Sábado, Março 04, 2006

Assalto ao computador

Não apetece nada ter de ser solidário com um jornal como o “24 Horas”, mas há alturas em que o mais importante é escolher contra quem se está e não com quem se está.

À qualquer coisa de novo no raide da justiça contra o jornal «24 Horas» que é suficientemente grave como sintoma para que, mesmo sem cair em alarmismos histéricos, possa passar em claro. Como se fosse um teste da magistratura contra a imprensa, para medir as reacções e ver se há terreno livre para avançar e criar jurisprudência. Pena que tenha sido lo­go escolhido um jornal que é tudo menos uma referenda ética e um modelo de bom jornalismo: vamos acreditar que a ofensiva judicial não teve precisamente isso em conta. O facto é que não apetece nada ter de ser solidário com um jornal como o «24 Horas», mas há alturas em que o mais importante é escolher contra quem se está e não com quem se está.

Recapitulemos o que está em causa, pois o seu simples enunciado é elucidativo. Ao abrigo das investigações do processo Casa Pia — que abriram um precedente nunca visto de meios e métodos de investigação — foi parar ao processo, o chamado «Envelope 9», o qual, aberto pelo «24 Horas», revelou conter uma extensa lista das chamadas telefónicas recebidas e efectuadas por umas dezenas de pessoas que tinham em comum estar ligadas à política e não terem qualquer ligação com o processo. Perante a estupefacção geral que esta revelação causou, o Presidente da Republica (um dos constantes do «Envelope»), chamou a Belém o procurador e falou à Nação para dizer que não toleraria métodos de investigação que incluíam a invasão indevida da privacidade das pessoas e, como tal, dera ao procurador um prazo curtíssimo para apurar como tal fora possível e daí extrair as necessárias consequências, disciplinares e penais. Claro e inequívoco: tratava-se apenas de esclarecer?? qual das duas hipóteses acontecera: se os investigadores tinham pedido esses elementos ao operador telefónico ou se fora este, sem ter sido solicitado para tal, que os fornecera. Nada mais do que isto e para apurar isto, mesmo ao mais incompetente serviço de investigação do mundo, bastariam três dias, para não dizer três horas.

Mas sucedeu, uma vez mais, o impensável: passado mês e meio, o procurador nada apurou e, não contente com isso, deixou que os seus magistrados mudassem o sentido do mandado presidencial — em vez de apurarem como e por ordem de quem é que tais elementos tinham ido parar ao processo, resolveram apurar como é que tal noticia tinha ido parar ao jornal. Entretanto, o dr. Souto Moura espera que na­da suceda ate terça-feira próxima, último dia da presidência de Jorge Sampaio, e confia que o novo Presidente não irá mexer num assunto que não foi ele a levantar, criando logo à partida um conflito entre órgãos de soberania. Perfeito, exemplar: nenhuma biografia poderá jamais testemunhar melhor o que tem sido o entendimento das suas funções por parte do dr. Souto Moura — na esteira, aliás, do seu inesquecível antecessor, Cunha Rodrigues, a quem a justiça portuguesa deve muito do estado a que chegou.

Agora, um juiz de instrução criminal acaba de determinar que os computadores apreendidos a dois jornalistas do «24 Ho­ras» podem ser abertos e livremente vasculhados pelos investigadores a mando do dr. Souto Moura. Para justificar aquilo que, an­tes de mais, é uma extrema violação da privacidade e do segredo profissional, o juiz considerou que «a possibilidade de devassa do sigilo profissional é inferior ao crime que está em discussão». Lê-se esta decisão e fica-se perplexo. Primeiro que tudo, não se percebe bem que crime poderão ter cometido os jornalistas, ao revelarem uma peça que consta de um processo que esta em julgamento. Em seguida, «o crime que está em discussão» é o que consiste no pedido ou no fornecimento indevido dos registos telefónicos do «Envelope 9» — foi isso que o Presidente mandou investigar e isso nunca poderia ter sido feito por jornalistas, mas só por quem tinha poderes para tal. Em terceiro lugar, tendo os jornalistas do «24 Horas» fornecido logo as disquetes referentes ao «Envelope 9», assim que foram visitados pelos investigadores, que mais quererão estes vasculhar nos seus computadores que tenha que ver com esta investigação? E, finalmente, atente-se no desprezo a que o magistrado vota o sigilo profissional dos jornalistas, sem o qual nunca teria existido jornalismo de investigação, a começar por Watergate e a acabar nas denuncias de todos os abusos processuais cometidos durante a instrução do processo Casa Pia.

É impossível fugir à conclusão da leitura sobreposta e sucessiva dos factos. A instrução do processo Casa Pia foi revelando algumas práticas investigatórias e alguns métodos de actuação dos magistrados que não são aceitáveis num Estado de direito (felizmente não extensíveis ao julgamento, cuja condução tem sido inatacável). A certa altura, tornou-se mesmo evidente que havia um desvio político na investigação, visando particularmente o Partido Socialista e acabando por vir a ter uma influência determinante no curso da política nacional. Basta recordar o episódio em que às vítimas do caso foi exibido um catálogo de fotografias de potenciais suspeitos e onde se incluíam, entre muitos outros da área política escolhidos a dedo, Mário Soares, Almeida Santos ou Jaime Gama — um método de investigação inédito, aberrante e assustador.

Nessa fase da instrução, os investigadores contavam com o apoio geralmente acrítico da imprensa, cujo interesse legítimo em querer sempre saber mais do que se passava lá dentro foram alimentando com sucessivas e oportunas fugas de informação, invariavelmente mandadas investigar e logo deixadas em descanso pelo inabalável Souto Moura. Mas agora, ao que parece, os jornalistas já não estão bem vistos lá por casa. Porque, aos poucos, foram pondo crescentemente em causa coisas estranhas que se iam passando e porque, agora que o Presidente da República resolveu intervir e pedir satisfações pelo «Envelope 9», era preci­so sacudir a água do capote e arranjar bode expiatório mais à mão: os aliados de ontem. Fiquemos atentos, porque vêm aí mais episódios desta roda livre em que funciona a justiça. Para breve, prepara-se a criminalização dos jornalistas pela violação do segredo de justiça: prende-se o mensageiro, que está identificado e não faz parte da corporação, e manda-se investigar «rigorosamente», e sempre fracassadamente, quem Ihe passou a mensagem, a partir do processo que tem à sua guarda.

