Sobreviverá Portugal depois de 2013?
Os nossos males estão sobejamente diagnosticados e todos os conhecemos: não produzimos, não valorizamos o mérito, não corremos riscos.
Em 1006, e pelo sexto ano consecutivo, vamos divergir da União Europeia — isto é, vamos crescer menos do que a Europa à qual pertencemos. Segundo as previsões do Banco de Portugal, vamos crescer 0,8%, ter uma taxa de inflação no mínimo de 2,5% e o desemprego vai aproximar-se dos 8%. Esqueçam todas as desculpas “exteriores”, relativas aos preços do petróleo ou aos custos da globalização: entre os 25 membros da nova União, ninguém vai crescer menos do que nós. Somos os piores dos 25. A culpa é nossa e chegou a altura de o encararmos. Temos os piores trabalhadores, os piores empresários, o pior Estado. Nada funciona como devia e como seria minimamente exigível: na Saúde, na Educação, na Justiça, na Economia, na Administração Pública. De Chipre à Irlanda, do Mediterrâneo ao mar do Norte, não há ninguém tão mau como nós. Não se trata de pessimismo nem de derrotismo, e apenas uma constatação de facto. Falhamos tudo, somos o país mais falhado de todos os 25 que compõem a actual União Europeia, após vinte anos de ajudas dos contribuintes alemães, belgas, franceses, holandeses, etc. Recebemos o dinheiro deles e fizemos nada: uns quilómetros de auto-estradas, umas fraudes agrícolas e outras tantas na suposta formação.
Agora, e saudado como grande vitoria negocial, que é, vamos dispor, a partir de 2007 e ate 2013, de novo Quadro Comunitário de Apoio, que, em moeda antiga, nos garante cerca de 1,8 milhões de contos por dia. Não o merecemos, mas tivemo-lo. Bem vistas as coisas, talvez fosse melhor que Bruxelas nos tivesse fechado a torneira e nos deixasse entregues a nós próprios. Seria sangue, suor e lágrimas, mas, quem sabe, teríamos afinal encontrado uma restia de orgulho e combatividade para sobreviver. Assim, é de temer mais do mesmo: um Estado autofágico, empresários subsidiados pelos contribuintes, sindicatos do século XIX.
Os nossos males estão sobejamente diagnosticados e todos os conhecemos: não produzimos, não valorizamos o mérito, não corremos riscos. Os sindicatos defendem os que têm emprego seguro até à eternidade contra os que não têm emprego; os patrões apostam no Estado clientelar contra o mercado livre; o Estado defende o carreirismo e a filiação partidária contra o mérito e a independência. Um país assim só pode ser um país falhado. Se nada mudar radicalmente, nos vamos ser um país falhado.
Peguemos em dois exemplos próximos. Domingo, 1 de Janeiro, arrostando com filas de trânsito e arriscando acidentes, tive de tratar do regresso do meu filho mais novo a Lisboa, porque no dia seguinte abriam as aulas no ensino público e no liceu central onde estuda e onde se imagina que todos os professores públicos gostariam de estar colocados. Das cinco aulas marcadas para segunda-feira, teve uma; das quatro marcadas para terça, teve outra: todos os restantes professores estavam de “baixa”. Ou seja, prolongaram as férias que nós não tivemos porque acreditamos que o seu compromisso com a reabertura das aulas era para levar a sério. E, todavia, o Sindicato dos Professores quer-nos fazer crer que a profissão é tão violenta que não aguentam trinta e cinco anos até à reforma, mesmo que, em alguns casos, um terço dos trinta e cinco anos tenha sido passado de “baixa”. Segundo exemplo: temos a energia cara demais para as empresas, o que, como é óbvio, constitui um factor altamente agravante nos índices de produtividade. Poupa-se nos salários o que se gasta em energia. Mas a energia é quase monopólio da EDP e a EDP era uma empresa pública até terem decidido privatizá-la, dizendo-nos que, como os privados são mais eficientes, iríamos ter melhor e mais barato fornecimento. Erraram ou mentiram: tal como já sucedera nos telefones fixos, passamos a ter pior serviço e electricidade mais cara (para o ano, os aumentos vão mesmo deixar de estar limitados a taxa de inflação). Antes da privatização, a EDP dava prejuízo, mas assegurava uma energia barata para os consumidores. Agora, privatizada, dá lucro: 440 milhões de euros em 2004, e ainda mais esperados em 2005. Não é talvez possível que as empresas públicas, actuando em sectores que asseguram serviços básicos, possam manter preços políticos e perder dinheiro sistematicamente. Mas também não é inevitável que devam ser privatizadas, passando a disparar os preços para os consumidores e os lucros para os accionistas.
Agora, surge este inexplicável episoódio do Cavalo de Tróia espanhol da Iberdrola, tentando entrar na EDP pela mão do ex-ministro socialista Pina Moura, vulgo “O Cardeal”, e vemos que o Estado, o maior accionista da EDP, com cerce a de 30%, encarrega o presidente do BCP, dr. Paulo Teixeira Pinto, da escolha do próximo presidente da empresa. E, como seria de esperar, eles preparam-se para escolher alguém com provas dadas de ser capaz de servir em qualquer governo "central", qualquer agenda oculta de patrões privados e a favor de quaisquer oportunidades de negocio. Uma “arma de aluguer”, ao serviço dos ditos accionistas privados, e que se lixem os consumidores e o interesse público!
É como a Ota e o TGV: ninguém ainda conseguiu explicar direito a lógica de interesse público, de rentabilidade económica ou de factor de desenvolvimento. Mas todos vimos nas faustosas cerimonias de apresentação dos projectos, não apenas os directamente interessados — os empresários de obras públicas, os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos — mas também flutuantes figuras representativas dos principais escritórios da advocacia de negócios de Lisboa. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes Portugueses. Não há nada pior e mais perigoso do que a relação dos socialistas com o grande dinheiro: são saloios, deslumbrados e complexados. E o grande dinheiro agradece e aproveita.
Lá dentro, no "inner circle” do poder — político, económico, financeiro —, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre. Jogando com o que resta do património público, com o dinheiro que receberemos ate 2013. Cá fora, na rua e frente a eles, estão os que acreditam que nada pode mudar, mude ou não mude o mundo. Sobreviveremos depois disso?
© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 07.01.2006

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