<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss'><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855</id><updated>2009-02-21T11:48:14.011Z</updated><title type='text'>Textos dispersos de Miguel Sousa Tavares</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://textos-mst.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default?start-index=26&amp;max-results=25'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>89</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-114149885927413285</id><published>2006-03-04T18:59:00.000Z</published><updated>2006-03-04T19:00:59.276Z</updated><title type='text'>Assalto ao computador</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Não apetece nada ter de ser solidário com um jornal como o “24 Horas”, mas há alturas em que o mais importante é escolher contra quem se está e não com quem se está.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À qualquer coisa de novo no raide da justiça contra o jornal «24 Horas» que é suficientemente grave como sintoma para que, mesmo sem cair em alarmismos histéricos, possa passar em claro. Como se fosse um teste da magistratura contra a imprensa, para medir as reacções e ver se há terreno livre para avançar e criar jurisprudência. Pena que tenha sido lo&amp;shy;go escolhido um jornal que é tudo menos uma referenda ética e um modelo de bom jornalismo: vamos acreditar que a ofensiva judicial não teve precisamente isso em conta. O facto é que não apetece nada ter de ser solidário com um jornal como o «24 Horas», mas há alturas em que o mais importante é escolher contra quem se está e não com quem se está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recapitulemos o que está em causa, pois o seu simples enunciado é elucidativo. Ao abrigo das investigações do processo Casa Pia — que abriram um precedente nunca visto de meios e métodos de investigação — foi parar ao processo, o chamado «Envelope 9», o qual, aberto pelo «24 Horas», revelou conter uma extensa lista das chamadas telefónicas recebidas e efectuadas por umas dezenas de pessoas que tinham em comum estar ligadas à política e não terem qualquer ligação com o processo. Perante a estupefacção geral que esta revelação causou, o Presidente da Republica (um dos constantes do «Envelope»), chamou a Belém o procurador e falou à Nação para dizer que não toleraria métodos de investigação que incluíam a invasão indevida da privacidade das pessoas e, como tal, dera ao procurador um prazo curtíssimo para apurar como tal fora possível e daí extrair as necessárias consequências, disciplinares e penais. Claro e inequívoco: tratava-se apenas de esclarecer?? qual das duas hipóteses acontecera: se os investigadores tinham pedido esses elementos ao operador telefónico ou se fora este, sem ter sido solicitado para tal, que os fornecera. Nada mais do que isto e para apurar isto, mesmo ao mais incompetente serviço de investigação do mundo, bastariam três dias, para não dizer três horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sucedeu, uma vez mais, o impensável: passado mês e meio, o procurador nada apurou e, não contente com isso, deixou que os seus magistrados mudassem o sentido do mandado presidencial — em vez de apurarem como e por ordem de quem é que tais elementos tinham ido parar ao processo, resolveram apurar como é que tal noticia tinha ido parar ao jornal. Entretanto, o dr. Souto Moura espera que na&amp;shy;da suceda ate terça-feira próxima, último dia da presidência de Jorge Sampaio, e confia que o novo Presidente não irá mexer num assunto que não foi ele a levantar, criando logo à partida um conflito entre órgãos de soberania. Perfeito, exemplar: nenhuma biografia poderá jamais testemunhar melhor o que tem sido o entendimento das suas funções por parte do dr. Souto Moura — na esteira, aliás, do seu inesquecível antecessor, Cunha Rodrigues, a quem a justiça portuguesa deve muito do estado a que chegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, um juiz de instrução criminal acaba de determinar que os computadores apreendidos a dois jornalistas do «24 Ho&amp;shy;ras» podem ser abertos e livremente vasculhados pelos investigadores a mando do dr. Souto Moura. Para justificar aquilo que, an&amp;shy;tes de mais, é uma extrema violação da privacidade e do segredo profissional, o juiz considerou que «a possibilidade de devassa do sigilo profissional é inferior ao crime que está em discussão». Lê-se esta decisão e fica-se perplexo. Primeiro que tudo, não se percebe bem que crime poderão ter cometido os jornalistas, ao revelarem uma peça que consta de um processo que esta em julgamento. Em seguida, «o crime que está em discussão» é o que consiste no pedido ou no fornecimento indevido dos registos telefónicos do «Envelope 9» — foi isso que o Presidente mandou investigar e isso nunca poderia ter sido feito por jornalistas, mas só por quem tinha poderes para tal. Em terceiro lugar, tendo os jornalistas do «24 Horas» fornecido logo as disquetes referentes ao «Envelope 9», assim que foram visitados pelos investigadores, que mais quererão estes vasculhar nos seus computadores que tenha que ver com esta investigação? E, finalmente, atente-se no desprezo a que o magistrado vota o sigilo profissional dos jornalistas, sem o qual nunca teria existido jornalismo de investigação, a começar por Watergate e a acabar nas denuncias de todos os abusos processuais cometidos durante a instrução do processo Casa Pia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É impossível fugir à conclusão da leitura sobreposta e sucessiva dos factos. A instrução do processo Casa Pia foi revelando algumas práticas investigatórias e alguns métodos de actuação dos magistrados que não são aceitáveis num Estado de direito (felizmente não extensíveis ao julgamento, cuja condução tem sido inatacável). A certa altura, tornou-se mesmo evidente que havia um desvio político na investigação, visando particularmente o Partido Socialista e acabando por vir a ter uma influência determinante no curso da política nacional. Basta recordar o episódio em que às vítimas do caso foi exibido um catálogo de fotografias de potenciais suspeitos e onde se incluíam, entre muitos outros da área política escolhidos a dedo, Mário Soares, Almeida Santos ou Jaime Gama — um método de investigação inédito, aberrante e assustador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa fase da instrução, os investigadores contavam com o apoio geralmente acrítico da imprensa, cujo interesse legítimo em querer sempre saber mais do que se passava lá dentro foram alimentando com sucessivas e oportunas fugas de informação, invariavelmente mandadas investigar e logo deixadas em descanso pelo inabalável Souto Moura. Mas agora, ao que parece, os jornalistas já não estão bem vistos lá por casa. Porque, aos poucos, foram pondo crescentemente em causa coisas estranhas que se iam passando e porque, agora que o Presidente da República resolveu intervir e pedir satisfações pelo «Envelope 9», era preci&amp;shy;so sacudir a água do capote e arranjar bode expiatório mais à mão: os aliados de ontem. Fiquemos atentos, porque vêm aí mais episódios desta roda livre em que funciona a justiça. Para breve, prepara-se a criminalização dos jornalistas pela violação do segredo de justiça: prende-se o mensageiro, que está identificado e não faz parte da corporação, e manda-se investigar «rigorosamente», e sempre fracassadamente, quem Ihe passou a mensagem, a partir do processo que tem à sua guarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 04.03.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-114149885927413285?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114149885927413285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114149885927413285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/03/assalto-ao-computador.html' title='Assalto ao computador'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-114149876405248538</id><published>2006-02-28T18:57:00.000Z</published><updated>2006-03-04T18:59:24.076Z</updated><title type='text'>um perdedor e um ganhador</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;A falta de sorte, os efeitos caprichosos desta nova bola, o talento que Robert tem para cobrar livres e a falta de fé de Baía em corrigir o seu movimento a tempo ditaram uma derrota que foi muito pouco justificada pelo que o Benfica jogou. Este Benfica de anteontem seria tranquilamente digerido sem espinhas por um FC Porto normal, orientado por alguém com ideias normais —tais como ganhar de vez em quando.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1. As estatísticas não ajudam Co Adriaanse nem legitimam as suas ideias, decerto geniais. Anote-se: —em dez jogos contra o seu compatriota e rival Ronald Koeman, perdeu oito, empatou dois, ganhou nenhum; — em nove jogos de importância máxima feitos com o FC Porto esta época, perdeu cinco, empatou três, ganhou um; — nos cinco jogos feitos com os outros três clubes que têm dominado o topo deste Campeonato, perdeu dois, empatou três, ganhou nenhum; — nos sete últimos jogos do Campeonato, com o «revolucionário » sistema de quatro avançados (tão elogiado por tantos comentadores que certamente não são do FC Porto), perdeu dois, empatou dois e ganhou três, tendo marcado um total de seis golos — o que não chega sequer a dar média de um por jogo. Quando as pessoas têm ideias próprias e delas não abdicam diz-se que têm personalidade. Quando essas ideias estão erradas ou dão o resultado adverso do pretendido, e mesmo assim se insiste nelas, em vez de personalidade, diz-se que a pessoa tem manias. E, quando, de falhanço em falhanço, se continua a insistir nas mesmas ideias, com prejuízo dos outros, a mania passa a teimosia. Esse é o problema de Co Adriaanse. Ele ainda não percebeu que o FC Porto não é o Az Alkmaar ou qualquer outra equipa sem nome, sem orçamento e sem responsabilidades para poder servir de cobaia às experiências revolucionárias do seu treinador. Ainda não percebeu bem que a equipa que lhe caiu do céu vir treinar, ao contrário do seu treinador que nunca conquistou nada, está recheada de títulos e era, há menos de dois anos atrás, campeã da Europa e, há um ano, campeã do Mundo. Manifestamente, parece-me haver um erro de interpretação, ou de tradução, de Co Adriaanse relativamente ao contrato de trabalho assinado com o FC Porto: é ele que tem de provar que está ao nível do FC Porto e não este que tem de se adaptar ao génio infrutífero do seu treinador. Na breve antevisão do jogo que aqui publiquei no próprio domingo, escrevi que Co Adriaanse, se realmente queria começar a mostrar que é capaz de conquistar alguma coisa e vencer algum jogo importante, deveria jogar na Luz em 4x3x3 e pôr os melhores nos seus lugares, em vez de continuar a teimar que vai ficar para a história do futebol como o treinador que jogava em todo o lado de peito aberto... e em todo o lado fracassava. Ao escrevê-lo, porém, e ao contrário do que o próprio Ronald Koeman previu, eu já sabia que ele ia insistir no tal esquema de três defesas e quatro avançados, quanto mais não fosse para mostrar a tal personalidade que a tantos deslumbra e serve. E assim foi. O efeito mais imediato deste sistema super ofensivo foi uma repetição do já visto nos jogos anteriores: a incapacidade de marcar golos e de criar oportunidades em número suficiente para tal. A inflação de avançados conduziu a que faltassem os espaços e as ideias, ao ponto de dois deles, o Ivanildo e o Adriano, terem passado o jogo todo sem saber para onde ir e o que fazer ao certo. E, enquanto sobravam avançados na frente, atrapalhando-se uns aos outros, faltava um médio a meio-campo para segurar o jogo e os lançar, e a defesa só não soçobrou porque o Nuno Gomes e o Simão não deram uma prá caixa e mais uma vez ficou à vista que todo este sistema de jogo está dependente de um super-Pepe e um super-Paulo Assunção. A eles deve Co Adriaanse não ter saído da Luz vergado a uma derrota ainda maior, quando, num acesso de total descontrolo, resolveu tirar o Quaresma, que era o único a tentar abrir a defesa do Benfica pelos lados, e meter em campo nada menos do que quatro pontas-de-lança — o McCarthy, o Adriano, o Hugo Almeida e o Lisandro. Ao mesmo tempo que, inevitavelmente, mandava entrar também o fantasma do Jorginho, com tudo isso abrindo verdadeiras avenidas para o contra-ataque encarnado. Uma vez mais, como já me tinha ocorrido no jogo do Dragão da primeira volta, dei comigo a pensar que Adriaanse vai para estes jogos sem ter feito nenhuma das três coisas essenciais no trabalho de casa de um treinador: não estuda os adversários, não elabora um plano de jogo, muito menos adaptável em função dos acontecimentos que vão ocorrendo, e não prepara os lances de bola parada — que nas outras equipas, a começar pelo Benfica, contribuem largamente para a percentagem de golos e neste FC Porto raramente resultam em golo. Chegou a ser confrangedor ver a forma como eram cobrados os livres e os cantos a favor do FC Porto. Agora começo a perceber porquê os treinos no Olival são sempre à porta fechada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. A desculpa de Co Adriaanse para a derrota vai ser o Vítor Baía—até me admira como é que não o disse logo a seguir ao jogo, como é seu hábito. O fim injustíssimo da carreira de Baía foi cientificamente preparado por Adriaanse. Primeiro, tirando-o da baliza após um lance infeliz na Amadora, sem lhe dar hipótese de se redimir. Depois, deixando-o de fora em todos os jogos fáceis, para o relançar num teste de fogo como o da Luz, onde qualquer deslize dele teria consequências praticamente irreversíveis. É claro que Adriaanse não teve culpa que o Helton se tivesse lesionado logo na pior altura, mas teve responsabilidade directa na forma como abalou os índices de confiança de Baía, deixando-o psicologicamente impreparado para regressar neste jogo. Depois, a falta de sorte, os efeitos caprichosos desta nova bola, o talento, parece que único, que Robert tem para cobrar livres, e a falta de fé de Baía em corrigir o seu movimento a tempo, fizeram o resto. Ditaram uma derrota, que pode ter sido merecida pelo que o FC Porto não jogou, mas que foi muito pouco justificada pelo que o Benfica jogou. Este Benfica de anteontem seria tranquilamente digerido sem espinhas por um FC Porto normal, orientado por alguém com ideias normais—tais como ganhar de vez em quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Eis uma coisa que não se pode dizer de José Mourinho. Ele é o verdadeiro exemplo do ganhador, de alguém que, acima de tudo, está ali para ganhar — sempre, se possível. Ao contrário de Adriaanse, Mourinho estuda os adversários ao detalhe e para cada jogo tem uma estratégia montada, a qual tem o dom de antecipar quase sempre o que o adversário vai fazer em cada situação. É por isso que ele vence tantas vezes: porque é um perfeccionista, um profissional completo, um viciado na vitória. Mas há um reverso da medalha, como há sempre. Um, é que Mourinho tem dificuldade em saber perder. O outro é que, quando não há fantasistas na equipa, o futebol dele, se bem que continue vencedor, fica como o futebol do Chelsea: terrivelmente previsível e aborrecido, «industrializado », como alguém o definiu há dias. Já aqui escrevi há tempos que tenho a convicção de que o FC Porto de Mourinho venceria tranquilamente o Chelsea de Mourinho. Esta semana, o Barcelona de Ryjkaard e de Ronaldinho, Deco, Messi e Eto’o, destroçou por completo o futebol científico e sem alma do Chelsea. E só não o esmagou, porque na baliza dos londrinos está um dos três melhores guarda-redes do Mundo. Ainda bem para o futebol, porque o que o Barcelona foi dizer a Stamford Bridge é que o talento, o génio e o improviso ainda são armas determinantes neste jogo. Asangue-frio José Mourinho tinha obrigação de o ter reconhecido e ter cumprimentado o adversário. Desculpar-se coma expulsão de Del Horno e atacar o árbitro foi uma atitude de mau perdedor. Primeiro, porque o Del Horno foi muito bem expulso, pela simples razão de que, não conseguindo aguentar mais a tourada que o Messi lhe estava a dar, resolveu ver se o arrumava de vez. E, segundo, porque antes e depois da expulsão de Del Horno, a superioridade do Barcelona foi tão flagrante, a qualidade e beleza do seu jogo tão superiores, que qualquer outro desfecho seria uma tremenda injustiça. Resta a Mourinho provar em Camp Nou que o Chelsea é mais do que uma equipa quase vulgar, com um grande treinador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 28.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-114149876405248538?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114149876405248538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114149876405248538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/um-perdedor-e-um-ganhador.html' title='um perdedor e um ganhador'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-114070968444270703</id><published>2006-02-21T15:45:00.000Z</published><updated>2006-02-23T15:48:47.756Z</updated><title type='text'>A hora da verdade</title><content type='html'>1. Hoje à noite o Benfica tem um teste elucidativo sobre o seu verdadeiro valor. Teve-o também antes contra o Manchester United, onde passou com distinção, é facto, mas o Manchester desta época e, sobretudo, o de Dezembro passado, é uma pálida imitação dos «red devils» de um passado recente, que tudo atemorizavam. O Liverpool, para além de campeão europeu em título, é melhor equipa e mais calculista. Contra ele, o Benfica tem de jogar o seu máximo e então se verá se o seu máximo está ou não ao mais alto nível europeu. Ao iniciar com uma derrota inapelável este terrível ciclo de nove dias em que tudo se pode sonhar e tudo se pode perder, o Benfica de Ronald Koeman parece ter lançado a descrença entre os seus — adeptos e jornalistas. De repente, a tão louvada equipa de há três semanas atrás parece já não inspirar confiança a ninguém e o seu treinador virou um saco de pancada ao alcance de todas as frustrações. Acusa-se Koeman de mudar constantemente a equipa, como se ele fosse responsável pelas lesões e castigos ou pela chegada de uma mini-enxurrada de reforços em Dezembro, anunciados pela Direcção como o suplemento que faltava para a conquista da Liga dos Campeões e que ele, logicamente, tinha de experimentar e utilizar. E esquecendo-se até de que foi uma dessas inesperadas «revoluções» na formação da equipa que conduziu à também inesperada vitória contra o Manchester. Até se acusa Koeman de já ter experimentado quatro guarda-redes, como se fosse ele o culpado pelas lesões de Quim e de Moreira, pela manifesta impreparação de Nereu, ou pela «épica» contratação de Moretto, delirantemente saudada pela massa associativa e afins. Embora não me motive muito perceber o que se passa em casa alheia, a mim parece-me que, mais prosaicamente, a questão das esperanças traídas no Benfica tem sobretudo a ver com a ilusão criada sobre o valor real da equipa. Tudo começou na época passada, com um Campeonato e uma Taça ganhos de forma que foi tudo menos convincente mas que, por temor ou reverência, ninguém se atreveu a questionar. Por isso, quando Luís Filipe Vieira disse que esta era uma equipa de campeões, toda a gente fingiu que sim, e, quando, reforços acrescentados, ele passou a dizer que esta era uma equipa capaz de chegar à final e talvez ganhar a Champions, continuaram todos a fingir que acreditavam. Depois, houve a vitória sobre o Manchester e a série de sete triunfos consecutivos na Liga portuguesa e foi ver o José Veiga, de peito feito, a anunciar a inevitável revalidação do título e a Europa ao virar da esquina. Mas ninguém se deteve a pensar quantos, desses sete jogos, foram ganhos sem dúvidas de arbitragem e através de exibições convincentes, porque é um crime de lesa-majestade questionar o mérito dos triunfos benfiquistas. E assim se criou a verdade oficial de que estava aí um grande Benfica, que nada nem ninguém conseguiriam parar. Agora, três súbitas derrotas depois, cai-se no extremo oposto. E na pior altura, quando a equipa mais precisava da confiança dos seus. Mas, se entre hoje e domingo, tudo correr mal para os benfiquistas, é certo e sabido que quem semeou os ventos de ilusão não colherá as tempestades de desilusão. Isso está guardado para um bode expiatório mais conveniente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. O Benfica jogava em Guimarães sob o peso de ter três jogadores ameaçados de não poderem defrontar o FC Porto caso vissem um cartão amarelo. Lucílio Baptista foi a escolha adequada para a ocasião (mas digo desde já que nenhum daqueles três mereceu um amarelo). Mas, no resto, Lucílio não deixou os seus predicados por mãos alheias: num jogo sem dureza nem indisciplina, com faltas distribuídas por igual por ambas as equipas, Lucílio Batista conseguiu marcar o dobro de faltas ao Vitória, deixando inúmeras por assinalar contra o Benfica, e mostrar sete cartões amarelos a jogadores do Guimarães contra apenas um aos benfiquistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. E, a propósito do «Apito Dourado », essa mega investigação judicial, que parece ter o condão de vir a arrastar-se durante anos, tornando alguns eternamente suspeitos (ou até mesmo já condenados, a quem isso convém) e outros estranhamente imunes às suspeitas, aguardei com alguma curiosidade o despacho de pronúncia, no que se refere ao presidente do FC Porto. Mas, afinal e como aqui antecipei desde o início, a montanha pariu um rato, ou pior ainda, pariu a insustentável continuação das suspeitas por confirmar. Mais de um ano de investigações decorrido, depois daquele imenso aparato policial-mediático para ouvir o «suspeitíssimo» Pinto da Costa, depois de dezenas ou centenas de milhares de contos gastos aos contribuintes, depois de não sei quantas prorrogações de prazo a favor do Ministério Público, depois do reforço extraordinário dos meios de investigação, a «task force » judicial de Gondomar conclui apenas em extrair certidões do processo para que outros continuem a investigar Pinto da Costa. E, quanto a factos novos, indícios novos, provas recolhidas, nada. A suspeita «gravíssima» mantém-se rigorosamente a mesma de há um ano atrás: em 2004, o FC Porto de José Mourinho, já virtual campeão nacional, com alguns onze pontos de avanço sobre o segundo classificado, o Benfica, a semanas de se tornar campeão europeu, terá subornado, com recurso a «meninas» o árbitro do encontro no Dragão contra o E. Amadora, em vias de despromoção, como forma de garantir a vitória no jogo — parece que, de outra maneira, não conseguiriam ganhar. E é nisto que se gasta o tempo e o dinheiro dos contribuintes: não fazendo justiça, mas mantendo eternas as suspeitas que a tantos convém. Mas também a verdade é que, à luz do que está em causa—e é apenas isto— só acredita, ou finge acreditar, quem quer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. E, pé ante pé, o Sporting está a cinco pontos do FC Porto e poderá ficar a dois se, domingo na Luz, a equipa de Adriaanse falhar mais uma vez num jogo decisivo. Dou-me conta, já há um tempo, que muito pouco ou quase nada tenho escrito sobre o Sporting esta época. A razão é simples e vai parecer escandalosa aos olhos dos indefectíveis sportinguistas, mas acarreto as consequências de porventura vir a ter de engolir o que vou escrever: não vejo que o Sporting tenha futebol para ser campeão nacional, esta época. Estão em segundo lugar, já só a cinco pontos e ainda vão receber o FC Porto em Alvalade? Pois, é facto. Mas, mesmo assim, não me convencem. Ainda esta semana o que vi, contra o Paços de Ferreira e em Alvalade, foi uma equipa que chegou ao golo num penalty duvidoso e caído dos céus, que dele viveu toda a segunda parte, sem criar uma só oportunidade de golo e que, já próximo do final, marcou o segundo golo numa jogada precedida de falta e ainda um terceiro depois da hora. Um 3-0 absolutamente enganador, num jogo que não mereceu sequer ganhar. Como disse, é possível que ainda tenha de engolir esta opinião. Mas, se isso acontecer, é porque o FC Porto entregou o ouro ao bandido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 21.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-114070968444270703?