Quarta-feira, Março 30, 2005

Rescaldo

1 Após um fim-de-semana sem futebol (à parte um daqueles soporíferos jogos-treino da equipa de Scolari), aproveito para voltar ao Sportingt-FC Porto da última jornada, que tanta coisa clarificou no Campeonato. E faço-o, socorrendo-me de várias opiniões que, ao longo da semana, foram sendo expostas sobre o momento determinante do jogo: a expulsão de McCarthy pelo árbitro João Ferreira. A sequência de opiniões serve para tornar claro como nada é verdadeiramente claro e consensual no futebol português. Logo na terça-feira seguinte ao jogo, A BOLA decretava que McCarthy e Saitaridis tinham sido «bem expulsos».Para quem não tivesse visto o jogo, a afirmação, em subtítulo de primeira página, equivalia, não a uma opinião, mas a uma verdadeira constatação de facto. Confesso que nunca, como então, gostei tanto que a minha coluna neste jornal calhasse exactamente à terça-feira: isso permitiu que os leitores de A BOLA ficassem a saber que, com razão ou sem ela, havia quem contestasse tal «facto» e o reduzisse àquilo que ele não podia deixar de ser — uma simples opinião, como qualquer outra, sujeita a discordância. Viva o contraditório!

Logo no mesmo dia e aqui ao lado, no Jogo, o painel residente de quatro ex-árbitros chegava a uma rara unanimidade, de sinal contrário: a expulsão do McCarthy tinha sido infundada e a do Seitaridis tecnicamente errada. É verdade que também concluíam que oManiche deveria ter visto um ou dois cartões amarelos, ou mesmo um vermelho directo. Mas se isso tem acontecido, teria sido num momento em que o jogo já teria vivido outra história, até porque eles também não se esqueceram de referir as duas entradas de Beto, ambas anteriores e ambas a merecerem amarelo, sobre o Ibson e o Quaresma. A discórdia estava, felizmente, lançada e sustentada em opiniões de peso.

Sem ter podido ler antecipadamente as opiniões divergentes, e confiante, conforme é tradição da casa, de que tudo o que um árbitro decide beneficiando o Sporting é bem decidido, o administrador leonino Paulo Andrade não teve dúvidas em proclamar que «o árbitro não teve influência». E, levando mais longe a sua crença, ainda acrescentou que «o Sporting dominou o jogo desde o primeiro minuto, o FC Porto poderia ter acabado com sete ou oito e ficou por acontecer uma goleada em Alvalade».

Eu devo ter visto outro jogo. O que vi foi um jogo onde o Porto dominou os primeiros dez minutos, o Sporting equilibrou até aos 20, e passou a dominar daí até à expulsão de McCarthy, aos 34 minutos —altura em que o árbitro decidiu o desfecho do jogo. Contra dez, o Sporting não criou qualquer oportunidade flagrante, só chegando ao golo de penalty e por uma precipitação de Seitaridis. E, contra nove durante mais de meia hora, só chegou ao 2-0 cinco minutos para além da hora e tendo sofrido tantos calafrios com o ataque do Porto reduzido a um avançado, que todos vimos o desespero de Peseiro e ouvimos os assobios da bancada. Pergunto-me o que teria sucedido se aquele Sporting que se arrastava contra nove tivesse tido de enfrentar onze até final.Aminha resposta vale o que vale: se o tivessem deixado jogar com onze, e por aquilo que conheço mesmo desta irreconhecível equipa, oFCPorto teria ganho aquele jogo. Porque, para mime paradoxalmente, aquela «exibição notável» do Sporting, como lhe chamou Paulo Andrade, foi também o teste final que me faltava para saber se o Sporting tem ou não «estofo de campeão». Não tem.

Aos poucos e ao longo da semana foi-se tornando evidente para a maioria que a expulsão de McCarthy fora, não apenas decisiva para o desfecho do jogo, como também reveladora de uma atitude pré-concebida contra o jogador, que vai de membros do CD a árbitros, passando por jornalistas.Porque será que nos jogos internacionais, seja nos europeus, seja nos da Selecção da África do Sul, o McCarthy nunca é expulso e é tido como um dos melhores pontas-de-lança em actvividade?

A esta questão veio juntar-se uma outra, lembrada por Pinto da Costa: o mesmo árbitro que classificou como agressão a cotovelada de McCarthy na anca do Rui Jorge, para o afastar de cima de si, foi o que deixou passar, sem um amarelo sequer, a mais violenta agressão a que assisti esta época: a entrada de Flávio Meireles, do Guimarães, sobre Costinha, deixando-o momentaneamente inconsciente em campo e depois um mês afastado dos relvados. Seria extremamente interessante (e perturbante) que um desses programas televisivos onde se faz o aftermatch dos jogos passasse as imagens de um e outro lance, convidando o árbitro João Ferreira a explicar então o seu critério disciplinar.

Na sexta-feira, António de Sousa, aqui na A BOLA dava-me a satisfação de constatar que, afinal, não estava sozinho. Escreveu ele e vale a pena citar: «O que as imagens televisivas nos deram a ver foi a reacção instintiva de um jogador que se quer libertar de outro que se sentou em cima de si! Convenhamos que não é nada cómodo que alguém se sente em cima de nós, como Rui Jorge o fez com Mccarthy... E, se as imagens servem para punir, também devem servir para ilibar. O CJ da FPF tem a oportunidade de lançar mão do vídeo para rectificar o relatório do árbitro e a decisão do CD, independentemente do cartão vermelho exibido ao jogador.»

Sobre o CD nem sequer me pronuncio porque já não vale a pena: todos já perceberam qual é a sua única missão, nesta sua passagem pela terra. Mas não me parece que, numa Liga a sério, pudesse passar impune a actuação de um árbitro que decide objectivamente um dos chamados «jogos do título» com dois erros grosseiros, um de facto e outro de direito. A menos que o sentido de justiça e de isenção chegue ao ponto do daquele cronista sportinguista que, reconhecendo embora que McCarthy tinha sido mal expulso e concedendo a hipótese de o FC Porto «sofrer agora uma descriminação negativa, quanto a árbitros», acha que não apenas ela deve continuar, como ainda «só terá algum sentido de justiça se for estendida por uma década e sem interrupções de percurso». Leram bem.

E, por falar em década, estive a rememoriar o que foi a última década de deslocações do FC Porto a Alvalade e à Luz e acho que é improvável que o FC Porto tenha acabado mais de metade dos jogos com os mesmos jogadores dos seus adversários lisboetas. Acho que no espírito de todos os portistas, e como dizia JoséMourinho na época passada, já está interiorizada a ideia de que na Luz e em Alvalade se jogue sempre em desvantagem. Mas não me lembro (agradeço que alguém me lembre) um desses jogos dos últimos dez anos em que tenha sido o Benfica ou o Sporting a terminar com menos jogadores que o FC Porto. Mais outra década assim, a bem da verdade desportiva?

2 Neste assunto do «histórico» do FC Porto, já se sabe que a única verdade maioritária é aquela que estabelece que o FC Porto só dominou o futebol português nos últimos anos graças às arbitragens. É uma verdade que pressupõe vários corolários, o mais importante dos quais é aceitar que todos, ou quase todos, os árbitros portugueses se vendem ou vendiam — mas só ao FC Porto. Mas esta «verdade oficiosa» sempre teve um ponto fraco, que é a incapacidade de explicar como é que o FC Porto pode também dar cartas na Europa, onde os seus jogos não foram arbitrados pelos nossos árbitros e os interesses em jogo estão longe de favorecer clubes portugueses, face aos tubarões da Europa. Pois, esta semana, li algures uma explicação para o facto, a primeira que já vi, ensaiada por um douto escrevinhador: o FC Porto, dizia ele, só ganhou a Taça UEFA e a Liga dos Campeões porque se classificou para elas graças à batota feita em Portugal. Demos então de barato que tudo aquilo que se via era falso: o FC Porto não tinha a melhor equipa, o melhor treinador, a melhor organização interna, não jogava o melhor futebol. Era tudo batota — os melhores eram outros. Mas, assim sendo, resta outra pergunta: porque é que quando acontece o Benfica e o Sporting irem à Liga dos Campeões morrem invariavelmente na pré-eliminatória?

