do passado. Eu, por mim, confesso que já não consigo acreditar nas boas intenções e nos erros de boa-fé. Foi dito, escrito e gritado, que, dos dez estádios do Euro, não mais de três ou quatro teriam ocupação ou justificação futura. Não quiseram ouvir, chamaram-nos "velhos do Restelo" em luta contra o "progresso". Agora, os mesmos que levaram avante tal "desígnio nacional", olham para os estádios de Braga, Bessa, Aveiro, Coimbra, Leiria e Faro, transformados em desertos de betão e num encargo camarário insustentável, e propõem-nos um TGV de Faro para Huelva e um inútil aeroporto para servir pior os seus utilizadores, e querem que acreditemos que é tudo a bem da nação?&lt;br /&gt;Não, já não dá para acreditar. O pior que vocês imaginam é mesmo aquilo que vêem. Este país não tem saída. Tudo se faz e se repete impunemente, com cada um a tratar de si e dos seus interesses, a defender o seu lobby ou a sua corporação, o seu direito a 60 dias de férias, a reformar-se aos 50 anos ou a sacar do Estado consultorias de milhares de contos ou empreitadas de milhões. E os idiotas que paguem cada vez mais impostos para sustentar tudo isto. Chega, é demais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares, Jornal “O Público”, 22.07.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112204430026396177?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112204430026396177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112204430026396177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/07/um-crime-na-ota.html' title='Um crime na Ota'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112143064437975173</id><published>2005-07-15T19:23:00.000Z</published><updated>2005-07-15T12:30:44.386Z</updated><title type='text'>O mal brasileiro</title><content type='html'>É difícil entender o Brasil. É difícil entender que um país tão grande, tão rico, tão jovem e tão optimista continue eternamente balanceado entre uma modernidade por vezes até surpreendente e um subdesenvolvimento marginal e crónico, com aspectos de injustiça social chocantes e inadmissíveis numa nação civilizada.&lt;br /&gt;De há muito que penso que o Brasil é o país mais mal governado do mundo, por força de uma classe política cuja total ausência de noção de serviço público deixa qualquer europeu estarrecido. Eu sei que basta olhar à roda e constatar que o mundo que nos governa já não tem Willy Brandts, nem Harold Wilsons, nem Olaf Palmes, nem John Kennedys. Tem o que se arranja e, às vezes, arranja-se politicos tão incompetentes e imbecis quanto um George W. Bush. Mas, apesar de tudo, o Brasil exagera. Olha-se para a pauta e vê-se lá ainda os nomes dos eternos "coronéis" da política brasileira, como António Carlos Magalhães na Bahia ou Paulo Maluff em São Paulo. E o pior é que a geração que se seguiu continua a perfilhar os mesmos métodos e a reproduzir os mesmos vícios e a mesma inóqua vaidade dos seus antecessores. Imaginar-se-ia que, depois de Collor de Melo, o Presidente fabricado pela TV Globo e afastado em pleno mandato, depois de atolado em escândalos de corrupção dignos de um gangster da Máfia, já nada de semelhante poderia ocorrer. Mas veio Fernando Henrique Cardoso, intelectual prestigiado e figura da resistência à ditadura militar e, noutra escala e com outras motivações, repetiu-se o pesadelo: por vaidade, por fome de poder, por tique de superioridade, Fernando Henrique não resistiu a promover a corrupção de deputados para conseguir obter uma revisão extraordinária da Constituição que lhe possibilitasse o desempenho, não previsto constitucionalmente, de um segundo mandato - conforme veio a acontecer.&lt;br /&gt;Com a chegada de Lula ao poder, independentemente das posições políticas de cada um e dos receios na frente económica (o futuro mostraria que não justificados), parecia haver um consenso geral de que, ao menos do ponto de vista da seriedade da gente do PT (o Partido dos Trabalhadores, de Lula), o Brasil iria finalmente deixar de ficar exposto a constantes escândalos de corrupção ou desvio de dinheiros públicos. Com o PT era a "sanzala" que ocupava o Palácio do Planalto, afastando a tradicional elite política da "Casa Grande". Uma outra forma de fazer política, outros processos, outros valores - esperava-se.&lt;br /&gt;Mas eis que de repente, no curto espaço de quatro ou cinco semanas, tudo se precipitou e o Brasil encontra-se afundado na maior crise política desde a restauração da democracia. E, enquanto as cabeças à roda de Lula vão rolando uma a uma, enquanto os nomes mais prestigiados do partido e seus amigos próximos são destroçados na imprensa e na comissão de inquérito parlamentar, a única dúvida que permanece nem é sequer a de saber se o Presidente sabia ou não do que se passava (se não sabia, não se percebe o que anda a fazer), mas até onde se chegará: até ao impeachement, como sucedeu com Collor, ou, talvez pior, até à sua lenta morte política que, para os adversários, funcionará como uma vacina futura contra eventuais novas veleidades da esquerda não alinhada?Lembram-se quando Guterres "comprou" o voto que lhe faltava para aprovar o Orçamento ao deputado do queijo limiano? Lembram-se de como o escândalo político que se seguiu custou o lugar a Guterres e a maioria ao PS? Pois bem, ao pé do "mensalão" brasileiro, o queijo limiano não foi nada: Daniel Campelo trocou o seu voto por apoios ao município de que era e é presidente; os setenta ou oitenta (ninguém sabe ainda ao certo) deputados envolvidos no "mensalão" trocavam por dinheiro para o seu bolso e através de uma "avença" mensal (!) o apoio que davam ao Governo de Lula no Congresso. É certo que o absurdo sistema constitucional brasileiro, que determina que um Presidente seja chefe de governo mas que para governar tenha de estar constantemente a negociar apoios entre a constelação de partidos com assento parlamentar, é propício a tentações e malfeitorias. Mas há limites: quando a negociação envolve a compra, pura e simples, de votos à oposição, não há democracia digna desse nome.&lt;br /&gt;E o "mensalão" foi apenas o tiro de partida, a ponta de um sinistro icebergue de corrupção, influências ocultas e alianças inimagináveis, que todos os dias vem sendo desvendado na imprensa. Como, por exemplo, a enorme dívida contraída pelo PT junto da banca (cem milhões de euros), avalizada e com as prestações pagas por um obscuro publicitário chamado Valério, que, subsequentemente, beneficiou de contratos de publicidade milionários outorgados pelo Governo. Ou seja, dinheiro público para financiar o partido do Governo.&lt;br /&gt;Olhando para pessoas com o passado e o prestígio de Genoíno, o presidente demitido do PT, ou José Dirceu, o grande ideólogo e n.º 2 do Governo, cuja biografia de luta contra a ditadura dava um romance, perguntamo-nos como é que foi possível esta gente ter-se enfiado neste pântano sem desculpa possível? O ex-cineasta Arnaldo Jabor, comentarista televisivo e cronista de imprensa, é dos mais exaltados com o que se passa e publicamente avança a única explicação que encontra: é a velha mentalidade estalinista dos homens do PT, para quem os fins justificam sempre os meios, mesmo os mais ignóbeis. Mas, mesmo os arautos do PT na imprensa, os que lembram o que o Governo Lula conseguiu fazer, apesar de tudo, em matéria de políticas sociais ou a nova política externa brasileira, desligada da influência americana e com um prestígio crescente na América Latina, não conseguem encontrar uma explicação racional nem esconder um sentimento de vergonha e orfandade que hoje atravessa toda a geração que resistiu aos militares.&lt;br /&gt;Com o desmoronar aparatoso da aura de honestidade dos dirigentes do PT, o Brasil fica de repente sem referências éticas, num vazio que aos poucos volta a ser preenchido pelos "coronéis" de sempre da política brasileira. E, sinal do desnorte que se apoderou das hostes governativas, o próprio Lula apela ao velho ministro da Economia dos militares, Delfim Neto, para que integre o Governo - e este, enquanto debita as suas sentenças económicas, recusa o convite. Paralelamente, enquanto a classe política se consome e se autodestrói em cenas de um filme eternamente repetido e jamais recomendável, os grandes problemas estratégicos do Brasil permanecem sem ter quem olhe para eles com o prestígio e a autoridade suficientes para os enfrentar: o crime, a droga e o subcontinente das favelas por todo o Brasil; a corrupção endémica a todos os níveis e o desperdício de dinheiros públicos que daí advém; a lenta e paulatina destruição da Amazónia e a total ausência de uma política ambiental, nem sequer nas praias da zona sul do Rio de Janeiro; os sem-terra, os sem-abrigo, os sem-educação, os sem-assistência, a miséria indigna de extensas camadas populacionais do Norte e Nordeste e dos morros das grandes cidades. O Brasil que dói, o Brasil que não se compreende, o Brasil que choca com o outro Brasil que tanto admiramos: o da arquitectura, da música, da literatura, da medicina de ponta, das tecnologias mais avançadas e sim, também e apesar de tudo, o dessa inexplicável e inimitável alegria, que tudo contagia e que faz com que todos os sonhos pareçam possíveis. Mas, quando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares, Jornal “O Público”, 15.07.