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 04.03.2006

Terça-feira, Fevereiro 28, 2006

um perdedor e um ganhador

A falta de sorte, os efeitos caprichosos desta nova bola, o talento que Robert tem para cobrar livres e a falta de fé de Baía em corrigir o seu movimento a tempo ditaram uma derrota que foi muito pouco justificada pelo que o Benfica jogou. Este Benfica de anteontem seria tranquilamente digerido sem espinhas por um FC Porto normal, orientado por alguém com ideias normais —tais como ganhar de vez em quando.

1. As estatísticas não ajudam Co Adriaanse nem legitimam as suas ideias, decerto geniais. Anote-se: —em dez jogos contra o seu compatriota e rival Ronald Koeman, perdeu oito, empatou dois, ganhou nenhum; — em nove jogos de importância máxima feitos com o FC Porto esta época, perdeu cinco, empatou três, ganhou um; — nos cinco jogos feitos com os outros três clubes que têm dominado o topo deste Campeonato, perdeu dois, empatou três, ganhou nenhum; — nos sete últimos jogos do Campeonato, com o «revolucionário » sistema de quatro avançados (tão elogiado por tantos comentadores que certamente não são do FC Porto), perdeu dois, empatou dois e ganhou três, tendo marcado um total de seis golos — o que não chega sequer a dar média de um por jogo. Quando as pessoas têm ideias próprias e delas não abdicam diz-se que têm personalidade. Quando essas ideias estão erradas ou dão o resultado adverso do pretendido, e mesmo assim se insiste nelas, em vez de personalidade, diz-se que a pessoa tem manias. E, quando, de falhanço em falhanço, se continua a insistir nas mesmas ideias, com prejuízo dos outros, a mania passa a teimosia. Esse é o problema de Co Adriaanse. Ele ainda não percebeu que o FC Porto não é o Az Alkmaar ou qualquer outra equipa sem nome, sem orçamento e sem responsabilidades para poder servir de cobaia às experiências revolucionárias do seu treinador. Ainda não percebeu bem que a equipa que lhe caiu do céu vir treinar, ao contrário do seu treinador que nunca conquistou nada, está recheada de títulos e era, há menos de dois anos atrás, campeã da Europa e, há um ano, campeã do Mundo. Manifestamente, parece-me haver um erro de interpretação, ou de tradução, de Co Adriaanse relativamente ao contrato de trabalho assinado com o FC Porto: é ele que tem de provar que está ao nível do FC Porto e não este que tem de se adaptar ao génio infrutífero do seu treinador. Na breve antevisão do jogo que aqui publiquei no próprio domingo, escrevi que Co Adriaanse, se realmente queria começar a mostrar que é capaz de conquistar alguma coisa e vencer algum jogo importante, deveria jogar na Luz em 4x3x3 e pôr os melhores nos seus lugares, em vez de continuar a teimar que vai ficar para a história do futebol como o treinador que jogava em todo o lado de peito aberto... e em todo o lado fracassava. Ao escrevê-lo, porém, e ao contrário do que o próprio Ronald Koeman previu, eu já sabia que ele ia insistir no tal esquema de três defesas e quatro avançados, quanto mais não fosse para mostrar a tal personalidade que a tantos deslumbra e serve. E assim foi. O efeito mais imediato deste sistema super ofensivo foi uma repetição do já visto nos jogos anteriores: a incapacidade de marcar golos e de criar oportunidades em número suficiente para tal. A inflação de avançados conduziu a que faltassem os espaços e as ideias, ao ponto de dois deles, o Ivanildo e o Adriano, terem passado o jogo todo sem saber para onde ir e o que fazer ao certo. E, enquanto sobravam avançados na frente, atrapalhando-se uns aos outros, faltava um médio a meio-campo para segurar o jogo e os lançar, e a defesa só não soçobrou porque o Nuno Gomes e o Simão não deram uma prá caixa e mais uma vez ficou à vista que todo este sistema de jogo está dependente de um super-Pepe e um super-Paulo Assunção. A eles deve Co Adriaanse não ter saído da Luz vergado a uma derrota ainda maior, quando, num acesso de total descontrolo, resolveu tirar o Quaresma, que era o único a tentar abrir a defesa do Benfica pelos lados, e meter em campo nada menos do que quatro pontas-de-lança — o McCarthy, o Adriano, o Hugo Almeida e o Lisandro. Ao mesmo tempo que, inevitavelmente, mandava entrar também o fantasma do Jorginho, com tudo isso abrindo verdadeiras avenidas para o contra-ataque encarnado. Uma vez mais, como já me tinha ocorrido no jogo do Dragão da primeira volta, dei comigo a pensar que Adriaanse vai para estes jogos sem ter feito nenhuma das três coisas essenciais no trabalho de casa de um treinador: não estuda os adversários, não elabora um plano de jogo, muito menos adaptável em função dos acontecimentos que vão ocorrendo, e não prepara os lances de bola parada — que nas outras equipas, a começar pelo Benfica, contribuem largamente para a percentagem de golos e neste FC Porto raramente resultam em golo. Chegou a ser confrangedor ver a forma como eram cobrados os livres e os cantos a favor do FC Porto. Agora começo a perceber porquê os treinos no Olival são sempre à porta fechada...

2. A desculpa de Co Adriaanse para a derrota vai ser o Vítor Baía—até me admira como é que não o disse logo a seguir ao jogo, como é seu hábito. O fim injustíssimo da carreira de Baía foi cientificamente preparado por Adriaanse. Primeiro, tirando-o da baliza após um lance infeliz na Amadora, sem lhe dar hipótese de se redimir. Depois, deixando-o de fora em todos os jogos fáceis, para o relançar num teste de fogo como o da Luz, onde qualquer deslize dele teria consequências praticamente irreversíveis. É claro que Adriaanse não teve culpa que o Helton se tivesse lesionado logo na pior altura, mas teve responsabilidade directa na forma como abalou os índices de confiança de Baía, deixando-o psicologicamente impreparado para regressar neste jogo. Depois, a falta de sorte, os efeitos caprichosos desta nova bola, o talento, parece que único, que Robert tem para cobrar livres, e a falta de fé de Baía em corrigir o seu movimento a tempo, fizeram o resto. Ditaram uma derrota, que pode ter sido merecida pelo que o FC Porto não jogou, mas que foi muito pouco justificada pelo que o Benfica jogou. Este Benfica de anteontem seria tranquilamente digerido sem espinhas por um FC Porto normal, orientado por alguém com ideias normais—tais como ganhar de vez em quando.