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114070968444270703'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114070968444270703'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/hora-da-verdade.html' title='A hora da verdade'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-114031006792127246</id><published>2006-02-18T00:45:00.000Z</published><updated>2006-02-19T00:47:47.936Z</updated><title type='text'>Dez anos que não abalaram Portugal</title><content type='html'>Dois pontos de partida: um, a afirmação de que Jorge Sampaio é, obviamente, um homem serio, culto e bem intencionado, para quem a política, independentemente da apetência pessoal, é vista como devendo estar sempre ao serviço do bem comum; o outro, a constatação de facto de que Jorge Sampaio presidiu, a partir de Belém, a uma década em que Portugal regrediu em quase tudo — na educação, na economia, nas finanças públicas, na criação de emprego, na agricultura, na defesa do ambiente e na gestão do território, na qualidade da democracia e, até ao ponto de tocar no fundo, na justiça. Note-se que eu não digo que Jorge Sam&amp;shy;paio seja o responsável, ou sequer co-responsável, por este retrocesso do país. Digo simplesmente que presidiu a ele e que o fez à sua maneira, aliás semelhante a forma como dirigiu os destinos de Lisboa durante seis anos: sempre consciente e preocupado com os problemas, e sempre impotente para os ajudar a enfrentar. Houve uma única e notável excepção, que teve a ver com o desenlace da questão de Timor, onde Sampaio — juntamente com Guterres e contra a resistência de Durão Barroso — teve uma intervenção firme e decisiva para que se tenha podido por fim à ocupação de Timor pela Indonésia. Em tudo o resto, mesmo na área da justiça, que melhor dominava e que mais intervenções Ihe inspirou, os seus discursos viveram sempre dessa contradição insanável e desesperante entre o acerto do que dizia e a sensação de absoluta inutilidade do que dizia. Basta atentarmos no ultimo exemplo em data: o que sucedeu com o ultimato dirigido ao procurador-geral da República para que «num prazo curtíssimo», esclarecesse como é que, no âmbito do processo Casa Pia, o Ministério Público entrou na posse da lista dos telefonemas particulares efectuados por um vasto leque de políticos que nada liga ao processo, naquilo que o próprio Presidente classificou como «uma forma intolerável de intromissão na reserva privada dos Portugueses, que não pode passar em claro»? Sucedeu que, uma semana decorrida, Souto Moura foi a Belém segredar qualquer coisa ao Presidente, que aparentemente se deu por satisfeito, nunca mais tendo falado no assunto. E, entretanto, o «curtíssimo pra&amp;shy;zo» já ultrapassou um mês e, como é habitual, o procurador confundiu o que está em causa: em vez de investigar quem obteve e quem facultou essa lista, resolveu investigar o jornal que deu a notícia. E, com isso, o dr. Souto Moura conseguiu o que queria, que era fazer Sampaio esquecer a sua ameaça de extrair do caso «as adequadas consequências», transferindo o ónus de nos livrar de Souto Moura para o Presidente que se segue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim foi também em outras ocasiões e outras matérias igualmente importantes, que ninguém pode dizer que escapem à alçada dos poderes do Presidente. Como a situação de fantochada democrática que se vive na Região Autónoma da Madeira e que mais dez anos de passividade presidencial (incluindo nos discursos não ditos) tornaram já habitual, impune e fora de controlo. E se não é o Presi&amp;shy;dente da Republica a exigir que vigorem em todo o país as mesmas leis em que se funda o Estado democrático, quem será?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim foi igualmente na forma passiva e acrítica com que Sampaio aceitou a indecente deserção de Durão Barroso e o critério de sucessão dinástico-partidária que levou à chefia do Governo, sem que os portugueses o tenham escolhido, o inimaginável Santana Lo&amp;shy;pes. É verdade que, depois e ao primeiro pretexto, nos desembaraçou dele, mas entretanto o país perdeu um ano numa altura crítica e o prestigio das instituições políticas desceu ao seu mais baixo nível da era democrática.&lt;br /&gt;Há uma substancial, e não apenas subtil, diferença entre o que foi a «magistratura de influência» de Mário Soares e a de Jorge Sampaio. Talvez porque Soares tinha um pe&amp;shy;so político próprio, aqui e lá fora, que Sam&amp;shy;paio nunca teve. Talvez porque Soares, ao contrario de Sampaio, concentrou-se no essencial e não se dispersou em milhares de temas, desgastando-se em palavras e mais palavras, ao ponto de já quase ninguém as escutar. Mas, sobretudo, porque Soares não viu o cargo como um púlpito do politicamente correcto ou uma eterna fábrica de consensos, onde tantas vezes o que se exigia era rupturas e escolhas. A grande desilusão que me fica dos anos de Sampaio em Belém é a sensação que ele deixou instalar de que o cargo é perfeitamente inútil. É verdade que ha a «bomba atómica», mas, entre ela e tudo o resto não existe mais nada, nem sequer a possibilidade de usar uma pressão de ar para caçar pardais. O estilo acabou por contagiar o próprio Soares, que, na sua absurda tentativa de rebobinar o filme, nada de melhor encontrou para nos propor do que a promessa de que iria para Belém fazer rigorosamente nada, porque na&amp;shy;da poderia ser feito dentro do quadro dos poderes presidenciais (com toda a lógica, Manuel Alegre chegou a perguntar-lhe porque se candidatava, então). Desconfio que uma das razões da vitoria de Cavaco Silva foi justamente o inconformismo de uma parte do eleitorado, que não aceitou a tese da inutilidade presidencial e que viu nele, bem ou mal, alguém que não se dispunha apenas a passar dez tranquilos anos de vida no Palácio de Belém. A imagem que Soares quis fazer passar de um Cavaco Silva assustadoramente intervencionista teve o efeito exactamente contrário: nas urnas, os eleitores responderam que preferiam isso do que outros dez anos de desempenho presidencial inócuo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, este episódio final da Presidência de Sampaio, esta frenética enxurrada de condecorações — umas públicas, outras as escondidas — e uma espécie de resumo da filosofia que presidiu a estes dez anos. Ao condecorar tudo o que mexe, desde gente com valor até artistas sem qualquer valor, empresários sem mérito algum, gente que se limita a cumprir banalmente a sua profissão ou ex-estalinistas a quem deu a Ordem da Liberdade, Jorge Sampaio revela bem qual é o seu critério na política: não distinguir, não escolher, não susceptibilizar ninguém. É possível que, como ele disse, Eanes e Soares tenham condecorado ainda mais gente, mas, exactamente porque o fizeram ao Iongo de vinte anos, já não restava ao Presiden&amp;shy;te Sampaio gente em qualidade e quantidade suficiente para justificar a total banalização, para não dizer outra palavra, das condecorações presidenciais. Este frenesim condecorativo assenta como uma luva no perfil político de um Presidente que não foi capaz de dar uma lição pública a Durão Barroso, não foi capaz de dizer não a Santana Lopes, não foi capaz de meter na ordem democrática Alberto João Jardim e nem sequer foi ca&amp;shy;paz de despedir o procurador-geral da Repu&amp;shy;blica. Foram dez anos vividos a cultivar os seus tão queridos «consensos» — com o bom, com o mau e com o insustentável. E está à vista de todos o que o país regrediu nestes dez anos de consensos. Valha-nos que, ao menos, não faltam comendadores!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 18.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-114031006792127246?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114031006792127246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114031006792127246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/dez-anos-que-no-abalaram-portugal.html' title='Dez anos que não abalaram Portugal'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-114029213205394529</id><published>2006-02-14T19:44:00.000Z</published><updated>2006-02-18T19:48:52.080Z</updated><title type='text'>Regresso à normalidade</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Como diz António Oliveira, há mais honra em descer à Honra sem dever nada a ninguém que em ficar na Betandwin devendo dinheiro a todos.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1. A jornada 22 do campeonato veio repor a hierarquia habitual do nosso futebol, deixando os três grandes lá em cima, ordenados pela respectiva ordem de grandeza (isto é uma piada a benfiquistas e sportinguistas...). Jogando muito pouco e marcando em dois livres, o Sporting desembaraçou- se naturalmente de um Vitória de Setúbal que, depois do raide benfiquista às suas fileiras, consentido e promovido pelo inesquecível Chumbita Nunes, entrou em queda vertical. Jogando mais que o habitual e com menos azar e revoluções estratégicas que o costume, também o FC Porto cumpriu a sua obrigação de vencer um Belenenses que é uma equipa cuja permanência mais ou menos tranquila na primeira divisão só por si demonstra como é fraca a nossa Liga. E, jogando em casa contra o já condenado Penafiel, o Benfica ganhou também sem problemas de maior, muito embora o resultado seja francamente desproporcionado face ao que se passou e bem pudesse ter sido dispensado aquele terceiro golo, que deve ficar como exemplo extremo daquilo que o futebol não pode ser (tivesse sido o Penafiel, ou qualquer outro adversário, a marcar assim e o Estádio da Luz vinha abaixo). Cabe, entretanto, uma palavra de elogio ao presidente do Penafiel, o antigo e excepcional jogador António Oliveira, que assumiu tranquilamente a mais que provável inevitabilidade da descida, evitando a saída fácil de despedir o treinador, as loucuras de contratações que depois não poderiam ser sustentadas na Liga de Honra, e evitando também o recurso habitual de atirar para cima das arbitragens a responsabilidade pelo inêxito. Até porque, como ele diz, há mais honra em descer à Honra sem dever nada a ninguém que em ficar na Betandwin devendo dinheiro a todos. Recado entregue a muita gente com orelhas a arder. No grupo imediatamente abaixo os resultados da jornada foram diferentes. Enquanto o Boavista somou a quinta vitória consecutiva e já só está a um ponto da zona europeia, confirmando os créditos de Carlos Brito, já o Sp. Braga, mesmo jogando em casa e contra 10 durante meia hora, perdeu dois pontos, que não chegam para compensar o ponto que tão injusta e falsamente conquistara uma semana antes, no Dragão. Tendo vendido quase toda a defesa no defeso de Natal, parece inevitável que tenha iniciado uma curva des cendente, que, a consumar-se, será de difícil travagem e difícil digestão. Enfim, o Nacional sucumbiu com aparato, após uma terrível semana passada entre Alvalade e a Luz, com apenas um golo sofrido em 220 minutos de jogo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. A derrota do Nacional na Luz, nos penalties, e a derrota ao cair do pano do Paredes em Alvalade fazem-me lembrar a remodelação que há muito defendo no injustíssimo regulamento da Taça de Portugal. Defendo a introdução de um sistema duplo: primeiro com discriminação positiva a favor dos mais fracos; e depois, já no final, com igualitarização dos quatro semifinalistas. Assim: até às meias-finais as eliminatórias, a um só jogo, seriam sempre no terreno do clube de divisão inferior ou, sendo ambos da mesma divisão, no terreno daquele que, no momento do sorteio, estivesse mais mal classificado no respectivo campeonato. Quanto às meias-finais, seriam jogadas a duas mãos. Isto permitiria, por um lado, descentralizar e democratizar a Taça, levando-a, regularmente e não excepcionalmente, a lugares onde o grande futebol não chega, e, simultaneamente, dar mais interesse desportivo e mais emoção à competição e, eventualmente até, melhores receitas aos clubes. Por outro lado, o facto de as meias-finais serem a duas mãos daria mais verdade desportiva ao desfecho e mais mérito aos finalistas do Jamor, para além de reintroduzir, ao menos por uma eliminatória, o sistema de eliminação a duas mãos, que actualmente, e com grande saudade minha, não existe em competição alguma. Este sistema tornaria impossível, por exemplo, voltar a suce- der aquilo que sucedeu ao Benfica há dois anos, quando a sorte nos sucessivos sorteios o levou até à final sem nunca ter saído da Luz (e até a final foi jogada no seu campo de treinos habitual, o Estádio Nacional, e, visto o outro finalista ser o FC Porto, escolheu- se para árbitro Lucílio Baptista, que actuou conforme a expectativa). Seguramente que, de todos os troféus arrecadados no Estádio da Luz, este foi aquele cuja conquista menos mérito teve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Não tivesse eu visto na televisão o Inter-Juventus e teria acreditado nas patrióticas descrições dos correspondentes da nossa imprensa desportiva, que fizeram de Figo o «autor de meio golo» e senhor de uma notável exibição, a destoar de todos os outros da equipa. Não vi nada disso, vi que o Inter não jogou nada e Figo teve um ou outro fogacho inconsequente e marcou um canto banal a que o seu colega Walter Samuel correspondeu com um cabeceamento superior — o tal meio golo de Figo. Este patrioteirismo jornalístico, que leva a escrever coisas como «o treinador do Milan optou por fazer descansar Rui Costa», quando ele simplesmente optou por deixá-lo no banco de suplentes, não ajuda a termos verdadeira compreensão do que se passa e até talvez, em alguns casos, tenha contribuído para dar aos nossos candidatos a emigrantes futebolísticos uma falsa impressão de facilidades de triunfar lá fora, que depois se transforma em amargas ilusões. Veja-se o sucedido com a legião portuguesa do Dínamo de Moscovo—em que Costinha acaba de ser a última baixa — e cuja imagem deixada por terras da Rússia deve ter assegurado o fim definitivo daquela galinha dos ovos de oiro. E, por falar em emigrantes do futebol, há coisas que dão que pensar. Quantos italianos alinharam de início pelo Inter contra a Juventus? Um. Quantos ingleses alinharam pelo Chelsea contra o Liverpool? Um. Quantos portugueses alinharam de início pelo Benfica contra o Penafiel? Dois. O capital não tem pátria, o futebol também não. Nós, os espectadores, é que nos esforçamos por fingir que não vemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P. S. — Manuel Fernandes, Marcel e Simão estão em risco: se levarem mais um amarelo não jogam contra o FCPorto, na Luz. Vamos ficar muito atentos à arbitragem do V. Guimarães-Benfica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 14.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-114029213205394529?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114029213205394529'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/114029213205394529'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/regresso-normalidade.html' title='Regresso à normalidade'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113979681930895673</id><published>2006-02-11T02:12:00.000Z</published><updated>2006-02-13T02:13:39.330Z</updated><title type='text'>A desforra de Granada</title><content type='html'>Granada não enfrentou os Reis Católicos por razões de fé ou de religião. Pelo contrário, na corte de Boabdil conviviam muçulmanos, cristãos e judeus, e dessa convivência se fez a que era então, talvez, a mais brilhante civilização do seu tempo, no domínio da arquitectura, da física, da medicina, da matemática, da astrologia. Mas Granada foi sitiada e conquistada por isso mesmo e também pelo território e pela beleza demasiadamente humana do Alhambra. Quando Granada caiu e a reconquista cristã se impôs então a toda a Península, os dois reinos católicos, Portu&amp;shy;gal e Espanha, partiram à conquista do mundo e tornaram-se Impérios marítimos; do Novo Mundo e África ao extremo da Ásia. Inversamente, quando os vencidos de Gra&amp;shy;nada se retiraram para lá do Estreito, de onde tinham vindo séculos antes, nunca mais a civilização árabe e muçulmana recuperou sombra sequer do seu antigo esplendor e liderança. Por isso é que o ano de 1492 (também o da descoberta da América, por Co&amp;shy;lombo) é um marco da história universal e um símbolo de derrota e descalabro que nunca mais foi esquecido e ultrapassado pelos crentes muçulmanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais inverosímil que nos possa parecer, mais de cinco séculos passados e quase quarenta anos depois do homem ter ido à lua, estamos perante uma nova guerra religiosa global, que é também uma guerra de civilizações. Quem disser que ela não existe, ou é ignorante ou diplomata — em qualquer dos casos, perigoso para os tempos que correm. Estamos perante uma espécie de Cruzadas ao contrário, que o Islão lançou contra os «não crentes» — sejam ju&amp;shy;deus, cristãos ou ateus. As Twin Towers, o metro de Londres, a estação de Atocha em Madrid ou a histeria lançada contra os cartonistas dinamarqueses e contra a Dinamarca, são formas modernas de cruzadas travadas em nome de Alá (o Misericordioso...) contra os valores em que nós, no Ocidente, acreditamos. Cinco séculos passados, o Islão tira a sua desforra de Granada, através das suas duas únicas e demolidoras armas: o petróleo e o terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu sei: não é — julga-se — todo o Islão. Mas é o que conta, o que lidera os crentes, o que se escuta na rua e nos jornais, o que doutrina os terroristas, o que prepara a arma nuclear. Em todo o mundo muçulmano houve apenas um jornal, na Jordânia, que ousou escrever que pior que as caricaturas «blasfemas» para o Islão eram os terroristas blasfemos. Mas no dia seguinte o jornal pediu desculpas pelo que escrevera e o direc&amp;shy;tor foi despedido. É verdade também que a rua é incendiada a mando da Síria, do Irão ou da Al-Qaeda, e que há sempre uns palestinianos desocupados para dispararem rajadas de metralhadora para o ar com cara feroz e multidões em estado de histeria induzida, para queimar Embaixadas e bandeiras e ameaçar de morte todos os ocidentais a vista. É possível até que o grosso dos muçulmanos não pense assim, que não acredite numa leitura literal e medieval do Corão e que não se reveja na intolerância nem no terror em nome de Deus que o clero radical ensina nas escolas corânicas e prega nas mesquitas. Mas, se assim é, não os escutamos porque eles têm medo: o terror começa dentro dos seus próprios países e sociedades.&lt;br /&gt;O medo é a outra face de uma moeda chamada liberdade. Onde não há liberdade, há medo; onde há medo, não há liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É justamente isso que hoje nos distingue do Islão: nós temos a liberdade, eles têm o medo como sistema endémico de vida e como arma de arremesso contra «os infiéis». Pelo medo, eles conservam as suas ditaduras, oligárquicas ou teocráticas, e os seus modelos de sociedade onde não existe igualdade de direitos, liberdade de pensamento e de criação, liberdade religiosa, protecção contra os abusos do poder. Hoje, ao contrario do que sucedia em 1492, não conhecemos, em todo o mundo árabe, o nome de um cientista, musico, arquitecto, cineasta, explorador, atleta, enfim, alguém que faca sonhar ou avançar a humanidade. O mais que conhecemos são nomes de xeques milionários e fúteis, ditadores, pregadores do ódio ou terroristas. Os herdeiros da outrora brilhante civilização de Granada nada mais parecem ter para oferecer hoje do que a pro&amp;shy;paganda do ódio, da intolerância e do ter&amp;shy;ror. E de novo o mesmo sinistro grito da Espanha católica fundamentalista e franquista: «viva la muerte!».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é pelo medo, também, que eles esperam ganhar esta batalha contra o Ocidente, destruindo o nosso amor à liberdade. Espe&amp;shy;ram que, aos poucos, sejamos obrigados a chegar ao ponto crucial em que a escolha terá de ser entre a vida ou o nosso modo de vida — a liberdade, a democracia, a tolerância. Sem que isso possa representar qualquer desculpa para os autores materiais, as escutas telefónicas indiscriminadas, as prisões preventivas sem advogado, os interrogatórios secretos em prisões clandestinas, as leis de excepção, a tortura e Guantanamo, tudo isso, tem a autoria moral dos radicais islâmicos e obedece a um plano concertado de implosão das democracias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso ser muito forte, e preciso perceber, co&amp;shy;mo em 1939, que a liberdade é o mais absoluto dos nossos bens e o maior valor da nossa cultura e modo de vida, para ser capaz de lhes resistir. Mas é essencial resistir, porque a alternativa é o regresso à Idade Media e a barbárie. É por isso que o gesto dos Comuns, rejeitando a legislação de segurança interna proposta por Tony Blair, porque ela violava direitos e princípios em que se funda a democracia inglesa, é, apesar das consequências daí resultantes, o sinal de uma grande nação que não se rende nem ajoelha.&lt;br /&gt;Infelizmente, não foi o nosso caso. Pela mão do ministro Freitas do Amaral, e sem necessidade alguma, Portugal foi enxovalhado, coberto de vergonha e de cobardia, por um dos mais tristes textos políticos que já alguém escreveu. Devo dizer que não me espanta por ai além: a nossa «diplomacia» não tem feito mais nada nos últimos 25 anos que não rastejar perante os poderosos, em cada cena e em cada tempo: Angola, Indonésia (com a notável excepção de Guterres e Sampaio), Estados Unidos e, agora, pe&amp;shy;rante os países islâmicos. Um pais tão pequeno e tão indiferente quanto o nosso, só pode ter dois tipos de diplomacia: ou a do «cocktail» e pastel de bacalhau, sem nenhuma pretensão de ter posições próprias; ou então, ter um mínimo de posições decentes, em ocasiões especiais e se alguém estiver a escutar. Mas de há muito que escolhemos uma terceira via: a de, de vez em quando, termos umas posições indecentes, que, valha-nos isso, ninguém leva em conta e a ninguém já espanta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À atenção dos dinamarqueses, convém, todavia, esclarecer que seguramente o ministro Freitas do Amaral se representou apenas a si próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 11.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113979681930895673?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113979681930895673'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113979681930895673'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/desforra-de-granada.html' title='A desforra de Granada'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113979543342519857</id><published>2006-02-07T01:47:00.000Z</published><updated>2006-02-13T01:51:01.586Z</updated><title type='text'>De tudo um pouco</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;É óbvio que os Super Dragões se transformaram num poder paralelo dentro do FC Porto e é óbvio que, se isso aconteceu, foi porque tal lhes foi permitido e estimulado ao mais alto nível: quem semeia ventos colhe tempestades.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Já vi este filme várias vezes: o FC Porto ataca, ataca, ataca, o adversário só defende e, no final, repartem os pontos. Se houvesse justiça no futebol, o FC Porto teria ontem esmagado o Braga por 5-0 ou 6-0. Três bolas nos postes, três defesas maravilhosas de Paulo Santos, três remates de golo ao lado, três jogadas duvidosas na área do Braga. Mas não chegou: mesmo um sistema de jogo maluco — que depende exclusivamente de um super-Pepe para aguentar uma defesa com três homens e um ataque com quatro — não chegou para a vitória. O Braga fez o primeiro remate à baliza do FC Porto exactamente ao minuto 60, permitindo que Helton fizesse enfim, ao fim de três jogos, uma defesa como titular. Depois, Adriaanse deu ordem para recuar, tal como tinha feito contra o Inter, em San Siro, tirando um ponta-de-lança e metendo um defesa- central. E que defesa!— nada menos do que Bruno Alves, um dos autores da vitória do Benfica no Dragão — e que, na sua única intervenção relevante, deu origem ao penalty do empate, provando que não é Pepe quem quer. Aceita-se o penalty, mas, pelo mesmo critério de Bruno Paixão, daí até final, ainda houve tempo para dois lances semelhantes na área do Braga, um sobre Ivanildo, outro sobre Raul Meireles, que, esses, digamos que passaram despercebidos ao senhor de Setúbal, o inesquecível Barão de Campo Maior. E (porque não?), aceitemos também que lhes passou despercebido o offside que esteve na origem do penalty decisivo. Resta o que resta: o «Campeonato está relançado», como se vai escrever hoje, aí por todo o lado. Viva o Campeonato!