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112143064437975173?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112143064437975173'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112143064437975173'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/07/o-mal-brasileiro.html' title='O mal brasileiro'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112047833239886123</id><published>2005-07-01T23:54:00.000Z</published><updated>2005-07-04T12:03:42.606Z</updated><title type='text'>Causa de morte: direitos adquiridos</title><content type='html'>A primeira designação que se deu aos célebres "direitos adquiridos" foi a de "conquistas da Revolução". Em seu nome, o PCP, a CGTP e a extrema-esquerda batalharam durante anos para que na Constituição e nas leis se mantivesse inalterável o processo de ruína económica do país iniciado em 11 de Março de 1975, com as expropriações e nacionalizações de tudo o que era actividade económica privada (do fundo da memória relembro um título da imprensa desses dias, que dá bem a dimensão do absurdo a que se tinha chegado: "Trabalhadores da Tinturaria Cambournac exigem a nacionalização"). Limpa a Constituição de alguma da sua baba ideológica, retomado algum bom senso na gestão económica do país, as "conquistas da Revolução" recolheram ao museu leninista de onde tinham sido episodicamente ressuscitadas e foram substituídas, no léxico reivindicativo corrente, pelos "direitos adquiridos". Por "adquirido" entende-se, basicamente, tudo aquilo que foi sacado ao Estado: regalias, estatutos, dinheiro, licenças, subsídios, autorizações. Não abrange apenas situações dos trabalhadores ou pensionistas públicos, mas de toda a gente que, num momento ou noutro, teve a oportunidade de pedir e obter qualquer coisa do Estado. Foi à sombra dos direitos adquiridos, por exemplo, que o país foi integralmente vandalizado pela especulação imobiliária e pela construção sem regras, de que aproveitaram e aproveitam não apenas empresas portuguesas, mas também estrangeiras, apoiadas pelas respectivas embaixadas, sempre a lembrarem ao Governo português os "direitos adquiridos" pelos seus súbditos em território nacional. Uma vez estabelecido o "adquirido", ele passa a ter a qualificação de "direito". E um direito ainda mais sagrado do que os direitos e garantias individuais de natureza política, estabelecidos na Constituição e que, ao longo dos tempos, têm vindo a ser revistos e diminuídos em nome de prioridades securitárias.Pode um desses "direitos adquiridos" não ter a mais pequena justificação social ou política, pode resultar de simples favor ou privilégio estabelecido momentaneamente ou à socapa. Não interessa: uma vez concedido, para sempre garantido. Se algum ministro desejoso de criar bom ambiente nos serviços estabeleceu um desses regimes especiais de reforma para os trabalhadores sob sua alçada; se o Governo, preocupado com os incêndios, concede um subsídio de campanha aos bombeiros; se uma associação obtém um subsídio para levar a cabo determinado evento, tudo isso se torna imediatamente um direito adquirido, haja ou não justificação, haja ou não cobertura orçamental.&lt;br /&gt;Foi ao destapar a tampa do caldeirão deste mundo submerso da administração pública, que o Governo acabou por revelar a grande parte do país que o desconhecia a existência de um imenso universo de regalias, privilégios, regimes de excepção e de favor em que vive todo o sector público. A título de exemplo, eis o que fiquei a saber esta semana, lendo, ouvindo e tomando conhecimento de algumas das razões do Governo para enfrentar o establishment dos direitos adquiridos e as razões dos que, logicamente, o defendem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os administradores da Caixa Geral de Depósitos, do Banco de Portugal e de outras empresas públicas têm o privilégio de estabelecerem o seu próprio e e luxuoso regime de reformas e pensões, sendo que os da Caixa têm ainda um prémio por resultados - como se possível fazer a Caixa perder dinheiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um polícia, ouvido durante uma manifestação, explicava que estava ali a protestar porque tinha 16 anos de serviço e 41 de idade e, quando estava a contar com a reforma por inteiro aos 51 anos de idade, agora ameaçavam-no de ter de trabalhar até aos 61!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um dirigente sindical dos praças da Armada, encabeçando uma manifestação, dizia às televisões que, entre outras coisas, estavam a protestar porque se lhes pretendia suprimir o "suplemento de embarque" (e eu fiquei a pensar se o "suplemento de embarque" seria exactamente o que o nome indica e se será possível que na Marinha de Guerra se receba um subsídio por entrar a bordo, que é exactamente aquilo para que eles se alistaram).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os autarcas estão furiosos porque o Governo se propõe pôr um limite à batota resultante da acumulação de vencimentos entre o cargo autárquico e a administração das empresas municipais, que, como cogumelos, eles próprios criam, na maioria dos casos exactamente para esse fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dez mil professores do ensino básico e secundário são pagos pelo Estado sem dar qualquer aula: ou porque são delegados sindicais (1276!), ou porque estão destacados no Ministério da Educação ou noutros serviços, ou porque não têm horário distribuído, ou porque estão de baixa permanente, ou porque estão no último ano antes da reforma e ficam dispensados de dar aulas (ou seja, reformam-se, de facto, um ano mais cedo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Do Algarve, recebi uma carta dos professores de uma escola do ensino básico, muito indignados por eu não entender que se possam reformar ao fim de trinta anos de trabalho (de facto, 29). Indignam-se, desde logo, por eu os tratar não pelo seu título de "Professores do 1º ciclo", mas sim como "professores primários", designação que eu julgava conter em si mesma um elogio (juro não mais voltar a dizer, nem em conversa de amigos, "a minha professora primária"). E indignam-se, sobretudo, por haver quem não compreenda: "A recompensa que muito justamente nós merecemos ao fim de uma vida [?!] de muitos sacrifícios, muito desgaste psicológico e muita entrega", que nada tem a ver com "o conforto de um escritório, com ar condicionado no Verão e aquecimento no Inverno, no meio de papéis, requerimentos, petições, etc.".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Enfim, mais modestos, os enfermeiros fizeram greve esta semana pelo direito de poderem continuar a reformar-se aos 57 aos de idade e 35 de serviço, devido ao "grande desgaste físico e psíquico" da sua profissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como aqui escrevi há dias, só é possível extrair uma conclusão deste mar de reivindicações a que vimos assistindo: quem trabalha para o Estado, seja na administração central ou local, ou nos organismos e empresas públicas, sofre de um violento desgaste físico e psíquico, sem comparação com qualquer actividade exercida no sector privado, e que faz com que constitua seu direito legítimo e adquirido o de se reformar cinco, dez ou mais anos antes dos outros.&lt;br /&gt;O problema - problema político e ético - da sua posição é que não se trata de convencer o Estado das suas razões: esse já está ou já estava convencido, quando lhes atribuiu os seus regimes de excepção. O problema é convencer os outros: os que, não trabalhando para o Estado vão ter de pagar, com os seus impostos e com o aumento de anos de trabalho as reformas dos funcionários públicos.