3 Nuno Gomes e Hélder Postiga voltaram esta semana aos golos—na Selecção, que não nos clubes que lhes pagam. Segundo as contas feitas pela revista Sábado, com base num ordenado mensal de 100.000 euros, cada golo marcado por NunoGomes, nas três épocas que leva de regresso ao Benfica, custou em média 124.600 euros ao clube—qualquer coisa como 25.000 contos! Pelas minhas contas, e partindo do princípio de que Hélder Postiga ganhe apenas 75.000 euros mensais, se ele conseguisse agora marcar o seu primeiro golo ao serviço do FC Porto, esse golo teria custado cerca de 750.000 euros (150.000 contos). A matemática sempre me deixou deprimido.

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 29.03.2005

Sábado, Março 26, 2005

Algumas coisas boas, outras inevitáveis

1. Depois de três meses de interregno na governação do país - uma especialidade portuguesa, de cada vez que muda o governo - a nova maioria está finalmente apta a governar. Começa com a grande notícia e o grande alívio do fim, para todos os efeitos práticos, das regras rígidas do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Luís Campos e Cunha não vai ter de viver as angústias por que passou Manuela Ferreira Leite, nem o descontrolo por que passou Bagão Félix. Se cumprir o prometido, tem o prazo de uma legislatura, nem sequer para suprimir, mas apenas para "estabilizar" (seja isso o que for) o défice das contas públicas. Há quem esteja muito satisfeito com a notícia; eu, sabendo como a casa gasta, temo pelo regresso do laxismo, do desperdício e da inflação. Uma vez mais, ou muito me engano, ou os portugueses irão rapidamente concluir que, afinal, nada é verdadeiramente urgente e nada é tão grave que não possa ser resolvido com a compreensão, o apoio ou os dinheiros de Bruxelas. Cabe ao ministro das Finanças não deixar que a opinião pública conclua que acabou o problema do défice, como que por magia. É preciso recordar que, quando o Estado gasta metade da riqueza produzida no país, o problema não é de Bruxelas, é nosso.

2. A oposição de esquerda, entretanto, deve estar feliz, pois logo à partida parece ter conseguido tudo o que exigia ao Governo PS: revisão do PEC em Bruxelas; referendo urgente sobre a despenalização do aborto; revisão do Código do Trabalho, para tornar ainda mais excepcionais os motivos de despedimento; revisão da lei do arrendamento, antes mesmo da sua saída; aumento das pensões. Aparentemente não falta nada - o que levou Jerónimo de Sousa, em desespero de causas, a reclamar a garantia da sobrevivência do sector têxtil tal como existe, ou seja, fundado na falta de qualificação profissional, salários de segundo mundo, inexistência de inovação tecnológica e de gestão, e, consequentemente, o apoio do Estado, sem outra finalidade à vista que não o adiamento do inevitável.

3. Em 30 anos de democracia, houve apenas dois referendos populares em Portugal, e em ambos os eleitores votaram contra a vontade da maioria parlamentar e partidária do momento: contra a despenalização do aborto e contra a regionalização. Para alguns daqueles que vivem instalados dentro do sistema político, confundindo democracia com partidocracia, estes dois casos de desautorização popular devem servir de lição para o futuro, evitando voltar a correr o risco de receber do povo a resposta que não se quer ouvir. Por isso mesmo, agora eles defendem a tese de que se faça, se imponha, a despenalização do aborto e a regionalização sem esse incómodo de perguntar às pessoas se elas continuam a pensar o mesmo ou se, afortunadamente, já mudaram de ideias.Incomodada com o facto de José Sócrates ter reafirmado que só os eleitores, que travaram os processos, têm legitimidade política para os destravar, a deputada dos "Verdes" Heloísa Apolónia trouxe a questão ao debate do programa do Governo, lamentando que não baste a vontade maioritária da esquerda parlamentar para despenalizar o aborto até às dez semanas. Diz ela temer que, com o novo referendo, "tudo possa ficar na mesma" e pergunta o que aconteceria se o resultado voltasse a ser um "não". Ó senhora deputada, pois aconteceria essa coisa a que se chama "democracia directa". Não eram os seus antepassados políticos que defendiam isso?

4. Em Bruxelas, e como já sucedera com a tentativa de nomeação do sr. Butiglione para a Comissão, Durão Barroso foi uma vez mais forçado a recuar, desta vez, na proposta Bolkenstein, um projecto de liberalização do mercado de serviços com possibilidade de dumping social incluído. A lição é a mesma de então: apesar do tradicional optimismo com que sempre acha ser capaz de relativizar qualquer questão, e apesar da sua permanente arte do compromisso, Durão Barroso voltou a ser confrontado com uma parte da "velha Europa" que não aceita negociar nem ceder em princípios que lhe são identitários. É a tal história dos "valores", que há quem pratique e há quem apenas apregoe.

5. A morte de três polícias em menos de um mês no concelho da Amadora não aconteceu ali por acaso geográfico. Quem semeia o betão descontroladamente colhe criminalidade e insegurança. Quem planeia (?) e faz erguer cidades desumanizadas, sem jardins, sem passeios, sem espaços públicos, sem escolas decentes, sem acessos correspondentes à dimensão da construção, condena-as previamente a serem guetos sociais onde germina a marginalidade e a lei do salve-se quem puder. Depois, não adianta chamar a polícia nem perguntar onde está o Estado. Está dissolvido no mundo subterrâneo dos negócios autárquicos, do financiamento dos clubes de futebol e das campanhas dos partidos.

6. Costumo ler com grande atenção as notícias sobre criminalidade. De há uns anos para cá, venho notando, às vezes só nas entrelinhas das notícias, o aumento de um fenómeno altamente perturbante: a frequência, cada vez maior, com que são soltos pelos tribunais, antes ou depois dos julgamentos, em recurso, os verdadeiros grandes bandidos: chefes de redes internacionais de droga, lavagem de dinheiro, tráfico de mulheres, emigração clandestina. Muito embora as provas recolhidas pela PJ sejam normalmente mais do que suficientes para a condenação, os arguidos acabam por se ver beneficiados com toda a espécie de expedientes formais processuais, de que não gozam, por hábito, os banais criminosos, e que deitam por terra toda a prova recolhida. No limite até, quando não parece haver nenhum expediente formal invocável, chega a suceder que um prazo inexplicavelmente ultrapassado permita um habeas corpus libertador.Repito que se trata de mera observação empírica, fundada tão-só na leitura de jornais e, esporadicamente, de revistas de jurisprudência. Até posso estar enganado na minha conclusão relativa à frequência de tais casos. Mas o assunto parece-me suficientemente grave para justificar mais atenção da parte de quem a deve exercer.