3. Eis uma coisa que não se pode dizer de José Mourinho. Ele é o verdadeiro exemplo do ganhador, de alguém que, acima de tudo, está ali para ganhar — sempre, se possível. Ao contrário de Adriaanse, Mourinho estuda os adversários ao detalhe e para cada jogo tem uma estratégia montada, a qual tem o dom de antecipar quase sempre o que o adversário vai fazer em cada situação. É por isso que ele vence tantas vezes: porque é um perfeccionista, um profissional completo, um viciado na vitória. Mas há um reverso da medalha, como há sempre. Um, é que Mourinho tem dificuldade em saber perder. O outro é que, quando não há fantasistas na equipa, o futebol dele, se bem que continue vencedor, fica como o futebol do Chelsea: terrivelmente previsível e aborrecido, «industrializado », como alguém o definiu há dias. Já aqui escrevi há tempos que tenho a convicção de que o FC Porto de Mourinho venceria tranquilamente o Chelsea de Mourinho. Esta semana, o Barcelona de Ryjkaard e de Ronaldinho, Deco, Messi e Eto’o, destroçou por completo o futebol científico e sem alma do Chelsea. E só não o esmagou, porque na baliza dos londrinos está um dos três melhores guarda-redes do Mundo. Ainda bem para o futebol, porque o que o Barcelona foi dizer a Stamford Bridge é que o talento, o génio e o improviso ainda são armas determinantes neste jogo. Asangue-frio José Mourinho tinha obrigação de o ter reconhecido e ter cumprimentado o adversário. Desculpar-se coma expulsão de Del Horno e atacar o árbitro foi uma atitude de mau perdedor. Primeiro, porque o Del Horno foi muito bem expulso, pela simples razão de que, não conseguindo aguentar mais a tourada que o Messi lhe estava a dar, resolveu ver se o arrumava de vez. E, segundo, porque antes e depois da expulsão de Del Horno, a superioridade do Barcelona foi tão flagrante, a qualidade e beleza do seu jogo tão superiores, que qualquer outro desfecho seria uma tremenda injustiça. Resta a Mourinho provar em Camp Nou que o Chelsea é mais do que uma equipa quase vulgar, com um grande treinador.

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 28.02.2006

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

A hora da verdade

1. Hoje à noite o Benfica tem um teste elucidativo sobre o seu verdadeiro valor. Teve-o também antes contra o Manchester United, onde passou com distinção, é facto, mas o Manchester desta época e, sobretudo, o de Dezembro passado, é uma pálida imitação dos «red devils» de um passado recente, que tudo atemorizavam. O Liverpool, para além de campeão europeu em título, é melhor equipa e mais calculista. Contra ele, o Benfica tem de jogar o seu máximo e então se verá se o seu máximo está ou não ao mais alto nível europeu. Ao iniciar com uma derrota inapelável este terrível ciclo de nove dias em que tudo se pode sonhar e tudo se pode perder, o Benfica de Ronald Koeman parece ter lançado a descrença entre os seus — adeptos e jornalistas. De repente, a tão louvada equipa de há três semanas atrás parece já não inspirar confiança a ninguém e o seu treinador virou um saco de pancada ao alcance de todas as frustrações. Acusa-se Koeman de mudar constantemente a equipa, como se ele fosse responsável pelas lesões e castigos ou pela chegada de uma mini-enxurrada de reforços em Dezembro, anunciados pela Direcção como o suplemento que faltava para a conquista da Liga dos Campeões e que ele, logicamente, tinha de experimentar e utilizar. E esquecendo-se até de que foi uma dessas inesperadas «revoluções» na formação da equipa que conduziu à também inesperada vitória contra o Manchester. Até se acusa Koeman de já ter experimentado quatro guarda-redes, como se fosse ele o culpado pelas lesões de Quim e de Moreira, pela manifesta impreparação de Nereu, ou pela «épica» contratação de Moretto, delirantemente saudada pela massa associativa e afins. Embora não me motive muito perceber o que se passa em casa alheia, a mim parece-me que, mais prosaicamente, a questão das esperanças traídas no Benfica tem sobretudo a ver com a ilusão criada sobre o valor real da equipa. Tudo começou na época passada, com um Campeonato e uma Taça ganhos de forma que foi tudo menos convincente mas que, por temor ou reverência, ninguém se atreveu a questionar. Por isso, quando Luís Filipe Vieira disse que esta era uma equipa de campeões, toda a gente fingiu que sim, e, quando, reforços acrescentados, ele passou a dizer que esta era uma equipa capaz de chegar à final e talvez ganhar a Champions, continuaram todos a fingir que acreditavam. Depois, houve a vitória sobre o Manchester e a série de sete triunfos consecutivos na Liga portuguesa e foi ver o José Veiga, de peito feito, a anunciar a inevitável revalidação do título e a Europa ao virar da esquina. Mas ninguém se deteve a pensar quantos, desses sete jogos, foram ganhos sem dúvidas de arbitragem e através de exibições convincentes, porque é um crime de lesa-majestade questionar o mérito dos triunfos benfiquistas. E assim se criou a verdade oficial de que estava aí um grande Benfica, que nada nem ninguém conseguiriam parar. Agora, três súbitas derrotas depois, cai-se no extremo oposto. E na pior altura, quando a equipa mais precisava da confiança dos seus. Mas, se entre hoje e domingo, tudo correr mal para os benfiquistas, é certo e sabido que quem semeou os ventos de ilusão não colherá as tempestades de desilusão. Isso está guardado para um bode expiatório mais conveniente.