&lt;br /&gt;As centrais sindicais - a CGTP por convicção e estratégia, a UGT pelo eterno medo de ficar atrás - andam entusiasmadas com tanta contestação. Vão ensaiando greves e manifestações, até ao ensaio geral da greve da função pública, para daí passarem a essa coisa sagrada e mítica que é a greve geral nacional. Eu, no lugar dos seus dirigentes, teria mais cautelas: como revelou a sondagem do PÚBLICO, segunda-feira passada, está já estabelecida uma clivagem clara, a nível de opinião, entre os funcionários públicos e os restantes trabalhadores. E estes, que estão expostos aos despedimentos e encerramento de empresas, a salários que não são aumentados ano após ano, a horários semanais de 45 ou 50 horas, que não têm direito a baixas prolongadas e constantes, nem a férias de seis ou oito semanas anuais, nem a licenças sem vencimento quando querem, nem a reformas antecipadas, começam a questionar-se sobre os privilégios de que uns gozam e outros não. Daí até perceberem que quem paga esses privilégios, além do mais, são eles, vai um pequeno e perigosíssimo passo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares, Jornal “O Público”, 01.07.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112047833239886123?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112047833239886123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112047833239886123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/07/causa-de-morte-direitos-adquiridos.html' title='Causa de morte: direitos adquiridos'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-112004659321608761</id><published>2005-06-29T00:57:00.000Z</published><updated>2005-06-29T12:11:31.343Z</updated><title type='text'>Quem tem medo do McCarthy?</title><content type='html'>1. Benni McCarthy veio para o FC Porto em definitivo há dois anos, a pedido insistente de Mourinho, que achava que ele era essencial, como se provou, para uma carreira europeia triunfante. Custou cerca de um milhão de contos, um investimento imenso para o FC Porto, na altura. Veio, obviamente, porque quis vir, porque melhorou a sua situação salarial e profissional. No FCPorto foi campeão de Portugal, da Europa e do mundo; se tivesse ficado no Celta de Vigo teria provavelmente continuado a suplente e teria jogado a época que terminou na segunda divisão espanhola. Hoje estaria a chorar desesperadamente para que o Celta o deixasse vir para o FC Porto, evitando ter de continuar no limbo da segunda divisão de Espanha. Aliás, há dois anos, tanto ele como o seu empresário, que agora reclamam o direito de deixar o FC Porto por qualquer preço, reclamavam o mesmo do Celta: que o deixasse vir para o Porto.&lt;br /&gt;Manifestamente, Benni McCarthy e o seu empresário não parecem ligar grande importância aos contratos que assinam nem ter grande respeito pelos clubes que lhe pagam. No seu entender, não há nada mais normal e mais justo que os clubes os libertarem quando eles querem, porque querem e pelo preço que querem, e não pelo das cláusulas de rescisão que assinaram. A estratégia é demasiadamente conhecida, não há clube que não tenha de a enfrentar, com um ou outro jogador. E, manifestamente, só há uma forma de o fazer: é os clubes não cederem à chantagem dos empresários e jogadores, sob pena de os contratos de nada valerem e qualquer jogador aliciado directamente por outro clube aparecer ao clube que com ele tem contrato a dizer que se se sente mal, quer-se ir embora e que, se ficar, será contrariado e sem vontade de jogar. Com a maior das naturalidades, noticia-se, por exemplo, que o Benfica «já tem tudo contratado, salários e prémios», com o brasileiro Dedé, que, por azar, tem contrato válido com o Borussia Dortmund. Mas, com o próprio Borussia, o Benfica não tem nada contratado, nem acordado, nem sequer falado - porque o Benfica está longe de querer e poder pagar o que os alemães pedem para deixar sair o Dedé. Então, recorre-se à estratégia alternativa, que consiste em aliciar primeiro o jogador e depois contar que ele faça a rábula de chegar ao pé dos dirigentes do Borussia e pedinchar que o vendam pelo preço que o Benfica quer, sob pena de ele permanecer «contrariado».&lt;br /&gt;Parece que há quem ache que esta «estratégia», a que o Benfica recorre bastas vezes, é muito «inteligente», como inteligente foi a forma como em tempos «sacou» o Paulo Madeira ao Belenenses ou como recentemente «sacou » dois juniores ao Salgueiros, aproveitando-se das dificuldades económicas do histórico clube do Porto, ao ponto de levar a direcção salgueirista a constatar em comunicado que «a grandeza dos clubes mede-se pelas atitudes que têm». Gostaria de saber o que diria a direcção benfiquista, os seus adeptos e os seus promotores se um Borussia Dortmund ou um Chelsea ou um Real Madrid se lembrasse de atacar directamente o Manuel Fernandes, dar-lhe a volta à cabeça— o que não seria difícil — e pô-lo a pedir publicamente à direcção benfiquista que «não lhe cortasse as pernas» e não o deixasse cá «contrariado»...&lt;br /&gt;Uma coisa eu tenho a certeza: é que o Manuel Fernandes não encontraria, seguramente, um acolhimento da imprensa tão entusiástico para com as suas pretensões, quanto o que McCarthy e o seu empresário têm encontrado nas páginas de A BOLA.&lt;br /&gt;É verdadeiramente excepcional e nunca visto o esforço que aqui tem sido conduzido para dar eco e satisfazer a ambição de fuga de McCarthy—seja ela genuína ou induzida, como mais adiante melhor se verá. Mesmo de um ponto de vista estritamente jornalístico, não me lembro de alguma vez ter presenciado uma situação em que, no curto espaço de dez ou doze dias, o mesmo jornal «repete» seis ou sete vezes a mesma entrevista—em que o entrevistado, directamente ou através de um seu representante, se limita a dizer sempre a mesma coisa: «quero-me ir embora!» Dá vontade de responder: «Já ouvimos, já sabemos! Se se quer ir embora, não é preciso estar a dizer todos os dias a mesma coisa. Ele que arranje quem pague os nove milhões de euros da cláusula de rescisão que quis assinar, e que se vá embora!»&lt;br /&gt;Na edição de sexta-feira passada de A BOLA, julguei que se tinha enfim, chegado ao limite da insistência: pela quinta vez o McCarthy «abria o coração» e o seu repetido apelo para que o deixem sair em saldos merecia até honras de manchete de 1.ª página — um acontecimento tão raro neste jornal relativamente ao FC Porto, que nem quando ganharam a Taça Intercontinental em Tóquio o tinham conseguido...&lt;br /&gt;A coisa tornou-se tão absurda e inédita para, julgo eu, o comum dos leitores, que no dia seguinte o director, Vítor Serpa, sentiu-se obrigado a justificar a insistência do jornal no assunto, mas em termos que, salvo melhor opinião, nada justificavam. Tanto mais que ele próprio reconhecia que, neste caso, nenhuma razão assistia ao jogador. É caso para pensar porquê que, reconhecendo-se que ele não tem razão, todos os dias se insiste em estender-lhe o microfone para ele repetir as suas razões. E, quando se imaginaria que o editorial do director matara, enfim, tarde e a más horas, a Operação Sai McCarthy, eis que, logo na segunda-feira, a coisa retoma o seu caminho, com nova entrevista «McCarthy abre o seu coração», ocupando quatro páginas do jornal — a totalidade do espaço reservado a notícias sobre o FC Porto, não sobrando uma linha que fosse para mais nada!&lt;br /&gt;Ora, francamente, que comentário se pode fazer a isto? Já percebemos que, aqui em A BOLA se quer desesperadamente que o McCarthy se vá embora do Porto. Não é o Postiga, nem o Hugo Almeida, nem o Sokota: é o McCarthy. Mas deverá ele sair só porque alguém na «Bola» quer que ele saia e não se calará enquanto o F.C. Porto não o mandar embora? E não acharão que a coisa já começa a parecer mal? Se juntarmos a esta insistência na saída do McCarthy, o desejo mal escondido de igualmente ver o Liedson fora do Sporting, o que julgam que ficarão a pensar os leitores mais atentos? A quem é que a saída do Liedson e do McCarthy daria imenso jeito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Sua Excelência o presidente do Benfica foi de visita «oficial» a Cabo Verde. Em dois dias consecutivos, a cobertura dessa viagem mereceu aqui (nos outros desportivos não reparei) oito páginas de relato e vinte e três fotografias do senhor, incluindo até o seu sono na praia do Sal. De passagem, denunciou-se até o Embaixador de Portugal em Cabo Verde, que não terá dado o devido destaque à «visita oficial» do Querido Líder.&lt;br /&gt;E ele, Luís Filipe Vieira, que todos os dias, desde que se levanta até que se deita, tem um batalhão de jornalistas a registar os seus mínimos passos, palavras, suspiros, estados de alma e a beber cada um dos seus discursos, desde Fornos de Algodres até ao Luxemburgo, não resistiu a fazer mais uma declaração para a História -a «declaração da Cidade da Praia». Ei-la: «Digo desde já que, nas próximas eleições, estarei na primeira linha de combate aos oportunistas e aos vaidosos. Se forem aqueles que gostam muito de falar nos jornais também lá estarei. Ficam avisados...»