© Miguel Sousa Tavares, Jornal “O Público”, 25.03.2005

Quarta-feira, Março 23, 2005

Passadeira vermelha

1. Ontem, ao minuto 35 do jogo de Alvalade, o sr. João Ferreira decidiu abrir o caminho do título ao Benfica, juntando-se a uma vasta campanha nacional em curso que tem como objectivo levar o Benfica ao título, nem que seja por decreto-lei. Quando digo que decidiu, quero dizer exactamente que a anedótica expulsão de McCarthy—a mais inacreditável expulsão que eu vi em quarenta anos a ver futebol — não foi um deslize de momento, uma precipitação do árbitro. Não: ele teve vários dias para meditar na importância do jogo que estava a dirigir. Ele sabia que jogavam dois candidatos ao título e que a derrota de um deles — o Sporting—significaria que esse estava fora da corrida, e a derrota do outro—o FC Porto—significaria que ambos ficavam, com toda a probabilidade, afastados do título. E sabia, como qualquer árbitro sabe, que, num derby, reduzir uma equipe a 10 jogadores, ainda para mais a visitante, e quando ainda falta mais de uma hora para jogar, equivale praticamente a sentenciar o vencedor. Por isso, uma decisão tão determinante no desfecho quanto essa, tem de assentar num facto absolutamente incontestável por todas as partes. Ora, por mais jogos que arbitre, nunca mais o sr. João Ferreira terá oportunidade e necessidade de expulsar um jogador por ele acertar com o braço na anca de um adversário, quando este está sentado em cima dele e deliberadamente o impede de se levantar. Sobretudo quando, minutos antes, o mesmo sr. João Ferreira fez que não viu uma entrada para aleijar do Beto sobre o Quaresma—que não tinha sido, aliás, a primeira. E, como se dez contra onze não fosse já suficiente, o mesmo sr. João Ferreira, culminando uma arbitragem escandalosamente caseira em tudo, desde o critério disciplinar à avaliação das faltas, ainda tratou de expulsar também o Seitaridis, «esquecendo- se» que, não tendo ele cortado com a mão uma bola que fosse a caminho da baliza, a sanção correspondente era o cartão amarelo e não o vermelho. Podia ser até, que o Sporting viesse a ganhar o jogo com toda a naturalidade e justiça. Mas ele não deixou que as coisas acontecessem com naturalidade e justiça. De uma assentada, o sr. João Ferreira conseguiu atingir duplamente o FC Porto: tomando decisões que se revelaram determinantes na derrota e privando a equipa de contar com McCarthy para os jogos seguintes. Numa e noutra coisa, ele não é, aliás, original: esta época têm sido inúmeros os jogos em que decisões «infelizes » dos árbitros têm resultado em perdas de pontos para o FCPorto: ainda no penúltimo jogo, contra o Nacional (ninguém falou nisso porque a exibição foi tão má que não cabiam desculpas), mas a verdade, verdadinha, e que o árbitro lisboeta perdoou um penalty sobre o Jorge Costa, quando havia 0-1, e fez vista grossa a uma falta sobre o Ricardo Costa que tornou possível o segundo golo do Nacional. E, quanto ao McCarthy, uma coligação de gente que não gosta de ver jogar grandes jogadores se eles forem do FC Porto—que inclui árbitros, juízes do CD da Liga, adeptos e o presidente do Benfica — têm-se esforçado e conseguido, abusando do poder discricionário de que gozam, para impedir que ele jogue, transformando—o numa espécie de carniceiro do futebol, massacrando inocentes defesas que, coitadinhos, tal como o Rui Jorge ontem, que nada fazem para provocar as suas agressões selvagens. Parabéns, então, Sr. João Ferreira: o senhor conseguiu, finalmente, decidir este campeonato que não havia maneira de se decidir.

2. Depois do descalabro dos 0- 4 com o Nacional da Madeira, José Couceiro tinha dois testes de fogo — daqueles jogos onde o risco é total e, por isso, não há escapatória possível: ou se vale ou não se vale. O teste podia parecer um bocado injusto, para quem acabou de chegar ao clube, recebeu a herança que se sabe e tem apenas dois anos de experiência nas funções. Mas, quando se aceita treinar o campeão nacional e europeu, deve-se estar preparado para desafios desses e não para uma vida tranquila - de outro modo, teria ficado em Setúbal, onde jamais teria de jogar para o título ou para a sobrevivência na Liga dos Campeões. Ora, se, quanto ao teste de ontem em Alvalade, forças cósmicas impediram que se pudesse fazer um juízo certo, já o primeiro desses testes de fogo, em S. Siro, traduziu- se por um fiasco total, ao ponto de, em abono da verdade e sem nenhum azedume, ter de se reconhecer que o principal responsável pela eliminação do F.C.Porto da Liga dos Campeões foi exactamente José Couceiro. A falta de experiência em jogos a este nível tolheu- o de medo, e o medo, inevitavelmente, deu-lhe para recorrer à solução clássica (e sempre falhada) dos treinadores portugueses nestas circunstâncias: abdicar do ataque, reforçar a defesa e confiar num milagre. E, porque assim o mereceu, falhou. E falhou tanto mais, quanto o jogo deixou a sensação de que aquele Inter estava ao alcance mesmo deste F.C.Porto. Couceiro falhou desde logo na inclusão de jogadores ou em nítida crise de forma—Costinha, Nuno Valente — ou sem categoria para aquele jogo—Diego, Cláudio e, depois, Postiga. Falhou ao ensaia rum sistema nunca testado de três centrais, que só lançou a confusão, e ao abdicar da sua arma mais mortífera, Ricardo Quaresma. Falhou, depois, ao fazer entrar Postiga para o centro e fazer derivar McCarthy para extremo, com isso não ganhando um extremo e perdendo o único ponta-de-lança. E falhou, finalmente, porque, tendo transmitido à equipe a atitude de prudência e medo que era a sua, quando se chegou à hora do tudo ou- nada, com 2-1 a favor do Inter, a equipe pareceu satisfeita, incapaz de ir à procura do empate e do favor do destino, limitando-se a esperar lá atrás pelo K.O. final e libertador. Foi claramente um jogo em que uma equipe é derrotada à partida pela atitude mental do seu treinador. Que, ao menos, tenha ficado a lição para o futuro.

3. Outro exemplo do que acima fica dito foi amaneira como o V. Setúbal se entregou a perder nas mãos do Benfica. Os dois golos nascem de duas entre as inúmeras ofertas da defesa, e a expulsão de Veríssimo nasce igualmente de uma bola perdida para o avançado benfiquista, em zona proibida. Como se isso não bastasse, JoséRachão resolveu, na segunda parte, retirar do meio-campo o construtor de todo o jogo ofensivo doVitória, Jorginho, e pô-lo a fazer figura de corpo presente entre os centrais do Benfica, à espera de bolas que nunca chegaram. Se uma equipe quisesse pensar cientificamente como é que devia fazer para perder um jogo, teria feito exactamente o que o Vitória fez frente ao Benfica. E, quando penso que o Vitória, o Nacional, o Boavista e o Guimarães — tudo equipas que fizeram a vida negra ao FC Porto se entregaram tão docilmente nas mãos do Benfica, quando vejo arbitragens como a de ontem em Alvalade, só posso concordar com o que aqui se escrevia no domingo: já há um cheirinho a campeão.

4. Deve ser esse cheirinho a campeão que justificou o tom da entrevista do presidente do Benfica à Sport TV, quarta-feira passada. Eu, que já aqui elogiei uma anterior entrevista televisiva de Luís Filipe Vieira, desta vez só posso é lamentar o facciosismo, a intolerância e o tom de dono do mundo de que ele deu provas desta vez. Nem o mais irracional e perturbado dos adeptos conseguiria fazer afirmações como as dele. Na opinião dele, por exemplo, as cotoveladas dos jogadores do Benfica não existem por definição, enquanto as de jogadores do FC Porto deveriam ser punidas com «seis, sete ou oito jogos» (as que ninguém, tirando ele, viu), ou com a «irradiação » (as que, de facto, existiram). Fiquei até com a impressão de que, se ele mandasse ainda mais na Liga e na Comissão Disciplinar, este ano o FC Porto nem sequer seria autorizado a disputar o campeonato.