2. O Benfica jogava em Guimarães sob o peso de ter três jogadores ameaçados de não poderem defrontar o FC Porto caso vissem um cartão amarelo. Lucílio Baptista foi a escolha adequada para a ocasião (mas digo desde já que nenhum daqueles três mereceu um amarelo). Mas, no resto, Lucílio não deixou os seus predicados por mãos alheias: num jogo sem dureza nem indisciplina, com faltas distribuídas por igual por ambas as equipas, Lucílio Batista conseguiu marcar o dobro de faltas ao Vitória, deixando inúmeras por assinalar contra o Benfica, e mostrar sete cartões amarelos a jogadores do Guimarães contra apenas um aos benfiquistas.

3. E, a propósito do «Apito Dourado », essa mega investigação judicial, que parece ter o condão de vir a arrastar-se durante anos, tornando alguns eternamente suspeitos (ou até mesmo já condenados, a quem isso convém) e outros estranhamente imunes às suspeitas, aguardei com alguma curiosidade o despacho de pronúncia, no que se refere ao presidente do FC Porto. Mas, afinal e como aqui antecipei desde o início, a montanha pariu um rato, ou pior ainda, pariu a insustentável continuação das suspeitas por confirmar. Mais de um ano de investigações decorrido, depois daquele imenso aparato policial-mediático para ouvir o «suspeitíssimo» Pinto da Costa, depois de dezenas ou centenas de milhares de contos gastos aos contribuintes, depois de não sei quantas prorrogações de prazo a favor do Ministério Público, depois do reforço extraordinário dos meios de investigação, a «task force » judicial de Gondomar conclui apenas em extrair certidões do processo para que outros continuem a investigar Pinto da Costa. E, quanto a factos novos, indícios novos, provas recolhidas, nada. A suspeita «gravíssima» mantém-se rigorosamente a mesma de há um ano atrás: em 2004, o FC Porto de José Mourinho, já virtual campeão nacional, com alguns onze pontos de avanço sobre o segundo classificado, o Benfica, a semanas de se tornar campeão europeu, terá subornado, com recurso a «meninas» o árbitro do encontro no Dragão contra o E. Amadora, em vias de despromoção, como forma de garantir a vitória no jogo — parece que, de outra maneira, não conseguiriam ganhar. E é nisto que se gasta o tempo e o dinheiro dos contribuintes: não fazendo justiça, mas mantendo eternas as suspeitas que a tantos convém. Mas também a verdade é que, à luz do que está em causa—e é apenas isto— só acredita, ou finge acreditar, quem quer.

4. E, pé ante pé, o Sporting está a cinco pontos do FC Porto e poderá ficar a dois se, domingo na Luz, a equipa de Adriaanse falhar mais uma vez num jogo decisivo. Dou-me conta, já há um tempo, que muito pouco ou quase nada tenho escrito sobre o Sporting esta época. A razão é simples e vai parecer escandalosa aos olhos dos indefectíveis sportinguistas, mas acarreto as consequências de porventura vir a ter de engolir o que vou escrever: não vejo que o Sporting tenha futebol para ser campeão nacional, esta época. Estão em segundo lugar, já só a cinco pontos e ainda vão receber o FC Porto em Alvalade? Pois, é facto. Mas, mesmo assim, não me convencem. Ainda esta semana o que vi, contra o Paços de Ferreira e em Alvalade, foi uma equipa que chegou ao golo num penalty duvidoso e caído dos céus, que dele viveu toda a segunda parte, sem criar uma só oportunidade de golo e que, já próximo do final, marcou o segundo golo numa jogada precedida de falta e ainda um terceiro depois da hora. Um 3-0 absolutamente enganador, num jogo que não mereceu sequer ganhar. Como disse, é possível que ainda tenha de engolir esta opinião. Mas, se isso acontecer, é porque o FC Porto entregou o ouro ao bandido.

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 21.02.2006

Sábado, Fevereiro 18, 2006

Dez anos que não abalaram Portugal

Dois pontos de partida: um, a afirmação de que Jorge Sampaio é, obviamente, um homem serio, culto e bem intencionado, para quem a política, independentemente da apetência pessoal, é vista como devendo estar sempre ao serviço do bem comum; o outro, a constatação de facto de que Jorge Sampaio presidiu, a partir de Belém, a uma década em que Portugal regrediu em quase tudo — na educação, na economia, nas finanças públicas, na criação de emprego, na agricultura, na defesa do ambiente e na gestão do território, na qualidade da democracia e, até ao ponto de tocar no fundo, na justiça. Note-se que eu não digo que Jorge Sam­paio seja o responsável, ou sequer co-responsável, por este retrocesso do país. Digo simplesmente que presidiu a ele e que o fez à sua maneira, aliás semelhante a forma como dirigiu os destinos de Lisboa durante seis anos: sempre consciente e preocupado com os problemas, e sempre impotente para os ajudar a enfrentar. Houve uma única e notável excepção, que teve a ver com o desenlace da questão de Timor, onde Sampaio — juntamente com Guterres e contra a resistência de Durão Barroso — teve uma intervenção firme e decisiva para que se tenha podido por fim à ocupação de Timor pela Indonésia. Em tudo o resto, mesmo na área da justiça, que melhor dominava e que mais intervenções Ihe inspirou, os seus discursos viveram sempre dessa contradição insanável e desesperante entre o acerto do que dizia e a sensação de absoluta inutilidade do que dizia. Basta atentarmos no ultimo exemplo em data: o que sucedeu com o ultimato dirigido ao procurador-geral da República para que «num prazo curtíssimo», esclarecesse como é que, no âmbito do processo Casa Pia, o Ministério Público entrou na posse da lista dos telefonemas particulares efectuados por um vasto leque de políticos que nada liga ao processo, naquilo que o próprio Presidente classificou como «uma forma intolerável de intromissão na reserva privada dos Portugueses, que não pode passar em claro»? Sucedeu que, uma semana decorrida, Souto Moura foi a Belém segredar qualquer coisa ao Presidente, que aparentemente se deu por satisfeito, nunca mais tendo falado no assunto. E, entretanto, o «curtíssimo pra­zo» já ultrapassou um mês e, como é habitual, o procurador confundiu o que está em causa: em vez de investigar quem obteve e quem facultou essa lista, resolveu investigar o jornal que deu a notícia. E, com isso, o dr. Souto Moura conseguiu o que queria, que era fazer Sampaio esquecer a sua ameaça de extrair do caso «as adequadas consequências», transferindo o ónus de nos livrar de Souto Moura para o Presidente que se segue.