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Sim, o sorteio dos árbitros é uma medida completamente estúpida. Tenho sobre outros a vantagem de me ter logo pronunciado contra ela quando, há uns anos atrás, o F.C. Porto era contra mas a maioria dos clubes e dos comentadores eram a favor. Na altura, não sei se se recordam, escrevia-se e dizia-se que o F.C. Porto era a favor porque controlava as nomeações. Hoje, não sei se sabem, o que se diz é que quem controla as nomeações é o Benfica e por isso - e pelos resultados práticos desta época - todos os clubes querem regressar ao sorteio e só o Benfica quer manter as nomeações.&lt;br /&gt;Eu continuo a defender as nomeações -mas de maneira que não levante dúvidas, e não, por exemplo, com o Lucílio Baptista a ser nomeado para quatro Porto-Sporting consecutivos, em todos prejudicando seriamente os portistas. O que acho graça é ver os que antes defendiam o sorteio para «acabar com as suspeições», hoje oporem-se ferozmente ao sorteio. Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 28.06.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-112004659321608761?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112004659321608761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/112004659321608761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/06/quem-tem-medo-do-mccarthy.html' title='Quem tem medo do McCarthy?'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-111974813877538962</id><published>2005-06-24T20:17:00.000Z</published><updated>2005-06-26T01:08:58.786Z</updated><title type='text'>Haverá saída?</title><content type='html'>Várias vezes me tenho colocado esta pergunta, mas nunca tantas vezes como agora: será Portugal viável? Haverá ainda, na consciência da maioria dos portugueses, a noção de que um país se constrói com o esforço, a iniciativa, o trabalho e, se necessário, o sacrifício de todos, na medida das respectivas responsabilidades? De que um país não pode depender apenas ou principalmente do Estado, do Governo, das iniciativas e dos dinheiros públicos? Que a cidadania não é só direitos adquiridos e benesses garantidas eternamente, sem relação com a produtividade, o crescimento, a competitividade, a qualidade daquilo que se faz e se produz?Tenho as maiores dúvidas. Como todos, oiço os portugueses a falar, todo o tipo de portugueses, e constato que a esmagadora maioria não vai, nem quer ir, além do inverso da célebre frase de Kennedy: limitam-se a perguntar o que pode o país fazer por eles. Ouvindo-os, eles têm sempre razões de queixa e matéria para reivindicarem do Estado e do Governo, seja ele qual for, que episodicamente o represente. Mesmo aqueles que tinham mais obrigação de estarem informados e reflectirem sobre a informação de que dispõem reagem às más notícias como se elas fossem matéria abstracta, insusceptível de descer ao concreto e poder afectá-los. Lêem que o Estado português vive há vários anos acima das suas disponibilidades, gastando mais do que tem e endividando-se para as gerações futuras, mas, ao mesmo tempo que reconhecem que isso não pode continuar, recusam qualquer medida de contenção de gastos públicos que mexa com os seus "direitos adquiridos". Lêem (e sabem que é incontroverso) que as pessoas se reformam cada vez mais cedo e vivem até mais tarde, consumindo simultaneamente maiores cuidados de saúde, o que torna financeiramente insustentável o actual sistema de pensões e reformas, mas, quando se pretende reformar o seu estatuto particular, aqui d"El rei, que "descontei toda a vida para a Segurança Social e não me podem agora mexer nas minhas expectativas!". Lêem que os portugueses têm o maior índice europeu de consumo de medicamentos, mas acham um roubo que o Governo diminua a sua comparticipação nos medicamentos, que, além do mais, constitui uma forma de assegurar um negócio florescente e de risco garantido a laboratórios e farmácias. Lêem que os professores trabalham poucas horas em comparação com os seus colegas europeus, ganhando proporcionalmente mais e reformando-se mais cedo, ao mesmo tempo que a Educação consome recursos desproporcionados e com resultados menos que medíocres. Mas, qualquer tentativa de mexer no que está, dá logo direito a uma greve aos exames nacionais - com a compreensão, aliás, de um juiz de Ponta Delgada, que deve achar que, de "irremediável" só existe a morte, e, portanto, qualquer prejuízo desproporcionado que uma greve possa causar, mesmo a centenas de milhares de alunos, nunca será suficiente para pôr em causa o direito à greve, sem serviços mínimos. Aliás, eles próprios, juízes, também sabem, e sabem que nós sabemos, que a justiça é talvez a coisa que pior funciona em Portugal, mais lenta, mais ineficaz, mais cara e mais afastada das necessidades dos cidadãos. Mas aquilo com que unicamente os ouvimos preocuparem-se é com o seu estatuto, as suas férias, a manutenção do seu regime de total desresponsabilização profissional. A desresponsabilização é, de facto, a grande reivindicação de quem se habituou a trabalhar para o Estado ou a depender do Estado. Somos um país onde muito pouca gente está disposta a abrir caminho por si, a assumir responsabilidades e correr riscos, sem a cobertura do emprego público, do favor público ou do dinheiro público. Ainda esta semana, Jorge Sampaio chamava a atenção para a inexistência de financiamento ao capital de risco por parte da banca, em comparação com a facilidade do financiamento ao consumo, de risco praticamente nulo. Em Portugal, 63 por cento do capital de risco é assumido pelo sector público; em Espanha é 9 por cento, o resto é privado. A diferença é eloquente e explica muita coisa: em Portugal, a formação de cartógrafos e navegadores, a construção dos navios, o pagamento das tripulações, todo o financiamento das Descobertas e a comercialização dos produtos foram de iniciativa pública; em Espanha, foram empresários privados de Sevilha que ajudaram a financiar a primeira viagem de Colombo, início da expansão ultramarina de Castela. Talvez tenha começado aí a história da nossa progressiva demissão cívica, agravada, nos tempos recentes, por três momentos decisivos: o salazarismo, o gonçalvismo e os dinheiros europeus. O primeiro propôs-nos o Estado protector, inflexível na defesa do nosso bem e em tornar-nos imunes às tentações libertárias vindas de fora; o segundo propôs-nos o Estado suficiente, motor da história, infinitamente justo e generoso, distribuindo a cada um em função das suas necessidades e a ninguém em função do seu mérito; o terceiro propôs-nos o Estado oportunidade, aberto a todos os espertos que quisessem fazer fortuna rapidamente ou ganhar dinheiro fácil, bastando estender a mão e declarar-se qualquer coisa: agricultor, empresário, formador, inovador, isolado no interior ou ilhas, enfim, representante adequado dessa coisa enxovalhante a que chamam "a especificidade portuguesa" - o direito de esmolar eternamente à conta de sermos piores, mais atrasados e mais incompetentes do que os outros. Há cada vez mais gente que, olhando para o diagnóstico frio daquilo que somos e do que valemos, vai insinuando a ideia de que o menos mau seria sermos absorvidos pela Espanha. Nem adianta entrar em questões de patriotismo para concluir que eles estão errados na sua última esperança: seguramente que a Espanha não nos quereria para sermos em relação a ela o que a Madeira autónoma é em relação a nós. A Espanha quer é que nós continuemos a ser o que somos, como vizinho: um mercado escancarado e sem competitividade para enfrentar a sua concorrência e uma espécie de laboratório daquilo que deve ser evitado - como temos sido para eles, desde 1975. Agora, para nos pagar o fado ou a "especificidade", isso de certeza que não querem. Resta-nos esperar que a União Europeia não se desagregue nem se canse de nos aturar, porque, então sim, ficaremos face a face com nós próprios e corremos o risco de concluir que nos tornámos um país inviável.Peço desculpa se isto soa a demasiado pessimismo negativista. Mas, nestes dias em que todos só falam dos seus interesses e só olham para o seu próprio umbigo, onde estão os sinais de esperança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares, Jornal “O Público”, 24.06.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-111974813877538962?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/111974813877538962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/111974813877538962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/06/haver-sada.html' title='Haverá saída?'