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. É óbvio que os Super-Dragões se transformaram num poder paralelo dentro do FC Porto e é óbvio que, se isso aconteceu, foi porque tal lhes foi permitido e estimulado ao mais alto nível: quem semeia ventos colhe tempestades. Mas é também evidente que, à parte as atitudes arruaceiras que são o sinal de marca e a razão de existir das claques organizadas, o que os Super Dragões hoje dizem sobre a vida interna do clube (e não apenas sobre o treinador) é aquilo que o grosso dos adeptos pensa, mas não está organizado para dizer. Daí que, obrigado a ponderar entre os serviços prestados no passado e os danos potenciais do presente, Pinto da Costa tenha optado por os abandonar. Até ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Uma das coisas que o futebol tem de desconcertante e atraente é a alternância constante das suas verdades. Numa semana é-se bestial, na outra é-se besta. Durante nove jogos consecutivos, o Benfica acumulou vitórias e foi enchendo o estádio, incendiando as esperanças dos seus adeptos e inchando os seus dirigentes: Vieira passou a falar abertamente no título europeu já este ano e Veiga estava de peito feito, ridicularizando os adversários e falando já como inevitável bicampeão nacional. E, de repente, em dois jogos apenas, tudo ruiu: a sequência de vitórias transformou-se em duas derrotas consecutivas, o intransponível Moretto e a defesa de aço encaixaram seis golos em 180 minutos, as fabulosas contratações de Inverno viraram decepção, o regresso tão desejado do capitão Simão Sabrosa acabou por se traduzir em mal disfarçada desconfiança sobre a sua dedicação ao emblema e a sua utilidade na equipa, o FC Porto continuou em primeiro e até aconteceu o impensável, que foi serem alcançados pelo Sporting. E, todavia, se olharmos com atenção, nem uma coisa foi o apogeu, nem a outra o caos. As nove vitórias consecutivas, tirando a do Manchester, nunca foram consequência de grandes exibições ou de flagrante superioridade, mas sim vitórias tangenciais, muitas vezes ditadas pelo acaso ou dúvidas de arbitragem. E se, contra o Sporting, a equipa estranhamente pareceu nem sequer chegar a entrar no jogo, já contra o Leiria, a meu ver, fez uma das suas melhores exibições, com períodos de grande futebol, acabando derrotado pela tremenda eficácia do adversário no contra-ataque. E a verdade é que os seis golos sofridos e tão comentados, quatro foram em contra-ataque, um de penalty e outro num remate de meia-distância: nenhum resultou de ataque organizado e envolvente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Três mil pessoas assistiram ao último treino do Vitória de Guimarães e 17.000 ao seu jogo contra o Belenenses. É simplesmente notável a dedicação dos adeptos vimaranenses a um clube que jamais foi campeão nacional nem esteve nunca à beira de o ser e que hoje é apoiado na esperança de alcançar o mínimo expectável: que a equipa não caia na II Divisão. Agora, a tarefa parece mais difícil do que nunca. Não apenas porque estão a sete pontos da linha-de-água, mas sobretudo porque a equipa não mostra argumentos para ultrapassar a situação. Escrevi-o aqui logo no início da época, e após ver apenas um jogo do Vitória, que me parecia que iam ter grandes dificuldades este ano para se aguentarem na Superliga. Dispensado Jaime Pacheco, renovada a equipa com uma abundância de contratações em Dezembro, parece-me que nada de assinalável mudou. E, ao contrário do que diz o seu actual treinador, Vítor Pontes, a mim parece-me que o problema principal é que o Vitória não mostrou nunca, ao longo deste Campeonato, ter futebol para ficar na Superliga. O jogo contra o Belenenses foi mais um para confirmar esta opinião: defesa em alvoroço permanente, meio-campo sistematicamente a transviar passes, ataque absolutamente sem ideias. Não é uma questão de ir à bruxa, porque não é sério pretender que o Vitória tem azar em todos os jogos. Por mais que a ideia possa custar a assimilar, a verdade é que um histórico do futebol português se prepara para descer aos infernos por exclusiva incompetência própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Depois de Hernâni e de Calado, mais um jogador do Benfica acusou doping. É claro que é mais um que está inocente — assim como o Kennedy, o Abel Xavier e todos os outros. É mais um caso em que o organismo de um atleta português revela características que a medicina desconhecia. E se todos são inocentes até prova em contrário, já era altura também de todos perceberem que as leis são iguais aqui e no mundo inteiro e que a prova de inocência cabe a quem acusa doping e não a quem controla, e que a forma de o fazer está estabelecida na lei, para vigorar para todos. A explicação da cabala já deu o que tinha a dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. José Mourinho prepara-se para ser campeão de Inglaterra pela segunda vez consecutiva, em dois anos de trabalho. Vence, arrasa e convence. Rebenta com as estatísticas, subverte os recordes, açambarca os prémios. Só há uma coisa que eu, para os meus botões, não consigo explicar: porque é que adormeço sistematicamente a ver o futebol do Chelsea e porque é que acho que o FC Porto de Mourinho (sobretudo o da Taça UEFA) esmagaria este Chelsea de Mourinho? Mas, se uma equipa vence sempre sem entusiasmar, de quem é o mérito das vitórias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 07.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113979543342519857?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113979543342519857'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113979543342519857'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/de-tudo-um-pouco.html' title='De tudo um pouco'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113918366199809529</id><published>2006-02-04T23:51:00.000Z</published><updated>2006-02-05T23:54:22.016Z</updated><title type='text'>O cerco</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Já faltou mais para que um dia destes tenha de passar à clandestinidade ou, no mínimo, tenha de me enfiar em casa a viver os meus vícios secretos.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Já faltou mais para que um dia destes tenha de passar a clandestinidade ou, no mínimo, tenha de me enfiar em casa a viver os meus vícios secretos. Tenho um catalogo deles e todos me parecem ameaçados: sou heterossexual «full time»; fumo, incluindo charutos; bebo; como coisas como pézinhos de coentrada, joaquinzinhos fritos e tordos em vinha d'alhos; vibro com o futebol; jogo cartas, quando arranjo três parceiros para o «bridge» ou quando, de dois em dois anos, passo à porta de um casino e me apetece jogar «black-jack»; não troco por quase nada uma caçada às perdizes entre amigos; acho a tourada um espectáculo deslumbrante, embora não perceba nada do assunto; gosto de ir a pesca «ao corrido» e daquela luta de morte com o peixe, em que ele não quer vir para bordo e eu não quero que ele se solte do anzol; acredito que as pessoas valem pelo seu mérito próprio e que quem tem valor acaba fatalmente por se impor, e por isso sou contra as quotas; deixei de acreditar que o Estado deva gastar os recursos dos contribuintes a tentar reintegrar as «minorias» instaladas na assistência publica, como os ciganos, os drogados, os artistas de varias especialidades ou os desempregados profissionais; sou agnóstico (ou ateu, conforme preferirem) e cada vez mais militantemente, na medida que vou constatando a actualidade crescente da velha sentença de Marx de que "a religião é o ópio dos povos»; formado em direito, tornei-me descrente da lei e da justiça, das suas minudencias e espertezas e da sua falta de objectividade social, e hoje acredito apenas em três fontes legítimas de lei: a natureza, a liberdade e o bom senso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trogloditas como eu vivem cada vez mais a coberto da sua trincheira, numa batalha de retaguarda contra um exercito heterogéneo de moralistas diversos: os profetas do politicamente correcto, os fanáticos religiosos de todos os credos e confissões, os fascistas da saúde, os vigilantes dos bons costumes ou os arautos das ditaduras «alternativas» ou «fracturantes». Se eu digo que nada tenho contra os casamentos homossexuais, mas que, quanto à adopção, sou contra porque ninguém tem o direito de presumir a vontade «alternativa» de uma criança, chamam-me homofónico (e o Parlamento Europeu acaba de votar uma resolução contra esse flagelo, que, como está à vista, varre a Europa inteira); se a uma senhora que anteontem se indignava no «Público" porque detectou um sorriso condescendente do dr. Souto Moura perante a intervenção de uma deputada, na inquirirão sobre escutas na Assembleia da Republica, eu disser que também escutei a intervenção da deputada com um sorriso condescendente, não por ela ser mulher mas por ser notoriamente incompetente para a função, ela responder-me-ia de certeza que eu sou "machista» e jamais aceitaria que lhe invertesse a tese: que o problema não é aquela deputada ser mulher, o problema é aquela mulher ser deputada; se eu tentar explicar por que razão a caça civilizada é um acto natural, chamam-me assassino dos pobres animaizinhos, sem sequer quererem perceber que os animaizinhos só existem porque há quem os crie, quem os cace e quem os coma; se eu chego a Lisboa, co&amp;shy;mo me aconteceu há dias, e, a vinte quilómetros de distancia num céu límpido, vejo uma impressionante nuvem de poluição so&amp;shy;bre a cidade, vão-me dizer que o que incomoda verdadeiramente é o fumo do meu cigarro, e ate já em Espanha e Itália, os meus países mais queridos, tenho de fumar envergonhadameme à porta dos bares e restaurantes, como um cão tinhoso; enfim, se eu escrever velho em vez de «idoso», drogado em vez de «toxicodependente», cego em vez de «invisual», preso em vez de «recluso» ou impotente em vez de «portador de disfunção eréctil", vou ser adoptado nas escolas do país como exemplo do vocabulário que não se deve usar. Vou confessar tudo, vou abrir o peito as balas: estou a ficar farto desta gente, deste cerco de vigilantes da opinião e da moral, deste exército de eunucos intelectuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora vêm-nos com esta historia dos "cartoons» sobre Maomé saídos num jornal dinamarquês. Ao princípio a coisa não teve qualquer importância: um «fait-divers» na vida da liberdade de imprensa num pais democrático. Mas assim que o incidente foi crescendo e que os grandes exportadores de petróleo, com a Arabia Saudita à cabeça, começaram a exigir desculpas de Estado e a ameaçar com represálias ao comercio e às relações económicas e diplomáticas, as opiniões publicas assustaram-se, os governantes europeus meteram a viola da liberdade de imprensa ao saco e a sr.ª comissária europeia para os Direitos Humanos (!) anunciou um inquérito para apurar eventuais sintomas de «racismo» ou de «intolerância religiosa» nos cartoons profanos. Eis aonde se chega na estrada do politicamente correcto: a intolerância religiosa não é de quem quer proibir os «cartoons», mas de quem os publica!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Dinamarca não tem petróleo, mas é um dos países mais civilizados do mundo: tem um verdadeiro Estado Social, uma sociedade aberta que pratica a igualdade de direitos a todos os níveis, respeita todas as crenças, protege todas as minorias, defende o cidadão contra os abusos do Estado e a liberdade contra os poderosos, socorre os doentes e os velhos, ajuda os desfavorecidos, acolhe os exilados, repudia as mordomias do poder, cobra impostos a todos os ricos, sem excepção, e distribui pelos pobres. A Arábia Saudita tem petróleo e pouco mais: é um país onde as mulheres estão excluídas dos direitos, onde a lei e o Estado se confundem com a religião, onde uma oligarquia corrupta e ostentatória divide entre si o grosso das receitas do petróleo, on&amp;shy;de uma policia de costumes varre as ruas em busca de sinais de "imoralidade privada», onde os condenados são enforcados em praça pública, os ladrões decepados e as «adulteras» apedrejadas em nome de um código moral escrito há quase seiscentos anos. E a Dinamarca tem de pedir desculpas à Arábia Saudita por ser como é e por acreditar nos valores em que acredita?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não teria escrito nem publicado «cartoons» a troçar com Maomé ou com a Nossa Senhora de Fátima. Porque respeito as crenças e a sensibilidade religiosa dos outros, por mais absurdas que elas me possam parecer. Mas no meu código de valores — que é o da liberdade — não proíbo que outros o façam, porque a falta de gosto ou de sensibilidade também tem a liberdade de existir. E depois as pessoas escolhem o que adoptar. É essa a grande diferença: seguramente que vai haver quem pegue neste meu texto e o deite ao lixo, indignado. É o seu direito. Mas censurá-lo previamente, como alguns seguramente gostariam, isso não.&lt;br /&gt;É por isso que eu, que todavia sou um apaixonado pelo mundo árabe e islâmico, quanto toca ao essencial, sou europeu — graças a Deus. Pelo menos, enquanto nos deixarem ser e tivermos orgulho e vontade em continuar a ser a sociedade da liberdade e da tolerância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 04.02.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113918366199809529?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113918366199809529'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113918366199809529'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/02/o-cerco.html' title='O cerco'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113888706565152918</id><published>2006-01-31T13:27:00.000Z</published><updated>2006-02-02T13:31:05.670Z</updated><title type='text'>À deriva</title><content type='html'>1. Infelizmente os vândalos de que fala a direcção do FC Porto existem. Existem em todas as áreas, existem no futebol e existem em todos os clubes. Podem atacar em Touriz ou em Vila do Conde, à facada ou à pedrada. O que os torna particularmente notados no futebol é que o futebol é um movimento de multidões e as multidões são cobardes e primárias. Cada vez são menos os que, por maior que seja a sua paixão clubista, até mesmo irracional, não cedem ao ódio, à bestialidade ou à ordinarice. Os que preferem o espectáculo ao resultado, o relvado aos bastidores, o seu clube honrado do que o seu clube vencedor. Os assaltantes do treinador portista Co Adriaanse, anteontem em Vila do Conde, fazem parte do número daqueles que deveriam ser para sempre banidos do futebol — ou do que eles imaginam que o futebol seja. Além do mais desonraram o FC Porto e criaram um incidente que vem retirar força ao sentimento com que hoje se identifica uma larga maioria de adeptos. Numa sociedade civilizada e democrática, de homens livres e não de cobardes, há outra maneira de discordar ou de emitir as suas opiniões: é dizê-las tranquilamente, sem ofensas nem insultos, e depois assinar por baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Co Adriaanse transformou-se no problema central do FC Porto, num factor de divisão entre direcção e adeptos e num motivo de irritação surda e crescente que acabará por afastar os portistas do Dragão. Por ele e pelo que aconteceu antes dele.&lt;br /&gt;Há pouco mais de ano e meio o FC Porto encerrava a época de 2003/04 talvez como a melhor época da sua vida: campeão europeu em título, admirado pelo mundo inteiro, com um estádio novo espectacular, uma situação financeira que lhe teria permitido o gesto impensável de pôr o passivo a zeros e recomeçar aos poucos a reconstruir uma grande equipa. Se tivesse saído na altura Pinto da Costa teria tido direito a uma estátua de fazer inveja ao defunto Kim Il-sung. Mas preferiu ficar e continuar, chamando a si, como é normal, a responsabilidade da sucessão de Mourinho e de provar que os êxitos não se deveram exclusivamente ao treinador. Um ano e meio depois o balanço é devastador: viu-se envolvido, mal ou bem, na provação do Apito Dourado, viu o clube incapaz, na época seguinte, de defender com brio o título europeu e de nem sequer ser capaz de conquistar o título nacional mais fácil das últimas décadas, tendo visto este ano a equipa nem ao menos garantir o terceiro lugar na fase de grupos da Liga dos Campeões. No novo estádio, onde Mourinho só consentira um empate com o Corunha, viu o FC Porto perder com o Benfica, o Sp. Braga, o Boavista, o Artmedia, etc., não esquecendo os 4-0 do Nacional. Já vai no quarto treinador experimentado e em cerca de 30 novos jogadores contratados em duas épocas e, logicamente, com tal política, e apesar dos larguíssimos milhões recolhidos em transferências irrepetíveis, viu as contas regressarem ao vermelho e tem hoje uma equipa mais cara que a que foi campeã da Europa. O que resta de positivo? Vai à frente do campeonato, com quatro pontos de avanço. Pois sim, mas...&lt;br /&gt;Para começar, não é grande proeza ir à frente do campeonato. O campeonato é o que resta, depois da indecente despedida prematura da Europa, pela primeira vez em 12 anos e com os consequentes prejuízos financeiros. Depois, é o mínimo exigível a quem tem um orçamento para o futebol que é 50% superior a um dos rivais e 100% superior ao do outro. Além de que é uma liderança que tem tudo para ser provisória. Empatou em casa com o Sporting e perdeu com o Benfica — o que terá consequências em caso de desempate. E, das quatro deslocações a Lisboa, já perdeu a primeira e faltam-lhe as mais difíceis. Enfim, e sobretudo, tem um problema chamado Co Adriaanse, em quem neste momento ninguém é capaz de apostar um chavo sobre a sua capacidade de levar a equipa ao título e de regresso à lista dos grandes da Europa.&lt;br /&gt;De início, como se recordarão os meus leitores habituais, fiquei entusiasmado com o futebol exibido pela equipa treinada por Adriaanse: o jogo era espectacular, era aberto, ofensivo, entusiasmante. A única dúvida que manifestei era a de saber se a equipa conseguiria manter aquele ritmo ao longo da época e se acumularia o espectáculo com os resultados, visto que a defesa me parecia bem vulnerável. O resto foram dúvidas pontuais: se o Postiga seria mesmo um número 10 e se não haveria melhor ocupação para o Quaresma que o banco de suplentes. Mas, no essencial, dei a Adriaanse bem mais que o benefício da dúvida. Comecei a oscilar na minha crença depois das derrotas na Liga dos Campeões— com o Rangers, com o Artmedia e com o Inter —, todas elas com uma flagrante dose de responsabilidade por parte do treinador. E mudei de campo de vez quando vi a forma quase científica como ele preparou a derrota com o Benfica. Depois disso, e tal como o grosso dos adeptos e a totalidade dos observadores, limitei-me a ir constatando o total desnorte para que caminhava Adriaanse. Desnorte na forma desastrada e desrespeitosa com que trata jogadores que são símbolos do clube e que lhe deveriam ser essenciais na gestão humana da equipa; desnorte na forma como insiste semanas a fio em jogadores sem capacidade para a primeira equipa, para depois, sem aviso algum, os votar ao total esquecimento; desnorte na forma como tira da equipa, sem justificação compreensível, jogadores que acabaram de fazer um grande jogo e, inversamente, insiste noutros que ninguém percebe porque lá estão; desnorte na preparação dos jogos mais complicados, em que parece nunca saber o que esperar do adversário; desnorte, enfim, no sistema de jogo, que já foi 4x3x3, 4x2x4, 3x4x3 ou 3x3x4. Se alguma palavra pode definir este percurso errático de Co Adriaanse nestes sete meses que leva à frente do FC Porto, é essa: desnorte. Ninguém sabe para onde vai, ninguém sabe se ele sabe para onde vai.&lt;br /&gt;Entretanto, desmantelou por completo a equipa campeã da Europa (não resta um único a titular!), transformou aquilo numa escola de samba com dois argentinos para disfarçar, não consegue mostrar nenhum estilo de jogo nem jogadas rotinadas no ataque ou nas bolas paradas (e só faz treinos à porta fechada!) e, por mais avançados com que jogue ou que experimente, vive miseravelmente dependente da inspiração de Ricardo Quaresma para conseguir chegar a uns golitos de vez em quando. Quanto ao futebol-espectáculo do início da época, bom, só resta mesmo a breve memória de uma coisa que se tornou confrangedora. Pelo que Pinto da Costa tem aqui um sério problema, agravado, ainda por cima, por aquela sua bravata de ter prorrogado o contrato de Adriaanse antes que ele tivesse dado provas de competência. Agora, despedi-lo e aos seus é coisa para custar uns dois ou três milhões de euros— além do reconhecimento público de que, pela quarta vez consecutiva, se voltou a enganar na principal das suas atribuições. Não o despedir é assistir conformado a episódios como o do Jorge Costa e o do Baía (e tentar desviar as atenções com ridículos episódios de desprestigiante guerrilha com José Veiga), é ver talentos em crescimento a serem desperdiçados, mais e mais jogadores a serem contratados, na esperança vã de fazer daquele agrupamento um arremedo de equipa ganhadora, e ter de assobiar para o ar para também ele fingir que não vê os lenços brancos que vão varrendo o coração dos adeptos... antes que, em lugar de lenços brancos, haja cada vez mais e mais lugares desertos nas bancadas do Dragão. No lugar de Pinto da Costa, tudo ponderado, eu sei o que fazia: despedia-o. Porque já deu para ver que não vale a pena esperar por um milagre. Co Adriaanse simplesmente não serve para o lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Também na Luz, este fim-de-semana, se escreveu um capítulo desta mesma história: a arrogância só é perdoável quando é sustentada no mérito por todos reconhecido. De outro modo é apenas a jactância dos que se imaginam grandes (e não me refiro a Ronald Koeman, um senhor, tanto nas vitórias como nas derrotas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 31.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113888706565152918?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113888706565152918'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113888706565152918'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/deriva.html' title='À deriva'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113850382426271598</id><published>2006-01-28T03:00:00.000Z</published><updated>2006-01-29T03:03:44.283Z</updated><title type='text'>Cruel é o tempo</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O “Soares é fixe” de 2006 tornou-se uma caricatura do original&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peço desculpa por começar par me citar, para mais ainda em escrito publicado noutro lado: no “Público”, em Agosto deste ano, no dia seguinte à apresentação publica da candidatura presidencial  de  Mário Soares. Mas às vezes é necessário relembrar o princípio para melhor se fundamentar o final. Escrevi então:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Nao sei que amplos sectores da sociedade terão convencido Mário Soares a esquecer o “bom senso” de que ele próprio falava meses atrás e a lançar-se numa aventura que, tudo o indica, terminará de forma inglória e porá termo, enfim e da forma mais injusta, a um percurso político como não há nenhum outro em Portugal... A candidatura de Soares não vem renovar nem regenerar nada. Pelo contrário, vem dizer às pessoas que não há saída nos anos mais próximos. Não havia necessidade de voltar para nos dizer isto”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contados os votos, domingo passado, devo confessar que, ao contrário de quase todos, o que me surpreendeu, apesar de tudo, foi as coisas não terem acabado ainda pior; momentos houve, durante a campanha, em que temi que Mário Soares ficasse algures na fasquia dos 10%. Mas não era preciso ser grande adivinho para ter percebido desde o início que, com mais ou menos percentagem, o resultado final seria sempre devastador. O que me espantou, sim, é que o célebre “instinto político” de Mário Soares tenha estado totalmente ausente, quando ele anunciou ao país que era o único capaz de evitar “o passeio triunfal de Cavaco Silva” e por isso se candidatava. E revolta-me até que, tal como disse Pacheco Pereira, na hora em que ele precisou de amigos, não tenha havido um único com coragem para lhe dizer que caminhava para o desastre. E que acabaria afinal, como acabou, a tornar certa a vitoria de Cavaco Silva à primeira volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais penoso que tudo foi o sentimento de comiseração que ele inspirou no final da campanha e que de todo não merecia nem vai bem com ele. Vê-lo, abandonado pelo partido que o empurrou para a frente, a percorrer em desespero aldeias, vilas e vilórias, na expectativa absurda de fazer ressuscitar a história e conseguir, por uma última vez, levantar de nenhures a mágica “vaga de fundo" que só existia na sua obstinada cegueira e na sua infanta precipitação de Agosto passado. Vê-lo naquela constrangente procura de quem se lembrasse ainda que “Soares é fixe!”, como um actor sem palco ou um rei sem súbditos, vê-lo naquele espadeirar à toa do debate com Cavaco, tu&amp;shy;do isso foi penoso, tudo isso foi tragicamente inútil. De facto, não havia necessidade alguma.