5. Será que Scolari não vê mesmo nenhum jogo de clubes portugueses—ao vivo ou, ao menos, pela televisão? Deve ser verdade, porque só isso justifica que o seleccionador continue, imperturbável, a convocar jogadores que o país inteiro vê que estão em gritante crise de forma (para dizer o mínimo)— casos de Ricardo, Costinha, Nuno Valente ou Postiga. José Mourinho tem razão: de facto, não há lugar mais cómodo do que o de seleccionador nacional. Sobretudo, da forma como Scolari o exerce: uma vez por mês, se tanto, faz uma convocatória, onde estão sempre os mesmos, sem necessidade de se actualizar nem rever escolhas ou fazer novas experiências; depois, dá-lhes dois dias de treino ligeiro e põe-nos a jogar contra equipas menores e quase sempre com exibições medíocres; findo o jogo, fecha a loja e descansa até à próxima convocatória. Realmente, não deve haver emprego menos cansativo e mais bem pago. O que o salva é a sorte que ele tem: para o Europeu, já estava apurado à cabeça (de outro modo, a avaliar pelos resultados dos amigáveis, nunca lá teria chegado); e, para o Mundial, com o grupo que nos calhou, até o primo do Rato Mickey nos conseguiria apurar.

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 22.03.2005

Sábado, Março 19, 2005

Aos seus lugares

Sábado passado, no Palácio da Ajuda, a televisão proporcionou-nos uma daquelas imagens que valem por mil palavras. José Sócrates discursava, depois de empossado como primeiro-ministro, tendo ao seu lado o Presidente da República, ambos de pé. Sentada à sua frente, uma restrita plateia, que incluía os membros do novo Governo, os cessantes e as figuras institucionais do Estado. Sócrates falava da magna questão do défice externo e das escassas soluções para o enfrentar. De repente, a câmara dá-nos um plano do primeiro-ministro cessante, sentado na primeira fila: Pedro Santana Lopes bocejava perdidamente. Eram cinco da tarde de sábado, o assunto era certamente penoso e, a partir daquele momento, já não havia mais necessidade de manter poses de estadista.Nos três dias que se seguiram, assistimos a mais um episódio, dos tais de que se socorreu o Presidente da República para despedir Santana das suas funções governativas. Um milhão de lisboetas só podem ter-se sentido enxovalhados pela forma eloquente como Santana mostrou que estava a ver se caía qualquer coisa de pessoalmente mais apetecível, antes de se decidir, por ausência de alternativas, a regressar à câmara da maior cidade do país. Para quem se reclamava de "uma forma nova de fazer política", esta demonstração foi definitiva. Ele próprio se encarrega de reduzir a nada os argumentos daqueles que criticaram a decisão de Sampaio, falando da interrupção do ciclo governativo ou do precedente aberto de o Presidente poder dissolver um governo assente numa maioria parlamentar. Como percebeu a grande maioria dos portugueses, não se tratou de doutrina nova, nem de abuso dos poderes presidenciais: tratou-se de uma medida de excepção, ditada pela necessidade de repor a dignidade do Estado, ao nível da sua representação governativa.Mais do que esperança, o que os portugueses sentem, desde 20 de Fevereiro, é uma sensação de alívio. Sócrates pode governar bem ou mal, mas ninguém espera dele uma atitude de leviandade, enquadrada por uma constante e primária cobertura de propaganda e promoção da imagem.Apesar deste nenhum tempo decorrido, há já quem reclame que os colunistas que antes criticavam Santana Lopes comecem já a fazer o mesmo com Sócrates, abolindo, como o fizeram com Santana, o tradicional período do "estado de graça". E, mais curioso ainda, até há quem o tenha já começado a fazer, com medo de que lhe chamem incoerente. Pois eu, que não só não respeitei o período de graça, como até comecei a criticar o Governo de Santana antes mesmo de ele ter tomado posse, não enfio o barrete. Porque as diferenças são, à partida, abissais: Sócrates não é Santana, e esse é o ponto essencial. O homem que escolhe os cargos políticos de acordo com as suas conveniências pessoais não merece dúvida nem condescendência - ou então acabemos com o choradinho sobre a falta de categoria da classe política. Por outro lado, Sócrates foi eleito por metade dos portugueses, e Santana foi cooptado, e também por razões de interesse pessoal, por aquele que eu, pessoalmente, considero o mais vazio e o mais profiteur de todos os políticos portugueses contemporâneos: Durão Barroso.As tentativas de encontrar, desde já, terreno para atacar o Governo de Sócrates, de tão esforçadas, tornam-se ridículas. Vítor Constâncio abre a boca, defendendo impostos sobre o sector automóvel e, apenas porque é socialista, toda a gente toma as suas palavras como uma declaração do Governo, passando logo a criticar a "medida governamental". O ministro das Finanças diz uma coisa perfeitamente banal - que, se não se conseguir conter a despesa pública, será fatal aumentar impostos - e os mesmos que criticaram o descontrolo do défice, as manobras de encobrimento, como a expropriação das reformas dos pensionistas da Caixa Geral de Depósitos, ou o célebre discurso do "milagre das rosas" de Santana Lopes (aumento dos salários e das pensões, descida dos impostos), e que exigiram uma "política de verdade", caem-lhe em cima, como se ele fosse obrigado, em alternativa, e descobrir jazidas de ouro ou poços de petróleo.No primeiro dia de trabalhos do novo Parlamento, o líder comunista, Bernardino Soares, anunciou que o PCP já tinha entregue seis propostas de lei, entre as quais duas, apresentadas como verdadeiras evidências, de elementar justiça e execução fácil: a subida intercalar das pensões e dos salários. A seriedade da proposta é directamente correspondente à sua facilidade: falta dizer quanto custaria tal medida e onde é que o Governo iria retirar verbas do Orçamento para a satisfazer, sem ofender sagrados direitos adquiridos de todos os outros sectores - agricultura, indústria, obras públicas, saúde, educação, poder local.No domínio do politicamente correcto, as "mulheres socialistas" ficaram indignadas por José Sócrates ter apresentado apenas duas mulheres entre 16 ministros - e, seguramente também, pelo facto de essas duas terem escolhido homens, e não mulheres, para seus secretários de Estado. Para lavar a honra do género, aqui no PÚBLICO, Mário Mesquita e Ana Sá Lopes congeminaram um governo alternativo só de mulheres, para provarem a sem razão de Sócrates, quando se justificou dizendo que não havia mulheres socialistas em qualidade suficiente para a função. O resultado do exercício é verdadeiramente patético: são aproveitadas todas, rigorosamente todas, as mulheres que se conhecem com alguma ligação ao PS. Nem sequer lá falta Edite Estrela, autora de uma gestão autárquica tão notável em Sintra que os eleitores, embora já habituados a serem abusados e cimentados, a despediram na primeira oportunidade. Aliás, fiquei agora a saber (confesso que até aqui não tinha reparado) que Edite Estrela, certamente pelos méritos revelados em Sintra, e não por ser "mulher socialista", é deputada europeia e agora líder da bancada do PS em Estrasburgo (de cujo conforto e abrigo se declara também "desiludida" por ver tão poucas mulheres no Governo de Sócrates. Quero apostar que a desilusão é tanta que ela vai seguramente renunciar ao seu cargo, como forma de protesto: esperem sentados para verem). Neste caso até, a crítica extravasou fronteiras e apareceu uma deputada europeia húngara, de seu nome Zita, a declarar-se também chocada com a composição sexual do Governo do seu "amigo José Sócrates". "Numa próxima remodelação", diz a deputada Zita, "espero que ele substitua homens por mulheres." Repare-se: ela deseja ao seu "amigo" uma rápida remodelação, que é como quem diz um rápido fiasco. E deseja que ele a aproveite, não para substituir incompetentes por competentes, independentemente do género, nem sequer para substituir homens incompetentes por mulheres competentes: trata-se apenas de substituir homens, competentes ou não, por mulheres, competentes ou não.Quanto ao resto, ainda não reparei se o professor Marcelo já começou a criticar o novo Governo, se Freitas do Amaral já virou pró-americano, se Luís Delgado ainda continua a chorar pelo "Pedro", se Eduardo Prado Coelho já desistiu de fuzilar o Luís Delgado e de promover, semana sim semana não, Manuel Maria Carrilho a qualquer coisa, e se Jaime Nogueira Pinto já começou a "refundar a direita", com base nos valores defendidos pelo "doutor Salazar" - Deus, Pátria, Família - acrescentados de um quarto, de sua lavra: "A Propriedade!"O que eu queria mesmo agora é que chovesse sobre nós. Uma chuva densa, constante, dias a fio. Uma chuva que tudo lavasse, que devolvesse a esperança onde só há desilusão, que reanimasse todas as coisas verdadeiramente importantes. Uma chuva refundadora.