E assim foi também em outras ocasiões e outras matérias igualmente importantes, que ninguém pode dizer que escapem à alçada dos poderes do Presidente. Como a situação de fantochada democrática que se vive na Região Autónoma da Madeira e que mais dez anos de passividade presidencial (incluindo nos discursos não ditos) tornaram já habitual, impune e fora de controlo. E se não é o Presi­dente da Republica a exigir que vigorem em todo o país as mesmas leis em que se funda o Estado democrático, quem será?

Assim foi igualmente na forma passiva e acrítica com que Sampaio aceitou a indecente deserção de Durão Barroso e o critério de sucessão dinástico-partidária que levou à chefia do Governo, sem que os portugueses o tenham escolhido, o inimaginável Santana Lo­pes. É verdade que, depois e ao primeiro pretexto, nos desembaraçou dele, mas entretanto o país perdeu um ano numa altura crítica e o prestigio das instituições políticas desceu ao seu mais baixo nível da era democrática.
Há uma substancial, e não apenas subtil, diferença entre o que foi a «magistratura de influência» de Mário Soares e a de Jorge Sampaio. Talvez porque Soares tinha um pe­so político próprio, aqui e lá fora, que Sam­paio nunca teve. Talvez porque Soares, ao contrario de Sampaio, concentrou-se no essencial e não se dispersou em milhares de temas, desgastando-se em palavras e mais palavras, ao ponto de já quase ninguém as escutar. Mas, sobretudo, porque Soares não viu o cargo como um púlpito do politicamente correcto ou uma eterna fábrica de consensos, onde tantas vezes o que se exigia era rupturas e escolhas. A grande desilusão que me fica dos anos de Sampaio em Belém é a sensação que ele deixou instalar de que o cargo é perfeitamente inútil. É verdade que ha a «bomba atómica», mas, entre ela e tudo o resto não existe mais nada, nem sequer a possibilidade de usar uma pressão de ar para caçar pardais. O estilo acabou por contagiar o próprio Soares, que, na sua absurda tentativa de rebobinar o filme, nada de melhor encontrou para nos propor do que a promessa de que iria para Belém fazer rigorosamente nada, porque na­da poderia ser feito dentro do quadro dos poderes presidenciais (com toda a lógica, Manuel Alegre chegou a perguntar-lhe porque se candidatava, então). Desconfio que uma das razões da vitoria de Cavaco Silva foi justamente o inconformismo de uma parte do eleitorado, que não aceitou a tese da inutilidade presidencial e que viu nele, bem ou mal, alguém que não se dispunha apenas a passar dez tranquilos anos de vida no Palácio de Belém. A imagem que Soares quis fazer passar de um Cavaco Silva assustadoramente intervencionista teve o efeito exactamente contrário: nas urnas, os eleitores responderam que preferiam isso do que outros dez anos de desempenho presidencial inócuo.

Agora, este episódio final da Presidência de Sampaio, esta frenética enxurrada de condecorações — umas públicas, outras as escondidas — e uma espécie de resumo da filosofia que presidiu a estes dez anos. Ao condecorar tudo o que mexe, desde gente com valor até artistas sem qualquer valor, empresários sem mérito algum, gente que se limita a cumprir banalmente a sua profissão ou ex-estalinistas a quem deu a Ordem da Liberdade, Jorge Sampaio revela bem qual é o seu critério na política: não distinguir, não escolher, não susceptibilizar ninguém. É possível que, como ele disse, Eanes e Soares tenham condecorado ainda mais gente, mas, exactamente porque o fizeram ao Iongo de vinte anos, já não restava ao Presiden­te Sampaio gente em qualidade e quantidade suficiente para justificar a total banalização, para não dizer outra palavra, das condecorações presidenciais. Este frenesim condecorativo assenta como uma luva no perfil político de um Presidente que não foi capaz de dar uma lição pública a Durão Barroso, não foi capaz de dizer não a Santana Lopes, não foi capaz de meter na ordem democrática Alberto João Jardim e nem sequer foi ca­paz de despedir o procurador-geral da Repu­blica. Foram dez anos vividos a cultivar os seus tão queridos «consensos» — com o bom, com o mau e com o insustentável. E está à vista de todos o que o país regrediu nestes dez anos de consensos. Valha-nos que, ao menos, não faltam comendadores!

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 18.02.2006

Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

Regresso à normalidade

Como diz António Oliveira, há mais honra em descer à Honra sem dever nada a ninguém que em ficar na Betandwin devendo dinheiro a todos.

1. A jornada 22 do campeonato veio repor a hierarquia habitual do nosso futebol, deixando os três grandes lá em cima, ordenados pela respectiva ordem de grandeza (isto é uma piada a benfiquistas e sportinguistas...). Jogando muito pouco e marcando em dois livres, o Sporting desembaraçou- se naturalmente de um Vitória de Setúbal que, depois do raide benfiquista às suas fileiras, consentido e promovido pelo inesquecível Chumbita Nunes, entrou em queda vertical. Jogando mais que o habitual e com menos azar e revoluções estratégicas que o costume, também o FC Porto cumpriu a sua obrigação de vencer um Belenenses que é uma equipa cuja permanência mais ou menos tranquila na primeira divisão só por si demonstra como é fraca a nossa Liga. E, jogando em casa contra o já condenado Penafiel, o Benfica ganhou também sem problemas de maior, muito embora o resultado seja francamente desproporcionado face ao que se passou e bem pudesse ter sido dispensado aquele terceiro golo, que deve ficar como exemplo extremo daquilo que o futebol não pode ser (tivesse sido o Penafiel, ou qualquer outro adversário, a marcar assim e o Estádio da Luz vinha abaixo). Cabe, entretanto, uma palavra de elogio ao presidente do Penafiel, o antigo e excepcional jogador António Oliveira, que assumiu tranquilamente a mais que provável inevitabilidade da descida, evitando a saída fácil de despedir o treinador, as loucuras de contratações que depois não poderiam ser sustentadas na Liga de Honra, e evitando também o recurso habitual de atirar para cima das arbitragens a responsabilidade pelo inêxito. Até porque, como ele diz, há mais honra em descer à Honra sem dever nada a ninguém que em ficar na Betandwin devendo dinheiro a todos. Recado entregue a muita gente com orelhas a arder. No grupo imediatamente abaixo os resultados da jornada foram diferentes. Enquanto o Boavista somou a quinta vitória consecutiva e já só está a um ponto da zona europeia, confirmando os créditos de Carlos Brito, já o Sp. Braga, mesmo jogando em casa e contra 10 durante meia hora, perdeu dois pontos, que não chegam para compensar o ponto que tão injusta e falsamente conquistara uma semana antes, no Dragão. Tendo vendido quase toda a defesa no defeso de Natal, parece inevitável que tenha iniciado uma curva des cendente, que, a consumar-se, será de difícil travagem e difícil digestão. Enfim, o Nacional sucumbiu com aparato, após uma terrível semana passada entre Alvalade e a Luz, com apenas um golo sofrido em 220 minutos de jogo!

