Sábado, Janeiro 14, 2006

Só mais uma semana

O desfecho do dia 22 vai ser o mesmo que já se adivinhava há três meses, há seis meses, há um ano, ou há dez anos: Cavaco Silva ganha.

A primeira conclusão a extrair destas presidenciais é que a campanha é desnecessariamente longa. Parece impossível, mas ainda falta uma semana para acabar, quando já nada, rigorosamente nada, permanece por di­zer, explicar ou compreender. Estamos em campanha eleitoral praticamente desde o Verão, num desperdício de tempo, energias e dinheiro para os candidatos e saturação para os eleitores. Mas, enfim, eles lá sabem porque tem de ser assim.

A segunda conclusão é que, a fazer fé nas sondagens, não obstante a extensão da campanha e os esforços conjugados de quatro candidatos de esquerda (peço desculpa, mas não levo a sério as crónicas candidaturas de Garcia Pereira a eleições de toda a espécie), o desfecho eleitoral do dia 22 vai ser o mesmo que já se adivinhava há três meses, há seis meses, há um ano ou há dez anos: Cavaco Silva ganha. E ganha à primeira volta — o que significa que vai ter, não só os votos do centro e da direita, mas também parte dos votos da esquerda: talvez um terço dos votos socialistas e outro tanto dos votos comunistas.

Independentemente do desfecho real, é justo dizer que Cavaco fez a melhor campanha, tendo em vista o resultado fi­nal pretendido. Enquanto que os outros, particularmente o Partido Socialista e Mário Soares, fizeram o que podiam pa­ra Ihe facilitar a vitória. Ao contrario do que se possa dizer, não penso que a cam­panha de Cavaco Silva fosse fácil de gerir. A vantagem com que ele partia — fruto de ser o único candidato natural e assumido de há muito, com ou sem o jogo do “tabu”, que Ihe é tão a peito — era uma vantagem que também, naturalmente, só poderia ir-se diluindo ao longo da campanha (por isso mesmo é que ele entrou em campanha tão tarde quanto pode). Porque não tem talento para os deba­tes nem vocação para o contraditório, porque não tem ideias claras ou conhecidas sobre Portugal, a Europa ou o mundo, porque não tem a-vontade nos contactos de rua nem nenhuma qualificação específica para essas funções de contornos constitucionais fluidos que são as de Presidente da Republica — tal como a elas nos habituaram Soares e Sampaio. O essencial da sua estratégia era, pois, um exercício diário de controlo de danos. E Cavaco saiu-se na perfeição. Depois de dois meses a ouvi-lo diariamente, sabemos o mesmo das suas intenções ou vocação presidencial que sabíamos antes, mas, em contrapartida, vimos um políti­co que, há dez anos, deixara uma imagem de autoritarismo e arrogância, revelar insuspeitos dotes de contenção e humildade. E isso foi particularmente evidente na forma como aceitou e enfrentou todos os debates, com todos os candidates e, sobretudo, o debate final, em que Soa­res perdeu as estribeiras e Cavaco arrostou com todas as provocações, em pose de estadista e de Presidente. Quando o fundo da discussão era a “estabilidade” que cada um poderia garantir ao pais, Ca­vaco Silva limitou-se a aproveitar serenamente o “hara-kiri” do adversário.

Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã disputaram, obviamente um campeonato à parte. O primeiro explorou, uma vez mais, a sua simpatia. É, de facto, uma pessoa de uma simpatia desarmante, o tipo de pessoa com quem apetece ir almoçar e ficar horas à conversa. Não sei durante quanto tempo é que "o colectivo” vai achar graça a isto, mas, por enquanto, Jerónimo de Sousa representa toda a margem de progressão do PCP fora do seu eleitorado cativo. Francisco Louçã revelou-se, para mim, uma agradável surpresa. Foi, de longe, o melhor e o mais bem preparado candidato nos debates e, so­bretudo, abandonou a sua habitual e insuportável pose de pregador evangélico da esquerda e foi capaz de conduzir uma campanha sem as habituais ideias prontas-a-vestir, tão caras à "esquerda “Lux-Bairro Alto”. Merece, sem dúvida, ultrapassar a fatídica barreira político-financeira dos 5%.

Manuel Alegre também foi um caso à parte: era muito melhor candidato do que a campanha que fez. As sondagens dão-no agora, e contra todas as expectativas, a recuperar o segundo lugar que parecia ter perdido definitivamente para Má­rio Soares, e, ele próprio, animado pela reversão das sondagens, parece ter ganho novo fôlego. Mas, ou muito me engano, ou já é tarde para recuperar dos erros cometidos e forçar o que seria uma impensável segunda volta. Começou muito bem, na forma como lançou a sua candidatura, na forma como soube ler os "sinais do tempo" — esse descontentamento dos eleitores com o sufoco partidário, esse desnorte do país perante coisas essenciais, como a forma de fazer política, o horizonte de viabilidade e a própria identidade nacional. Mas não soube traduzir esses sinais e essa leitura num discurso coerente e continuado, que mostrasse às pessoas que resultava de ponderação antiga e não de circunstâncias do momento. Percebeu que havia um “no man's land” por explorar, mas não soube atravessá-lo. Sentiu os eleitores, mas não conseguiu que eles o sentissem.

E, enfim, Mário Soares. A sua tarefa, à partida, era simultaneamente simples e tremenda: conseguir explicar porque estava de volta, quando ninguém conseguia entender a necessidade para tal. Falhou em toda a linha, e falhou logo desde o constrangedor discurso de apresentação da candidatura, em que, das marchas con­tra a Guerra do Iraque, passando pela sua preocupação com os homossexuais, não houve nada a que não recorresse pa­ra nos garantir que continuava “vivo, activo e moderno". A campanha, todavia, mostrou-nos um candidato obcecado com o passado — e particularmente com o passado de Cavaco Silva — e que, quanto ao futuro, apenas nos jurou que, em Belém, nada iria fazer porque nada podia fazer. E assim todos poderíamos dormir descansados.Claro que eu também admiro a vitalidade e a paciência de Mário Soares, pela enésima vez em campanha por todas as feiras e boticas deste país, escutando as queixas de sempre da mesma gente de sempre. Mas, com franqueza, não acho que o esforço faça sentido nem que o espectáculo seja exultante. Seguramente que, tendo Mário Soares enterrado o seu "basta de política", haveria melhores oportunidades em que aproveitar o seu mérito e disponibilidade ao serviço do país. Estamos a falar de quem foi o melhor Presidente da Republica da democracia portuguesa, de quem contribuiu decisivamente para que tivéssemos a liberdade e a Europa, de quem é ainda o português mais prestigiado no estrangeiro. Mário Soares merecia ter tido melho­res amigos, na hora em que precisou de conselheiros e só encontrou cortesãos.

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 14.01.2006