© Miguel Sousa Tavares, Jornal “O Público”, 18.03.2005

Quarta-feira, Março 16, 2005

Basta!

Hoje à noite é preciso que haja um milagre em Milão, mesmo que por directa intervenção divina (e nem se vê como possa ser de outra maneira...). Foi assim com Victor Fernandez, em Novembro passado: quando tudo parecia perdido, o FC Porto foi ganhar aMoscovo ao CSKA e depois conseguiu, com uma segunda parte que foi até agora o melhormomento da época, transformar uma derrota anunciada numa vitória contra o Chelsea de Mourinho, com isso materializando o milagre da passagem aos oitavos-definal da Champions.

Mas agora as coisas são ainda piores e as circunstâncias mais exigentes: exige-se (exigem-no os adeptos) que esta pobre equipa do FC Porto, sombra triste de quem foi campeão europeu há 10 meses atrás, elimine hoje o Inter, em Milão, e na segunda-feira vença o Sporting, em Alvalade. Só essas duas quase impossíveis vitórias fora podem atenuar as consequências e fazer esquecer o sofrimento da continuada vergonha da prestação caseira, bem traduzida no facto de ser a única equipa da SuperLiga, e talvez a única no Mundo, que ainda não conseguiu vencer um jogo emcasa em 2005. Em17 jogos oficiais disputados esta época no Dragão o FC Porto venceu cinco. Como aqui já escrevi várias vezes, nenhum portista poderia legitimamente esperar e exigir este ano a repetição dos dois fabulosos anos an teriores. Mas, entre isso e o desastre total a que vimos assistindo, vai um abismo que deveria ter consequências. E a primeira consequência seria justamente a devolução do preço pago pelos quase 30 mil titulares de lugares cativos no estádio ou a sua renovação grátis para a época seguinte. Os adeptos, que, apesar do interminável pesadelo a que vêm assistindo, continuam a fazer do Dragão o estádio líder das assistências na SuperLiga e nunca faltam com a sua crença e o seu apoio à equipa, têm direito a um gesto efectivo de desculpas. Talvez custe caro mas pelo menos sempre é menos dinheiro disponível para mais loucuras e disparates.

A segunda consequência, que já deveria ter sido efectivada há muito sem olhar às vaidades e teimosias atingidas, é pegar nas supostas vedetas compradas por milhões e pagas sumptuosamente— Diego, Postiga e Fabiano—e enfiar com elas na equipa B, mesmo com prejuízo da equipa B. E deixá- las por lá a vegetar tempo suficiente até que supliquem a rescisão do contrato. E, mesmo que, a curto prazo, isso custe dinheiro, poupa-se a médio prazo, emordenados e na nossa paciência. Porque a minha, devo dizê-lo, esgotou-se emrelação a estes três: acho-os três casos irrecuperáveis de falta de categoria e brio profissional.

Ficariam ainda por resolver mais uns quantos casos de jogadores que ninguém entende por- quê e a benefício de quem foram comprados: Areias, Raul Meireles, Leo Lima ou Leandro (não o do Bonfim, que esse parece bom jogador). Mas vai demorar anos a amortizar os danos da demência e irresponsabilidade das compras desta época — 17 jogadores, dos quais apenas três são titulares habituais e 10 são brasileiros! Se pensarmos que uma equipa profissional de futebol é normalmente composta por 25 a 30 jogadores, temos a dimensão de uma pequena empresa. Que pequena empresa sobreviveria ao luxo de contratar 17 empregados novos num ano, acabando a tirar partido apenas de três e dando-se até ao luxo de emprestar uns quantos a empresas rivais, ficando a pagar-lhes o ordenado enquanto eles trabalham na concorrência? Só mesmo um clube de futebol habituado a viver na irresponsabilidade financeira.

Por isso mesmo a terceira consequência a tirar era chamar o ou os empresários que este época ganharam milhões no desmantelamento da equipa campeã da Europa e do Mundo, substituindo-a por umcharter de pára-quedistas brasileiros, e obrigá-los a devolver o dinheiro ganho com a ruína da equipa, sob pena de não fazerem mais negócios com o FC Porto e não se voltarem a sentar na tribuna de honra do Dragão. Mas já li algures que o sr. Jorge Mendes, sem dor de consciência alguma, se prepara para trazer mais um brasileiro, um tal de Fred, para o FC Porto. E de novo me assaltam as perguntas inocentes: no FC Porto não há prospecção própria de mercados? Só conhecem o mercado brasileiro? Não têm formação e uma equipa B para produzir novos talentos para a equipa principal — onde estão eles?

Passados que são oito meses de mediocridade competitiva, 14 jogos de frustração caseira (até o Beira-Mar, de Cajuda, conseguiu lá a sua única vitória), batidos todos os registos históricos de humilhação entreportas, experimentados 17 novos jogadores e três treinadores em meia época, manda a verdade e manda a independência de espírito que se diga que o desastre é, primeiro e quase exclusivamente, um desastre ao nível da gestão, do planeamento e da capacidade de renovação. E, logicamente, os responsáveis não se chamam Del Neri, nem Victor Fernandez, nem José Couceiro: chamam-se Pinto da Costa e SAD. Na noite gloriosa de Gelsenkirchen confidenciava- me um membro dos órgãos sociais do FC Porto que estava com medo do futuro próximo. Perguntei- lhe porquê e ele respondeu- me: «Porque vem aí muito dinheiro e, com dinheiro no bolso, eles não se conseguem conter.» Dito e feito, apesar dos avisos que alguns de nós não deixámos de ir fazendo.

Não seria justo nem útil estar agora a incluir José Couceiro no lote dos também responsabilizáveis. Não tem culpa de ter herdado uma equipa onde alguns inamovíveis só servem para atrapalhar, onde há quatro defesas- esquerdos e apenas um defesa- direito, onde se andou a vender, a dispensar e a emprestar avançados para acabar apenas com umextremo de raiz e umverdadeiro ponta-de-lança, impedindo, por exemplo, que uma equipa oficialmente candidata ao título possa jogar em 4x3x3. Mas a verdade também, e sem culpas próprias, é que não deixa de ser extraordinário que para treinar o campeão da Europa emtítulo baste ter como currículo dois anos de estágio, um bom e um mau, em equipas que lutam pela permanência. José Couceiro pode até vir a revelar-se um excelente treinador, pode demonstrar uma acelerada capacidade para aprender rapidamente, mas não pode ter a maturidade de pegar num campeão europeu em crise e dar-lhe a volta instantaneamente, como que por magia. E dou apenas um exemplo concreto: a desesperada frequência com que o FC Porto inicia os jogos contra equipas que lhe são inferiores em tom de passeio e sem pressas, para logo, na primeira vez que o adversário vem à frente, consentir um golo, é claramente um sinal de imaturidade competitiva, desconcentração e inibição psicológica, que um treinador mais experiente já teria controlado. Essa experiência só se consegue ou com os anos ou com um profundo conhecimento da equipa; é por isso que me custa entender que, sendo capaz de arriscar emCouceiro, a SAD não se tenha lembrado de arriscar antes, e já que estava no ponto de tudo arriscar, em Aloísio, que conhece como poucos os cantos à casa. Dirme- ão que Mourinho também tinha pouca experiência e também foi um risco que deu certo. Mas Mourinho é um caso à parte, é a excepção que confirma a regra, e, de qualquer forma, como adjunto e brevemente como treinador principal, já tinha passado por vários grandes: Sporting, FC Porto, Barcelona e Benfica, além de ter transformado num ápice o União de Leiria num grande. Pode ser, repito, que Couceiro venha a ser um grande treinador do futebol português mas duvido que este fosse omomento dele no FC Porto. Possa eu enganar-me!
E agora? Agora é ganhar hoje em Milão e segunda-feira em Alvalade. E depois falamos.