2. A derrota do Nacional na Luz, nos penalties, e a derrota ao cair do pano do Paredes em Alvalade fazem-me lembrar a remodelação que há muito defendo no injustíssimo regulamento da Taça de Portugal. Defendo a introdução de um sistema duplo: primeiro com discriminação positiva a favor dos mais fracos; e depois, já no final, com igualitarização dos quatro semifinalistas. Assim: até às meias-finais as eliminatórias, a um só jogo, seriam sempre no terreno do clube de divisão inferior ou, sendo ambos da mesma divisão, no terreno daquele que, no momento do sorteio, estivesse mais mal classificado no respectivo campeonato. Quanto às meias-finais, seriam jogadas a duas mãos. Isto permitiria, por um lado, descentralizar e democratizar a Taça, levando-a, regularmente e não excepcionalmente, a lugares onde o grande futebol não chega, e, simultaneamente, dar mais interesse desportivo e mais emoção à competição e, eventualmente até, melhores receitas aos clubes. Por outro lado, o facto de as meias-finais serem a duas mãos daria mais verdade desportiva ao desfecho e mais mérito aos finalistas do Jamor, para além de reintroduzir, ao menos por uma eliminatória, o sistema de eliminação a duas mãos, que actualmente, e com grande saudade minha, não existe em competição alguma. Este sistema tornaria impossível, por exemplo, voltar a suce- der aquilo que sucedeu ao Benfica há dois anos, quando a sorte nos sucessivos sorteios o levou até à final sem nunca ter saído da Luz (e até a final foi jogada no seu campo de treinos habitual, o Estádio Nacional, e, visto o outro finalista ser o FC Porto, escolheu- se para árbitro Lucílio Baptista, que actuou conforme a expectativa). Seguramente que, de todos os troféus arrecadados no Estádio da Luz, este foi aquele cuja conquista menos mérito teve.

3. Não tivesse eu visto na televisão o Inter-Juventus e teria acreditado nas patrióticas descrições dos correspondentes da nossa imprensa desportiva, que fizeram de Figo o «autor de meio golo» e senhor de uma notável exibição, a destoar de todos os outros da equipa. Não vi nada disso, vi que o Inter não jogou nada e Figo teve um ou outro fogacho inconsequente e marcou um canto banal a que o seu colega Walter Samuel correspondeu com um cabeceamento superior — o tal meio golo de Figo. Este patrioteirismo jornalístico, que leva a escrever coisas como «o treinador do Milan optou por fazer descansar Rui Costa», quando ele simplesmente optou por deixá-lo no banco de suplentes, não ajuda a termos verdadeira compreensão do que se passa e até talvez, em alguns casos, tenha contribuído para dar aos nossos candidatos a emigrantes futebolísticos uma falsa impressão de facilidades de triunfar lá fora, que depois se transforma em amargas ilusões. Veja-se o sucedido com a legião portuguesa do Dínamo de Moscovo—em que Costinha acaba de ser a última baixa — e cuja imagem deixada por terras da Rússia deve ter assegurado o fim definitivo daquela galinha dos ovos de oiro. E, por falar em emigrantes do futebol, há coisas que dão que pensar. Quantos italianos alinharam de início pelo Inter contra a Juventus? Um. Quantos ingleses alinharam pelo Chelsea contra o Liverpool? Um. Quantos portugueses alinharam de início pelo Benfica contra o Penafiel? Dois. O capital não tem pátria, o futebol também não. Nós, os espectadores, é que nos esforçamos por fingir que não vemos.

P. S. — Manuel Fernandes, Marcel e Simão estão em risco: se levarem mais um amarelo não jogam contra o FCPorto, na Luz. Vamos ficar muito atentos à arbitragem do V. Guimarães-Benfica.

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 14.02.2006

Sábado, Fevereiro 11, 2006

A desforra de Granada

Granada não enfrentou os Reis Católicos por razões de fé ou de religião. Pelo contrário, na corte de Boabdil conviviam muçulmanos, cristãos e judeus, e dessa convivência se fez a que era então, talvez, a mais brilhante civilização do seu tempo, no domínio da arquitectura, da física, da medicina, da matemática, da astrologia. Mas Granada foi sitiada e conquistada por isso mesmo e também pelo território e pela beleza demasiadamente humana do Alhambra. Quando Granada caiu e a reconquista cristã se impôs então a toda a Península, os dois reinos católicos, Portu­gal e Espanha, partiram à conquista do mundo e tornaram-se Impérios marítimos; do Novo Mundo e África ao extremo da Ásia. Inversamente, quando os vencidos de Gra­nada se retiraram para lá do Estreito, de onde tinham vindo séculos antes, nunca mais a civilização árabe e muçulmana recuperou sombra sequer do seu antigo esplendor e liderança. Por isso é que o ano de 1492 (também o da descoberta da América, por Co­lombo) é um marco da história universal e um símbolo de derrota e descalabro que nunca mais foi esquecido e ultrapassado pelos crentes muçulmanos.

Por mais inverosímil que nos possa parecer, mais de cinco séculos passados e quase quarenta anos depois do homem ter ido à lua, estamos perante uma nova guerra religiosa global, que é também uma guerra de civilizações. Quem disser que ela não existe, ou é ignorante ou diplomata — em qualquer dos casos, perigoso para os tempos que correm. Estamos perante uma espécie de Cruzadas ao contrário, que o Islão lançou contra os «não crentes» — sejam ju­deus, cristãos ou ateus. As Twin Towers, o metro de Londres, a estação de Atocha em Madrid ou a histeria lançada contra os cartonistas dinamarqueses e contra a Dinamarca, são formas modernas de cruzadas travadas em nome de Alá (o Misericordioso...) contra os valores em que nós, no Ocidente, acreditamos. Cinco séculos passados, o Islão tira a sua desforra de Granada, através das suas duas únicas e demolidoras armas: o petróleo e o terror.