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-111939870463680669</id><published>2005-06-21T23:21:00.000Z</published><updated>2005-06-22T00:05:04.643Z</updated><title type='text'>Via Brasil</title><content type='html'>1 - Um leitor habitual de jornais desportivos, rotinado em destrinçar aquilo que são verdadeiras notícias daquilo que são mensagens passadas sob a forma de notícias, diverte-se muito nesta época chamada de defeso. Há de tudo: jogadores que querem melhorar o seu contrato com o clube e fazem constar que «têm muito mercado» à espera deles, quando não têm ninguém; jogadores estrangeiros que aparecem com alvo potencial de clubes portugueses mas cujo valor é desconhecido ou duvidoso e que logo são descritos como estando também debaixo da mira de algum grande europeu; clubes, chamados grandes, e de que toda a gente sabe que não têm dinheiro para grandes compras, masque todos os dias deixam saber que «estão muito atentos ao mercado » e vão lançando nomes sonantes para o ar, para ver se enganam tolos. Enfim, há de tudo, num permanente jogo de bluff e piedosas mentiras que, acima de tudo, se destina a dar dinheiro aos empresários e encher de emoção a época dos presidentes. Uma das notícias mais clássicas nesta época e que a mim me faz sempre sorrir é precisamente a das constantes idas ao Brasil, «para compras», dos desconhecidos presidentes dos clubes pequenos e mais que pequenos. Não há presidente que se preze que, nesta altura do ano, não faça as malas e rume ao Brasil para tratar dos interesses do clube. E nem precisam de ir com o treinador, porque de jogadores percebem eles. Se vão sempre ao Brasil é porque, como não se cansam de nos explicar, lá o mercado é abundante e barato. E podiam acrescentar que é provavelmente o único país onde percebem a língua e é bem mais agradável irem trabalho ao Brasil que à Costa do Marfim, aos Camarões ou à Lituânia. Com tanta atracção pelo Brasil, não admira que haja centenas de jogadores brasileiros a actuar em Portugal, em todas as divisões profissionais. E, como os exemplos vêm de cima, temos desde logo o caso exemplar do FC Porto, que na última década, e com a contenção relativa dos anos Mourinho, tem sido o maior importador de brasileiros para o futebol português de que há memória. Confirmando-se a compra da última descoberta, Anderson de seu nome, o FC Porto tem actualmente, e só para o meio-campo, nada menos que oito brasileiros! Este Anderson é, aliás, um caso exemplar de como as coisas funcionam. Até há uns 10 dias atrás ninguém sabia quem era, ninguém tinha ouvido falar dele, ninguém jamais o vira jogar. Mas bastou que Jorge Mendes comprasse 70 por cento do seu passe por um milhão de contos para que o miúdo de 17 anos se transformasse automaticamente no «novo Ronaldinho Gaúcho» e que tenha, supostamente, despertado a cobiça desenfreada de Sporting, Benfica e FC Porto. Parece que assinava ontem pelos dragões, juntando-se aos compatriotas também centro-campistas Jorginho e Paulo Assunção, chegados agora ao plantel, e a Leo Lima, Ibson e Leandro do Bomfim, chegados em Janeiro: seis brasileiros para o meio-campo em apenas seis meses! Mas o mais engraçado é que «o novo Ronaldinho Gaúcho» joga na mesma posição que «o novo Pelé branco», — o Diego—contratado por uma fortuna na época passada com a missão de tentar fazer esquecer o verdadeiro Anderson, aquele que, de facto, fazia a diferença: Anderson Luiz de Souza, vulgo Deco. Como se sabe, foi um sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 - Como o tenho dito repetidamente, sou um adversário dos imensos plantéis que caracterizam as equipas portuguesas, pequenas e grandes, em comparação com as boas equipas europeias, onde o plantel principal não vai além de 20 jogadores, reforçados, quando necessário, pelos jovens das equipas B ou dos juniores. Não só os grandes plantéis impedem o aparecimento e a formação dos jogadores formados nas escolas e preparados nas equipas B como, além disso, contribuem para uma gestão impossível da equipa, geram insatisfações, frustrações e mau ambiente de balneário e, obviamente, arruinam qualquer orçamento. Mas, por mais que isto seja sabido e demonstrado, por mais que os treinadores estrangeiros que cá chegam de novo repitam que não querem trabalhar com mais de 23, 24 jogadores, os presidentes insistem em dar-lhes 33 ou mais, como se com isso mostrassem que trabalharam bem, fizeram excelentes negócios e «deram ao treinador todas as condições». Não deram; apenas complicaram a sua tarefa. O pobre Co Adriaanse, novo treinador portista, habituado a uma equipa modesta, onde cada jogador é um investimento que tem de dar rendimento, já estragou as suas férias a ver intermináveis vídeos para poder decidir, com um mínimo de justiça, como é que dos 36 que tem à sua espera vai eliminar sumariamente 11 ou 12, para ficar só com o número máximo que consegue treinar. Como é que, pensará ele, se fez um plantel que conta com cinco centrais, três laterais-esquerdos, sete pontas-de-lança e treze médios mas onde, por exemplo, não existe um único lateral-direito? O que fazer com jogadores como o Jankauskas e o Postiga, que custaram à volta de um milhão de contos cada um e valem um máximo de três golos por época? Para quê três guarda-redes, quando existem outros três na equipa B? O que fazer com jogadores que foram contratados esta época por quatro ou cinco anos e não jogaram mais de uma hora, casos de Raul Meireles, Areias, Pittbull, Leo Lima, Hugo Leal, Leandro do Bomfim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3 - Quem, como eu, apanhasse a meio o noticiário das televisões, domingo à noite, teria caído de espanto com a notícia de que Tiago Monteiro tinha subido ao pódio no Grande Prémio dos Estados Unidos, em Indianápolis. Desde o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa aos parabéns logo enviados por José Sócrates, à notícia repetida exaustivamente durante a transmissão do Brasil-México de que pela primeira vez um português tinha subido ao pódio na Fórmula 1, tudo me levou a crer que, de facto, se tratava de um dia histórico para o desporto português e até já visualizava Jorge Sampaio, de lágrima ao canto do olho, a condecorar Tiago Monteiro com a ordem de qualquer coisa. E até eu, que gosto de automobilismo mas acho a Fórmula 1 a competição mais chata do mundo, logo a seguir ao halterofilismo, dispus-me a assistir ao resumo alargado da prova, na RTP, para viver devidamente o momento de orgulho nacional. E foi só então que percebi a dimensão do embuste: o Tiago Monteiro não tinha subido ao pódio numa corrida normal, com todos a competir, mas apenas com seis, e depois de uma jogada anti-desportiva patrocinada pela Ferrari e pela Jordan — a equipa de Monteiro. Não está em causa, obviamente, o comportamento de Tiago Monteiro, que é pago para correr e nada tem que ver com as jogadas de bastidores. Nem está em causa o mérito de, uma vez mais e pela nona consecutiva, ter levado o carro até ao fim. Mas aquilo em que ele participou não foi uma corrida mas sim, como lhe chamou a imprensa europeia, uma «farsa» e «a corrida da vergonha». Foi como se a Selecção Nacional tivesse vencido um Brasil com apenas seis jogadores de início. Eu até compreendo a alegria do Tiago Monteiro no pódio mas, para dizer a verdade, as suas comemorações, no meio dos apupos da multidão e perante a vergonha calada dos vencedores da Ferrari, até foi um bocado constrangente. A pior maneira de tirar valor a quem o tem é inventar-lhe proezas não alcançadas. Lá virá o dia, espero, em que o Tiago Monteiro chegue ao pódio após uma corrida verdadeira e uma luta leal entre todos. Mas, anteontem, aquele pódio não honrava ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 21.06.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-111939870463680669?