&lt;br /&gt;Na noite das eleições, houve quem falasse da "injustiça” dos Portugueses para com Soares, quem se queixasse dos “atrasados mentais" dos eleitores. O Vasco Pulido, que começou por desancar Soares quando ele se candidatou, acabou a chorar de arrependimento. A Clara Ferreira Alves, no final de um texto de homenagem a Soares que toda agente séria poderia assinar por baixo, terminou a anunciar que “o tempo que vivemos é medíocre, os punhais brilham na sombra de César. É tudo lindo, mas não é disso que se trata e agora já é tarde para lágrimas e lamentos. Não houve punhais nem cizânias, nem traições ou injustiças. Houve simplesmente o tal bom senso, que, tendo desertado de Mário Soares e do seu séquito, foi tranquilamente relembrado pelos destinatários naturais da política, as pessoas, como diz Cavaco Silva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja conveniente lembrar que esta eleição presidencial não foi e não podia ser, nem acessoriamente, um referendo à pessoa de Mário Soares. Não se perguntava aos Portugueses se eles ainda gostavam de Mário Soares, se ainda lhe estavam reconhecidos pelo seu passado e serviços prestados ao país. Se a questão fosse essa, Soares tinha ganho e tinha esmagado. Mas o que se Ihes perguntava era se sentiam uma necessidade imperiosa no regresso de Soares ao poder, tal co&amp;shy;mo ele próprio dizia sentir, para salvação do país. E os Portugueses responderam que não. Obrigado pela disponibilidade, mas não há necessidade. Tão simples quanto isto.&lt;br /&gt;Este desnecessário epilogo na carreira de um grande homem não é virgem, tal como já foi lembrado. Churchill foi definitivamente dispensado pelos ingleses quando, pela terceira vez no pós-guerra, se candidatou a primeiro-ministro e quan&amp;shy;do todos j o imaginavam entretido para sempre a escrever as memórias e a pintar no Funchal ou em Marraquexe. E De Gaulle foi mandado descansar de vez pa&amp;shy;ra Colombey, quando decidiu promover mais um dos cíclicos referendos que gostava de fazer para, como escreveu Jean Daniel, “nos perguntar se ainda gosta&amp;shy;mos dele”. Nenhum perdeu o seu imenso lugar na história pelo facto de a terem encerrado com uma derrota. Mas escusavam de ter amargurado os seus finais de vida com o sentimento de terem sido vítimas de uma ingratidão que, afinal, nunca existiu. E escusavam de nos ter deixado pensar se o poder é mesmo uma adição sem cura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1987, o "Soares é fixe!" correspondia exactamente à ideia daquilo que a maioria dos Portugueses queria de um Presidente da República: que fosse um democrata tranquilo, um homem sem questões pendentes com a liberdade e com a vida, com o país e com o mundo. Alguém que pusesse fim ao longo ciclo das presidências militares e que devolvesse a civilidade, a simplicidade e a naturalidade democrática ao cargo. Soares fez tudo isso, de uma forma natural e exem&amp;shy;plar. Saiu com o aplauso geral e de contas definitivamente saldadas — ele com os Portugueses, os Portugueses com ele. Ou assim pareceu: dez anos depois, a patética tentativa de regresso à cena mostrou que ele, afinal, não tinha as contas salda&amp;shy;das e que, por mais desfiles mundanos de esquerda que tenha feito entretanto e por mais conferências em que tenha estado, não conseguiu ler lucidamente os sinais do tempo que vivemos. O “Soares é fixe!” de 2006 tornou-se uma caricatura do original.Agora, no seu silêncio de Nafarros, deve estar a pensar como é que 50% dos Portugueses preferiram a mensagem de Cavaco Silva e 20% preferiram a de Manuel Alegre — por mais vazia que tenha sido uma e mais confusa a outra. Mas bastaria ter perguntado a um verdadeiro amigo, sem pretensões a cortesão, e ele ter-lhe-ia dito que cruéis não são os eleitores, cruel é o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 28.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113850382426271598?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113850382426271598'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113850382426271598'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/cruel-o-tempo.html' title='Cruel é o tempo'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113847215503189835</id><published>2006-01-24T18:12:00.000Z</published><updated>2006-01-28T18:16:59.543Z</updated><title type='text'>25 Abril sempre!</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Sinto que anda no ar uma atmosfera do antigamente, um projecto subliminar de subversão das regras democráticas do jogo, para regressar aos pacíficos tempos em que o mais forte mandava e os outros obedeciam.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Anteontem, tal como milhões de outros portugueses, fui votar nas eleições presidenciais. Nos últimos 31 anos, desde que vivemos em democracia, nunca deixei de votar. Muitas vezes votei em branco (o mais político e significativo dos votos) mas nunca deixei que os outros decidissem por mim, sem que eu próprio fosse consultado. Esse é o meu direito e simultaneamente o meu dever. Na minha maneira de ver as coisas, quem foge aos impostos e abstém-se nas eleições não tem o direito de se queixar do que quer que seja. A cidadania democrática exige que se cumpram primeiro os deveres e só depois se reclamem os direitos.&lt;br /&gt;Além do mais, gosto dos dias de eleições. Gosto da alegria tranquila dos portugueses nas ruas, daquela sensação de que é um dia especial — o nosso dia, o dia em que somos ouvidos e tudo se decide às claras, em que a opinião de cada um conta exactamente o mesmo que a opinião dos outros. Gosto dessa festa da democracia que se sente no ar, das famílias caminhando para as assembleias de voto, dos fatos domingueiros, dos vizinhos que se encontram para votar e falam-se, como às vezes não se falam durante um ano inteiro. Vivi toda a minha infância e juventude à espera disto e nunca ninguém mais me tirará isto. O meu 25 de Abril.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meio a sério, meio a brincar, costumo dizer que o 25 de Abril só se cumpriu verdadeiramente quando a democracia chegou também ao futebol. Quando, em1978, o FC Porto pôde, enfim, ser campeão e pôr fim ao oligopólio lisboeta do Benfica- Sporting, instalado nos hábitos e cultura do Estado Novo e do País. Nesse dia o país futebolístico democratizou-se também, abriu-se a uma nova fronteira—o Porto e o Norte—a que, mais tarde, se juntou também o Boavista. Não aceitarei em silêncio que ninguém mais me volte a tirar isto. E se hoje o escrevo, tendo como ponto de partida de reflexão as eleições de domingo passado, é porque sinto que anda no ar uma atmosfera do antigamente, um projecto subliminar de subversão das regras democráticas do jogo, para regressar aos pacíficos tempos em que o mais forte mandava e os outros obedeciam. Há umnevoeiro de arrogância reencontrada e subserviência correspondente,um todo-poderoso que atropela as regras, reclama privilégios de autoridade e exige dos outros silêncio, medo e obediência. Sabem a que me refiro: os sinais estão todos aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Perguntava Maló que interesse poderá ter tido um clube como a Académica em emprestar um jogador ao Benfica. O contrário sempre se viu, agora um clube pequeno emprestar um jogador a um grande nunca se tinha visto. Tentemos perceber olhando mais de perto uma história contada com grandes cerimónias e dúvidas silenciadas.Marcel era o melhor jogador da Académica.Em15 jogos tinha marcado nove dos 14 golos da equipa. Depois dele julgo que a Académica não voltou a marcar. Custou caro aos estudantes, em Julho passado, e tinha uma cláusula de rescisão de 3,5 milhões de euros. Quinze dias antes do jogo como Benfica deixou de comparecer no clube, com quem tinha contrato válido e, que conste, salários em dia e nenhum motivo de conflito. No dia seguinte ao jogo com o Benfica, a que não compareceu, apresentou-se na Luz, como novo reforço benfiquista e declarando que tinha sido contactado «oficialmente» pelo Benfica... 15 dias antes — ou seja, exactamente quando desapareceu de Coimbra. Já José Fonte, do Vitória de Setúbal, tinha feito semelhante: rescindiu unilateralmente com o Vitória na véspera do jogo com o Benfica e apareceu na Luz, como novo reforço, no dia seguinte ao jogo. E ambos confessando-se benfiquistas desde a infância. Transparente.Mas o negócio de Marcel é, de facto, curioso. A Académica ficou sem ele, teve de ir ao mercado comprar um substituto e não viu um tostão do Benfica pelo negócio. Foi emprestado, com direito de opção em Julho próximo. Quer isto dizer que, mesmo que o Benfica pague a totalidade dos seus salários até Julho, a Académica só pode sair a perder do negócio: ou o Benfica o devolve em Julho, porque não gostou dele, ou exerce o direito de opção, mas de certeza que por menos que os 3,5milhões, porque nessa altura tanto o Benfica como o jogador estarão numa posição de força privilegiada (e que agora já demonstraram) para forçar o desconto que quiserem. Que ganhou a Académica? E, se cair na II Divisão (como caiu o Estoril no ano passado, depois de ter sido forçado ao negócio da troca de campo no jogo com o Benfica), quanto lhe terá custado o voo de rapina da águia?Veja-se o Vitória de Setúbal: já sofreu tantos golos em três jogos sem o Moretto como os que tinha sofrido em 15 com o Moretto. E foi forçado a vendê-lo tão barato que o próprio presidente do Benfica se comoveu e decidiu acrescentaruma gorjeta ao preço pago (?). E o patético Chumbita ainda se prestou a uma coisa inédita, que foi participar na cerimónia de apresentação do jogador aos sócios do Benfica. Agora a única esperança de viabilidade do Vitória é esperar que o Governo aprove um projecto de urbanização que é uma vergonha pública mas permitirá salvar um clube que está falido por actos de gestão como este.Este fim-de-semana, pelo menos, houve uma alteração de métodos. Na véspera de jogar com o Gil Vicente o Benfica não tratou de seduzir ou desviar nenhum jogador do adversário (não havia nenhum que o justificasse): desta vez limitou- se a prometer que, depois do jogo, lhe emprestaria dois jogadores. Uns cavalheiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Em Braga, quando se viu derrotado, Nuno Gomes sugeriu por gesto explícito que os adversários estavam drogados. O País inteiro viu na televisão e percebeu a mensagem. Na Figueira da Foz, contra a Naval, Co Adriaanse terá exclamado para dentro do campo «é falta!», a propósito de uma jogada qualquer. Ninguém viu nem ouviu, excepto o árbitro. Nuno Gomes levou de castigo 450 euros de multa; Co Adriaanse levou dois jogos de suspensão. Que falta que têm feito este ano as cotoveladas do McCarthy! Desde que ele recolheu os cotovelos, já repararam que nunca mais houve uma cotovelada no futebol português? Anda tudo tão santinho que até um tipo dizer «é falta!» é considerado uma ofensa grave...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Mas, à falta de cotovelos portistas, temos mãos. Uma abundância de mãos, de adversários benfiquistas. Encomendei uma sondagem à Euroteste: nos últimos 30 jogos da Liga (o que abrange também a parte final do campeonato do ano passado), 90 por cento das mãos ou supostas mãos sancionadas dentro das áreas resultaram em penalties a favor do Benfica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. O campeonato está na sua fase decisiva, em que quem se destacar agora tem todas as possibilidades de já não ser alcançado. Sábado joga-se o Benfica-Sporting, domingo o Rio Ave- FC Porto. Pois foi justamente nesta altura que a FPF engendrou um acontecimento chamado Torneio Vale do Tejo, em que a Selecção B de Portugal (uma coisa que nem sabíamos que existia) vai ter de defrontar, entre quarta e sexta-feira próximas, umas obscuras selecções do Leste. Convocados para este importantíssimo torneio estão quatro jogadores do Sporting, todos eles titulares habituais, e cinco do FC Porto, entre os quais o decisivo Ricardo Quaresma. Do Benfica... nenhum. Segundo explicou o seleccionador, o Manuel Fernandes, por exemplo, «está debilitado fisicamente e nos próximos tempos nem sei se posso contar com ele». Será o mesmo Manuel Fernandes que, no sábado passado, jogou a partida inteira contra o Gil Vicente?Que torneio irão inventar na semana do Benfica-FC Porto — o Torneio Segunda Circular ou o Torneio Benfica Campeão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 24.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113847215503189835?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113847215503189835'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113847215503189835'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/25-abril-sempre.html' title='25 Abril sempre!'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113806132058663708</id><published>2006-01-20T00:06:00.000Z</published><updated>2006-01-24T00:08:40.600Z</updated><title type='text'>Desta vez é a sério</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;As “nações indispensáveis” não se podem dar ao luxo de ser chefiadas por incompetentes.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há três anos, muitos quiseram acreditar que os Estados Unidos falavam verdade quando agitavam a ameaça das armas de destruição maciça de Saddam Hussein, para justificar uma guerra de invasão e ocupação do Iraque. Excepção feita ao derrube do regime — o mais fácil de consumar — os Estados Unidos perderam a Guerra do Iraque em todos e cada um dos seus objectivos: não conseguiram justificar a guerra encontrando armas ou vestígios de tal, não pacificaram o país, não o democratizaram nem desenvolveram, não fizeram baixar os preços do petróleo, não melhoraram as relações do Ocidente com o mundo árabe e muçulmano e, pior do que tudo, longe de domesticarem o terrorismo, ocuparam o Iraque — onde não existia, como se provou, qualquer ligação ao terrorismo islâmico — e transformaram-no no território por excelência do recrutamento, treino e aplicação diária do ter&amp;shy;ror pregado pelos “mullahs” e pelo estado-maior da Al-Qaeda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas num plano a Administração Bush conseguiu ganhar previamente a guerra: no plano da opinião publica americana e mundial. Fê-lo através da contribuição decisiva de uma plêiade de jornalistas, analistas e intelectuais, para quem o sim&amp;shy;ples facto de contestar ou por em duvida as verdades e as prioridades proclamadas pelo Império constitui crime de capitulação. Um Presidente, cuja pública e notável ignorância, acrescida da correspondente arrogância dos ignorantes, deveria ter constituído motivo suficiente para duvidar da sua competência à frente dos destinos daquela a que a ex-secretaria de Estado Madeleine Albright chamou um dia “a nação indispensável”, conseguiu conquistar afinal o concurso de uma quantidade determinante de gente pensante — tão mais conquistada para a no&amp;shy;va cruzada quão mais esquerdista e anti-americano tinha sido o seu passado; por todos, Durão Barroso.&lt;br /&gt;Eles desprezaram voluntariamente todas as dúvidas pertinentes, todas as informações contraditórias, todos os relatórios que não confirmavam, acerca do Ira&amp;shy;que de Saddam, as verdades americanas. A tudo responderam com o estafado argumento de Munich e Chamberlain. Ho&amp;shy;je respondem com o estafado argumento de que não sabiam. Não sabiam que Colin Powell aceitou mentir perante o Conselho de Segurança da ONU, que os servi&amp;shy;ços secretos americanos e ingleses receberam instruções para exagerarem as informações sobre a ameaça nuclear iraquiana e apagar dos relatórios tudo o que a contradissesse, que Bush era capaz de mentir “olhos nos olhos” e que Blair era capaz de Ihe cobrir o jogo para melhor torpedear a Europa. Mas a questão não era de saber ou não saber (houve mesmo quem aqui tivesse usado o argumento invertido de que não era possível saber se Saddam tinha ou não armas de destruição maciça sem invadir o Iraque para o apurar). A questão era a de aceitar que se desencadeasse uma guerra no Médio-Oriente, à revelia das Nações Unidas e do direito internacional, em nome de uma suposta ameaça não provada. E a de saber o que se faria depois de derrubado Saddam — em particular, o que se fa&amp;shy;ria se, afinal, como veio a suceder, conquistado o Iraque, não fossem descobertos silos nucleares enterrados no deserto nem ninhos de terroristas arregimentados pela Al-Qaeda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É pena que não tenham respondido previamente a essas interrogações e dúvidas mais do que legitimas, porque agora estariam em boa posição para serem escutados na resposta a pergunta que hoje se coloca: o que fazer com a ameaça, esta real e premente, do programa nuclear do Irão dos “ayahtollas”e do desvairado Mahmud Ahmadinejad? Se não tivessem estendido o tapete para que George W. Bush tivesse tido a sua guerrazinha, que o seu desonroso passado militar e a sua absoluta falta de ideias de política interna ou externa tanto necessitavam, hoje seria mais fácil explicar às Nações Unidas, a Rússia, a China, ao mundo árabe e a opinião publica ocidental que a ameaça do Irão é para ser levada a serio e para ser enfrentada — como foi, há quinze anos, a ameaça de Saddam sobre os países do Golfo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a verdade é que a perspectiva de um Irão nuclear e agressivo existe e representa o pior pesadelo de um “Esta-do-pária”, desligado da obediência à lei internacional e dotado das armas capazes de o transformar em factor de destabilização e terror permanentes. E, perante este “clear and present danger”, os Es&amp;shy;tados Unidos não têm capacidade militar de policiamento, os dirigentes ocidentais não têm armas de resposta, tirando as definitivas, e a opinião publica não é facilmente mobilizável para a necessidade de a resposta à ameaça poder chegar ao ponto de uma guerra preventiva de autodefesa. Tudo por causa da aventura trágica e estúpida do Iraque. Porque as “nações indispensáveis” não se podem dar ao luxo de ser chefiadas por incompetentes. E as “nações menos indispensáveis” não podem acriticamente tolerar uma liderança incompetente e depois esperar que tudo corra pelo melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há guerras legitimas e ilegítimas e a única coisa que distingue umas das outras é a sua necessidade e inevitabilidade. Era necessário correr com Saddam do Koweit, em 91, e por termo à sua fatal escalada subsequente, e essa necessidade tornou-se uma inevitabilidade militar, quando ficou evidente que nenhuma outra via funcionaria. Era inevitável e necessário perseguir a Al-Qaeda até ao Afeganistão, depois das Twin Towers. Não era necessário nem inevitável a guerra aérea “suja” sobre os céus de Belgrado a pretexto do Kosovo, nem era necessária ou inevitável a invasão do Iraque. Nem tudo o que Washington decide tem de ser aceite pelos seus aliados naturais. E, aliás, a historia ensina-nos que os Estados Unidos só respeitam os aliados com poder de decisão autónoma. Os outros, como nós, usam e desprezam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, eis onde estamos: não se pode ameaçar o Irão com sanções diplomáticas porque isso não Ihes diz nada; não se pode ameaça-los com sanções económicas porque eles respondem com o petróleo; não se pode ameaça-los com o uso da força porque ela teria de ser tamanha e, mesmo assim, de desfecho tão incerto, que não há coragem política nem clima na opinião pública para o fazer. Washington e a Europa estão nas mãos de aliados incertos: a China, que importa 20% do seu petróleo do Irão; a Rússia, que vê com bons olhos a existência de um pais que não faz parte do cerco que os Estados Unidos montaram à sua volta, com a ajuda da NATO e uma perigosa ligeireza. E, enfim, aquele que ninguém ousa nomear em público: o amigo israelita — que, com a conivência e cooperação das potências ocidentais, se transformou no único Estado nuclear do Médio- Oriente. Julga-se que exactamente para situações destas.Vem aí um ano de todos os perigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 20.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113806132058663708?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113806132058663708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113806132058663708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/desta-vez-srio.html' title='Desta vez é a sério'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113768474906433017</id><published>2006-01-17T15:14:00.000Z</published><updated>2006-01-19T15:32:29.080Z</updated><title type='text'>Coisas que acontecem</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;É falacioso dizer-se que uma equipa como a do FC Porto é favorita à partida num campo como o da Reboleira. Não é: se as suas principais armas, que caracterizam a tal superioridade teórica, estão anuladas ab inicio pelas condições físicas do terreno de jogo, não pode ser favorita.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1. Sempre me bati contra uma escola estabelecida na crítica futebolística portuguesa e que consiste em embandeirar em arco de cada vez que um pequeno bate o pé a um grande, independentemente da forma como o consegue. Ora, eu também sempre gostei de ver o David vencer o Golias, mas é preciso que a luta seja leal e não com aspectos de emboscada. Além do mais, e no que ao futebol diz respeito, já não vivemos no tempo em que uns eram profissionais e os outros só tinham direito a uma sanduíche e uma laranjada. Hoje são todos profissionais, os métodos de treino são conhecidos e copiados e em aspectos determinantes, como a condição física (que, acima de tudo, depende do trabalho e do sofrimento), nada justifica que um pequeno seja mais fraco que um grande — até porque normalmente têm muito menos jogos disputados e muito menos cansaço e stress acumulados. Se hoje ainda fosse assim uma coisa tão extraordinária ver um pequeno a vencer um grande não faria sentido algum termos um campeonato com 18 equipas.&lt;br /&gt;Mas a generalidade da nossa crítica não pensa assim: olha apenas para o resultado e delira de cada vez que o David empata ou vence o Golias — sobretudo se, no papel de Golias, estiver o FC Porto. O jogo de anteontem na Reboleira foi um bom exemplo disto. A forma como o Estrela derrotou o FC Porto e a forma entusiástica como a crítica saudou esse triunfo são o espelho fiel de uma certa crítica que, a meu ver, transforma em motivo de celebração coisas que caracterizam um futebol subdesenvolvido. Em países de futebol adulto, como a Inglaterra, seria impossível lerem-se críticas como aqui se leram a propósito deste jogo. E, desde logo, porque lá o fundamental é a qualidade do espectáculo e a igualdade de armas. Um campo como o da Reboleira — com dimensões mínimas, relva tipo chapa ondulada, sem espaço nas laterais sequer para marcar um canto em condições — só pode assegurar um mau espectáculo de futebol, porque necessariamente a técnica individual e o aproveitamento dos espaços, que são o bonito do futebol, ficam desde logo anulados. E, assim sendo, é falacioso dizer-se que uma equipa como a do FC Porto é favorita à partida num campo como o da Reboleira. Não é: se as suas principais armas, que caracterizam a tal superioridade teórica, estão anuladas ab inicio pelas condições físicas do terreno de jogo, não pode ser favorita. Pelo contrário, entra em desvantagem, porque vai ter de aprender do zero os truques que aquele terreno impõe e o adversário conhece bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não foi apenas isso que aconteceu na Reboleira. Aconteceu também que houve uma equipa cheia de sorte e outra sem sorte alguma. Não quero com isto tirar o mérito aos jogadores do Estrela, que viram o seu esforço compensado no final. Mas acho que a vitória já foi prémio mais que suficiente para esse esforço; quererem ainda vê-la reconhecida como justa é demasiado e não o justificaram. Vejamos. Desde logo, o Estrela beneficiou de uma coisa de que não teve culpa nem mérito, que foi o regresso de Adriaanse à sua obsessão com o Jorginho, preferindo jogar sem ponta-de-lança só para, uma vez mais, dar uma oportunidade a esse seu protegido, esse fantasma do Jorginho de Setúbal, que vagueia em campo, perdido, descrente, negligente, abúlico, totalmente inútil. Depois, como sucede frequentemente com o FC Porto, no primeiro remate que fez à baliza o Estrela marcou — de livre, que não foi nada evidente, e aproveitando um ressalto na barreira, que mudou por completo a trajectória da bola e apanhou Baía ainda a colocar a barreira. Como se não fosse suficiente, no segundo remate, zás, o Estrela faz o segundo golo — um remate inofensivo que, graças a um ligeiro desvio no lamaçal à frente da baliza, traiu outra vez Baía. Um golo na própria baliza, o outro marcado pelo relvado. A seguir foi um porradão cirúrgico no Quaresma, obrigando-o, como já sucedera em Guimarães, a ficar na cabina ao intervalo (será que temos de lançar a campanha "deixem jogar o Quaresma!"