Sim, eu sei: não é — julga-se — todo o Islão. Mas é o que conta, o que lidera os crentes, o que se escuta na rua e nos jornais, o que doutrina os terroristas, o que prepara a arma nuclear. Em todo o mundo muçulmano houve apenas um jornal, na Jordânia, que ousou escrever que pior que as caricaturas «blasfemas» para o Islão eram os terroristas blasfemos. Mas no dia seguinte o jornal pediu desculpas pelo que escrevera e o direc­tor foi despedido. É verdade também que a rua é incendiada a mando da Síria, do Irão ou da Al-Qaeda, e que há sempre uns palestinianos desocupados para dispararem rajadas de metralhadora para o ar com cara feroz e multidões em estado de histeria induzida, para queimar Embaixadas e bandeiras e ameaçar de morte todos os ocidentais a vista. É possível até que o grosso dos muçulmanos não pense assim, que não acredite numa leitura literal e medieval do Corão e que não se reveja na intolerância nem no terror em nome de Deus que o clero radical ensina nas escolas corânicas e prega nas mesquitas. Mas, se assim é, não os escutamos porque eles têm medo: o terror começa dentro dos seus próprios países e sociedades.
O medo é a outra face de uma moeda chamada liberdade. Onde não há liberdade, há medo; onde há medo, não há liberdade.

É justamente isso que hoje nos distingue do Islão: nós temos a liberdade, eles têm o medo como sistema endémico de vida e como arma de arremesso contra «os infiéis». Pelo medo, eles conservam as suas ditaduras, oligárquicas ou teocráticas, e os seus modelos de sociedade onde não existe igualdade de direitos, liberdade de pensamento e de criação, liberdade religiosa, protecção contra os abusos do poder. Hoje, ao contrario do que sucedia em 1492, não conhecemos, em todo o mundo árabe, o nome de um cientista, musico, arquitecto, cineasta, explorador, atleta, enfim, alguém que faca sonhar ou avançar a humanidade. O mais que conhecemos são nomes de xeques milionários e fúteis, ditadores, pregadores do ódio ou terroristas. Os herdeiros da outrora brilhante civilização de Granada nada mais parecem ter para oferecer hoje do que a pro­paganda do ódio, da intolerância e do ter­ror. E de novo o mesmo sinistro grito da Espanha católica fundamentalista e franquista: «viva la muerte!».

E é pelo medo, também, que eles esperam ganhar esta batalha contra o Ocidente, destruindo o nosso amor à liberdade. Espe­ram que, aos poucos, sejamos obrigados a chegar ao ponto crucial em que a escolha terá de ser entre a vida ou o nosso modo de vida — a liberdade, a democracia, a tolerância. Sem que isso possa representar qualquer desculpa para os autores materiais, as escutas telefónicas indiscriminadas, as prisões preventivas sem advogado, os interrogatórios secretos em prisões clandestinas, as leis de excepção, a tortura e Guantanamo, tudo isso, tem a autoria moral dos radicais islâmicos e obedece a um plano concertado de implosão das democracias.

É preciso ser muito forte, e preciso perceber, co­mo em 1939, que a liberdade é o mais absoluto dos nossos bens e o maior valor da nossa cultura e modo de vida, para ser capaz de lhes resistir. Mas é essencial resistir, porque a alternativa é o regresso à Idade Media e a barbárie. É por isso que o gesto dos Comuns, rejeitando a legislação de segurança interna proposta por Tony Blair, porque ela violava direitos e princípios em que se funda a democracia inglesa, é, apesar das consequências daí resultantes, o sinal de uma grande nação que não se rende nem ajoelha.
Infelizmente, não foi o nosso caso. Pela mão do ministro Freitas do Amaral, e sem necessidade alguma, Portugal foi enxovalhado, coberto de vergonha e de cobardia, por um dos mais tristes textos políticos que já alguém escreveu. Devo dizer que não me espanta por ai além: a nossa «diplomacia» não tem feito mais nada nos últimos 25 anos que não rastejar perante os poderosos, em cada cena e em cada tempo: Angola, Indonésia (com a notável excepção de Guterres e Sampaio), Estados Unidos e, agora, pe­rante os países islâmicos. Um pais tão pequeno e tão indiferente quanto o nosso, só pode ter dois tipos de diplomacia: ou a do «cocktail» e pastel de bacalhau, sem nenhuma pretensão de ter posições próprias; ou então, ter um mínimo de posições decentes, em ocasiões especiais e se alguém estiver a escutar. Mas de há muito que escolhemos uma terceira via: a de, de vez em quando, termos umas posições indecentes, que, valha-nos isso, ninguém leva em conta e a ninguém já espanta.

À atenção dos dinamarqueses, convém, todavia, esclarecer que seguramente o ministro Freitas do Amaral se representou apenas a si próprio.

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 11.02.2006

Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

De tudo um pouco

É óbvio que os Super Dragões se transformaram num poder paralelo dentro do FC Porto e é óbvio que, se isso aconteceu, foi porque tal lhes foi permitido e estimulado ao mais alto nível: quem semeia ventos colhe tempestades.