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 15.03.2005

Sexta-feira, Março 11, 2005

Onde a lei não vale

Um dos indicadores determinantes sobre o funcionamento de um Estado de direito democrático é o ambiente vivido nas instalações policiais. Nós podemos ter liberdade política, liberdade de imprensa, liberdade de greve e tudo o resto, mas se, dentro das instalações policiais, os direitos individuais cessam perante a autoridade policial, então, de facto, temos um Estado de direito que só funciona em alguns casos e uma democracia que existe a nível da superestrutura constitucional, mas já não existe no mundo de proximidade onde a autoridade a quem delegámos o poder de vigiar a aplicação da lei se reserva o direito de o fazer segundo regras próprios, à revelia do que o poder eleito estabeleceu.Quando emergimos de 50 anos de ditadura, os que não sabiam ainda ou não queriam saber tomaram então conhecimento dos abusos policias cometidos em nome da "pátria", da "segurança nacional" ou outras balelas que tais. Mas se, em 50 anos de ditadura se contam pelos dedos de uma mão os que morreram nas esquadras da PIDE ou assassinados na rua por esta, desgraçadamente, em 30 anos de democracia, morreram muitos mais nas esquadras da polícia ou vítimas das balas perdidas ou "disparadas para o ar" da polícia. Como e por que chegámos aqui e por que continuamos aqui, apesar de se ter revisto toda a formação das polícias civis e apesar de fazer enquadrar por magistrados as polícias de investigação, é uma longa história de sucessivas revisões da lei processual, sempre a favor do facilitismo da investigação, e uma longa história de demissões na luta contra os abusos policiais, quer por parte do poder político, quer por parte do poder judicial. Uns e outros, uma e outra coisa, foram consentindo que aos poucos se reinstalasse a velha mentalidade de que não há nada a fazer nesta matéria, pois que faz parte da natureza policial, se não mesmo da sua eficácia, o abuso sempre que necessário e possível e a impunidade perante o abuso, como preço a pagar para obter resultados e conseguir a tranquilidade corporativa das forças policiais. Este raciocínio não apenas é ilegítimo e perigoso, mas muitas vezes também contraproducente, quanto aos resultados. Tomemos o caso de Leonor Cipriano, a mãe algarvia suspeita de ter assassinado a própria filha, cujo corpo nunca apareceu para confirmar, sequer, a sua morte. Durante meses e meses, quer Leonor, quer o seu irmão - suspeito alternativo do mesmo crime - têm estado detidos às ordens das autoridades, Ministério Público e Polícia Judiciária, que não conseguiram até à data nem levá-los a confessar o crime, nem estar perto de esclarecer se crime houve, de facto, e quem o cometeu. Agora, e graças à denúncia corajosa da directora da prisão, apareceram a público fotos terríveis de Leonor Cipriano, revelando na cara aquilo que para qualquer um de nós são sinais evidentes de tortura. Tortura, digo bem - como nos tempos da PIDE. Para explicar aquilo, a PJ forneceu já uma resposta, antes mesmo de concluir o inquérito anunciado - o que também é habitual. Segundo a PJ, a detida ter-se-ia atirado por umas escadas abaixo, depois de uma sessão nocturna de "interrogatório informal", conduzido pelos agentes. Ficámos assim a saber que a PJ tem o privilégio, que não conheço da lei, de interrogar presos a meio da noite e sem a presença de juiz, nem advogado, nem escrivão, e que tais interrogatórios são de tal forma simpáticos que há suspeitos que preferem atirar-se pelas escadas abaixo do que terem de voltar a passar pelo mesmo. E esta é a versão policial e benévola daquilo que terá sucedido - acredite quem quiser. Eu não acredito: para mim, aquela mulher foi torturada selvaticamente. E foi torturada porque - e aqui entra o lado contraproducente deste episódio -, passadas décadas de vivência democrática e de avanços tecnológicos que facilitam a investigação dos crimes, a nossa investigação policial, como nos bons velhos tempos, continua a privilegiar, e em muitos casos a contentar-se, primeiro que tudo, com a confissão do suspeito. Confessado o crime, encerra-se o caso, remetendo-o a tribunal, sem necessidade de mais esforços nem investigação. Não admira depois que, muitas vezes e quando os juízes se convencem que a confissão foi arrancada ilegitimamente, se vejam forçados a absolver os réus, porque nada mais há nos autos que os possa incriminar. Ora, se a confissão é o objectivo primeiro e final da investigação, é inevitável que, quando o suspeito é pobre, não dispõe de advogado de peso e se encontra jurídica e socialmente desprotegido, surja a tentação de o forçar a confessar o crime real ou hipotético, a bem ou a mal.Tomemos outro caso, ocorrido sábado passado, em Lagos. Um instrutor de surf está num bar a festejar os anos de um amigo. Desentende-se com um graduado da PSP, que está à paisana. Este chama reforços à esquadra e lança um gás que faz evacuar o bar. Cá fora e segundo o relato de testemunhas, seis ou sete polícias caem em cima do civil e moem-no de pancada, à vista de todos. Depois, levam-no para a esquadra, de onde, às quatro da manhã, ele telefona à irmã a pedir que lhe arranje um advogado. Mas já não vai a tempo: uma hora depois é a esquadra que telefona à irmã a comunicar-lhe que ele está morto. Explicação da PSP, antes da conclusão do inquérito: enforcou-se na cela, usando as próprias calças. É uma explicação também habitual: quando alguém morre numa cela da PSP, jamais esta reconhece que morreu em consequência de maus tratos sofridos ou anuncia que só terá conclusões depois do inquérito. Invariavelmente, aparece logo uma explicação oficiosa, segundo a qual o preso morreu suicidando-se, ou porque se atirou de cabeça contra a parede ou porque se enforcou. Seria curioso saber se a esquadra da PSP de Lagos tem um gancho no tecto para que os presos se possam enforcar livremente. Assim como seria curioso saber por que é que alguém que telefona a um familiar a pedir um advogado porque está preso logo depois decide renunciar ao advogado e à própria vida. Mas o mais importante era explicarem-nos o que se passa nas esquadras da PSP que leva a que, com tanta frequência, os detidos (às vezes, por simples arruaças nocturnas) se queiram suicidar. Não deveria ser uma esquadra de polícia o local por excelência onde vigora a lei e a segurança?Há anos atrás, durante as comemorações do Ano Novo, em Lisboa, uma senhora foi presa por alegados desacatos na via pública. Levada para a esquadra da PSP, identificou-se como juíza, embora não tivesse a identificação consigo. Segundo o seu relato, o graduado de serviço ter-lhe-á respondido: "Juízes como-os ao pequeno-almoço!" E, de passagem, ter-lhe-á dado um encontrão. A senhora fez queixa e o caso subiu até ao Supremo Tribunal de Justiça. Azar do polícia: a senhora era mesmo juíza e os conselheiros ficaram escandalizados com o seu relato. Aplicaram ao polícia pena de prisão maior, dizendo que aquela sentença se queria exemplar, pois que, cito de cor: "Se isto se passa nas esquadras de polícia com uma juíza, o que não se passará com simples cidadãos?" Pois é, aí é que bate o ponto. "Simples cidadãos" não têm direito a uma justiça de simpatia e compreensão corporativa, como tem um juiz. Simples cidadãos que, para mais, não disponham de meios financeiros para se defenderem a sério esbarram com a falsificação dos factos praticada pela própria polícia, com o encobrimento dos chefes, com o silêncio cauteloso do ministro e, no limite e se conseguem chegar a tribunal denunciando o que sofreram, com a benevolência dos juízes para com a polícia.E, como sucede em todos os meios, a impunidade para com os maus compromete e desmotiva os bons. Quantas vezes não terão os bons polícias, que são sem dúvida a maioria, de calar-se ou desviar os olhos para não terem de ver o que os outros fazem?