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/111939870463680669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/111939870463680669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/06/via-brasil.html' title='Via Brasil'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-111902531655739428</id><published>2005-06-17T19:18:00.000Z</published><updated>2005-06-18T03:03:11.960Z</updated><title type='text'>Protagonistas</title><content type='html'>Nunca consegui entender muito bem esta incapacidade nossa de olhar para os mortos como aquilo que eles foram em vida, com as suas qualidades e defeitos, e, ao invés disso, sermos servidos sempre por um obituário só de elogios, como se a memória que temos de cada um estivesse apenas à espera da sua morte para ser reescrita e limpa de más recordações. Vasco Gonçalves foi, decerto, um homem cheio de qualidades humanas e fiel às suas convicções até ao fim. Mas já não foi, por exemplo, um "patriota", como lhe chamou generosamente Mário Soares. Se, para se ser patriota, basta amar o seu país e ter um desejo político para ele, todos somos patriotas e ninguém o é, verdadeiramente. Mas custa-me ouvir chamar patriota a quem não se limitou a ter ideias políticas para Portugal, mas quis ainda impô-las contra a vontade largamente maioritária dos restantes portugueses, ao ponto de ter levado o país à beira da guerra civil. Na casa de Vasco Gonçalves, contou uma jornalista do PÚBLICO, havia um busto de Lenine. Nada mais adequado: Vasco Gonçalves tomou-se pelo Lenine português, achou que podia reeditar aqui Outubro de 1917 e, trinta anos depois, ainda continuava a falar na "vanguarda revolucionária", com a fé dos tardiamente convertidos. Julgo até que usurpou o papel que legitimamente deveria ter cabido a Álvaro Cunhal, que, esse sim, nunca escondeu o que queria e aquilo em que acreditava. Mas Vasco Gonçalves era militar: exigia-se-lhe um dever de isenção que ele nunca mostrou depois de ter assumido o poder, ao ponto de chefiar conscientemente um "governo de vanguarda" que não chegava a representar um quinto dos portugueses, cuja vontade fora já então manifestada em urnas. Apesar disso, chamava "representativo" ao seu governo e seguia, um por um, todos os passos da cartilha leninista de tomada do poder, tal como executada trinta anos antes nas "democracias populares".Patriota? Em quê? Peço desculpa: patriotas foram os que se bateram nas ruas pelo República, pelas eleições, pela liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cunhal sabia - e por isso deixou escrito o apelo - que o seu enterro seria uma lição a merecer meditação por parte de muitos dos políticos de hoje. As pessoas preferem quem é fiel às suas convicções, ainda que erradas e falsas, do que quem flutua ao sabor das verdades de cada momento. Se Cunhal nunca quis escrever as suas memórias é porque sabia que, ao fazê-lo, teria de mentir, de ocultar e de calar, ou então contaria toda a verdade e deixaria um testamento ruinoso aos seus camaradas. Como sempre em toda a sua vida, os interesses do Partido passaram à frente de tudo o resto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não são os insultos, aliás corriqueiros, de Alberto João Jardim que eu considero ofensivos: sempre achei que a ordinarice e a má educação só ofendem verdadeiramente os seus autores, não os seus destinatários. O que ofende em Jardim é quando, no meio dos sacrifícios para todos anunciados pelo Governo, ele afirma, desafiador, que na Madeira para o ano haverá mais 1000 contratados para a função pública, a fim de manter o "crescimento constante", ou quando aproveita as verbas resultantes do aumento de dois pontos no IVA nacional, fazendo simultaneamente a flor de só aumentar um ponto na Madeira. E entristece que Jorge Sampaio, ao mesmo tempo que apela ao "patriotismo" dos portugueses para encaixarem os sacrifícios, seja o primeiro a demarcar-se das provocações de Jardim, remetendo-se à cómoda posição de um silêncio voluntariamente assumido "há mais de vinte anos". O que seria da democracia se todos nos calássemos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu conheço o Marco de Canavezes, a obra emblemática do sr. Avelino Ferreira Torres. Aquele caos, aquele horror arquitectónico, aquele ar de subúrbio de cidade africana, são-me tristemente familiares. Mas pensava que nisso o Marco não se distinguia de muitas outras terras, onde a falta de planeamento e o mau gosto triunfante foram o preço a pagar pelo que eles chamam "desenvolvimento". Mas não sabia, e devo à Alexandra Lucas Coelho ter ficado a sabê-lo, que 22 anos de Avelino e nove milhões de contos de dívidas acumuladas tinham deixado o Marco com os piores índices nacionais de escolaridade, saneamento básico e abastecimento de água - aquilo por que se mede o verdadeiro desenvolvimento. Depois desta linda obra no Marco, o sr. Ferreira Torres, perseguido por processos-crime por peculato e outras coisas feias que ele desdenha, prepara-se agora para tomar conta de Amarante - a terra de Pascoaes, de Sousa Cardoso e das minhas memórias de infância. E sempre, claro, com o voto do povo. Pobre Amarante, pobre povo, pobre poder local!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felgueiras, se calhar, ainda é mais notável. Vale a pena olhar o que se prepara.A sr.ª Fátima Felgueiras, presidente da câmara, é envolvida, como suspeita, num processo-crime por apropriação de dinheiros públicos em benefício próprio. Ao contrário do que faria qualquer pessoa inocente, qualquer pessoa de boa-fé ou qualquer pessoa com respeito pela sua honra própria, ela não se dispôs a enfrentar as acusações: beneficiando de uma informação particular, fugiu na véspera de o tribunal ordenar a sua detenção. Durante mais de ano e meio tem vivido no Brasil, protegida pela dupla nacionalidade, e, embora tenha voluntariamente abandonado o seu lugar, continuou a afirmar-se presidente em exercício e a receber o respectivo vencimento, até há dias o tribunal administrativo ter posto fim a esta última e incompreensível regalia. Agora, convicta de que o povo de Felgueiras continua a venerá-la, congeminou um plano verdadeiramente maquiavélico para troçar da justiça e das eleições, beneficiando de mais um buraco legal: vai voltar para se recandidatar e fazer campanha eleitoral, aproveitando a imunidade de que gozam os candidatos durante a campanha. Na véspera de terminar a campanha, volta a pirar-se para o Brasil e de lá fica à espera dos resultado das urnas e de nova vitória, para continuar a exercer a presidência da Câmara de Felgueiras... em Niterói. Conta com o "seu" povo para lhe cobrir mais esta jogada. E eu acho que, se o povo o fizer, merece o desfecho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há duas hipóteses: ou o Eduardo Prado Coelho não percebeu ou fingiu não perceber o efeito causado por aquele "vídeo em família" do seu protegido Manuel Carrilho. Desgraçadamente para ambos, porém, não houve mais quem não percebesse. Não é possível apresentar o candidato a Lisboa como "um dos homens mais cultos da política portuguesa" e depois fingir que não se alcança o mau gosto, a presunção e o vazio que aquela produção artística revela e que, aliás, outras produções do género e os próprios cartazes enxameando Lisboa já tinham posto a descoberto. Já são indícios a mais para poderem ser levados à conta de simples deslizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares, Jornal “O Público”, 17.06.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-111902531655739428?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/111902531655739428'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/111902531655739428'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/06/protagonistas.html' title='Protagonistas'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-111882920178023921</id><published>2005-06-14T23:49:00.000Z</published><updated>2005-06-15T09:53:21.786Z</updated><title type='text'>Transferências</title><content type='html'>A época de caça, também conhecida como «defeso», vai animada, como sempre. Os três grandes vão mexendo as suas peças no tabuleiro de xadrez em que grande parte da futura época se decide. Conforme a capacidade financeira e o talento de prospecção e negociação, eles optam por se reforçar, por se renovar, ou por conservar ou mesmo enfraquecer os respectivos plantéis. Os clubes de media dimensão ou pequenos esperam pelas grandes decisões dos três tubarões para depois irem às «sobras». Frequentemente, porém, são eles que fazem os melhores negócios do «defeso», comprando barato e despercebidamente jogadores que para o ano já estarão a ser cobiçados pelos «grandes», a preços quatro ou cinco vezes superiores. Mas, como de costume, as atenções estão todas viradas para os três do topo. E aí, este ano, as atitudes são diferentes: há quem se contenha, quem espere para atacar e quem não espere para começar já gastar «à grande». Respectivamente, Sporting, Benfica e FC Porto. No Sporting e pela segunda ou terceira época consecutiva, a ordem é de conter despesas, sair a ganhar do saldo entre compras e vendas e reduzir amassa salarial fixa. Pedro Barbosa e Rui Jorge foram sumariamente dispensados; Sá Pinto ganhou um ano de sobrevivência, em contrapartida de descer substancialmente o seu vencimento; Douala e Enakarhire, duas proveitosas contratações da última época, parecem de malas aviadas para esse estranho Dínamo de Moscovo, entreposto e salvação dos clubes portugueses. E a manutenção do decisivo Liedson, sem o qual nada salvará o Sporting na próxima época, está pendente de o Corinthians, outro dos novos-ricos planetários, aceitar o preço de 9 milhões que a SAD pede por ele. Só Ricardo, mal estimado pelos adeptos e com vontade de sair, não parece encontrar as tais fabulosas propostas que nos juram existirem em permanência para ele. De facto, a imprensa desportiva passa a vida a escrever que o Ricardo tem muito mercado... em Inglaterra, devido ao Portugal-Inglaterra para o Euro, em que defendeu um de seis penalties e converteu outro. Mas, não obstante o próprio Ricardo insistir com a SAD para ser vendido, a verdade é que não aparece ninguém a chegar-se à frente. E realmente, eu não vejo muito bem os ingleses a contratarem um guarda-redes só porque ele marca penalties, mas, em contrapartida, é um permanente calafrio no jogo aéreo... que é justamente o futebol-tipo inglês.