?). Na segunda parte nem sequer se pode falar em domínio do FC Porto e contra ataques do Estrela. O que se viu foi um massacre consumado em 20 metros de campo. O Estrela foi uma única vez à área do FC Porto e jogou largos períodos, não com 11 atrás da linha do meio-campo ou sequer atrás da linha da bola: jogou com 11 dentro da grande área. Escreveu José Manuel Freitas que o Estrela "soube defender muito bem a vantagem conquistada". Discordo completamente: a defesa do Estrela passou toda a segunda parte aos papéis, chutando a bola para onde estavam virados e, às vezes até, uns contra os outros, e o seu guarda-redes deu suficientes baldas para justificar quatro ou cinco golos sofridos. Mas há jogos assim: sucedem-se os milagres e a bola não entra. Veja-se a estatística de A BOLA: oito cantos para o FC Porto, três para o Estrela; dezassete remates para o FC Porto, sete para o Estrela; 21 faltas cometidas pelo FC Porto, 33 pelo Estrela. Imaginem que a estatística era ao contrário, que tinha sido o FC Porto a passar metade do jogo metido dentro da sua área e o Estrela a falhar golos, e que o resultado tinha sido o oposto: alguém teria escrito que a vitória do FC Porto era justa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Desigual, desigual, é a competição entre o Benfica e a Académica: aí é que se tornou bem visível o que pode um grande e o que tem de aceitar um pequeno. Com o seu melhor avançado previamente seduzido pelo Benfica, a Académica teve de aceitar passivamente a sua deserção dos treinos e do próprio jogo contra o futuro patrão. Sem Marcel, a Académica foi à Luz para, nas palavras do seu presidente, ser vítima de um árbitro que foi «um verdadeiro artista a construir o resultado». E, destroçado com o que todos tínhamos acabado de ver, desabafou ele que «não é fácil lutar contra tantas forças. Parece que, em vez de procurar avançados, vale mais procurar as pessoas certas para construir os resultados». Mas no fim do jogo, segundo antecipavam os jornais, o homem teve de se sentar à mesa a negociar o Marcel com aqueles mesmos de quem se queixava. Eis a lei do mais forte no seu esplendor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 17.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113768474906433017?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113768474906433017'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113768474906433017'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/coisas-que-acontecem.html' title='Coisas que acontecem'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113729396808587497</id><published>2006-01-14T02:55:00.000Z</published><updated>2006-01-15T02:59:28.103Z</updated><title type='text'>Só mais uma semana</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O desfecho do dia 22 vai ser o mesmo que já se adivinhava há três meses, há seis meses, há um ano, ou há dez anos: Cavaco Silva ganha. &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A primeira conclusão a extrair destas presidenciais é que a campanha é desnecessariamente longa. Parece impossível, mas ainda falta uma semana para acabar, quando já nada, rigorosamente nada, permanece por di&amp;shy;zer, explicar ou compreender. Estamos em campanha eleitoral praticamente desde o Verão, num desperdício de tempo, energias e dinheiro para os candidatos e saturação para os eleitores. Mas, enfim, eles lá sabem porque tem de ser assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda conclusão é que, a fazer fé nas sondagens, não obstante a extensão da campanha e os esforços conjugados de quatro candidatos de esquerda (peço desculpa, mas não levo a sério as crónicas candidaturas de Garcia Pereira a eleições de toda a espécie), o desfecho eleitoral do dia 22 vai ser o mesmo que já se adivinhava há três meses, há seis meses, há um ano ou há dez anos: Cavaco Silva ganha. E ganha à primeira volta — o que significa que vai ter, não só os votos do centro e da direita, mas também parte dos votos da esquerda: talvez um terço dos votos socialistas e outro tanto dos votos comunistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Independentemente do desfecho real, é justo dizer que Cavaco fez a melhor campanha, tendo em vista o resultado fi&amp;shy;nal pretendido. Enquanto que os outros, particularmente o Partido Socialista e Mário Soares, fizeram o que podiam pa&amp;shy;ra Ihe facilitar a vitória. Ao contrario do que se possa dizer, não penso que a cam&amp;shy;panha de Cavaco Silva fosse fácil de gerir. A vantagem com que ele partia — fruto de ser o único candidato natural e assumido de há muito, com ou sem o jogo do “tabu”, que Ihe é tão a peito — era uma vantagem que também, naturalmente, só poderia ir-se diluindo ao longo da campanha (por isso mesmo é que ele entrou em campanha tão tarde quanto pode). Porque não tem talento para os deba&amp;shy;tes nem vocação para o contraditório, porque não tem ideias claras ou conhecidas sobre Portugal, a Europa ou o mundo, porque não tem a-vontade nos contactos de rua nem nenhuma qualificação específica para essas funções de contornos constitucionais fluidos que são as de Presidente da Republica — tal como a elas nos habituaram Soares e Sampaio. O essencial da sua estratégia era, pois, um exercício diário de controlo de danos. E Cavaco saiu-se na perfeição. Depois de dois meses a ouvi-lo diariamente, sabemos o mesmo das suas intenções ou vocação presidencial que sabíamos antes, mas, em contrapartida, vimos um políti&amp;shy;co que, há dez anos, deixara uma imagem de autoritarismo e arrogância, revelar insuspeitos dotes de contenção e humildade. E isso foi particularmente evidente na forma como aceitou e enfrentou todos os debates, com todos os candidates e, sobretudo, o debate final, em que Soa&amp;shy;res perdeu as estribeiras e Cavaco arrostou com todas as provocações, em pose de estadista e de Presidente. Quando o fundo da discussão era a “estabilidade” que cada um poderia garantir ao pais, Ca&amp;shy;vaco Silva limitou-se a aproveitar serenamente o “hara-kiri” do adversário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã disputaram, obviamente um campeonato à parte. O primeiro explorou, uma vez mais, a sua simpatia. É, de facto, uma pessoa de uma simpatia desarmante, o tipo de pessoa com quem apetece ir almoçar e ficar horas à conversa. Não sei durante quanto tempo é que "o colectivo” vai achar graça a isto, mas, por enquanto, Jerónimo de Sousa representa toda a margem de progressão do PCP fora do seu eleitorado cativo. Francisco Louçã revelou-se, para mim, uma agradável surpresa. Foi, de longe, o melhor e o mais bem preparado candidato nos debates e, so&amp;shy;bretudo, abandonou a sua habitual e insuportável pose de pregador evangélico da esquerda e foi capaz de conduzir uma campanha sem as habituais ideias prontas-a-vestir, tão caras à "esquerda “Lux-Bairro Alto”. Merece, sem dúvida, ultrapassar a fatídica barreira político-financeira dos 5%.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manuel Alegre também foi um caso à parte: era muito melhor candidato do que a campanha que fez. As sondagens dão-no agora, e contra todas as expectativas, a recuperar o segundo lugar que parecia ter perdido definitivamente para Má&amp;shy;rio Soares, e, ele próprio, animado pela reversão das sondagens, parece ter ganho novo fôlego. Mas, ou muito me engano, ou já é tarde para recuperar dos erros cometidos e forçar o que seria uma impensável segunda volta. Começou muito bem, na forma como lançou a sua candidatura, na forma como soube ler os "sinais do tempo" — esse descontentamento dos eleitores com o sufoco partidário, esse desnorte do país perante coisas essenciais, como a forma de fazer política, o horizonte de viabilidade e a própria identidade nacional. Mas não soube traduzir esses sinais e essa leitura num discurso coerente e continuado, que mostrasse às pessoas que resultava de ponderação antiga e não de circunstâncias do momento. Percebeu que havia um “no man's land” por explorar, mas não soube atravessá-lo. Sentiu os eleitores, mas não conseguiu que eles o sentissem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, enfim, Mário Soares. A sua tarefa, à partida, era simultaneamente simples e tremenda: conseguir explicar porque estava de volta, quando ninguém conseguia entender a necessidade para tal. Falhou em toda a linha, e falhou logo desde o constrangedor discurso de apresentação da candidatura, em que, das marchas con&amp;shy;tra a Guerra do Iraque, passando pela sua preocupação com os homossexuais, não houve nada a que não recorresse pa&amp;shy;ra nos garantir que continuava “vivo, activo e moderno". A campanha, todavia, mostrou-nos   um   candidato obcecado com o passado — e particularmente com o passado de Cavaco Silva — e que, quanto ao futuro, apenas nos jurou que, em Belém, nada iria fazer porque nada podia fazer. E assim todos poderíamos dormir descansados.Claro que eu também admiro a vitalidade e a paciência de Mário Soares, pela enésima vez em campanha por todas as feiras e boticas deste país, escutando as queixas de sempre da mesma gente de  sempre.  Mas,  com  franqueza,  não acho que o esforço faça sentido nem que o espectáculo seja exultante. Seguramente que, tendo Mário Soares enterrado o seu "basta de política", haveria melhores oportunidades em que aproveitar o seu mérito e disponibilidade ao serviço do país. Estamos a falar de quem foi o melhor Presidente da Republica da democracia portuguesa, de quem contribuiu decisivamente para que tivéssemos a liberdade e a Europa, de quem é ainda o   português mais prestigiado no estrangeiro. Mário Soares merecia ter tido melho&amp;shy;res amigos, na hora em que precisou de conselheiros e só encontrou cortesãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 14.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113729396808587497?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113729396808587497'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113729396808587497'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/s-mais-uma-semana.html' title='Só mais uma semana'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113702611936223859</id><published>2006-01-10T00:30:00.000Z</published><updated>2006-01-12T00:35:19.386Z</updated><title type='text'>Ilusões, aparências e farsas</title><content type='html'>1. Tenho de voltar a este assunto sórdido. Doía-me a alma se o não fizesse. Seis profissionais de uma actividade a que chamam segurança, fardados como tal e presumivelmente a mando do Sr. José Veiga, director do futebol do SL Benfica, fizeram uma espera no aeroporto da Portela a um passageiro, acusado de ter incomodado ("empurrado") o presidente do Benfica no aeroporto de S. Paulo e, perante os jornalistas, televisões e agentes da PSP, provocaram-no e enfiaram- lhe uma estalada como aviso. Ele encaixou a estalada e, por isso, a coisa ficou por aí. Foi um episódio verdadeiramente siciliano, revelador de várias coisas incontornáveis, tais como uma atitude de impunidade, de sobranceria, de quero, posso e mando que, por si só chegou e bastou para revelar a uma outra luz a face de alguns cavalheiros regeneradores da selva do futebol português. Com honrosas excepções, seguiu- se, na nossa imprensa desportiva, a tentativa de branqueamento do episódio. E nada melhor para tal do que a batota de meter no mesmo saco um facto e um não facto. O facto era a agressão encomendada por alguém que manda no Benfica; o não facto, a imaginativa encenação de atribuir o suposto empurrão ao presidente do Benfica no aeroporto de S. Paulo a um emissário do FC Porto. Mas se o primeiro episódio foi visto, fotografado e filmado por todos, se os seguranças contratados acompanhavam um director do Benfica, já o segundo episódio tem como testemunha, intérprete e acusador apenas e só o próprio presidente do Benfica. Quando eu estudei jornalismo, aprendi que tal era manifestamente insuficiente para se transformar em facto. Mas, à conta desta mais do que forçada semelhança de factos, atitudes e responsabilidades, escreveram-se pungentes textos moralistas, em que o visto e o não visto, o real e o imaginário, se equivaliam até ao desejado ponto de poder legitimar os acontecimentos do aeroporto de Lisboa com os supostos acontecimentos do aeroporto de S. Paulo, fácil e expeditamente atribuídos à terrível gente do FC Porto. E assim, não se dispensando de extrair uma condenação de princípio sobre o assunto, preservou- se cuidadosamente a figura de intocável do presidente do Benfica e do seu Richelieu de serviço. Quando Luís Filipe Vieira surgiu à frente dos destinos do maior clube português, não fiz cerimónia em elogiar aqui, e mais do que uma vez, o que me parecia ser uma postura de humildade, trabalho e empenho em defesa dos interesses do seu clube e até do futebol, em geral. Mas, com o correr do tempo, e em especial desde que se associou intimamente a José Veiga, venho notando que, se o trabalho e esforço pelo Benfica se mantêm e só lhe ficam bem, já a sua contribuição para a melhoria do futebol português cedeu lugar a uma atitude de hegemonia extradesportiva e prepotência entre pares, que sepultou de vez a elogiada humildade. Embriagado por uma imprensa que lhe dedica um verdadeiro e ridículo culto de personalidade, Luís Filipe Vieira parece-me estar a resvalar para próximo da fronteira onde acabará por achar que tudo lhe é lícito, impune e elogiado, apenas porque é presidente do maior clube português. Oxalá, digo-o sinceramente, seja só uma impressão minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Realmente, e para terminar o rescaldo do palpitante episódio Moretto, Pinto da Costa tem razão na pergunta que fez e que permanece sem resposta: se o Moretto só queria ir para o Benfica, se Chumbita Nunes só queria que ele fosse para o Benfica e se mantinha contrato válido com o Setúbal, que necessidade havia de ir ao Brasil raptá-lo das garras do FC Porto? Porque não esperar tranquilamente que ele regressasse a Setúbal e assinar então contrato com ele? É verdade que não produzia o mesmo efeito espectacular para enganar parolos, mas era mais simples, mais lógico e, sobretudo, mais revelador das verdadeiras intenções negociais de Moretto - (hoje, tal como Marco Ferreira, benfiquista desde pequenino).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Abandonados à sua sorte, os futebolistas profissionais do Estoril-Praia lamentaram que o “accionista principal” (com 60% das acções) não tenha aparecido na hora da verdade, a dar a cara e a responsabilizar- se pelos vários meses de salários em atraso. E porque não apareceu o accionista principal? Porque ele supostamente não o é nem pode sê-lo. Trata-se do Sr. José Veiga, dirigente do Benfica e que, pelos estatutos da Liga, não pode acumular as duas funções e, por isso mesmo, foi dito e anunciado, há mais de um ano, que tinha deixado de as acumular. Afinal, parece que não. Mas, entretanto, já lá vai o célebre jogo deslocado da Amoreira para o Estádio do Algarve e que tanto jeito deu para o título do ano passado. O tal jogo que, a troco da batota desportiva, iria servir justamente para pagar os ordenados aos jogadores do Estoril. Francamente, também, já começam a ser coincidências a mais: onde há ordenados em atraso, aparece sempre o Benfica a tirar partido da situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. 53.000 espectadores na Luz, 42.000 no Dragão, é notável — em contraste com os 14.000 de Braga (a ganância dos bilhetes a 50 euros paga-se e é bem feito). Mesmo assim, juntando estes três números aos resíduos das restantes assistências da 17.ª jornada da Superliga, pode-se dizer que a média andou pelos 15.000 por jogo. Seria reconfortante se a estatística não fosse uma ciência morta. Neste caso, o que a estatística não explica mas confirma é que só temos três ou quatro clubes com sustentação popular para disputar uma primeira divisão. É triste, mas é um facto, que deveria servir de ponto de partida a qualquer reflexão séria sobre a inadiável reforma dos quadros competitivos do futebol profissional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Notável também que, em todos os jogos envolvendo os primeiros da classificação, não tenha havido um só caso de arbitragem. É verdade que Carlos Brito, lá de baixo do banco, viu um penalty que, posso-lhe garantir que, lá de cima da bancada ninguém viu — pelo menos na área do FC Porto. E a dualidade de critério disciplinar de que ele fala, existiu sim, mas a favor do Boavista e, particularmente de Tiago, um jogador que parece ter como principal prazer no futebol distribuir cacetada pelos adversários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 10.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113702611936223859?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113702611936223859'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113702611936223859'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/iluses-aparncias-e-farsas.html' title='Ilusões, aparências e farsas'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113668776704676307</id><published>2006-01-07T02:33:00.000Z</published><updated>2006-01-08T02:36:07.063Z</updated><title type='text'>Sobreviverá Portugal depois de 2013?</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Os nossos males estão sobejamente diagnosticados e todos os conhecemos: não produzimos, não valorizamos o mérito, não corremos riscos.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Em 1006, e pelo sexto ano consecutivo, vamos divergir da União Europeia — isto é, vamos crescer menos do que a Europa à qual pertencemos. Segundo as previsões do Banco de Portugal, vamos crescer 0,8%, ter uma taxa de inflação no mínimo de 2,5% e o desemprego vai aproximar-se dos 8%. Esqueçam todas as desculpas “exteriores”, relativas aos preços do petróleo ou aos custos da globalização: entre os 25 membros da no&amp;shy;va União, ninguém vai crescer menos do que nós. Somos os piores dos 25. A culpa é nossa e chegou a altura de o encararmos. Temos os piores trabalhadores, os piores empresários, o pior Estado. Nada funciona como devia e como seria minimamente exigível: na Saúde, na Educação, na Justiça, na Economia, na Administração Pública. De Chipre à Irlanda, do Mediterrâneo ao mar do Norte, não há ninguém tão mau como nós. Não se trata de pessimismo nem de derrotismo, e apenas uma constatação de facto. Falhamos tudo, somos o país mais falhado de todos os 25 que compõem a actual União Europeia, após vinte anos de ajudas dos contribuintes alemães, belgas, franceses, holandeses, etc. Recebemos o dinheiro deles e fizemos nada: uns quilómetros de auto-estradas, umas fraudes agrícolas e outras tantas na suposta formação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, e saudado como grande vitoria negocial, que é, vamos dispor, a partir de 2007 e ate 2013, de novo Quadro Comunitário de Apoio, que, em moeda antiga, nos garante cerca de 1,8 milhões de contos por dia. Não o merecemos, mas tivemo-lo. Bem vistas as coisas, talvez fosse melhor que Bruxelas nos tivesse fechado a torneira e nos deixasse entregues a nós próprios. Seria sangue, suor e lágrimas, mas, quem sabe, teríamos afinal encontrado uma restia de orgulho e combatividade para sobreviver. Assim, é de temer mais do mesmo: um Estado autofágico, empresários subsidiados pelos contribuintes, sindicatos do século XIX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os nossos males estão sobejamente diagnosticados e todos os conhecemos: não produzimos, não valorizamos o mérito, não corremos riscos. Os sindicatos defendem os que têm emprego seguro até à eternidade contra os que não têm empre&amp;shy;go; os patrões apostam no Estado clientelar contra o mercado livre; o Estado defende o carreirismo e a filiação partidária contra o mérito e a independência. Um país assim só pode ser um país falhado. Se nada mudar radicalmente, nos vamos ser um país falhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguemos em dois exemplos próximos. Domingo, 1 de Janeiro, arrostando com filas de trânsito e arriscando acidentes, tive de tratar do regresso do meu filho mais novo a Lisboa, porque no dia seguinte abriam as aulas no ensino público e no liceu central onde estuda e onde se imagina que todos os professores públicos gostariam de estar colocados. Das cinco aulas marcadas para segunda-feira, teve uma; das quatro marcadas para terça, teve outra: todos os restantes profes&amp;shy;sores estavam de “baixa”. Ou seja, prolongaram as férias que nós não tivemos por&amp;shy;que acreditamos que o seu compromisso com a reabertura das aulas era para levar a sério. E, todavia, o Sindicato dos Professores quer-nos fazer crer que a profissão é tão violenta que não aguentam trinta e cinco anos até à reforma, mesmo que, em alguns casos, um terço dos trinta e cinco anos tenha sido passado de “baixa”. Segundo exemplo: temos a energia cara demais para as empresas, o que, como é óbvio, constitui um factor altamente agravante nos índices de produtividade. Poupa-se nos salários o que se gasta em energia. Mas a energia é quase monopólio da EDP e a EDP era uma empresa pública até terem decidido privatizá-la, dizendo-nos que, como os privados são mais eficientes, iríamos ter melhor e mais barato fornecimento. Erraram ou mentiram: tal como já sucedera nos telefones fixos, passamos a ter pior serviço e electricidade mais cara (para o ano, os aumentos vão mesmo deixar de estar limitados a taxa de inflação). Antes da privatização, a EDP dava prejuízo, mas assegurava uma ener&amp;shy;gia barata para os consumidores. Agora, privatizada, dá lucro: 440 milhões de eu&amp;shy;ros em 2004, e ainda mais esperados em 2005. Não é talvez possível que as empre&amp;shy;sas públicas, actuando em sectores que asseguram serviços básicos, possam manter preços políticos e perder dinheiro sistematicamente. Mas também não é inevitável que devam ser privatizadas, passando a disparar os preços para os consumido&amp;shy;res e os lucros para os accionistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, surge este inexplicável episoódio do Cavalo de Tróia espanhol da Iberdrola, tentando entrar na EDP pela mão do ex-ministro socialista Pina Moura, vulgo “O Cardeal”, e vemos que o Estado, o maior accionista da EDP, com cerce a de 30%, encarrega o presidente do BCP, dr. Paulo Teixeira Pinto, da escolha do próximo presidente da empresa. E, como seria de esperar, eles preparam-se para escolher alguém com provas dadas de ser capaz de servir em qualquer governo "cen&amp;shy;tral", qualquer agenda oculta de patrões privados e a favor de quaisquer oportunidades de negocio. Uma “arma de aluguer”, ao serviço dos ditos accionistas pri&amp;shy;vados, e que se lixem os consumidores e o interesse público!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como a Ota e o TGV: ninguém ain&amp;shy;da conseguiu explicar direito a lógica de interesse público, de rentabilidade económica ou de factor de desenvolvimento. Mas todos vimos nas faustosas cerimonias de apresentação dos projectos, não apenas os directamente interessados — os empresários de obras públicas, os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos — mas também flutuantes figuras representativas dos principais escritórios da advocacia de negócios de Lisboa. Vai chegar pa&amp;shy;ra todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes Portugueses. Não há nada pior e mais perigoso do que a relação dos socialistas com o grande dinheiro: são saloios, deslumbrados e complexados. E o grande dinheiro agradece e aproveita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá dentro, no "inner circle” do poder — político, económico, financeiro —, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre. Jogando com o que resta do património público, com o dinheiro que receberemos ate 2013. Cá fora, na rua e frente a eles, estão os que acreditam que nada pode mudar, mude ou não mude o mundo. Sobreviveremos depois disso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 07.