© Miguel Sousa Tavares, Jornal “O Público”, 11.03.2005

Quarta-feira, Março 09, 2005

O Futebol não é tudo

O Sporting manteve os jogadores principais, reforçou-se pouco mas bem, tem o mesmo treinador desde a pré-época e tem sido poupado em lesões e castigos. E tem 13 pontos a menos do que tinha em idêntica jornada do campeonato passado. Como explicá-los?

1- Deixem-me contar uma pequena história pessoal. Em 1978 o FC Porto quebrou um longo jejum de 19 anos, que vinha da minha infância, e sagrou-se, enfim, campeão nacional. Foi o princípio de uma reviravolta decisiva no panorama do futebol português e o início de uma bela história azul e branca, que dura até hoje. Nesse ano o jogo decisivo do campeonato foi o FC Porto-Benfica, da antepenúltima jornada, e que terminaria empatado 1-1, com golos de Humberto Coelho e Ademir. O empate haveria de aproveitar apenas ao FC Porto, que, vencendo nas duas últimas e seguintes jornadas, chegou ao título por goal average. Aconteceu que nesse dia decisivo do FC Porto-Benfica eu estava de férias no Brasil, em Angra dos Reis, fazendo mergulho, que é um desporto que não vem nas páginas dos jornais. A única maneira de seguir as peripécias do jogo em directo era através do rádio do barco de apoio, sintonizado na onda curta da RDP. Mas o mar de Angra é tão fascinante que não consegui, apesar da importância do jogo, ficar a bordo a escutar o relato: mergulhava e vinha ao barco de vez em quando, para saber como corriam as coisas lá longe, e apenas o último quarto de hora segui à distância de um oceano e em directo. Pois passados quase 25 anos, e em dia de FC Porto-Benfica, de novo empatados no cimo da tabela, dou comigo outra vez em Angra dos Reis, outra vez no mar, e desta vez, além de não ter televisão, nem sequer tinha um rádio para acompanhar o jogo em directo. E foi por telemóvel que tomei conhecimento da marcha do resultado e do desfecho final, igual ao de então: 1-1. Para aqueles que acreditam nas coincidências do destino, este já está, então, traçado: o Benfica está condenado e o FC Porto será campeão. Esclareço que não é o meu caso: não acredito em campeões por razões sobrenaturais. Mas há sinais que se colhem no mar e o principal é este: o futebol não é, longe disso, o centro da vida.

2- Quando saí de Portugal o FC Porto e o Benfica estavam em primeiro, o Sporting a dois pontos e o Boavista a três. Regressei a tempo de ver a 24.ª jornada, finda a qual FC Porto e Benfica continuam empatados na liderança mas o Sporting está agora a três pontos e o Boavista a quatro. No entretanto, o Sporting seguiu em frente na UEFA, o FC Porto deu o passo atrás que se temia na Liga dos Campeões e o Benfica foi eliminado, como se previa, da Europa e compensou-se com a passagem às meias-finais da Taça, ajudado por uma arbitragem que li ter-lhe sido bastante favorável e por um sorteio que, de há dois anos para cá, teima em só lhe reservar jogos na Luz. É difícil dizer quem, dos três, andou mais para a frente ou para trás, nestes 15 dias. Aparentemente, e apesar da esperada eliminação europeia, o Benfica terá sido quem menos perdeu: evitou a derrota no Porto, o que já não acontecia há uma década, e finalmente conseguiu ganhar na Luz ao Beira-Mar e na Madeira ao Nacional. Mas o empate no Dragão pode vir a revelar-se um resultado escasso e falsamente positivo e a vitória na Madeira, pelo que vi, só foi possível graças à sorte e a mais uma arbitragem amiga de Bruno Paixão, que, fazendo vista grossa a um penalty logo de início, permitiu que a história do jogo se escrevesse de outra maneira. Não vi, em momento algum, a «atitude, personalidade e bom futebol», de que falou no final Trapattoni, nem vi razão para «calar as bocas », de que falava Simão Sabrosa. Mas esta tem sido a história do Benfica desde o início da época: não me lembro de um único bom jogo, de princípio a fim, que tenha feito. Em Penafiel o FC Porto tinha, à partida, o mesmo enredo que o Benfica: um quintal de dimensões reduzidas e um relvado onde a bola não desliza, antes progride aos solavancos. Mas, ao contrário do Benfica, teve a sorte do jogo logo contra si, entrando a perder na primeira jogada do encontro— o que resultou em que, logo a partir daí, tenha sido obrigado a correr atrás do prejuízo, contra 11 jogadores do Penafiel barricados em metade do quintal. Jogando tão mal quanto o Benfica na Madeira, o FC Porto revelou, sim, muito mais atitude e muito mais personalidade. Ganhou no último suspiro do jogo, matando com as armas com que este ano já morreu várias vezes, mas fez por isso e mereceu-o. Essa foi a boa notícia. Isso mais a prestação crescente de Ibsen e a estreia promissora, embora breve, de Leandro do Bomfim, que me pareceu incomparavelmente melhor, mais simples de processos e mais eficaz que o desesperantemente inútil Diego. Mas McCarthy foi mais uma vez injustamente castigado (ele não saiu do campo para receber assistência e, portanto, não necessitava de autorização para reentrar) e vai ficar de fora no próximo jogo, o que deixa a Couceiro a angustiante dúvida de escolher entre duas figuras de corpo presente, Postiga e Fabiano, qual dos dois poderá atrapalhar menos o ataque. (A propósito, depois de ver o excelente golo deHugo Almeida e constatar que ele já marcou, em dois meses no Boavista, mais golos que Postiga marcou em dois anos no Tottenham e no FC Porto, pergunto-me por que razão foi ele o sacrificado para ser emprestado a um rival e, já agora, o que terá passado na cabeça de José Couceiro para deixar o Quaresma no banco e pôr o Postiga em campo, contra o Benfica? Às vezes acho mesmo que os treinadores se guiam por intuições irracionais e não por evidências.) E, enfim, temos este inexplicável Sporting de José Peseiro, que tão depressa deslumbra como se afunda, de um jogo para o outro e, às vezes, durante um mesmo jogo. Foi o que aconteceu no Restelo, onde, durante 20 minutos da primeira parte, o Sporting voltou a mostrar um futebol feito de movimento, imaginação e abertura de espaços que não vi esta época a ninguém mais e depois desapareceu do jogo, como que por magia, e só por sorte não encaixou uma derrota humilhante. Toda a gente, e com razão, nota o abismo que vai entre o FC Porto deste ano e o da época passada, bem traduzido nos 17 pontos a menos que leva em idêntica jornada do campeonato. Mas o FC Porto perdeu jogadores fundamentais, comprou disparatadamente jogadores que se revelaram verdadeiro fiasco, passou pelos processos que passou com os treinadores e tem tido jogadores fundamentais, como Maniche e McCarthy, constantemente afastados por lesões ou castigos. O Sporting, pelo contrário, manteve os jogadores principais, reforçou-se pouco mas bem, tem o mesmo treinador desde a pré-época e tem sido poupado em lesões e castigos. E tem 13 pontos amenos do que tinha em idêntica jornada do campeonato passado. Como explicá-los?

3- O apito dourado começou a descer ao sul e às ilhas e a envolver alguns árbitros cujo currículo os torna insuspeitos de serem amigos do FC Porto. Pressinto que para alguns espíritos o apito se está a tornar menos dourado.

4- E o Conselho de Disciplina da Liga, já se demitiu? Já foi demitido? Ou tudo se passa como se nada se tivesse passado?


© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 08.03.2005

O fim de um pesadelo

1. A imagem mais marcante que retive da noite eleitoral foi a da ministra da Educação, Maria do Carmo Seabra, com o seu ar de tia incomodada, a declarar que não conseguia entender nem explicar as razões da monumental varrida que o país deu a Pedro Santana Lopes, suas santanetes e seus santanaboys. É natural: da mesma forma que até hoje não conseguiu compreender o que correu mal no mais desastrado concurso de colocação de professores a que o país já assistiu e que a senhora dirigiu, assim também ela não conseguiu entender que 78 por cento dos eleitores não se tenham rendido à excelência da governação do Governo de que ela fez parte. As razões pelas quais não percebeu uma coisa estão intimamente ligadas às razões pelas quais não percebeu a outra. Mas a "síndroma Seabra" atinge pessoas que eu achava que, por maior que fosse o seu comprometimento santanista, não tinham ainda e apesar de tudo perdido toda a capacidade de auto-análise crítica. Embarcaram num navio onde o "deck" estava sempre em festa mas a casa das máquinas metia água por todos os lados. Confundiram o jogo de aparências com a realidade, julgando que navegar é o mesmo que flutuar à tona e que, no fim de tudo, nem que fosse de jangada ou de salva-vidas, chegariam a bom porto. No limite, mesmo com um capitão completamente errático e sem sentido de responsabilidade ou competência de serviço, acharam que, como profetizou José Luís Arnaut, quando viesse a verdadeira borrasca (isto é, a campanha eleitoral), o capitão revelaria os seus imbatíveis dotes de lobo do mar e todos se safariam juntos com ele, arribando a uma praia onde uma multidão de indígenas esperava para lhes colocar coroas de flores aos ombros. Enganaram-se: mesmo para Portugal, como escreveu Vasco Pulido Valente, o embuste era demasiado.Quando, enfim, sobreveio o inevitável naufrágio, não resisitiram a procurar, entre o estupor geral, outros culpados, que não eles: o Presidente da República, a data das eleições, os comentadores, os jornalistas e, enfim, se necessário, os próprios eleitores, o próprio país, que não está ao nível de entender a magnífica equipa de servidores públicos que tinha ao leme. Dentro de alguns anos, seguramente, haveremos de estudar este momento irracional da história política portuguesa em que um primeiro-ministro em fuga por interesse pessoal nos deixou entregues a um sucessor que ele próprio sempre desprezara, chegando a compará-lo ao Zandinga. E tentaremos então perceber também como foi possível que um dos partidos fundadores do regime e tradicional baluarte da governação se tenha deixado arrastar, por demissão ou por oportunismo, até ao abismo e até à humilhação às mãos dos eleitores, sob a condução de um D. Quixote sem fidalguia nem sonho. Apenas pesadelo - previsível, confirmado e quase paranóico na sua cruzada contra os mais improváveis moinhos de vento: a banca, "os interesses", os "poderosos", as sondagens, a comunicação social e, valha-nos Deus, o "sistema". Numa palavra, tudo aquilo que, desde sempre, construiu, ergueu e alimentou o mito político chamado Pedro Santana Lopes.

2. A pior escolha que se pode fazer perante o destino, como disse Heidegger, é "chegar tarde de mais para os homens, cedo de mais para os deuses". As 48 horas que Pedro Santana Lopes demorou a decifrar os sinais da fuga dos ratos do navio em perdição assinaram a sua definitiva sentença de morte política. Evitou o enxovalho final às mãos do mesmíssimo partido e da mesmíssima gente que ainda há dois meses o apoiou quase unanimemente, mas não evitou que o país inteiro o visse ainda - e logo a seguir ao exemplo oposto de Paulo Portas - esbracejar à tona de água, tentando ler os números ao contrário, esforçando-se por fingir não ter reparado que um país inteiro se levantou, revoltado, para lhe gritar a seu rejeição pela forma de governar, de fazer campanha e de habitar a política que é a dele. Poderá ainda ser tentado a regressar à Câmara de Lisboa, o que seria verdadeiramente notável para quem abandonou a câmara a meio por razões de ambição pessoal e para quem teve em Lisboa, justamente, a maior perda eleitoral, em percentagem, do país inteiro - sinal de que em Lisboa funcionou, embora ao contrário, a mensagem daquele cartaz que dizia: "A este conhecem-no!" Pois conhecemos: por isso é que perdeu 120 mil votos no círculo eleitoral de Lisboa.Sendo certo que ninguém o imagina a abandonar a única forma de vida que conhece, pelo menos antes de esgotar todas as possibilidades, o que lhe resta? Regressar ao Parlamento não, porque já declarou (embora isso nunca faça fé definitiva) que é coisa que o aborrece. Tentar a aventura presidencial seria puro suicídio, tanto mais que não se imagina agora a banca e os "poderosos" motivados para lhe financiarem a campanha. O que fará, então? Pois, sobre isso, estou como a Teresa Guilherme: "Isso agora não interessa nada."

3. Foi vê-los sentados nas primeiras filas do Altis: alguns apenas felizes, outros expectantes, outros claramente já postulantes. Os socialistas alinhados para escutar o discurso de vitória de José Sócrates começaram por tudo aplaudir, sem critério. Depois, foram rareando as palmas, à medida que se foi tornando nítido que dali não sairia nada que a rua não dissesse melhor e mais sentidamente. E, no fim, foi já perante um embaraço constrangente que José Sócrates terminou um discurso onde, afinal, se percebeu a mais inacreditável das coisas: que ele não tinha nada para dizer. O homem tivera dias, semanas, meses, para pensar no discurso de vitória; acabara de saber que vai ser o próximo primeiro-ministro de Portugal, no que isso representa de honra e de responsabilidade; acabara de conduzir o PS a uma vitória histórica e o país acabara de lhe dar a tão almejada maioria absoluta: e ele não tinha nada para dizer, para além de lugares-comuns tão absurdos como "o meu desejo é formar um governo de gente competente".Foi puro gelo. Frustrante, desesperante, pior ainda: preocupante. Para bem de Portugal, todos desejamos que o que lhe falta em capacidade oratória, em inspiração e em "alma", lhe sobre em capacidade de orientação e de clarividência governativa. E todos desejamos que muitas daquelas caras ali presentes e que ele fez cabeças de lista pelo país fora não sejam reencontradas no próximo Governo. As primeiras informações sobre isso são animadoras, mas é preciso ver para crer. Com as condições que tem para formar governo, não há a mais pequena desculpa nem a mais pequena razão para que seja a própria composição do Governo a servir para prolongar a descrença. Os portugueses fizeram a sua parte; o PS e José Sócrates não podem fugir a fazer a sua. Seria como reanimar um morto apenas para lhe comunicar que ele não tem esperança de sobrevivência.

P.S. - Por motivo de ausência do país, este texto é escrito terça-feira à noite e sujeito a encontrar-se desactualizado, naquilo que se baseia em informação corrente, esta sexta-feira de manhã. Ossos do ofício. E, por falar em ossos do ofício, faço questão de dedicar este texto à Dª Ana Costa Almeida, em breve ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro cessante, e que aqui há tempos teve o desplante de enviar uma carta a este jornal, acusando-me de mentir quando eu tinha mencionado um episódio verdadeiro e revelador da leviandade com que o seu chefe julgou poder dirigir os destinos deste país. Queria dizer-lhe que ficou provado, uma vez mais, que é possível enganar muitos durante muito tempo, mas não é possível enganar todos durante todo o tempo. Essa é a lição profunda a extrair deste pesadelo que - estava escrito nas estrelas - tivemos de viver.

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "O Público" - 25.02.2005

A pedido de várias famílias

Eu sei que o Miguel Sousa Tavares não gosta de blogues. Eu sei que esta ideia é pouco original. Mas há muita gente que me tem solicitado para criar este blogue onde possa ter acesso aos textos dispersos de Miguel Sousa Tavares (particularmente no Público e na Bola). É assim a pedido de várias famílias que resolvi criar este blog onde serão arquivados e disponibilizados periodicamente os textos de Miguel Sousa Tavares. E o Miguel que me perdoe. É só uma questão de organização e de faciliar o acesso de mais pessoas às suas opiniões.