&lt;br /&gt;Portanto, no Sporting, a notícia são as saídas e não as entradas. Estas, a menos que Liedson seja vendido, não passam de meras intenções, que logo esbarram na falta de poder financeiro negocial dos leões — como no caso da hipotética compra do promissor central da Académica, José Castro. Vale ao Sporting ter como ponto de partida uma excelente equipe, a partir da qual, e mesmo com as saídas, dispõe de uma base sólida para a época que aí vem. No Benfica, espera-se. A situação financeira e negocial é idêntica à do Sporting, isto é, não há dinheiro para consumar nada em matéria de aquisições fortes e sonantes. Mas tem um capital de esperança e de expectativa, composto pelo entusiasmo do título e da participação garantida na Liga dos Campeões, de que o Sporting não dispõe. Luís Filipe Vieira espera que o negócio do novo cartão ou os putativos negócios que José Veiga consiga fazer com esses igualmente misteriosos fundos de investimento multinacionais se concretizem em dinheiro fresco ou em jogadores a custo zero ou próximo disso. Por ora, limitaram-se a comprar o central Anderson, já anunciado em Janeiro, e o aveirense Beto. Depois de ter visto uns quantos vídeos, Ronald Koeman deve ter chegado à conclusão de que não poderia contar com outra época em que os golos só apa finiu a sua prioridade número um: um ponta-de-lança capaz de marcar golos, coisa que não é manifestamente, o caso de Nuno Gomes. Se eu mandasse no Benfica, ia buscar o Liedson ou o McCarthy, que Sporting e Porto estão obstinados a mandarem embora. No caso do McCarthy até haveria o desafio adicional de ver como ele, de camisola do Benfica, deixaria imediatamente de ser perseguido pelos árbitros e pelos disciplinadores da Liga. Entretanto, e enquanto espera para ver se o dinheiro aparece ou não, Vieira vai-se louvando de conseguir manter a «espinha dorsal » da equipe, para o que conta, de resto e como para tudo o resto, com a habitual caixa de ressonância da imprensa, também ela esforçando-se para nos fazer crer que aquele plantel tem muitos interessados por esse mundo fora. Olhem, eu, como portista, o que mais desejo é que o Benfica mantenha todos os seus jogadores actuais e o Sporting o José Peseiro a treinador. E isto não é maldade: é sentido prático.&lt;br /&gt;Pois, lá no FC Porto, e tal como no ano passado, a regra parece ser a de vender tudo o que dá dinheiro e comprar tudo o que mexe. Já vão em quatro vendas e oito aquisições, a somar aí a uns quinze «regressos» de empréstimos. O habitual: um plantel de uns quarenta jogadores para começar a época e pôr logo a cabeça em água ao novo treinador.&lt;br /&gt;Se, quanto às vendas, incluindo as da época passada, eu tenho estado sempre em acordo (excepto quanto à venda do Carlos Alberto, que tanto jeito teria dado para o final do campeonato...), já quanto às compras, não consigo conformar-me com a enxurrada de brasileiros, a leva de jogadores de terceiro plano que não se entende para que servem ou as tentativas, sempre falhadas, de transformar jogadores medíocres do Benfica em bons jogadores no FC Porto. Dez Leo Limas não valem um Carlos Alberto, assim como dez Sokotas não valem um McCarthy — cuja venda parece iminente e é insistentemente «pedida» pela imprensa desportiva de Lisboa (como já antes pedia a do Jardel, ano após ano...). Por alguma razão Mourinho fez do McCarthy a sua única exigência para ser campeão europeu, por alguma razão Sir Alex Ferguson disse que nunca tinha visto um golo como o que ele marcou ao Manchester no Dragão, por alguma razão a Comissão Disciplinar da Liga gastou uma época inteira assanhada contra ele, colocando-o de fora em catorze jogos. A saída do McCarthy deixará o ataque do FC Porto (que este ano foi o 8º do campeonato!) sem ninguém capaz de marcar golos de forma regular. É um tiro no pé, incompreensível da parte de quem, ao contrário dos rivais, não tem necessidade imperiosa de realizar dinheiro. E que, aliás, e para fingir que compensa depois, irá gastar o dinheiro da venda do McCarthy em três ou quatro inúteis só para fazer número e acrescentar as despesas fixas. Enfim, provavelmente, quando isto vir a luz do dia, já é inútil, mas, pelo menos, que haja alguém a ter avisado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: O jovem Amoreirinha protagonizou, há dois anos e no Torneio de Toulon, a mais selvática, feia e inexplicável agressão a um adversário que eu alguma vez vi num campo de futebol. Na altura, impressionado com o que tinha visto, escrevi aqui que ele não poderia de forma alguma passar impune -visto que o árbitro do jogo nada havia visto. Mas, neste nosso futebol que é capaz de expulsar e suspender por quatro jogos o McCarthy porque ele se tentou libertar com o braço e o cotovelo de um adversário sentado em cima da sua cabeça, o Amoreirinha beneficiou de absoluta impunidade: continuou a representar o seu clube e a Selecção de sub-20, como se nada fosse. Agora, na meia-final de Toulon, ele reincidiu, atingindo um adversário a soco e deixando a equipe de Portugal reduzida a dez durante mais de meio jogo. Mas obviamente que a culpa não é dele: a culpa só pode ser de quem, tendo por obrigação formá-lo como jogador, permite que ele continue assim e a representar Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 14.06.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-111882920178023921?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/111882920178023921'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/111882920178023921'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/06/transferncias.html' title='Transferências'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-111844783086982265</id><published>2005-06-10T23:51:00.000Z</published><updated>2005-06-10T23:57:10.890Z</updated><title type='text'>Quem paga a conta?</title><content type='html'>Como alguém já disse, a divulgação das medidas governamentais de combate ao défice tiveram, pelo menos para já, um mérito: a revelação de uma infinidade de situações de privilégio e de excepção escondidas debaixo dos tapetes da administração pública. Mesmo eu, que há anos vivo amarrado à tese de que existem fundamentalmente dois tipos de cidadãos em Portugal - os que pagam para o Estado e os que dele recebem -, nunca imaginei que a dimensão da diferença fosse tão abissal.Não se trata, obviamente, de contestar a legitimidade de quem escolheu fazer uma carreira profissional dentro do Estado. Ao contrário de muitos, não me move qualquer preconceito contra os servidores públicos nem contra o desempenho das suas funções tradicionais por parte do Estado. Pelo contrário, à medida que avançamos para dentro do mundo sinistro do capital sem pátria, sem regras e sem responsabilidades sociais, mais essencial entendo a função reguladora do Estado, o último obstáculo a um capitalismo desumanizado e esquecido de preocupações éticas. De igual modo e também ao contrário de muitos outros, não vejo claramente, no caso português, que aquilo que é público funcione necessariamente pior que aquilo que é privado. Conheço, sim, muitos exemplos de empresas ou serviços que outrora eram públicos e agora são privados, funcionando pior e mais caro do que anteriormente. E não se trata também de pôr em causa o dever que o Estado tem de acorrer às situações de necessidade e de carência, no domínio da saúde, da educação, das pensões sociais de desemprego, de reforma, etc. É para isso que se pagam impostos, para que o Estado proceda através deles à correcção das desigualdades sociais mais aberrantes, em termos de não haver ninguém caído na rua e deixado por conta própria. Enfim, para não maçar os leitores, sou a favor dessa coisa tão desacreditada pelos intelectuais de esquerda e tão temida pelo mundo dos negócios que se chama social-democracia: o sistema de organização política de sociedades mais justo que eu já vi a funcionar.