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113668776704676307?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113668776704676307'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113668776704676307'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/sobreviver-portugal-depois-de-2013.html' title='Sobreviverá Portugal depois de 2013?'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113651016523797389</id><published>2006-01-03T01:08:00.000Z</published><updated>2006-01-06T01:16:05.253Z</updated><title type='text'>Há Moretto na costa</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Como disse Luís Filipe Vieira, as cenas que o país teve ocasião de ver ontem pela televisão ficarão para a história do futebol português&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1. Saí de Lisboa ontem, manhã muito cedo, e confesso que não sei como terminou o affaire, mas, segundo a imprensa de ontem, o presidente do Benfica, depois de uma viagem relâmpago ao Brasil, preparava-se para desembarcar à mesma hora na Portela, trazendo nos braços o ansiado Moretto. Dado há várias semanas como certo no Benfica, o guarda-redes sensação do Vitória de Setúbal não estava afinal tão bem controlado que tenha dispensado o incómodo de obrigar o infatigável Luís Filipe Vieira a passar o réveillon a bordo de um avião para S. Paulo com regresso no mesmo dia. Conforme relatavam os três diários desportivos de ontem (que abordavam o assunto como se da conquista de um título se tratasse), ao fim da manhã, Vieira iria apresentar a sua conquista aos sócios. E isto, depois de uma história que me pareceu muito mal contada e que terá metido uns emissários brasileiros do FC Porto (?) que, em pleno aeroporto de Cangonhas terão empurrado o presidente do Benfica e tentado evitar o embarque do messias Moretto (quem quiser que acredite...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Benfica entra assim em 2006 com esta grande conquista que é o Moretto, sem dúvida um bom guarda-redes, embora haja, como ele irá descobrir, uma imensa diferença entre ser bom guardaredes num clube pequeno, onde nunca faltam as oportunidades para brilhar em defesas aparatosas, ou sê-lo num clube grande, onde se pode chegar a passar um jogo inteiro no frio e na solidão e de repente é preciso evitar o golo numa saída aos pés de um adversário que se isolou num contra- ataque.Mas, deixemo-nos de desconversas: a grande conquista de Filipe Vieira nem é ter arranjado um guarda-redes para ocupar o lugar do desamparado Rui Nereu: a grande conquista é tê-lo arrebatado após uma luta titânica, aos que nos dizem, contra Pinto da Costa. É verdade que não houve nunca, dos lados do Porto, o menor sinal de tal refrega, à parte o facto de o empresário de Moretto ser irmão de um dirigente da SAD portista, o que é apenas uma suspeita de intenções. De resto, nem uma palavra de Pinto da Costa, de dirigentes, treinador, empresário ou do próprio Moretto (pode ser que agora a memória lhe possa ser reavivada...). Nada, apenas as suspeitas jornalísticas, sem dúvida sopradas por um vento de sudoeste...No FC Porto, como se sabe, fazem falta, de facto, alguns jogadores, tal como um defesa-direito e dois centrais. Outros sectores poderiam eventualmente ser também reforçados, mas se há um que não precisa é a baliza. Na baliza, está lá Vítor Baía, que é somente o melhor guarda-redes português; está lá o Helton, que foi o melhor guarda-redes do campeonato anterior e que, face às notícias que já o davam à procura de clube, entalado entre a concorrência de Baía e a de Moretto, fez saber que não, que estava muito bem ali; e está lá, também, estagiando no Estrela da Amadora, o Bruno Vale, guarda-redes da Selecção de sub-21. Pelo que o Moretto, francamente, só mesmo para irritar o Benfica e deitar dinheiro à rua. É verdade que a gastar dinheiro com jogadores em rompantes de última hora, Pinto da Costa ganhou fama de ser um mãos largas. Mas é justamente por coisas dessas que hoje as finanças do clube voltaram ao vermelho e à campainha de alarme. Os tempos, espero eu, já não vão para exibicionismos desses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. O Manduca, sim, esse foi uma aquisição pacífica do Benfica, neste defeso natalício. É um grande jogador à vista, mas, tal como sucede com Moretto, também ele irá aprender que uma coisa é atacar contra equipas grandes, que jogam aberto, e outra é atacar contra equipas que jogam com dois defesas para cada avançado e tudo concentrado em trinta metros. José Fonte é uma aquisição curiosa: aparentemente, segundo rezam os jornais, foi adquirido para ser emprestado — uma prática que eu tanto critiquei no FC Porto dos últimos anos e de que o Benfica parecia arredado. Mas mais curioso ainda são as circunstâncias da aquisição: no último jogo do campeonato, o Benfica ganhou em Setúbal, graças a um golo de Nuno Gomes no último suspiro (e não, não houve mão na bola). Mas Nuno Gomes apareceu liberto em zona proibida, justamente a zona de... José Fonte. Que, por coincidência, não estava lá: tinha rescindido o contrato com o Vitória na véspera, para dias depois, assinar... pelo Benfica. Deve ser a tal transparência de que falam...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Há anos, largos anos já, o horrível Pinto da Costa definiu uma regra de comportamento: jamais iria comprar um jogador que estivesse em litígio com o seu clube ou que dele tivesse saído em litígio. A regra tem- se mantido firme até hoje e em benefício, sobretudo, dos clubes pequenos, mas também dos grandes, como o próprio Benfica. Mas tal regra nunca criou escola entre os dirigentes benfiquistas que se têm sucedido. Como alguém aqui escreveu há dias e como se tem visto ao longo dos anos, a grande ave de rapina destas situações é a águia— quem ainda não provou a bicada que se cuide. Deve ser a tal maneira diferente de estar no futebol...Fosse o horrível Pinto da Costa a fazer uma destas e estaríamos já enjoados de textos moralistas e indignados. Mas, tratando-se do Benfica, até o patético Chumbita Nunes agradece a esmola que Filipe Vieira prometeu dar-lhe pelo José Fonte (só não disseram quanto, quando e como...). Deve ser a tal «generosidade» que dizem que o Benfica tem manifestado para com o Vitória de Setúbal ao ponto de, vejam lá, se ter disposto a pagar-lhes meio milhão de euros contra o direito de escolha sobre cinco jogadores!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Afinal, ainda regressei a Lisboa a tempo de introduzir este post-scriptum sobre as inesquecíveis imagens do desembarque de Moretto na Portela e depois já na tão desejada Luz... Tal como acima previ, eis que o Moretto se revelou uma garganta funda a denunciar o que sofreu com o assédio infernal do FC Porto. Curioso é que só depois de ter chegado a acordo com o Benfica é que se deu mal com o assédio: até lá, e segundo o seu relato, reuniu, conversou, negociou e assinou com dirigentes portistas. Mas, afinal, desde pequenino que era benfiquista. Desejo-lhe as maiores felicidades.Também deu para perceber que a tal história dos emissários portistas molestando o presidente do Benfica no aeroporto de S. Paulo, estava realmente mal contada. Ali há gato e o gato é com o Moretto e aquele sujeito que até ontem era seu amigo e que teve direito a um comité benfiquista de boas-vindas digno de remeter as proezas do célebre guarda Abel para a categoria dos contos de fadas. Como disse Luís Filipe Vieira, as cenas que o país teve ocasião de ver ontem pela televisão ficarão para a história do futebol português. Creio que todos ficámos elucidados: só não deu para perceber a que lei e a quem obedecem os agentes da PSP que testemunharam uma agressão encomendada, de braços cruzados e a assobiar para o ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 03.01.2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113651016523797389?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113651016523797389'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113651016523797389'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2006/01/h-moretto-na-costa.html' title='Há Moretto na costa'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113604785108498273</id><published>2005-12-31T16:46:00.000Z</published><updated>2005-12-31T16:50:51.116Z</updated><title type='text'>Scolari tem um problema</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;A excelência do Ricardo Quaresma deve manter-se assim um segredo de Polichinelo partilhado entre os seus admiradores, sussurrado como segredo de Estado, suficientemente baixo e ténue para que, no final, se ele for chamado, possa ficar a impressão que todo o mérito da escolha se deve a Luiz Felipe Scolari.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Scolari tem um problema e esse problema chama-se Ricardo Quaresma. Assim mesmo: foi assim que vi escrito algures e é assim que oiço comentar, entre amigos que gostam de futebol, o «problema que está a ser criado ao seleccionador nacional» pelas consecutivas exibições de luxo do n.º 7 do FC Porto, hoje claramente o melhor jogador em palco na Superliga. Mas afinal — perguntará alguém desembarcado de outro planeta — qual é o problema de Scolari? Desde quando é que o aparecimento de um grande jogador, em forma exuberante, fora da lista inicial dos conjecturáveis, constitui um problema? Que seleccionador no Mundo não gostaria de ter um problema destes para resolver a seis meses de um Mundial? Pois, dá-se o caso de o nosso seleccionador ter anunciado já há dois meses que, dos 23 que irão ao Mundial, 20 já estavam escolhidos, faltando apenas escolher três, entre os quais um guarda-redes. E, nos dois que sobram, não constaria Ricardo Quaresma, que o seleccionador generosamente se disporia a ceder à Selecção de Esperanças. Na lista fechada de Scolari não há lugar para revelações de última hora, nem sequer com seis meses de antecedência. Trata-se da sua lista, do seu grupo, dos seus rapazes de confiança, do seu célebre balneário — o tal que tem misteriosas regras que não consentem a inclusão de gente com personalidade e ideias próprias, como Vítor Baía. Enfim, é a Selecção de Scolari e, se ela se abrisse a importunos como Ricardo Quaresma, ou se se guiasse por estritos critérios de desempenho e de justiça consensuais, deixava de ser a Selecção de Scolari e passaria a ser a Selecção de Todos Nós, como gostam de dizer. Um perigo. Gente que, como eu, acha que Ricardo Quaresma faz parte daquela restrita lista de jogadores de futebol que justificam o preço dos bilhetes e o incómodo da deslocação ao estádio, aconselham a que se esteja calado nesse sentimento: quanto menos se falar do rapaz, mais hipóteses tem ele, dizem, de poder vir a ser chamado à Selecção. Porque o que, antes de mais, está em causa, não é a competência nem o mérito, mas a fina susceptibilidade do seleccionador. A excelência do Ricardo Quaresma deve manter-se assim um segredo de Polichinelo partilhado entre os seus admiradores, sussurrado como segredo de Estado, suficientemente baixo e ténue para que, no final, se ele for chamado, possa ficar a impressão que todo o mérito da escolha se deve a Luiz Felipe Scolari. Pois eu cá, não me consigo conter. Gosto suficientemente de futebol para não conseguir disfarçar o deslumbramento quando vejo um génio à solta em campo. São eles, sejam quem forem os seus clubes ou os seus países, que escrevem os momentos mágicos que nunca mais esquecemos quando falamos de futebol e que atraem para este jogo fabuloso sucessivas gerações de miúdos deslumbrados com as proezas dos seus ídolos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Talvez o público de Guimarães, que tem o mérito de seguir sempre o seu clube e não falhar no estádio, faça parte do rol dos que não se importam de ver Ricardo Quaresma fora do Mundial. Há sempre gente para quem o despeito é mais importante do que a justiça ou até a qualidade do espectáculo. No futebol, todos têm uma paixão pelo seu clube, mas há quem se limite a isso e quem tenha também uma paixão pelo futebol. Se o meu clube ganha jogando mal ou beneficiando de um erro do árbitro, eu não gosto: fico frustrado, irritado, zangado com a equipa. Mas há muitos para quem tanto lhes faz: querem é que o seu clube ganhe, mesmo que com um golo marcado com a mão e sem nada ter feito para o merecer. Em Guimarães, aos 21 minutos de jogo e devido ao mau estado da relva, Ricardo Quaresma escorregou quando ia pontapear um livre frontal e acabou por fazer um passe ao guarda-redes. Os adeptos do Vitória romperam num coro de assobios, difícil de psicanalisar: que assobiavam eles — o génio do Quaresma, a sua infelicidade? Nunca saberemos explicar. Só sabemos que, volvidos dois minutos, o mesmo Quaresma, de dedo na boca, os fazia calar, depois de, à vista das bancadas, ter-lhes mostrado o que é capaz de fazer um grande jogador de futebol que recebe uma bola sobre a esquerda, a trinta metros da baliza e com um adversário a tapar-lhe o caminho. Vinte e cinco minutos volvidos, esse mesmo adversário, entrando-lhe às pernas pela terceira ou quarta vez, conseguiu enviá-lo definitivamente para o balneário — que é o lugar reservado aos génios como ele, quando jogam perante um público que não gosta de os ver jogar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Maniche está no mercado. Para quem quiser um jogador que custou quatro mihões de contos a um clube e um mês depois se dava ao luxo de se dizer «inadaptado». Que, por ignorância ou avidez, se convenceu que Moscovo era a Paris do Leste, que deve pensar que se pode ao mesmo tempo querer emigrar para ganhar uma fortuna e ter o sol e as sardinhas assadas ao dispor, que se acha tamanha vedeta que nada — clube algum, adeptos alguns, equipa alguma — jamais serão suficientemente importantes para acolherem a sua importância. Espero bem que Pinto da Costa não caia numa das suas habituais tentações de ir recomprar o que vendeu e bem. Os resultados dessas operações de pseudo-recuperação têm sido, regra geral, desastrosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Di Canio, obscuro jogador da Lazio de Roma, deve a fama ao seu exibicionismo ideológico, que o leva a celebrar em campo com a saudação fascista dirigida aos adeptos. Os jogos de futebol não servem para os jogadores fazerem propaganda política das suas ideias, menos ainda quando as suas ideias são abjectas manifestações daquilo que a Europa civilizada rejeitou definitivamente. Espero bem que a FIFA remeta este fascistóide italiano para o lugar que lhe pertence, longe dos estádios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 27.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113604785108498273?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113604785108498273'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113604785108498273'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/scolari-tem-um-problema.html' title='Scolari tem um problema'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113539008188856838</id><published>2005-12-20T02:02:00.000Z</published><updated>2005-12-24T02:09:17.490Z</updated><title type='text'>Uma questão de "timing"</title><content type='html'>1. Há várias semanas que Luís Norton de Matos tinha previsto que a crise de desintegração iria ocorrer no Vitória de Setúbal. Há dois meses que a sua demissão estava por um fio. Aconteceu agora, após uma derrota que indicia, talvez, o fim de um ciclo lindo mas que não tinha sustentação. Depois de o primeiro jogador já ter abandonado o barco e quando se prefigura a debandada em série. E a três dias do Vitória-Benfica. Foi pena. Luís Norton de Matos, ex-jogador do Benfica, ex-treinador do terceiro classificado do campeonato, ex-garante da unidade do grupo contra a irresponsabilidade dos dirigentes, deveria ter esperado mais uns dias, ter segurado os jogadores ainda mais um pouco, ter-se despedido em beleza, mostrando contra o Benfica o mesmo espírito de luta e brio que o levou, por exemplo, a roubar dois pontos no Dragão, defendendo o 0-0 com tanto empenho e tenacidade que disso parecia depender o pagamento dos salários em atraso logo após o jogo. Ou então, se já não dava mesmo para segurar mais um dia que fosse o barco, deveria ter-se demitido 48 horas antes—e não depois da derrota no Funchal, de os jogadores terem começado a abandonar e de se chegar às vésperas do jogo com o Benfica. À parte a questão do timing da demissão do treinador; a crise do Vitória de Setúbal é exemplar de várias coisas, a saber: a mentira funcional em que vive o chamado futebol profissional em Portugal, mentira devidamente coberta e incentivada por uma Liga de clubes que se habituou a preferir a batota com o Fisco, a Segurança Social e os salários dos jogadores a uma reforma radical, cuja necessidade e contornos são hoje evidentes e consensuais para todos menos para aqueles que tinham obrigação de ser os primeiros a ver e a agir; exemplar da face oculta do futebol profissional português, muito mais comum do que se imagina e muito mais incontrolável do que se supõe (quando há jogos da Liga assistidos por 900 espectadores, podem crer que a tempestade apenas acabou de começar); e exemplar, finalmente, da natureza dos dirigentes do futebol português, regra geral chicos- espertos em busca de protagonismo e acreditação social, que acham que a gestão de um clube profissional se limita ao acto de comprar e vender jogadores no defeso e despedir treinadores quando os seus brilhantes negócios não dão os resultados esperados. No caso do Vitória, é evidente que se chegou ao extremo absoluto—este Chumbita vai ficar para a história dos malfeitores do futebol português — mas o que não falta por aí é Chumbitas de ocasião a alimentar a mentira em que vivemos. O exemplo contrário e louvável é o de João Nabeiro, presidente do Campomaiorense: sonhou em trazer o Alentejo de volta ao futebol de primeira e, do nada, ergueu um clube dotado de estruturas, de um belo campo e de regras de seriedade. Mas, quando percebeu que não havia público nem mercado que sustentasse o seu sonho, pagou as dívidas e fechou a porta, em lugar de continuar a tentar alimentar a mentira em negócios imobiliários com a autarquia ou em poupanças nos salários a pagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Em Agosto e Setembro, quando Co Adriaanse mostrou não contar com Quaresma para a sua equipa habitual e quando já se falava na inevitável venda do jogador em Janeiro, escrevi aqui por três vezes que o afastamento de Ricardo Quaresma seria um acto de uma extrema irresponsabilidade e ignorância, pois que ele era, de longe, o melhor património desportivo do actual FC Porto. A generalidade dos comentadores, porém, dava razão a Adriaanse, argumentando que Quaresma era um indisciplinado, um individualista e um mau jogador de equipa. Contra-argumentei que ele era um miúdo e um génio: aos miúdos podem-se corrigir os defeitos e a missão de um treinador é essa e não a de os afastar liminarmente; e aos génios deve-se permitir a dose suficiente de individualismo que eles usam para fazer a diferença e resolver tantas vezes os jogos—como aliás o Quaresma mostrou na época passada e na Selecção de esperanças. Em Outubro Adriaanse decidiu- se a meter o Quaresma no quarto de hora final de dois jogos consecutivos e ele resolveu-lhe os dois jogos: logo houve quem, esclarecidamente, viesse dizer que o Quaresma só servia para os últimos minutos. Mas o génio estava lá e mesmoAdriaansenãoteve comoevitar experimentá-lomais do que, por exemplo... o Hélder Postiga. Hoje o resultado é evidente por si: o Ricardo Quaresma transformou- se não só no melhor jogador do FC Porto, não só no melhor jogador português da actualidade, mas no mais promissor e entusiasmante jogador europeu do momento. Dizem os que ontem achavam que ele não tinha lugar na equipa que o mérito foi de Adriaanse, que, através de um notável (e fulgurante) trabalho psicológico, o transformou em jogador de equipa. Gostava de saber em que língua terá sido levado a cabo esse revolucionário trabalho psicológico: no inglês sem vocabulário de Adriaanse, que o Quaresma deve entender perfeitamente? Não. O mérito não se deve a Adriaanse, deve-se ao próprio Ricardo Quaresma, que gosta tanto de jogar que até fez o favor de passar a vir atrás defender, percebendo que esse era o preço do bilhete para a titularidade. E que teve o talento e a sorte de resolver aqueles dois jogos nos 10 minutos de cada um deles que lhe foram concedidos: de outro modo, estaria agora na equipa B. De resto, limitou-se a continuar a dar asas ao seu génio e ele impôs-se por si. Todavia, há um mérito que reconheço a Adriaanse e foi já salientado por José Manuel Ribeiro, nas páginas de OJogo: foi ter trocado o flanco a Quaresma, passando- o da direita para a esquerda, embora por vezes, e bem, com alternâncias. Não é a primeira vez queumdestro é colocado como ponta- esquerda, hoje uma moda corrente (Simão Sabrosa é um bom exemplo). Mas Ricardo Quaresma está a revolucionar a moda e a função, porque não se limita a executar bem o movimento de sair da esquerda para o centro, como se espera de todos os destros actuando sobre a ponta esquerda. Ele consegue também cruzar com os dois pés, consegue fintar para dentro e para fora,mas sobretudo consegue aquele cruzamento exterior executado com o pé direito, a que chamam de trivela, e que é qualquer coisa de absolutamente novo e inesperado que, como ainda este sábado se viu, é capaz de abrir por completo uma defesa. Espero bem que o prazer e a fome que ele tem de futebol sejam sempre suficientes para o manter longe do deslumbramento e dos tiques de vedeta que, por exemplo, já são hoje imagem de marca de Cristiano Ronaldo. O Barcelona há-de lamentar muito tê-lo deixado sair no negócio do Deco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Jorge Sousa teve uma arbitragem infeliz, que valeu dois pontos ao Benfica, no jogo contra o Nacional. Foi infeliz na falta que deu o golo, e que certamente não viu, mas foi mais infeliz ainda na duplicidade de critério disciplinar, essa sempremais difícil de perceber. Mas seguramente que não está em perigo de jarra: não deve fazer parte da lista negra do senador Veiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Subitamente, Maciel tornou- se o jogador indispensável do União de Leiria. Alguém me sabe dizer quantos golos leva marcados o Maciel e porquê ele é assim tão indispensável? A semana passada tive ocasião de explicar por que razão, ao arrepio do politicamente correcto, sou a favor dos acordos de cavalheiros sobre os jogadores emprestados. Mas a verdade é que estão proibidos pelo art.º 22 do Regulamento Disciplinar da Liga e punidos com uma multa pecuniária, que deve ser aplicada ao FCPorto e ao União de Leiria. Custou-me um bocado a perceber, todavia, porque estaria o Benfica tão interessado em que o FC Porto fosse multado, ao ponto de ir fazer queixa à Liga. Mas depois li um delirante artigo pseudo-jurídico onde se explicava que à situação descrita no art.º 22 se deveria aplicar, não a sanção aí prevista, mas sim a do art.º 54, salvo erro, que contempla o caso de resultados combinados entre as duas equipas, nomeadamente através da utilização por uma delas de um onze «notavelmente inferior» ao habitual. Essa sanção seria a de derrota ou três pontos perdidos— que os autores do parecer transformaram em três pontos a menos para o União de Leiria e seis para o FC Porto (os três da vitória, que eram perdidos, e mais três da pena). Justamente a diferença actual entre o FC Porto e o Benfica. Aí percebi tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 20.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113539008188856838?