1. Já vi este filme várias vezes: o FC Porto ataca, ataca, ataca, o adversário só defende e, no final, repartem os pontos. Se houvesse justiça no futebol, o FC Porto teria ontem esmagado o Braga por 5-0 ou 6-0. Três bolas nos postes, três defesas maravilhosas de Paulo Santos, três remates de golo ao lado, três jogadas duvidosas na área do Braga. Mas não chegou: mesmo um sistema de jogo maluco — que depende exclusivamente de um super-Pepe para aguentar uma defesa com três homens e um ataque com quatro — não chegou para a vitória. O Braga fez o primeiro remate à baliza do FC Porto exactamente ao minuto 60, permitindo que Helton fizesse enfim, ao fim de três jogos, uma defesa como titular. Depois, Adriaanse deu ordem para recuar, tal como tinha feito contra o Inter, em San Siro, tirando um ponta-de-lança e metendo um defesa- central. E que defesa!— nada menos do que Bruno Alves, um dos autores da vitória do Benfica no Dragão — e que, na sua única intervenção relevante, deu origem ao penalty do empate, provando que não é Pepe quem quer. Aceita-se o penalty, mas, pelo mesmo critério de Bruno Paixão, daí até final, ainda houve tempo para dois lances semelhantes na área do Braga, um sobre Ivanildo, outro sobre Raul Meireles, que, esses, digamos que passaram despercebidos ao senhor de Setúbal, o inesquecível Barão de Campo Maior. E (porque não?), aceitemos também que lhes passou despercebido o offside que esteve na origem do penalty decisivo. Resta o que resta: o «Campeonato está relançado», como se vai escrever hoje, aí por todo o lado. Viva o Campeonato!

2. É óbvio que os Super-Dragões se transformaram num poder paralelo dentro do FC Porto e é óbvio que, se isso aconteceu, foi porque tal lhes foi permitido e estimulado ao mais alto nível: quem semeia ventos colhe tempestades. Mas é também evidente que, à parte as atitudes arruaceiras que são o sinal de marca e a razão de existir das claques organizadas, o que os Super Dragões hoje dizem sobre a vida interna do clube (e não apenas sobre o treinador) é aquilo que o grosso dos adeptos pensa, mas não está organizado para dizer. Daí que, obrigado a ponderar entre os serviços prestados no passado e os danos potenciais do presente, Pinto da Costa tenha optado por os abandonar. Até ver.

3. Uma das coisas que o futebol tem de desconcertante e atraente é a alternância constante das suas verdades. Numa semana é-se bestial, na outra é-se besta. Durante nove jogos consecutivos, o Benfica acumulou vitórias e foi enchendo o estádio, incendiando as esperanças dos seus adeptos e inchando os seus dirigentes: Vieira passou a falar abertamente no título europeu já este ano e Veiga estava de peito feito, ridicularizando os adversários e falando já como inevitável bicampeão nacional. E, de repente, em dois jogos apenas, tudo ruiu: a sequência de vitórias transformou-se em duas derrotas consecutivas, o intransponível Moretto e a defesa de aço encaixaram seis golos em 180 minutos, as fabulosas contratações de Inverno viraram decepção, o regresso tão desejado do capitão Simão Sabrosa acabou por se traduzir em mal disfarçada desconfiança sobre a sua dedicação ao emblema e a sua utilidade na equipa, o FC Porto continuou em primeiro e até aconteceu o impensável, que foi serem alcançados pelo Sporting. E, todavia, se olharmos com atenção, nem uma coisa foi o apogeu, nem a outra o caos. As nove vitórias consecutivas, tirando a do Manchester, nunca foram consequência de grandes exibições ou de flagrante superioridade, mas sim vitórias tangenciais, muitas vezes ditadas pelo acaso ou dúvidas de arbitragem. E se, contra o Sporting, a equipa estranhamente pareceu nem sequer chegar a entrar no jogo, já contra o Leiria, a meu ver, fez uma das suas melhores exibições, com períodos de grande futebol, acabando derrotado pela tremenda eficácia do adversário no contra-ataque. E a verdade é que os seis golos sofridos e tão comentados, quatro foram em contra-ataque, um de penalty e outro num remate de meia-distância: nenhum resultou de ataque organizado e envolvente.

4. Três mil pessoas assistiram ao último treino do Vitória de Guimarães e 17.000 ao seu jogo contra o Belenenses. É simplesmente notável a dedicação dos adeptos vimaranenses a um clube que jamais foi campeão nacional nem esteve nunca à beira de o ser e que hoje é apoiado na esperança de alcançar o mínimo expectável: que a equipa não caia na II Divisão. Agora, a tarefa parece mais difícil do que nunca. Não apenas porque estão a sete pontos da linha-de-água, mas sobretudo porque a equipa não mostra argumentos para ultrapassar a situação. Escrevi-o aqui logo no início da época, e após ver apenas um jogo do Vitória, que me parecia que iam ter grandes dificuldades este ano para se aguentarem na Superliga. Dispensado Jaime Pacheco, renovada a equipa com uma abundância de contratações em Dezembro, parece-me que nada de assinalável mudou. E, ao contrário do que diz o seu actual treinador, Vítor Pontes, a mim parece-me que o problema principal é que o Vitória não mostrou nunca, ao longo deste Campeonato, ter futebol para ficar na Superliga. O jogo contra o Belenenses foi mais um para confirmar esta opinião: defesa em alvoroço permanente, meio-campo sistematicamente a transviar passes, ataque absolutamente sem ideias. Não é uma questão de ir à bruxa, porque não é sério pretender que o Vitória tem azar em todos os jogos. Por mais que a ideia possa custar a assimilar, a verdade é que um histórico do futebol português se prepara para descer aos infernos por exclusiva incompetência própria.

5. Depois de Hernâni e de Calado, mais um jogador do Benfica acusou doping. É claro que é mais um que está inocente — assim como o Kennedy, o Abel Xavier e todos os outros. É mais um caso em que o organismo de um atleta português revela características que a medicina desconhecia. E se todos são inocentes até prova em contrário, já era altura também de todos perceberem que as leis são iguais aqui e no mundo inteiro e que a prova de inocência cabe a quem acusa doping e não a quem controla, e que a forma de o fazer está estabelecida na lei, para vigorar para todos. A explicação da cabala já deu o que tinha a dar.

6. José Mourinho prepara-se para ser campeão de Inglaterra pela segunda vez consecutiva, em dois anos de trabalho. Vence, arrasa e convence. Rebenta com as estatísticas, subverte os recordes, açambarca os prémios. Só há uma coisa que eu, para os meus botões, não consigo explicar: porque é que adormeço sistematicamente a ver o futebol do Chelsea e porque é que acho que o FC Porto de Mourinho (sobretudo o da Taça UEFA) esmagaria este Chelsea de Mourinho? Mas, se uma equipa vence sempre sem entusiasmar, de quem é o mérito das vitórias?

© Miguel Sousa Tavares - Jornal "A Bola" - 07.02.2006