&lt;br /&gt;Mas o que se passa em Portugal é uma coisa diferente. Aqui, o comum das pessoas acha que a social-democracia é um contrato unilateral, através do qual toda a gente tem direitos a haver do Estado, sem as respectivas obrigações. O cidadão comum acha que tudo lhe é devido, mesmo que ele próprio não cumpra a parte que lhe é devida: declarar e pagar todos os impostos que lhe cabem, não meter baixa por doença quando não lhe apetece trabalhar, não recusar trabalho quando recebe subsídio de desemprego, não recorrer a fundos públicos para investimentos que não faz, não reclamar apoios e subsídios porque chove ou porque faz sol, porque não há mercado para aquilo que produz e que não tem qualidade. Todos estes se acham eternamente em crédito sobre essa coisa indefinida a que chamam Estado - mas que não é nada indefinida, é sim a outra metade das pessoas, a que não reclama e apenas paga.Já sabíamos que Portugal entrou, de há anos para cá, em défice crónico das contas públicas. Estagnada a economia, diminuiu a colecta de impostos e ficou a nu a forma de funcionamento habitual do Estado: gastar mais do que tem. Também sabíamos que era difícil inverter esta situação, visto que a esmagadora parte das despesas públicas é constituída por despesa fixa, isto é, pelo custo do próprio funcionamento do sistema, sobretudo o pagamento dos funcionários e dos seus encargos sociais. O absurdo que daqui resulta é a inversão da função última do Estado: o Estado endivida-se, não porque investe muito no país, mas porque gasta quase tudo a garantir a sua própria existência. Se analisássemos serviço por serviço, na saúde, na educação, na justiça, nas Forças Armadas, onde quer que fosse, encontraríamos centenas ou milhares de situações perfeitamente autofágicas: tudo o que se recebe, ou mais, é gasto no próprio serviço, nada sobrando para servir os outros.&lt;br /&gt;Tudo isto nós já sabíamos. Já sabíamos também que os funcionários públicos gozam de prerrogativas que cá fora ninguém mais goza: têm horários geralmente mais reduzidos, metem mais baixas do que os outros trabalhadores, recebem muito mais por baixa do que os outros, metem licença quando querem, são promovidos automaticamente sempre com a classificação de "excelente" passados três ou quatro anos na mesma categoria, reformam-se mais cedo e têm pensões de reforma percentualmente maiores. Tudo isto nós já sabíamos, assim como sabíamos que alguns sectores - políticos, gestores públicos, magistrados ou militares - gozavam ainda de um regime de excepção dentro do regime privilegiado que já é o da função pública, relativamente ao sector privado.Aquilo que não sabíamos é que metade - metade! - da função pública integra uma coisa chamada "corpos especiais", que beneficia de um estatuto ainda mais especial, no que respeita a férias ou tempo de trabalho para a reforma, contagem do tempo de trabalho, idade de reforma ou benefícios salariais particulares devido ao "particular desgaste", "permanente disponibilidade" ou "ónus específico da função". E não imaginávamos que nesta categoria "especial" coubessem, afinal, todos ou quase todos: professores universitários e do ensino básico, médicos e enfermeiros, juízes e magistrados do Ministério Público, militares, polícias, espiões, guardas florestais, prisionais e do Serviço de Fronteiras, bombeiros, notários, trabalhadores portuários e das portagens de auto-estrada, trabalhadores dos aeroportos, do Instituto de Medicina Legal, da Inspecção Económica, da Meteorologia, dos produtos florestais, químicos ou têxteis, da Autoridade contra a Corrupção, das empresas públicas e administrações hospitalares, da toxicodependência, da aviação e tráfego aéreo, das Lojas do Cidadão, da administração local e dos matadouros públicos... ah, mas só nas Regiões Autónomas! Temos de acreditar, pois, que toda esta gente sofre de "um particular desgaste" e revela uma "permanente disponibilidade" para o trabalho, que é exclusivo da sua função, do seu trabalho e do estatuto - cá fora não existe nada de semelhante, nem sequer aproximado. Como aquele juiz que há dias aqui escreveu um texto a convencer-nos de que, dos três meses de férias que o seu estatuto lhe garante, só goza nove dias por ano - o resto do tempo passa-o numa lufa-lufa constante, de comarca em comarca, "fazendo estatísticas" e redigindo sentenças cíveis, e isto enquanto trabalha todos os dias "até às três ou quatro da manhã a despachar processos". Não temos, pois, que nos admirar se descobrimos que basta ser-se durante seis anos vice-governador do Banco de Portugal para ganhar direito a uma pensão vitalícia de 8000 euros por mês. Ou que professores se reformem ao fim de trinta anos de trabalho devido ao "especial desgaste físico e psicológico de lidar com crianças", e que, no último ano antes da reforma, recebam "horário zero", isto é, nada para fazer. Que os gestores públicos a primeira coisa que fazem após a nomeação seja convocarem uma "comissão de vencimentos" para estabelecer quanto mais é que vão ganhar. Ou que os enfermeiros estejam "sujeitos a muitas lesões lombares ou musculares, o que justifica a reforma antecipada, que lhes permite melhor qualidade de vida", conforme explicou um sindicalista que, certamente, nunca pensou, sei lá, nos operários da construção civil, por exemplo. Esqueçam, portanto, tudo o que imaginavam sobre vocações, dedicação ao trabalho, orgulho profissional. Parece que, quando se trabalha para o Estado, a violência é tamanha, seja a vigiar a floresta ou o défice, a combater pela pátria, a educar criancinhas ou a abater vacas no matadouro do Funchal, que o único desejo legítimo é passar à reforma quanto mais cedo melhor. E tudo seria inteiramente legítimo não fosse essa pequena chatice de não haver dinheiro que chegue para pagar isto tudo e não restar ao Estado outra hipótese que não a de subir os impostos e o tempo de trabalho para os que não dependem de si. Será que os sindicatos da função pública já pensaram que, por cada trabalhador deles que se quer reformar mais cedo, há um cá fora que tem de trabalhar mais tempo ou pagar mais impostos para sustentar essa regalia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares, Jornal “O Público”, 10.06.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-111844783086982265?l=textos-mst.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/111844783086982265'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/111844783086982265'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/06/quem-paga-conta.html' title='Quem paga a conta?'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-111823243520621294</id><published>2005-06-07T23:03:00.000Z</published><updated>2005-06-08T12:07:15.216Z</updated><title type='text'>A mania das grandezas</title><content type='html'>1 - Uma das coisas que, desde o início, mais me impressionaram na época futebolística que agora chegou ao fim foi a determinação surda, obstinada, de serem campeões, transmitida pelos responsáveis do Benfica. Não, não foi apenas a vontade, que todos têm, de o ser; não foi apenas a ambição, mais do que legítima, de pôr fim a uma década de jejum; ou o discurso mobilizador para produzir efeitos internos. Foi muito mais do que isso, qualquer coisa de palpável mas dificilmente explicável, que se traduziu numa espécie de desespero, de pura e simples rejeição de qualquer outra hipótese que não fosse essa, em termos de levar o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, a afirmar, a abrir a época, que este ano, doesse a quem doesse, seriam campeões. A forma como o disse e as sequências práticas dessa afirmação ao longo do campeonato, deixaram-me a clara impressão de que, mais do que a conquista de um título, tratava-se da sobrevivência do próprio clube.Esta semana, ao lançar o seu ultimatum aos sócios do clube, L. F. Vieira, confirmou a minha impressão e mostrou que não foi preciso esperar muito para que ele começasse a tirar rendimentos internos do título. O Benfica, diz ele, «tem condições para ser o maior clube do Mundo ao nível de sócios», pelo que não se contenta com menos de 300.000 sócios daqui até Outubro e 100 milhões de euros a médio prazo, vindos dos novos sócios. Ou então vai-se embora. Está tudo, pois, nas mãos dos adeptos: ou aderem ao novo cartão e fazem do Benfica um clube «imparável na Europa», ou então mudam de presidente.&lt;br /&gt;O que dizer desta jogada de tudo ou nada? Primeiro, que as contas não parecem encaixar bem: 300.000 novos sócios a 55 euros não dá 100 milhões de euros, mas apenas 15,5 milhões. Para chegar aos 100 milhões seriam necessários mais de... um milhão e oitocentos mil sócios! Segundo, que parece bem pouco aliciante a proposta do Benfica aos sócios: 55 euros em troca de ficarem pagas as quatro primeiras quotas, ter uns descontozinhos na Telepizza, na Papelaria Fernandes, na compra da Nova gente e da Maria, no kartódromo de Campera a seguir às vitórias do Benfica e do direito a ver dois jogos da SuperLiga em toda a época. Ao menos a Operação Coração e a Operação Fica Amaral! eram mais óbvias.Esquecendo o delírio do «maior clube do Mundo» (saberá Vieira que o Manchester United tem cinco milhões 