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113539008188856838'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113539008188856838'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/uma-questo-de-timing.html' title='Uma questão de &quot;timing&quot;'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113494498493024044</id><published>2005-12-16T22:26:00.000Z</published><updated>2005-12-18T22:29:44.933Z</updated><title type='text'>Catorze anos</title><content type='html'>Comecei a escrever no PÚBLICO em 1991. Estamos em 2005: foi há 14 anos, com uma interrupção de ano e meio, entre 2002 e 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando comecei, apanhei logo de entrada com a iminência da guerra do Golfo, na sequência da anexação do Kuwait pelo Iraque, de Saddam Hussein. A questão suscitou nas páginas do PÚBLICO um intenso debate sobre a justificação moral e política para a guerra, o papel que nela deveriam ter ou não ter o Ocidente, a Europa e Portugal. Esse debate, e posteriormente a cobertura da própria guerra, constituíram, a meu ver, a carta de alforria do PÚBLICO - ninguém mais, na imprensa portuguesa, atribuiu a esse genuíno momento de escolha e de definição política a importância que o PÚBLICO lhe atribuiu - e que mereceu uma surpreendente adesão e compreensão por parte dos seus leitores. Desde o início, defendi e em minoria clara, a legitimidade da guerra e o dever de a Europa e Portugal serem solidários nela com os Estados Unidos. Tratava-se, a meu ver, de não deixar passar em claro uma anexação pela força, sem qualquer título de legitimidade, de não ficar de braços cruzados a ver um ditador louco iniciar a conquista do Médio Oriente e preparar-se para se sentar em cima de dois terços das reservas mundiais de petróleo para depois ditar ordens ao mundo. E tratava-se, para nós portugueses, de adquirir a legitimidade específica que mais tarde nos permitiria exigir dos americanos o seu apoio à libertação de Timor - cuja ocupação era em tudo semelhante à do Kuwait. A guerra fez-se, foi rápida, "limpa" e politicamente exemplar. Quanto a nós, ficámo-nos pelas meias-tintas: solidários, sim, mas desde que não comprometêssemos nem meios nem homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Governava então, no apogeu da maioria absoluta, Aníbal Cavaco Silva. Não consegui evitar nunca uma incurável embirração pelo cavaquismo, mais do que pelo seu mentor. De um ponto de vista prático, reconheci a importância das obras feitas, o crescimento económico possibilitado pelo muito dinheiro aplicado, que os fundos europeus e o petróleo barato proporcionaram. Mas fui constatando e escrevendo que nenhuma verdadeira reforma tinha sido ensaiada, apesar das excepcionais condições para tal. Hoje, continuo a pensar que a generalidade dos problemas que enfrentamos e a desesperança que se instalou têm origem directa nesses anos (depois acrescentados aos do guterrismo), em que nada de essencial se mudou na educação, na justiça, na saúde, na reconversão agrícola e industrial e, sobretudo, numa cultura política e cívica fundada no mérito, na coragem de correr riscos, na liberdade individual e na separação entre o Estado e os negócios privados. Pelo contrário, o cavaquismo instalou a promiscuidade entre os empresários e o poder político, a subsidiodependência, a mentalidade dos jobs for the boys, o enriquecimento sem causa e a obediência e subserviência como dever cívico. Cumulada de dinheiro, lugares e favores, a grande oportunidade europeia transformou-se na grande oportunidade para virem ao de cima e florescerem impunemente os piores defeitos dos portugueses. Em lugar de riqueza o país produziu apenas novos-ricos, em lugar de desenvolvimento obras de fachada, em lugar de qualificação negócios desonestos com os dinheiros do Fundo Social Europeu, em lugar de reconversão agrícola e ordenamento do território Porsches, subsídios para nada fazer e urbanizações nas falésias do Algarve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os primeiros anos de António Guterres foram um momento de esperança, pelo menos no ar que se respirava. O cavaquismo caiu no justo momento em que o culto da personalidade do chefe e a demissão cívica dos oportunistas se estavam a tornar numa doença feia. Mas, rapidamente afectado por problemas familiares graves, Guterres começou a "deixar andar", entregando a governação aos "cardeais", "bispos" e "sacerdotes" do novo socialismo. A ganância não tem cor ideológica e o resultado foi trágico. O "bloco central", governando à vez, desperdiçou os 20 anos mais propícios do país e temo que, de facto, o tenha tornado inviável para sempre. Com a deserção de Guterres, o país, sem grande convicção nem ilusões, teve de escolher a única coisa que lhe apresentaram: um governo PSD-PP, chefiado por um senhor muito simpático mas totalmente desprovido de uma simples ideia para Portugal: Durão Barroso. Governou o menos que pôde e, ao primeiro sinal de alarme, agarrou o primeiro comboio que passava e fugiu - literalmente -, deixando-nos entregues nas mãos do impensável Santana Lopes. Para grande espanto meu, ainda houve almas piedosas que reclamaram para isto o "benefício da dúvida". Eu cá não: estão aí os arquivos do PÚBLICO para provar que, ainda ele não tinha tomado posse, e já eu antevia um país transformado em anedota. Sampaio demorou nove meses até perder definitivamente a vontade de rir. Hoje, podemos especular se o Presidente foi o mais calmo e o mais avisado de todos, escolhendo queimar friamente Santana Lopes, em lugar de o recusar liminarmente. Talvez ele tenha tido razão, mas a verdade é que com isso se perdeu mais um ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, enfim, chegámos aonde estamos agora, cedo de mais ainda para fazer um juízo. Nestes 14 anos de escrita, agarrei dezenas de temas e algumas poucas causas que me pareceram determinantes. Acho que fui dos primeiros a alertar para o descalabro para que caminhava a justiça, confundindo-se independência das funções com impunidade funcional; dos primeiros a alertar para as consequências de toda a ordem que a falta de uma política de ordenamento territorial e de defesa da paisagem e do ambiente iriam causar, aliadas à irresponsabilidade ou venialidade daquilo a que chamei "o poder fatal" - as autarquias. Uma e outra coisa foram causas perdidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos e anos a fio, insurgi-me contra a cobardia diplomática de Portugal face à questão de Timor. Alguém que muito respeito respondeu-me uma vez que Timor era a "causa romântica" de alguns jornalistas, cuja "militância" impedia a resolução definitiva do problema através das inevitáveis "soluções pragmáticas". Felizmente, contra toda a esperança, por uma vez os "românticos" venceram os "pragmáticos".Também escrevi até me cansar contra a regionalização dos socialistas, que, confundindo descentralização com desorganização, iria dividir o país em oito coutadas para oito Albertos Joões Jardins regionais, tornando Portugal definitivamente ingovernável. A causa estava perdida à partida, mas, a partir do momento em que se conseguiu esclarecer as pessoas e forçar os políticos a consultar os portugueses, transformou-se numa vitória exemplar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevi a favor da intervenção na Somália e contra a segunda guerra do Iraque, a favor da Expo-98 e contra o Euro 2004, a favor dos toiros de morte em Barrancos e contra a política nacional de conivência com os governos corruptos dos PALOP, contra os submarinos da Armada e a favor da despenalização do aborto, etc, por aí fora. Não sei se no final sobra alguma coerência ou unidade de pensamento entre questões tão diversas, expostas num total de mais de 600 artigos de opinião. Mas três coisas me consolam: uma, saber e poder dizer que escrevi sempre com convicção e sinceridade e bastas vezes contra o que a prudência aconselharia; outra, que aqui encontrei sempre um espaço de absoluta liberdade e um jornal onde tive orgulho de escrever; e a terceira é que guardo numa gaveta de casa, a benefício de futuras nostalgias, o que tantos leitores me foram por sua vez escrevendo ao longo dos anos e que tantas vezes serviram de estímulo real para continuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este breve balanço, como já perceberam, é uma despedida. Catorze anos chegam hoje ao fim. Naturalmente. Sem rancores e já com inevitáveis saudades. A partir de agora, passo a ser só mais um leitor às sextas-feiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público” - 16.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113494498493024044?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113494498493024044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113494498493024044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/catorze-anos.html' title='Catorze anos'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113494473197670287</id><published>2005-12-13T22:22:00.000Z</published><updated>2005-12-18T22:25:31.996Z</updated><title type='text'>O horizonte está vermelho</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Tenho de reconhecer que me precipitei quando há semanas atrás, e depois de ter visto a triste exibição do Benfica contra o Lille, comparei Koeman a Adriaanse, unindo FC Porto e Benfica na mesma «desgraça holandesa»&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Semana de luxo para o Benfica, iniciada com a feliz e sofrida vitória no Funchal, continuada com a brilhante e justíssima vitória sobre o Manchester United e fechada com um triunfo merecido sobre um Boavista que pareceu mais cansado que o Benfica. Tenho de reconhecer que me precipitei quando há semanas atrás, e depois de ter visto a triste exibição do Benfica contra o Lille, comparei Koeman a Adriaanse, unindo FC Porto e Benfica na mesma «desgraça holandesa». A verdade é que, ao contrário do seu compatriota, Koeman mostrou nos últimos jogos que é capaz de definir uma estratégia coerente em função de cada jogo, de estudar bem os adversários e de tirar o melhor rendimento possível dos jogadores que tem ao dispor. E, tendo muito menos recursos humanos que Adriaanse, conseguiu que o Benfica ultrapassasse a fase de grupos da Liga dos Campeões, enquanto Adriaanse nem a Taça UEFA conseguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. São bem compreensíveis a alegria e o alívio que Co Adriaanse demonstrava no final do jogo de Leiria. Um novo resultado negativo seria dificilmente gerível, depois dos fiascos acumulados em todos os jogos importantes que até aqui teve de enfrentar: quatro da Liga dos Campeões, mais o Benfica e o Sporting no Dragão. A vitória em Leiria, categórica e determinada, foi um sopro de vida caído do céu. Mas nada, nada, nem o título, poderá fazer esquecer a hecatombe europeia, motivada exclusivamente por erros gritantes do treinador. Na semana em que o FC Porto disse adeus à Europa e adeus ao capitão Jorge Costa (chutado para canto por Adriaanse, como roupa velha) torna- se evidente que o treinador responsável por ambas as coisas está condenado a ficar eternamente sob suspeita. Não sei se por um, se por dois, se por três anos. E se o FC Porto não perdeu em Bratislava e ganhou em Leiria, apenas três dias após aquele inferno, deve-se aos jogadores e à tal mística de que fala Vítor Baía e Jorge Costa tão bem simbolizava. O homem pode até vir a ser campeão, o que nem sequer é difícil, com a equipa e o orçamento que tem. Mas duvido que recupere a confiança e a simpatia do balneário e das bancadas. Aliás, não sei se já repararam mas esta época é a primeira, em20 anos de presidência de Pinto da Costa, que não o vejo sentado ao lado do treinador nos jogos fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Como toda a gente já disse, não foi em Bratislava que o FC Porto se despediu da Liga dos Campeões mas apenas e também da Taça UEFA. Mas pergunto- me se por acaso fosse um dos tubarões europeus a jogar ali a continuidade na Liga a UEFA consentiria que o jogo se disputasse naquelas circunstâncias. Em mais de 40 anos a ver futebol nunca assisti a um jogo disputado num terreno assim — nem sequer na célebre final de Tóquio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Não consigo entender a lógica ou a legitimidade moral de o Estádio da Luz assobiar o Cristiano Ronaldo ou o João Pinto. É verdade que o clubismo por vezes é cego mas podia ao menos ter algum pudor. É também verdade que nada disso desculpa os gestos de Cristiano, ao despedir-se do público da Luz. Mas o que mais me espantou ainda foi o espanto de tantos: por acaso não tinham ainda reparado que, de há uns tempos para cá, quer na Selecção quer no Manchester, o Cristiano tem dado sobejas demonstrações de um vedetismo insuportável? E, descrevendo todos e cada um dos jogos dele em Inglaterra e na Selecção como autênticas e únicas peças de arte, faça ele o que fizer, a imprensa não terá também alguma responsabilidade neste estatuto de semideus com que ele se pavoneia, como se o talento para jogar futebol não fosse apenas isso — talento para jogar futebol?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Grande alarido porque o Maciel, emprestado pelo FC Porto ao União de Leiria, ficou sentado na bancada, por imposição do acordo de cavalheiros vigente entre ambos os clubes. De repente toda a gente pareceu esquecer- se de que o mesmo tipo de acordo já vigorou este ano e nos anteriores a favor do Benfica e do Sporting. Aliás, e se não estou em erro, até foi esta a primeira vez que o FC Porto o impôs durante este campeonato. Pois eu, ao arrepio do politicamente correcto, devo dizer que sou a favor destes acordos. Primeiro porque é um acordo privado, celebrado entre duas partes livremente e honrado pela pa- lavra de cavalheiros, que ninguém tem legitimidade para exigir que seja quebrada; segundo porque, sendo, como é norma, o ordenado dos jogadores emprestados pago entre os dois clubes, custa-me entender que alguém possa servir simultaneamente dois amos; terceiro porque é melhor que os jogadores, apesar desta limitação em dois jogos por ano, possam rodar noutros clubes que estarem encostados, sem proveito para ninguém, nos clubes de origem; e quarto porque a sua utilização contra o clube de origem daria fatalmente azo a todas as suspeitas, em caso de azar. Por exemplo: o Bruno Vale, emprestado pelo FC Porto ao Estrela da Amadora, até jogou no Dragão e fez uma excelente exibição. Mas se, por acaso, tem encaixado um frango, quem acreditaria que tinha sido involuntário? E se o Maciel tem jogado no sábado e tem falhado um penalty ou um golo de baliza aberta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. Depois da desastrada prestação no FC Porto-Sporting da última jornada, Lucílio Baptista reapareceu para o Benfica-Boavista e com uma irresistível tendência para só ver faltas para um dos lados. Constatei, curiosamente, que a sua nomeação não deu motivo a quaisquer críticas nem comentários. Nem sequer ouvi o sr. Veiga a falar na jarra ou nos árbitros envolvidos no Apito Dourado. Deve ter sido esquecimento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. Luiz Filipe Scolari é um homem de fé e um homem de sorte, como conheci raros na vida. Não sei se foi a fé na Senhora de Fátima ou a sorte que o persegue que mais uma vez o cumularam de benesses com o sorteio para o Mundial. Sei que melhor era impossível. Para que a sorte fosse completa só era preciso que Vítor Baía não continuasse, semana após semana, do tapete do Dragão ao lamaçal de Bratislava, a demonstrar que não há melhor guarda-redes que ele em Portugal. E que Ricardo Quaresma não continuasse também a insistir em mostrar que actualmente é talvez o jogador português em melhor forma e o mais útil a uma equipa. Para que alguns de nós (também portugueses, se não se importam...) não ficássemos a pensar que, com eles, a Selecção do Sul de Portugal e Comunidades Emigrantes se poderia tornar finalmente a Selecção de Todos Nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 13.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113494473197670287?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113494473197670287'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113494473197670287'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/o-horizonte-est-vermelho.html' title='O horizonte está vermelho'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113415081825750522</id><published>2005-12-09T17:46:00.000Z</published><updated>2005-12-09T17:53:38.276Z</updated><title type='text'>Delírios de ricos em terra de pobres</title><content type='html'>Depois da Ota, o TGV. A febre dos "grandes projectos" tomou definitivamente conta do país e traz numa roda-viva de entusiasmo sem limites o Governo, as construtoras e os bancos: o primeiro apresenta "obra" e os outros têm garantidos desde já negócios milionários para a próxima década - desde que, como foram adiantando os nossos empresários, o Governo não se esqueça de, sem violar a legislação concorrencial comunitária, apresentar "regras flexíveis" que permitam às nossas empresas ser parte determinante do negócio.Primeiro que tudo, o que impressiona nisto são os custos. A Ota vai custar, segundo as estimativas do Governo, 3,1 mil milhões de euros, e o TGV Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid 7,6 mil milhões. Se, porém, considerarmos as inevitáveis derrapagens que qualquer, qualquer empreitada pública sempre tem por definição, se considerarmos que o custo público da Ota vai ser sob a forma de venda da ANA ou de abdicação das receitas aeroportuárias por várias décadas, e se levarmos em conta os juros do financiamento bancário, estaremos mais perto da verdade provável se falarmos num custo conjunto nunca inferior a 12 mil milhões de euros. É simplesmente astronómico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, impressiona esta largueza de vistas, sobretudo quando comparada com outros países, bem mais ricos e desenvolvidos, onde não existem estes cíclicos impulsos faraónicos. Pergunto-me como é que um país que tem como dois hospitais centrais principais, nas duas maiores cidades, o S. João no Porto e o S. José em Lisboa - onde parece não haver sequer dinheiro para tampas de retrete nas casas de banho - já fez coisas como Sines, Cabora Bassa, Alqueva, Euro 2004. Tudo investimentos megalómanos, "desígnios nacionais" como lhes chamaram, e "elefantes brancos", como merecem ser chamados. Por que é que a Holanda e a Bélgica, bem mais prósperos que Portugal, organizaram em conjunto o Euro 2000 e apenas precisaram de sete estádios, dos quais dois novos, e nós, organizando sozinhos, precisámos de dez estádios, dos quais oito novos? Por que é que, em vez do grande Alqueva, gigante adormecido e majestático, não se fizeram antes uma série de médias e pequenas barragens que cobrissem todo o Alentejo e Algarve e retivessem toda a água que inutilmente escorre para o mar? Por que é que Málaga tem um aeroporto que actualmente movimenta o mesmo número de passageiros que a Portela mas que cresce o dobro desta anualmente, com apenas uma pista contra as duas da Portela e ocupando 320 hectares contra os 520 da Portela, e só espera rever as suas condições no ano 2020? Por que é que nenhum país do Norte da Europa, e países tão extensos e tão ricos como a Suécia, a Noruega, a Finlândia, sentiu até hoje a necessidade imperiosa de se dotar de um TGV?Cinquenta anos depois do mítico "Foguete", equipado com velhas locomotivas Fiat, os moderníssimos Alfa-Pendular demoram somente dez minutos a menos a fazer o Porto-Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, gastaram-se décadas a desmantelar linhas interiores transformando o transporte rodoviário num próspero negócio privado com tremendos custos públicos. Entretanto, gastaram-se 600 milhões de euros para fazer apenas 30 quilómetros de linha compatível com o comboio pomposamente baptizado de pendular, antes de desistir e abandonar o projecto. Entretanto, nada se fez para começar a substituir a linha de bitola ibérica pela de bitola europeia nos percursos internacionais, constituindo, esta sim, a verdadeira causa de marginalidade de Portugal no domínio dos transportes e, uma vez mais, uma excelente oportunidade de negócio para o transporte TIR. Entretanto, dezenas de administrações, raramente nomeadas pela sua competência e antes pela sua dedicação partidária, acumularam prejuízos autenticamente escabrosos na CP, sem que jamais alguém fosse responsabilizado. E agora dizem-nos que tudo se resolve com um TGV para o Porto e outro para Madrid.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dúvida que é urgente uma ligação ferroviária Lisboa-Porto em tempo compatível com os dias de hoje, quanto mais não seja para pôr fim à situação de oligopólio concertado que faz da ligação aérea entre estas duas cidades talvez a milha aérea mais cara do mundo. A questão está em saber se, em lugar da Alta Velocidade (AV), cuja construção tem custos assustadores, incluindo até a construção de duas novas pontes sobre o Tejo, não seria suficiente e mais à medida das nossas necessidades e possibilidades a construção de uma linha de Velocidade Elevada (EV), que tem custos incomparavelmente mais baixos e que, no final, gastaria apenas cerca de 25-35 minutos a mais do que os 75 minutos previstos na ligação em AV. Será mesmo imperioso passarmos directamente do oito para o oitenta?Já quanto ao TGV para Madrid, façam por esquecer toda a propaganda associada: trata-se simplesmente de uma imposição de Madrid, que assim, tal como já sucedeu com a A6, coloca cá, mais depressa e mais baratos, os produtos que esmagam a nossa insípida concorrência. É um TGV para servir Madrid e a única boa notícia, entre os planos divulgados pelo Governo, é que ao menos houve o bom senso de congelar, espera-se que definitivamente, os projectos liquidatários de levar a nossa submissão ao ponto de construir também as linhas Porto-Vigo, Aveiro-Salamanca e Faro-Huelva, que, num acesso de diplomacia "construtiva", Durão Barroso se tinha comprometido com Aznar a levar por diante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O esquema do Governo é este: a UE pagará entre 20 a 30 por cento dos custos de construção do TGV - os tais 7,6 mil milhões, com a nova ponte Chelas-Barreiro. O resto ficará por conta dos contribuintes portugueses e representa um custo não amortizável em vida das próximas gerações. Aliás, nem há, tecnicamente, forma de o amortizar, visto que os lucros da exploração das linhas ficarão para os privados, em troca da aquisição dos próprios comboios. O Lisboa-Porto é um negócio de lucro garantido à partida: com uma duração de 75 minutos entre as duas cidades, só um idiota é que se lembrará de ir de comboio ou de carro. Mais incerto é o negócio Lisboa-Madrid. Para atrair os privados, o Governo estima que haja anualmente cinco milhões de passageiros a circular no TGV de e para Madrid. O número parece, desde logo, absurdo: haverá mesmo 13.700 passageiros por dia a viajar entre Madrid e Lisboa de comboio? Se considerarmos que as estatísticas europeias revelam que o TGV entre duas cidades absorve em média metade de todo o tráfego de passageiros existente no total dos meios de transporte, isso implica a existência de mais de 27 mil pessoas a viajar diariamente entre as duas cidades. Alguém acredita?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, é interessante comparar aqui os números da propaganda do Governo ao TGV com as da propaganda à Ota. Porque a ideia que fica é que estamos perante o clássico dilema do cobertor que ou destapa a cabeça ou destapa os pés. Se, na propaganda do TGV, se sustenta que haverá anualmente cinco milhões de utentes da linha Lisboa-Madrid, é forçoso concluir que o Governo, e logicamente, está a prever que essa ligação "seque" por completo as alternativas aérea e rodoviária. Ou seja, a esmagadora maioria dos passageiros entre as duas cidades optará pelo TGV. Logo, esses cinco milhões devem ser abatidos ao "congestionamento" imaginado para a Portela. E aos cinco milhões devemos acrescentar os 555 mil que actualmente voam entre o Porto e Lisboa. Somando uns e outros, temos que metade do actual trânsito da Portela (dez milhões e meio por ano) desapareceria automaticamente assim que o TGV entrasse ao serviço nas duas ligações. Conclusão: ou o TGV para Madrid assenta em previsões delirantes, que o tornam inútil, ou a Portela não está em vias de ficar saturada e inútil é a Ota. Seria bom que fizessem essa continhas mais bem feitas antes de nos apresentarem a factura a pagamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público” - 09.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113415081825750522?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113415081825750522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113415081825750522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/delrios-de-ricos-em-terra-de-pobres.html' title='Delírios de ricos em terra de pobres'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113415120226811079</id><published>2005-12-06T17:56:00.000Z</published><updated>2005-12-09T18:00:02.273Z</updated><title type='text'>"Offside"</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Esta noite, em Bratislava, Adriaanse vai ter mais uma oportunidade para provar que não é um looser crónico, incapaz de ganhar um jogo decisivo, de não cometer erros indesculpáveis na formação da equipa, nas substituições feitas, na estratégia e na atitude durante o jogo.&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Com erros de palmatória e golpes de sorte se escreveu a história desta 13.