Desta vez é a sério
As “nações indispensáveis” não se podem dar ao luxo de ser chefiadas por incompetentes.
Há três anos, muitos quiseram acreditar que os Estados Unidos falavam verdade quando agitavam a ameaça das armas de destruição maciça de Saddam Hussein, para justificar uma guerra de invasão e ocupação do Iraque. Excepção feita ao derrube do regime — o mais fácil de consumar — os Estados Unidos perderam a Guerra do Iraque em todos e cada um dos seus objectivos: não conseguiram justificar a guerra encontrando armas ou vestígios de tal, não pacificaram o país, não o democratizaram nem desenvolveram, não fizeram baixar os preços do petróleo, não melhoraram as relações do Ocidente com o mundo árabe e muçulmano e, pior do que tudo, longe de domesticarem o terrorismo, ocuparam o Iraque — onde não existia, como se provou, qualquer ligação ao terrorismo islâmico — e transformaram-no no território por excelência do recrutamento, treino e aplicação diária do terror pregado pelos “mullahs” e pelo estado-maior da Al-Qaeda.
Mas num plano a Administração Bush conseguiu ganhar previamente a guerra: no plano da opinião publica americana e mundial. Fê-lo através da contribuição decisiva de uma plêiade de jornalistas, analistas e intelectuais, para quem o simples facto de contestar ou por em duvida as verdades e as prioridades proclamadas pelo Império constitui crime de capitulação. Um Presidente, cuja pública e notável ignorância, acrescida da correspondente arrogância dos ignorantes, deveria ter constituído motivo suficiente para duvidar da sua competência à frente dos destinos daquela a que a ex-secretaria de Estado Madeleine Albright chamou um dia “a nação indispensável”, conseguiu conquistar afinal o concurso de uma quantidade determinante de gente pensante — tão mais conquistada para a nova cruzada quão mais esquerdista e anti-americano tinha sido o seu passado; por todos, Durão Barroso.
Eles desprezaram voluntariamente todas as dúvidas pertinentes, todas as informações contraditórias, todos os relatórios que não confirmavam, acerca do Iraque de Saddam, as verdades americanas. A tudo responderam com o estafado argumento de Munich e Chamberlain. Hoje respondem com o estafado argumento de que não sabiam. Não sabiam que Colin Powell aceitou mentir perante o Conselho de Segurança da ONU, que os serviços secretos americanos e ingleses receberam instruções para exagerarem as informações sobre a ameaça nuclear iraquiana e apagar dos relatórios tudo o que a contradissesse, que Bush era capaz de mentir “olhos nos olhos” e que Blair era capaz de Ihe cobrir o jogo para melhor torpedear a Europa. Mas a questão não era de saber ou não saber (houve mesmo quem aqui tivesse usado o argumento invertido de que não era possível saber se Saddam tinha ou não armas de destruição maciça sem invadir o Iraque para o apurar). A questão era a de aceitar que se desencadeasse uma guerra no Médio-Oriente, à revelia das Nações Unidas e do direito internacional, em nome de uma suposta ameaça não provada. E a de saber o que se faria depois de derrubado Saddam — em particular, o que se faria se, afinal, como veio a suceder, conquistado o Iraque, não fossem descobertos silos nucleares enterrados no deserto nem ninhos de terroristas arregimentados pela Al-Qaeda.
É pena que não tenham respondido previamente a essas interrogações e dúvidas mais do que legitimas, porque agora estariam em boa posição para serem escutados na resposta a pergunta que hoje se coloca: o que fazer com a ameaça, esta real e premente, do programa nuclear do Irão dos “ayahtollas”e do desvairado Mahmud Ahmadinejad? Se não tivessem estendido o tapete para que George W. Bush tivesse tido a sua guerrazinha, que o seu desonroso passado militar e a sua absoluta falta de ideias de política interna ou externa tanto necessitavam, hoje seria mais fácil explicar às Nações Unidas, a Rússia, a China, ao mundo árabe e a opinião publica ocidental que a ameaça do Irão é para ser levada a serio e para ser enfrentada — como foi, há quinze anos, a ameaça de Saddam sobre os países do Golfo.
Mas a verdade é que a perspectiva de um Irão nuclear e agressivo existe e representa o pior pesadelo de um “Esta-do-pária”, desligado da obediência à lei internacional e dotado das armas capazes de o transformar em factor de destabilização e terror permanentes. E, perante este “clear and present danger”, os Estados Unidos não têm capacidade militar de policiamento, os dirigentes ocidentais não têm armas de resposta, tirando as definitivas, e a opinião publica não é facilmente mobilizável para a necessidade de a resposta à ameaça poder chegar ao ponto de uma guerra preventiva de autodefesa. Tudo por causa da aventura trágica e estúpida do Iraque. Porque as “nações indispensáveis” não se podem dar ao luxo de ser chefiadas por incompetentes. E as “nações menos indispensáveis” não podem acriticamente tolerar uma liderança incompetente e depois esperar que tudo corra pelo melhor.
Há guerras legitimas e ilegítimas e a única coisa que distingue umas das outras é a sua necessidade e inevitabilidade. Era necessário correr com Saddam do Koweit, em 91, e por termo à sua fatal escalada subsequente, e essa necessidade tornou-se uma inevitabilidade militar, quando ficou evidente que nenhuma outra via funcionaria. Era inevitável e necessário perseguir a Al-Qaeda até ao Afeganistão, depois das Twin Towers. Não era necessário nem inevitável a guerra aérea “suja” sobre os céus de Belgrado a pretexto do Kosovo, nem era necessária ou inevitável a invasão do Iraque. Nem tudo o que Washington decide tem de ser aceite pelos seus aliados naturais. E, aliás, a historia ensina-nos que os Estados Unidos só respeitam os aliados com poder de decisão autónoma. Os outros, como nós, usam e desprezam.
Agora, eis onde estamos: não se pode ameaçar o Irão com sanções diplomáticas porque isso não Ihes diz nada; não se pode ameaça-los com sanções económicas porque eles respondem com o petróleo; não se pode ameaça-los com o uso da força porque ela teria de ser tamanha e, mesmo assim, de desfecho tão incerto, que não há coragem política nem clima na opinião pública para o fazer. Washington e a Europa estão nas mãos de aliados incertos: a China, que importa 20% do seu petróleo do Irão; a Rússia, que vê com bons olhos a existência de um pais que não faz parte do cerco que os Estados Unidos montaram à sua volta, com a ajuda da NATO e uma perigosa ligeireza. E, enfim, aquele que ninguém ousa nomear em público: o amigo israelita — que, com a conivência e cooperação das potências ocidentais, se transformou no único Estado nuclear do Médio- Oriente. Julga-se que exactamente para situações destas.Vem aí um ano de todos os perigos.
© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 20.01.2006

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