ª jornada da Liga. Um passe displicente e suicida de Pepe ofereceu o golo ao Sporting, no jogo do Dragão (pena que um jogador com tanto potencial reincida em deslizes fatais como este!). Um pontapé falhado do Jorginho, chutando no ar, proporcionou dois ressaltos consecutivos em jogadores do Sporting e o autogolo de Polga (e o Jorginho, à míngua de serviço para mostrar, ainda se permitiu festejar o golo como sendo seu...). No Funchal um falhanço de Mantorras a cabecear a bola, seguido de tremendo erro do defesa Valnei, proporcionou o único golo da sofrida vitória do Benfica sobre o Marítimo. No Restelo o primeiro golo consentido pelo Nacional em sete jogos fora resultou de um bambúrrio irrepetível e significou a vitória do Belenenses. Enfim, em Braga, onde se jogava o primeiro lugar, uma oferta do defesa local Nunes deu ao Vitória de Setúbal a possibilidade do seu único remate à baliza em todo o jogo e da conquista dos três pontos. Convenhamos que não há tácticas, nem estratégias, nem moral do jogo que resistam a factores aleatórios como estes. Quanto muito poderá dizer-se que as grandes equipas são aquelas que já contam com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.  FC Porto-Benfica: Lucílio Baptista. FC Porto-Sporting: Lucílio Baptista. Últimos seis jogos FC Porto- Sporting ou vice-versa: cinco vezes Lucílio Baptista. Sendo que ele é hoje, provavelmente, o pior dos árbitros de primeira categoria e criou uma lenda, alicerçada em factos reais, de prejudicar sempre o FC Porto, convenhamos que há coincidências de um raio! Apesar de tudo, sábado passado, no Dragão, Lucílio Baptista conteve-se — não nos erros cometidos mas na sua distribuição, mais ou menos equitativa. Perdoou um penalty a cada uma das equipas e anulou um golo a cada. Mas com subtis diferenças: o golo anulado ao Sporting é offside claro, embora por muito pouco e embora a jogada merecesse golo; o golo anulado ao FC Porto tem de merecer o benefício da dúvida, embora a pretensa falta só ele a tenha visto. O penalty perdoado ao Sporting é bem mais flagrante que o perdoado ao FC Porto e, sobretudo, aquele de que beneficiaria o FC Porto foi muito anterior, o que é sempre susceptível de ter mais influência no decurso do jogo. Tudo isto foi consensual: houve um penalty perdoado a cada um, um golo anulado a cada um — o do Sporting por offside incontestado, o do FC Porto por falta que se admite que possa ter existido mas a televisão não demonstrou. Nem Adriaanse nem Paulo Bento vieram reclamar do árbitro e nenhum dirigente portista se pronunciou sobre a arbitragem ou até sobre a nova coincidência da escolha do árbitro. Toda a gente coincidiu nesta análise aos lances polémicos, assim como coincidiu na leitura de que o resultado foi bem mais lisonjeiro para o Sporting que para o FC Porto ( a estatística de A BOLA registou 13 remates à baliza por parte do FC Porto contra um do Sporting). Mas há sempre gente que vê os jogos de outra maneira. O dirigente sportinguista Rui Meireles confessou-se «decepcionado », pois o Sporting «merecia mais que o empate». E isso só não aconteceu porque Lucílio Baptista «falhou num lance crucial: o golo de Deivid é mal anulado. Mas é o futebol que temos e já estamos habituados». Já o vice-presidente leonino, Meneses Rodrigues, resolveu puxar pela tradicional memória selectiva dos sportinguistas e concluiu que, «pela primeira vez, este senhor árbitro não prejudicou o Sporting». Se os dois me derem o prazer de vir a minha casa tomar um café, uma noite destas, eu passo-lhes uma prolongada sessão vídeo sobre as arbitragens deste árbitro nos últimos FC Porto-Sporting, arquivadas justamente para documentarem o futebol que temos e a que já estamos habituados. Seria um prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Cada vez mais me convenço de que o futebol é feito de acasos e de evidências. Nada a fazer contra os primeiros: nenhum treinador pode planear um jogo partindo do princípio, por exemplo, de que o Pepe vai fazer um passe de morte ao Carlos Martins. Mas, já quanto às evidências, constato que há treinadores cuja carta de alforria parece consistir apenas ou principalmente em tornarem obscuro o que é claro e verem só mais tarde o que já todos viram. À 13.ª jornada Co Adriaanse pôs em campo, finalmente, uma equipa praticamente consensual, porque escolhida segundo razões evidentes do mérito de cada um. Ah, mas tinha de haver uma excepção! A insistência em continuar a jogar com Jorginho, isto é, com 10 jogadores na prática, é coisa que já ninguém consegue entender nem ele próprio explicar. Fala na «velocidade» do Jorginho mas o Jorginho nem se mexe, não corre, não se desmarca, não luta, não fura, não faz pela vida. Fala na falta de extremos mas tem o Alan, o Ivanildo ou o Lisandro para jogar descaído sobre o flanco. Esta noite, em Bratislava, Adriaanse vai ter mais uma oportunidade para provar que não é um looser crónico, incapaz de ganhar um jogo decisivo, de não cometer erros indesculpáveis na formação da equipa, nas substituições feitas, na estratégia e na atitude durante o jogo. Pelo menos desta vez deu-se ao incómodo de ir pessoalmente espiar o adversário. Espero que não tenha voltado a concluir que o Jorginho é indispensável ou que a melhor maneira de vencer o jogo é alinhar sem ponta-de-lança de raiz. O mínimo que lhe é exigível, neste momento, é colocar o FC Porto na Taça UEFA, o que será um cometimento pior que medíocre face ao plantel de que dispõe e ao grupo que lhe saiu em sorte na Champions. Um milagre colocá-lo-á nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Uma derrota ou um empate selarão definitivamente o divórcio entre as bancadas do Dragão e mister Adriaanse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. O terceiro lugar do Vitória de Setúbal e os três golos sofridos, sobretudo nas circunstâncias de trabalho indignas que se conhecem, são, de facto, uma proeza notável. Mas também não é preciso mitificar as coisas para realçar um mérito que ninguém contesta: o Vitória tem um grande guarda-redes e uma defesa em grande forma e com uma imensa capacidade de sofrimento e concentração. Mas tem tido também uma grande dose de sorte. Honra lhe seja feita, Luís Norton de Matos não se furta a admitir essa sorte, ao contrário de muitos outros que, no lugar dele, estariam há muito em bicos de pés com medo que não lhes reconhecessem a devida estatura. Estreante na Liga, tem tido, na equipa e no jogo, a sorte que lhe faltou com os pobres dirigentes do Vitória. Só por isso, quanto mais não fosse, ele e a equipa bem merecem essa sorte. Mas de certeza que Luís Norton é o primeiro a saber as limitações que tem e que a sorte não dura para sempre. Os resultados têm sido o estimulante, o Prozac que mantém a equipa de pé e unida. Mas um dia o remate para golo vai bater na trave, o Moretto vai estar distraído ou o árbitro vai permitir o golo do adversário em offside. E tudo pode começar a desabar de repente. A grande proeza de Luís Norton é conseguir que esse momento só chegue quando o Vitória já estiver a salvo da despromoção. Mais que isso só podem prever e exigir-lhe aqueles que acham que é possível esperar resultados sem a contrapartida mínima, que é a de pagar o ordenado a quem trabalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 06.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113415120226811079?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113415120226811079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113415120226811079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/offside.html' title='&quot;Offside&quot;'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113365147201596266</id><published>2005-12-02T23:06:00.000Z</published><updated>2005-12-03T23:11:12.036Z</updated><title type='text'>Portugal sob escuta</title><content type='html'>Quando eu era pequeno, em casa dos meus pais, habituámo-nos a viver com o facto de ter o telefone sob escuta da PIDE. Esse conhecimento obrigava-nos a ter uma permanente atenção e contenção naquilo que se dizia ao telefone e, às vezes mesmo, a avisar os interlocutores de que o telefone estava sob escuta, não fossem eles descaírem-se com qualquer frase que permitisse à polícia política de então concluir que estava em marcha qualquer "actividade subversiva". Havia, aliás, um lado de bravata no facto de, volta e meia, dizermos de forma a ser bem entendidos pelo PIDE de escuta que sabíamos que ele estava ali. E, como os meios técnicos eram então bem mais primitivos e a própria PIDE era constituída por gente boçal e estúpida, não era raro que o ouvidor se denunciasse a si próprio, produzindo sons que o traíam: houve mesmo um que certa altura não se conteve e entrou a meio de uma conversa telefónica de uma irmã minha, com um comentário ordinário. Assim era o sentimento de impunidade daquela triste gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu cresci assim com um instinto de profundo nojo e repulsa pela actividade que consiste em ouvir as conversas alheias, devassar a respectiva intimidade, retirar a alguém o direito essencial a manter íntimo o que é seu e a manter secreta a sua correspondência. Anos mais tarde, trabalhando esporadicamente na Comissão de Extinção da PIDE-DGS, pude confirmar, ao consultar certos processos, que a PIDE mantinha um registo das escutas telefónicas que ultrapassava em muito os aspectos políticos, para se concentrar largamente na devassa total da vida privada dos "suspeitos". Estava ali uma abundante matéria de chantagem e tema de cartas anónimas, que a PIDE também não se coibia depois de enviar às mulheres, maridos, familiares, dos "inimigos da ordem pública". Estava ali também o retrato fiel de um regime moralmente podre e politicamente abjecto. Na ingenuidade dos meus verdes vinte anos, imaginei que nunca mais, num país finalmente livre e democrático, se poderiam voltar a viver coisas semelhantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas os anos foram passando, os tempos foram evoluindo, o crime internacional e organizado foi-se especializando e, aos poucos, o Código de Processo Penal foi abrindo brechas por onde foram deslizando lentamente as sagradas garantias que a Constituição de 1976 nos tinha dado. Foi primeiro a droga, depois o terrorismo, as associações de malfeitores, o grande crime económico. Foi primeiro as dificuldades da própria investigação de certos crimes, depois a sempre invocada insuficiência de meios, enfim o acumular de processos nas mãos dos juízes. Nunca faltaram os pretextos, as razões ponderosas e "compreensíveis", até que as excepções se transformassem na regra. As escutas telefónicas estão hoje para a investigação criminal em Portugal como antes estava a confissão do suspeito: é a prova absoluta, o método rotineiro de investigação, o meio de prova mágico que dispensa o trabalho e a imaginação de todos os restantes. Se o suspeito se descai numa escuta, há processo - sem necessidade de o complementar com quaisquer outras provas convincentes; se ele não se descai, não há processo - mesmo que abundem os indícios de crime, que não se procura investigar por outra forma. Não admira que a PGR e a PJ se queixem da insuficiência de meios humanos para poderem evitar a escandalosa diferença entre processos abertos e processos concluídos: estão todos ocupados a escutar as conversas telefónicas dos portugueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é apenas um dos problemas levantados pelas escutas. Mas há pior e bem mais grave. Eu, por exemplo, parto do princípio, hoje como no tempo da PIDE, de que o meu telefone está sob escuta. Não porque seja suspeito de qualquer crime ou tenha qualquer lição de ética a receber da polícia ou do Ministério Público. Mas apenas porque eu, pelo meu lado, suspeito que o que era fatal que acontecesse qualquer dia está a acontecer: as escutas tornaram-se também um instrumento político nas mãos das corporações judiciais. Escutam-se não apenas os suspeitos de crimes, mas também os políticos que podem contrariar as posições e interesses dos magistrados, os jornalistas que os podem comprometer, os fazedores de opinião que os possam contradizer. Se dúvidas houvesse, o recente episódio em que escutas telefónicas feitas a dirigentes do PS e do PP, e cujo tema era a demissão do procurador-geral da República, foram feitas, prosseguidas, transcritas, arquivadas em processo (como se de crime se tratasse!), e posteriormente enviadas para publicação num jornal, são a prova cabal do uso da devassa telefónica como arma de chantagem política.E esse é apenas o último episódio em data. Nos últimos anos, tem sido crescente o número de casos em que o teor de escutas telefónicas feitas ao abrigo de um processo de investigação e supostamente validadas por um juiz acabaram "sopradas" para os jornais - sempre e sempre, como não podia deixar de ser, por iniciativa dos que promoveram e realizaram as próprias escutas. Como também é fácil de verificar, na maioria desses casos, as escutas acabam por não dar origem a qualquer acusação judicial ou a não conseguirem sustentá-la, funcionando a sua divulgação pública como uma forma de julgamento popular promovido pela magistratura e destinado a compensar, aos olhos da opinião pública, a total incompetência dos investigadores. Noutros casos ainda, a leitura do sentido das fugas de informação nesta matéria indicia claramente uma tentativa de coacção ou chantagem sobre o poder político. Foi assim que, ao abrigo da investigação do processo Casa Pia, as escutas foram ao ponto de abranger dirigentes partidários sem nenhuma relação com o processo e o próprio Presidente da República. À impunidade, à violação grosseira da lei por parte de quem deveria vigiar o seu cumprimento, segue-se o desafio e a provocação, até se chegar ao limite pretendido: o sequestro do poder político por parte do judicial. Eis aqui uma matéria em que nenhum Presidente da República tem o direito de permanecer calado. Em que nenhum candidato presidencial tem o direito de fugir à resposta. Trata-se de saber, antes de mais, se nós continuamos ou não a ter direito ao sigilo da correspondência, salvo rigorosas excepções, a avaliar, antes e durante as escutas, por um juiz de instrução - e não, como sucede, com horas e horas de escutas a acumularem-se nas mãos dos investigadores, sem que o juiz encontre tempo, dentro do prazo "razoável" de que fala a lei, para as validar ou mandar destruir. E temos o direito de saber se as escutas servem unicamente como meio complementar de prova na investigação criminal, ou também como meio de devassa pública, de disfarçar a incompetência ou de assustar quem interessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito que entendo que o Ministério Público funciona em rédea livre, fazendo o que quer e não fazendo o que não quer, sem dar satisfações nem prestar contas. Por isso mesmo, liberto dos constrangimentos dos políticos e ponderando entre dois males efectivos, sou a favor do fim da autonomia total de que actualmente goza. Hoje, confrontado com a deriva antidemocrática a que conduziu a autonomia total do Ministério Público, prefiro o perigo de uma investigação criminal hierarquicamente subordinada a um poder legitimamente eleito do que entregue aos próprios, sem orientação nem controlo democrático externo. E acho que se poderia e deveria começar pelas escutas. Que houvesse um órgão independente, com membros designados pela Assembleia e pelo Presidente, a quem a Procuradoria-Geral da República submeteria regularmente um relatório completo das escutas efectuadas e em curso, quem e porquê as tinha ordenado e com que resultados. E que, ao fim de um prazo a definir por lei, mas nunca mais de seis meses, as operadoras telefónicas fossem obrigadas a informar directamente os clientes, sem passar pelo tribunal, de que o seu telefone estava sob escuta, desde tal data e à ordem de tal magistrado. Nada fazer é pactuar com a instalação paulatina de um Estado policial onde o direito à intimidade da vida privada deixou de contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal “O Público” - 02.12.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113365147201596266?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113365147201596266'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113365147201596266'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/12/portugal-sob-escuta.html' title='Portugal sob escuta'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11335855.post-113337468855698236</id><published>2005-11-30T18:10:00.000Z</published><updated>2005-11-30T18:18:08.600Z</updated><title type='text'>Unidos na desgraça</title><content type='html'>BENFICA e FC Porto estão finalmente unidos: unidos na desgraça holandesa. Para quem esperava que a contratação de dois treinadores holandeses por parte dos dois maiores clubes portugueses viesse revolucionar o respectivo jogo, trazer ao nosso campeonato a versão moderna do tal «futebol total» que imortalizou a escola holandesa e pôr um e repor o outro no trilho da Europa de luxo, estes primeiros três meses da experiência holandesa têm sido frustrantes. Ambos estão à beira de ser implacavelmente afastados da Liga dos Campeões e em risco até de o serem também da Taça UEFA, desperdiçando a sorte que os colocou em dois grupos classificativos perfeitamente acessíveis, e depois de públicas e reiteradas demonstrações de medo, falta de ambição, de estratégia e de clarividência. E se, internamente, o Benfica caminha vários passos atrás do FC Porto, num impensável 6.º lugar, também é verdade que já venceu no Porto, onde Koeman deu uma lição de estratégia a Adriaanse. Ontem, mercê de uma vitória feliz em Barcelos — uma vez mais devida ao talento de Ricardo Quaresma e após mais uma exibição miserável, em que Adriaanse voltou amostrar todas as suas qualidades estáticas no banco — o FC Porto ganhou oito pontos de avanço sobre o Benfica. Mas tudo pode ficar mais nivelado entre ambos (nivelado por baixo), se, na próxima sexta-feira, conforme é de temer, também Paulo Bento for ao Dragão ensinar a Co Adriaanse como é que se ganha um jogo importante. Olhando para este primeiro terço de campeonato e para o que treinadores portugueses têm feito à frente de equipas como Nacional, Sp.Braga e Vitória de Setúbal, só podemos concluir que se Koeman e Adriaanse fossem portugueses já estariam despedidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem vistas as coisas, Koeman tem mais desculpa do que Adriaanse. O Benfica dispõe de pouco mais de metade do orçamento do FC Porto, tem tido menos apoio do público no seu estádio e tem, sobretudo, pior equipa e pior banco. Com a lesão de Simão tornou-se evidente, para quem ainda pudesse ter dúvidas, que todo o futebol de ataque do Benfica depende dele, passa por ele e conclui-se quase sempre com ele. Com a lesão dos dois guarda-redes principais foi a vez de abanar de alto a baixo toda a estrutura defensiva, remetendo o Benfica para uma série de seis jogos sem vencer e para uma atitude competitiva própria das equipes que tudo temem e nada arriscam. Isso não justifica todos os erros de Ronald Koeman— como a ideia de jogar com quatro centrais, dois laterais e dois trincos, em Paris, praticamente em «casa», contra uma equipa menor da cena europeia e num jogo em que só lhe podia interessar ganhar. Mas a verdade é que a actual equipa do Benfica é o resultado de uma penosa reestruturação, iniciada há dois anos atrás e a partir praticamente do nada. E, a menos que apareça um Abramovitch caído do céu, nenhuma equipa é capaz de passar de banal a bestial em dois anos. Independentemente dos erros cometidos, Koeman tem ao seu dispor o que tem—e o que tem é manifestamente pouco para as ambições alimentadas pelos seus dirigentes. Não é por acaso que estes já puseram em marcha a campanha de sensibilização dos árbitros e da Comissão de Arbitragem, aliás fundada em pretensas razões de queixa ridículas: quando não se tem cão, caça-se com gato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já no FC Porto, as coisas são radicalmente diferentes. O que não tem faltado ali são milhões ao desbarato para comprar jogadores em série—doze a quinze em cada ano que passa — e pagar salários de luxo ao primeiro que aparece ao virar da esquina. E se Adriaanse pode dizer que a equipa não é dele, mas do presidente (o que é verdade), também é duvidoso que fosse melhor ao contrário, a avaliar pelas estapafúrdias equipas que escala para pôr a jogar, ou até pelo único jogador por si escolhido — o turco Sonkaya, que conseguiu a proeza de fazer as bancadas do Dragão destilar saudades do Secretário. Adriaanse tem e teve tudo para conseguir estar hoje numa posição intocável perante os adeptos, a começar por um fulgurante início de época, unanimemente elogiado por todos. E tudo a sua teimosia e a sua soberba levou...O futebol de ataque, que deslumbrou ao ponto de levantar críticas pela sua ousadia, foi caindo, caindo, ao ponto de entrar a jogar em casa, num jogo em que só a vitória interessava, contra o medíocre Glasgow Rangers, desfalcado e em crise profunda, sem nenhum ponta- de-lança e reduzido na prática e 10 jogadores, pela teimosia em voltar a insistir no inútil Jorginho. Em cinco jogos da Liga dos Campeões, Adriaanse perdeu três, empatou um, equivalente a derrota, e só ganhou um, graças a dois ressaltos felizes. E, revendo o filme de cada um dos seus quatro desaires, é justo reconhecer que todos eles foram perdidos por influência directa do treinador—tal como sucedeu contra o Benfica. Em todos eles tornou-se gritantemente evidente que Adriaanse não estudara os adversários, não tinha nenhuma estratégia para os jogos, escalou equipas sem lógica visível, fez substituições sem nexo, e não conseguiu segurar nenhuma das situações de vantagem de que dispôs em todos eles. Tranquilamente, podia ter agora 11 pontos e o primeiro lugar garantido: tem quatro e fortes hipóteses de terminar o grupo em último lugar. É certo que ainda pode conseguir o milagre, mas, não só não o merece, como nada poderá já apagar a imagem repetida dos sucessivos erros de pura incompetência acumulados. Pinto da Costa bem pode — num acto que no passado deu frutos mas que agora surge como uma deslocada provocação aos adeptos— prolongar-lhe o contrato de dois para três anos, sem que os resultados ou o mérito o justifiquem. Mas, a continuar assim, o problema do presidente do FC Porto, para a próxima época e a seguinte, vai ser o de convencer os sócios de lugar cativo a renovarem os seus lugares. E, sem eles, não há público no Dragão nem dinheiro para o festival de compras do Verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem à noite, contra o Gil Vicente, foram os gritos dos adeptos, por exemplo, que obrigaram Co Adriaanse a perceber, quase no fim, aquilo que qualquer adepto habitual de futebol já tinha percebido: que era preciso refrescar o ataque, tirar aquele estranho caso patológico em que se transformou o Jorginho e tirar o mais que desgastado Lisandro López. Se ficasse aqui a enumerar todas as situações gritantes, evidentes, em que o treinador do FC Porto foi a única pessoa no estádio a não perceber o que se estava a passar no jogo, nunca mais acabaria. Eu olho para ele e vejo-o sempre sem expressão, sem reacção, incapaz de comunicar com os jogadores, de transmitir ordens para dentro, de ver o jogo decorrer conforme uma estratégia planeada (como fazia Mourinho), ou, ao menos, de corrigir as coisas no decorrer do jogo (como fazia António Oliveira). Vejo-o sim dar asas aos jogadores e depois liquidá-los sem explicação; promover a indiscutíveis jogadores que nada provam e subitamente desprezar outros que toda a gente percebe que são mais-valias, como já sucedeu com Quaresma e agora sucede com McCarthy. Tudo sem nexo, sem critério, sem correspondência com o que se vê durante os jogos. Tudo aparentes caprichos de um vaidoso que não tem currículo para o ser. Adriaanse deveria ter aprendido a lição de Mourinho: não é vaidoso quem quer, mas quem pode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 29.11.2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11335855-113337468855698236?l=textos-mst.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113337468855698236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11335855/posts/default/113337468855698236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://textos-mst.blogspot.com/2005/11/unidos-na-desgraa.html' title='Unidos na desgraça'/><author><name>Textos de MST</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13271030377947789606</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='12737508090469192974'/></author></entry></feed>